Lembranças de Flores e Sangue
3 O Homem de Lugar Nenhum
Draculaura passou todo o dia seguinte no quarto ouvindo música e devaneando. Ansiosa, a todo momento espiava pela janela pra olhar a rua. Será que ela voltaria a vê-lo? Será que ele iria procurá-la?
A noite veio e Draculaura não viu o pai sair. Não o viu o dia todo também. Será que ele tinha ido procurar Patrick? E se o vampiro tivesse feito algo contra ele? E ela não pôde fazer nada para impedir!
A noite foi longa e angustiante. Ela não conseguia comer ou dormir. Ficava cada vez mais à janela esperando, esperando... Então sentiu um carinho gostoso na cabeça, uma mão leve em seus cabelos e um cantarolar baixinho vindo de longe. Abriu os olhos preguiçosamente, observando o rosto de Patrick próximo ao seu. Era dele o cafuné e a voz que cantava. Sem perceber, tinha caído no sono e de alguma forma ele estava ali dentro de seu quarto.
– Patrick... — murmurou ela, sonolenta.
A luz da manhã que se aproximava entrava pela janela e iluminava o rosto dele.
– Oi. — respondeu ele com seu lindo sorriso.
Demorou uns segundos para ela despertar e perceber a situação de fato.
– Como você entrou aqui? Oh, meu Deus! Meu pai! Se meu pai te vir... — ela começou a se desesperar.
– Calma, Lala. — disse ele, tranquilamente. — Está tudo bem.
Mas é claro que não estava tudo bem. De alguma forma, ele tinha entrado numa mansão de vampiros, estava no quarto dela e nada ali estava disfarçado... Havia um grande caixão e se por um segundo ele olhasse para trás, veria apenas ele próprio refletido no grande espelho do trocador. Não havia como ele não perceber onde tinha se enfiado.
Como se lesse os pensamentos dela, ele insistiu:
– Está sim tudo bem. — e carinhosamente afastou os cabelos do rosto dela. — Fique tranquila.
O toque dele tinha o estranho poder de acalmá-la instantaneamente. Ela relaxou um pouco e conseguiu sorrir com o olhar.
– Por que você confia tanto em mim? — perguntou ela.
– Porque você confia em mim. — respondeu ele com sua simplicidade.
– Mas eu sou diferente de você. Eu sou um...
– Todos somos diferentes. — interrompeu ele. — Confiança é não fazer pré-julgamentos e acreditar um no outro apesar dessas diferenças.
Então, pela primeira vez, Draculaura deu um grande sorriso e mostrou seus dentes a um ser humano. Ele sorriu de volta, radiante.
– Você é realmente linda. — disse com sinceridade.
As palavras a envolveram como um cobertor aquecido de carinho. Ela não sabia o que estava acontecendo, mas infelizmente sabia o que deveria fazer em seguida. Ele tinha que partir. Mas como ela poderia suportar agora ficar longe dele?
– Não é seguro pra você ficar perto de mim. — dizer as palavras foi muito mais doloroso do que ela imaginara.
Ele se levantou e olhou pra ela com uma seriedade confiante:
– Então venha comigo.
– O quê? Não. Não, eu não posso... — ela respondeu.
– Por quê? — perguntou ele simplesmente.
– Por quê...? Bem... Porque... — então ela se deu conta de que não havia nada que a prendesse ali. Ela tinha apenas seu pai, que apesar de severo ela amava muito, e Nana, por quem ela tinha muito carinho. Mas seu pai estava pondo em risco a vida daquele garoto tão especial, e que a aceitava como ela era, enquanto ele próprio queria transformá-la em quem ele queria que ela fosse. E Nana entenderia. Ela iria querer que Draculaura fosse verdadeiramente feliz.
Sem dizer mais nenhuma palavra, ela pegou uma bolsa pequena onde colocou alguns poucos pertences pessoais e um largo echarpe de renda negra com o qual ela cobriu a cabeça, os ombros e a maior parte do rosto.
– Vamos. — disse ela.
Os dois deixaram a casa, passaram pelo jardim sombrio e seguiram pela rua com passos tranquilos e decididos.
– Para onde vamos? — perguntou ela.
– Para onde quisermos. Para qualquer lugar. — respondeu ele, oferecendo-lhe a mão.
A mão dele era quente e a encheu de esperança. Por um momento, ela esqueceu quem era e o que era. Naquele momento, ela era uma parte dele. Uma extensão de seus sonhos e de sua vida.
Os dois seguiram juntos enquanto a alvorada iluminava seu caminho em direção às florestas e montanhas de Salem.
Continua...
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