Lembranças de Elisa
6 Capítulo 6
Com 16 anos não tinha muitos amigos, podia contar nos dedos de uma mão as pessoas que eu confiava, e uma delas era Tamara.
Tamara é 10 anos mais velha do que eu, mas era uma grande amiga, tínhamos muitas piadas internas e riamos muito. Ela sempre me levava para os lugares mais legais, por ser mais velha era como uma mãe/irmã. Sinto saudades das nossas risadas e ela vem me visitar toda quinta-feira no hospital porque costumávamos sair esse dia, eu gosto muito quando Tamara vem. Eu e Tuti sempre íamos em sua casa para fazer qualquer coisa, como assistir um filme ou jogar.
Hoje minha médica conversando com mamãe, diz que meus ferimentos estão muito melhores. Já estou aqui a três semanas e me sinto melhor realmente.
Eu ainda não tinha certeza se amava Tuti mesmo com seis meses de namoro. Mas amor para mim é uma palavra muito forte, você só ama quando percebe que viver sem aquela pessoa é impossível, quando você sente vontade de construir uma família com ela, quando os dois brigam e você se sente completamente sem chão, isso é amor. Eu e Tuti nunca havíamos brigado, não sabia qual seria minha reação.
Mas isso mudou depois de uma noite no "Rock bar".
– ... E aquele tombo que você levou no meio da pista. — Eu comentei no caminho de volta para casa rindo muito.
– Qual é, fazia parte da coreografia! — Ele respondeu.
– Claro que sim, essa coreografia é ótima — Eu concordei ironicamente.
Andamos mais um pouco pelo centro.
– Vamos cortar caminho por aqui — Eu sugeri irmos por uma rua que era um pouco deserta mas chegaríamos muito mais rápido em casa, afinal, estávamos atrasados.
– Essa rua é muito perigosa Éli... — Tuti responde.
– Vamos Tuti, seu medroso. — Disse puxando-o pelo braço.
– Não é medo, é prevenção. — Ele fala um pouco nervoso, mas acabou vindo comigo.
A rua era realmente perigosa, mas eu como uma adolescente não tinha medo. Tuti era diferente, ele queria ir o mais rápido possível porque sabia do perigo. No fim da rua tinha um grupo de caras conversando.
– Eu não te disse, agora estamos fritos — Ele me abraça como se estivesse me protegendo.
Eu comecei a ficar muito assustada, de verdade.
Um dos caras vem em nossa direção guardando algo na calça, eu e Tuti sabíamos muito bem o que era.
– Oi crianças. — O bandido para muito perto de nós dois e diz.
Ficamos imóveis, e segurava com toda força a mão do meu namorado.
– Passa tudo agora! Vamos! Rápido! Vai vai! Não olha pra mim garota! — De repente o homem de preto levanta o tom da sua voz e tira a arma que estava escondida no bolso de sua calça.
– Cara pode levar tudo apenas nos deixa ir embora. — Tuti fala entregando as coisas.
– Você pode ir mas ela fica, é uma gracinha para eu deixar passar — O bandido fala pegando no meu queixo.
– Não, isso e não posso deixar, por favor deixa a gente ir! — Tuti me coloca atras dele e eu permaneço calada.
O bandido olha para os lados e diz:
– Vão logo seus bebês chorões!
Nós corremos muito, mas não paramos até chegar em casa.
– Nunca mais vou fazer o que você sugerir, nunca mais Elisa! Nós podíamos ter morrido, você tem noção de como eu iria ficar se ele fizesse aluma coisa com você?
– Eu também estou assustada Tuti!
– Você tem que ser mais responsável! E se eu não estivesse ali?
– Eu sei que foi uma burrada, mas você foi comigo! Ah muito obrigada herói, você salvou a noite, mas onde está meu iphone?
Eu falei aquela idiotice e Tuti ficou quieto me olhando, sei que foi errado falar aquilo mas quando estamos nervosos falamos coisas sem pensar.
– Nós quase morremos e você está ai preocupada com uma porcaria de celular?
– Me desculpe, eu falei sem pensar, mas eu também estou nervosa Tuti. — Eu fui abraça-lo mas ele recusou.
– Eu vou embora, estou muito nervoso para conversar com você. — Tuti vira as costas para mim e se vai.
– Não Tuti, volta aqui! — Ele não me ouve.
Eu fico um tempo parada olhando ele ir e entro. Com tudo isso percebi que se não tivesse falado aquilo mesmo com a burrada de ter induzi-lo a ir comigo por aquele caminho, não tínhamos brigado. As palavras machucam mais do que tudo.
– Porque você demorou tanto Elisa? Eu já não te falei que tem que chegar em casa as dez? — Minha mãe que estava me esperando de pijama no sofá diz.
– Eu sei mãe mas não quero falar agora, deixa eu ficar sozinha no meu quarto por favor! — Fui para o quarto chorando, tanto por estar assustada com o assalto e pelo fato de quase ficar lá com aquele bandido, mas o pior, por ter brigado pela primeira vez com Tuti.
Eu liguei para ele sem parar mas ele desligava sempre. Se passou dois dias e nada, ele não falava comigo nem na padaria. Aquilo foi muito ruim, eu queria abraça-lo e beijá-lo e dizer o quanto o amava, sim eu o amava, tinha certeza disso agora, ele ter ficado sem falar comigo doeu muito.
Toda noite eu ligava para ver se ele me atendia
– Alô! Tuti! Por favor não desliga! Eu te amo! — Eu falei euforicamente quando por um milagre ele atende minha ligação.
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