Já se passara dois anos que eu e Tuti não nos falávamos. Dois anos terríveis, onde a abstinência dele me dominava inteiramente. As vezes imaginava como seria a pequena Maria, será que se parecia com Tuti? Eu sentia amor por aquela criança só por ela ser filha dele.

Dois dias depois que completei vinte e quatro anos, fui ao "Rock Bar" pela primeira vez depois do acontecido. No caminho, lembro-me de estar aos prantos porque era a primeira vez que Tuti não estaria comigo. Fui sozinha porque sabia qual seria meu estado emocional ao chegar lá. Cheguei um pouco perdida, fazia tanto tempo, mas nada tinha mudado, só a ausência dele.

– Elisa! — Uma voz familiar vem em minha direção.

– Leo! — Eu abraço o dono do bar que sempre era muito legal comigo e com Tuti.

– Onde está o garotão? — Ele perguntou se referindo ao Tuti.

– Não estamos mais juntos — Eu respondo e logo em seguida viro uma dose de tequila com tudo.

– O quê? Ah Elisa, eu sinto muito! — Ele diz dando tapinhas no meu ombro.

Leo era um cara atraente, tinha um pouco mais de trinta anos e depois de algumas bebidas eu comecei a me sentir atraída por ele.

– Leo, quer sair daqui? — Eu pergunto sendo instigante.

– O que quer dizer com isso? — Ele pergunta.

Então o beijo ali mesmo, bêbada, um beijo e tanto. Quando estamos no meio da pegação, começa a tocar "In My Life". Parei-me na hora, não conseguia acreditar no que ouvia.

– Qual é Tuti! — Eu grito no meio da pista de dança — Porque você faz isso comigo? Me deixe em paz! — Minha voz era de uma pessoa loucamente bêbada.

Começo a chorar e saio correndo deixando Leo para trás com cara de que não entendia bulhufas nenhuma. Entro no carro aos prantos e coloco o volume do rádio no máximo. Saio em disparada cantando pneu. Começa a passar na minha cabeça tudo o que eu e Tuti tínhamos vívido até então. Meu coração era pedaços que Tuti tinha dilacerado e comido cru. De repente uma luz muito forte, branca, sega-me me deixando sem reação, logo depois escuto um barulho ensurdecedor no lado do passageiro junto com a pancada.

Apaguei na hora.

Depois disso eu estava aqui, nessa cama, completamente desestruturada emocionalmente e fisicamente. Fui uma garota irresponsável, igualmente quando tinha dezesseis anos e não ligava para nada na vida. Não culpo Tuti pelo meu acidente, sei que a culpa foi toda minha por não ter agido como uma pessoa normal agiria ao levar um pé na bunda. Poderia ter seguido a minha vida, casado, tido filhos. Mas não, Tuti sempre estará presente em qualquer coisa que eu fizer ou pensar em fazer. Poderia dizer que odeio amá-lo, mas estaria mentindo. Eu sinto orgulho por amar alguém. São poucas pessoas que podem sentir esse sentimento, e mesmo que não durou o tempo que pensei que duraria, valeu a pena só por ter conseguido ter momentos inesquecíveis como os nossos. E eu sei que ele não veio me ver após tudo isso mas que se dane, agora vou seguir a minha vida.

Nem sempre o que amamos será nosso.