Todos que estavam no quarto ficam paralisados me olhando depois que digo as minha primeiras palavras após o acidente.

– Elisa! Fala com a mamãe! — Minha mãe corre e segura minha mão.

– Oi mãe — Eu respondo com muito esforço.

– Oi meu amor, eu te amo tanto. — Ela diz.

Eu aperto sua mão e ela começa a chorar.

– Eu nunca tinha visto uma coisa parecida antes — Minha médica diz. — Não acreditava no amor, mas agora...

Tuti permanece do meu lado por um tempo, sem dizer mais nenhuma palavra, apenas observava a minha aparência que estava horrível. Pele pálida, algumas cicatrizes, sem contar que eu parecia um esqueleto humano. Mas apesar de tudo isso ele me olhava com os mesmos olhos apaixonados.

Depois desse dia comecei o processo de recuperação. Muitas pessoas vieram me ver, trouxeram flores e presentes. Eu ficava muito cansada e sonolenta por conta dos remédios que me davam, mas procurava dar o máximo de atenção que conseguia a elas. Tuti vem ao hospital todos os dias me ver. Mamãe diz que ele quer saber sobre tudo, meu tratamento, como as enfermeiras me tratam e que passa muitas noites no hospital.

Chegou então a quinta-feira, estava ansiosa para ver a Tamara. Ela chega chorando e não diz uma palavra, apenas me abraça.

– Você terminou com o Beto? — Foi a primeira coisa que disse a ela.

– Então você estava me ouvindo todo esse tempo! Mas é claro que sim, ele era uma mané. — Ela responde rindo. — É tão bom ter você de volta minha amiga.

– Precisamos colocar os assuntos em dia. — Eu digo.

– Sim. E você precisa colocar sua vida em dia. — Ela responde.

– Ficou sabendo do Tu... — Tamara me interrompe.

– Sim. E sabe o que eu acho? Ele parece estar arrependido do que fez, mas era mais do que sua obrigação estar arrependido. Qual é Éli, ele te abandonou e agora acha que só porque chora um pouquinho e diz que se arrependeu vai te ter de volta? — Ela diz.

– E o que você me sugere? Eu não consigo ficar mais nem um dia longe dele. — Eu respondo.

– Eu torço muito para que vocês voltem. Os dois se amam, isso todos nós sabemos. Mas você tem que dificultar mais as coisas para ele, assim como ele fez com você. — Tamara diz e segura minha mão.

Tudo que Tamara dizia era verdade. Eu queria com todas minhas forças voltar com Tuti, mas depois de tudo o que ele fez, apesar do amor que eu sentia, eu não podia me entregar tão fácil. Conversei muito com Tamara, contei a ela que sentia saudades das nossas conversas. Contei sobre o meu acidente e ela ficou pasmada com tudo.

Minha família pediu pizza para comermos no meu quarto.

– Oh meu deus, eu senti tantas saudades. — Eu digo para o meu pedaço de pizza que parecia uma das sete maravilhas do mundo para mim.

– Éli, depois do acidente eu nunca mais usei o seu banheiro. — Ico diz e eu estico os braços para abraçá-lo.

– A partir de agora você pode usá-lo quando quiser. — Eu digo.

– Sério? — Ele responde animado.

– Não. — Eu digo e mostro a língua. Caímos na risada.

– Eu amo tanto vocês. — Eu digo depois de engolir o último pedaço da minha pizza. — Todo esse tempo eu vi a preocupação de todos comigo e isso me fez resistir a tudo.

Mamãe começa a chorar e todos vêm para perto de mim na cama, então eles se abaixam e me abraçam. Isso foi tão reconfortante e eu me senti a pessoa mais amada do mundo sem Tuti estar presente.

– Ei Ana, espera. — Eu a chamo depois que todos saíram.

– O que foi Éli? — Ela se aproxima.

– Quando pretende contar para a mamãe? — Eu pergunto.

Ana suspira e massageia a barriga.

– Tenho medo da mamãe descobrir que eu não sei quem é o pai. — Ela responde.

– Não sabe? Como assim Ana? — Eu digo.

– Éli preciso ir, estou um pouco cansada. Mas depois conversamos mais. — Ana sai.

– Ana, espera. — Eu a chamo novamente.

– Sim? — Ela para na porta.

– Tenho certeza que a mamãe vai amar muito essa criança e vai ajudar a criá-la. — Eu dou um sorriso e Ana se vai.

Minha recuperação está ótima, estou fazendo fisioterapia e já consigo movimentar meus braços. Minha médica disse que vou voltar a andar em breve, mal posso esperar.

Tuti continua a vir para o hospital todos os dias.

– Oi Éli, tenho uma surpresa. — Tuti diz e eu continuo calada.

– Olha Tuti precisamos conver... — Tuti me interrompe.

– Ok, mas antes... — Ele coloca os fones no meu ouvido e começa a tocar Beatles. Depois ele coloca uma carta no Criado-mudo. — Leia depois que eu sair.

– Tuti, precisamos conversar. — Eu repito e tiro os fones.

– O que foi Éli? — Ele pergunta.

– É bem legal isso que você está fazendo, ficando aqui para me ver. Mas você me deixou, você teve um filho que não é meu. Porque você não me ligou? Ou sei lá, poderia ter me enviado uma carta. Você se foi sem mandar notícias e deixou para trás toda a nossa história juntos. — Eu digo sem derramar uma lágrima.

– Éli, onde você quer chegar com isso? — Tuti pergunta.

– Quero que você me dê um tempo para pensar em tudo. — Eu respondo.

– Você está me pedindo para não te ver mais? Eu não posso aceitar, já fiquei muito tempo longe de você. — Ele rebate.

– Eu vou sair daqui, estou me recuperando. Mas até lá, quero que você não venha mais. Depois que eu sair, podemos conversar. — Eu digo.

– Mas Éli... — Eu o interrompo.

– Por favor Julio. — Digo.

Ele sai, e pela primeira vez me sinto confiante ao seu lado depois de tudo. Na porta Tuti para e se vira.

– Não esqueça de lê-la. — Ele então olha para a carta.

Depois de um tempo que ele sai eu respiro fundo e pego a carta. No envelope estava escrito:

"De todos os meus acertos, você foi o principal deles e de todos os meus erros, você foi o meu melhor remédio".