Lembranças Malditas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Maldito seja ele, malditas sejam essas lembranças... Estava começando a primavera em Ernas. Eu estava procurando aquele idiota do Dio. Ele resolveu fugir de casa, e me colocaram atrás dele. Até parece que eu queria ir atrás dele, mas como todo idiota, precisa de alguém para cuidar. O problema é que eu nunca tive paciência para tal.
Admito que consegui me distrair um pouco, as flores de Xênia são muito curiosas e diferentes, cada uma tem um formato diferente. As cores se misturam de uma tal forma que me fizeram ter lembranças boas... Lembranças da minha infância. Ainda me lembro de brincar com o Dio até a noite cair... Ele era muito diferente, não era o idiota que é hoje. Mas isso não vem ao caso... Logo voltei ao mundo. Estava começando a pensar coisas idiotas demais.
- Arg, Dio, onde está você? – Eu me perguntava, em voz alta – Não sou sua babá para ficar correndo atrás de você, seu idiota imprestável! – Minha paciência havia se esgotado – Você sempre foi um covarde maldito, eu sempre te protegi!
Ao terminar a frase, fui arremessada aos ares com uma força estrondosa, acabei batendo em uma árvore e escorregando até o chão. Que audácia! No mesmo momento me levantei procurando o autor de tal façanha.
- Cale a boca, princesinha
Me virei. Acabei achando o desgraçado que estava procurando. Minha vontade era matá-lo ali mesmo.
- Ora, como ousa... – Levantei minha endless – Centro Gravitacional!
Eu estava a ponto de explodir de raiva. O suguei para meu centro, e a surra não acabou: o golpeei com uma Lição de Etiqueta. Dei um pequeno sorriso, minha vingança estava completa.
- Nunca mais levante essa sua mão suja contra mim – Eu disse – Se não eu juro que te mato.
- Como se conseguisse... – Ele disse, se levantando com dificuldade – Não brinque comigo, princesinha
- Pare de me chamar de princesinha – Ele dizia isso de uma maneira que me ridicularizava, então pedi para ele parar
- Me obrigue... – Ele olhou fundo nos meus olhos, deixando escapar um sorriso descarado
- Eu? Não vou sujar minhas mãos com um imbecil como você!
- Claro, até porque não conseguiria – Ele riu – Você realmente continua sendo a mesma patricinha de sempre...
- Mas é claro que eu conseguiria, não me subestime! – Eu estava começando a gritar – Você, seu... Seu... – Tentava falar alguma ofensa, mas nada me vinha à cabeça
- Bonitão? – Ele disse, rindo
- Arg, pra mim já chega! Você pode ficar aí, vagando feito um idiota, não vou mais correr atrás de você! – Eu gritei, já me virando e andando para o outro lado
- É uma pena. Ver você perseguindo alguém é tão divertido...
- Cale a boca! Suma daqui! – Gritei pela última vez, antes de sumir no meio da vegetação
Ele... Sempre me tirou do sério. Não sei por quê diabos eu ainda o ajudava quando pequena. Mas isso piorou depois que nós crescemos... Parece mesmo ser muito divertido me ver irada. Só sei que tudo isso é um saco, tudo o que eu queria era estar tomando o meu banho na minha banheira com os meus sabonetes. Isso é pedir demais?
Então, anoiteceu. Cansada de tanto andar, me deitei cuidadosamente encostada em uma árvore... Florestas são lugares muito nojentos. Nada me fazia dormir ali, eu acabei ficando acordada pelo barulho que os insetos faziam. Barulhentos, nojentos.
As horas iam passando rápido demais, e por mais que eu deteste admitir, aquele desgraçado não saia dos meus pensamentos. Ainda estava tentando entender o por quê de ele fugir, o por quê de ele me estressar tanto, e principalmente o por quê de ele me chamar de “princesinha”. Não sou apenas uma princesinha, sou uma rainha! Isso é irritante!
Justo no momento que eu estava começando a dormir, uma sombra aparece a minha frente. Cabelo bagunçado, um par de chifres. Era a do ser mais desprezível do mundo.
- Ora, a princesinha ainda não dormiu? Que droga, acabou com a minha graça... – Ele disse, de cima da árvore na qual eu estava encostada
- Eu já disse para você sumir daqui – Eu disse, na esperança de que ele entendesse e saísse dali
- Não vou sair daqui – Ele saltou da árvore e se sentou ao meu lado
- Saia! – Eu disse, em uma tentativa de empurrá-lo para longe
- Já disse que não vou sair – Ele se defendeu, continuando no mesmo lugar
- E por quê não?
- Porque não quero
- Arg, você só serve para tirar a minha paciência – Cruzei os braços
- Isso não é verdade. Sirvo para te dar trabalho também – Ele sorriu
- Você é desprezível
- Haha... Parece que você não se lembra, não é? – Ele olhou para mim, esperando uma resposta
- Me lembro do quê? – Perguntei, mesmo estando irritada
- Dos velhos tempos. De nós crianças.
- É claro que me lembro – Descruzei os braços – Você não era tão idiota como é hoje
- Naquela época eu era covarde... Ainda se lembra das brigas em que eu me metia?
- E que eu tinha que entrar no meio e bater nos meninos para você? Claro – Falei em um tom grosseiro
- Sabe, naquela época eu gostava de você
- Você o quê? – Olhei para ele, surpresa – O dia primeiro de Abril já passou, Dio – Suspirei
- Mas não é mentira. Eu gostava mesmo de você... Mas agora eu já superei
- E daí? – Eu tentava me afastar ao máximo dele, mesmo não querendo
- Tire suas próprias conclusões – Ele sorriu, de um jeito que me irritava e me encantava ao mesmo tempo
Depois disso ficamos em silêncio. O céu estrelado fazia uma linda parceria com a lua cheia, para deixar a noite ainda mais bonita. O que diabos eu estava fazendo, sentada ali com o Dio? Eu tinha que sair dali, mas não queria. Ele passou a sua mão por trás de mim, me dando um leve abraço. Pensei em empurrá-lo e jogá-lo longe, mas eu não conseguia.
- Sabe quando eu disse que já havia superado? – Ele me perguntou
- O que tem...? – Perguntei ainda tentando manter a minha voz firme, sem muito sucesso
- Eu menti – Ele segurou meu rosto com uma das mãos, aproximando o rosto dele e o meu, e me abraçou com a outra. Senti a minha pele corar... O que estava acontecendo comigo?
- D-dio, me solte... – Eu disse, meio trêmula de nervosismo
- Você é tão bonita quando está corada – Ele disse sorrindo, logo aproximando os seus lábios dos meus.
Parecia um sonho... O beijo me fez voltar no tempo. Me fez lembrar de quando éramos crianças, nós brincando, eu protegendo ele, e mais tarde ele me protegendo. Foi... Incrível. Naquele dia ele realmente me pegou de surpresa, aquele idiota desprezível e imprestável... Arg, eu não consigo me lembrar dele sem ficar com raiva. Mas ao mesmo tempo, é uma coisa boa. Nunca irei entender esses sentimentos, só sei que eles causam problemas. Dio, seu maldito... O que você fez comigo?
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