Lembranças Do Pôr-do-sol
1 Capítulo único
Notas iniciais
O vento soprou forte, agitando as folhas secas no chão de terra. O sol estava baixo, não demoraria muito para anoitecer. E ele estava solitário lá, mergulhado num silêncio profundo, esperando que a qualquer momento sua Flor pudesse aparecer. Ele nunca perdera a esperança, ela voltaria, com toda certeza. Por mais que o mundo pudesse conspirar contra sua fé, e tudo parecesse estar errado. Ele nunca desistiria dela. Nunca a deixaria...
- Eu prometo isso a você. – Ela sussurrou. – Eu te amo.
- Eu te amo também. Você já faz parte de mim, não conseguiria viver sem ver seu sorriso, sentir seu cheiro, ouvir sua voz... – Ele acariciava seu rosto com os dedos, olhando profundamente nos olhos dela.
Era um momento praticamente perfeito, o sol se punha no horizonte do mar, não havia mais ninguém na praia. Era um momento só deles, os quais aproveitavam o tempo ao máximo, descobrindo um ao outro...
A sombra de uma estátua cobriu o rosto dele. Tudo continuava com a mesma tranquilidade mórbida. A rosa em suas mãos fenecia aos poucos, algumas pétalas caíram. Ele concluiu que sua vida estava murchando assim como aquela rosa, aliás, já estava murcha e aos pedaços... Pedaços que se perderiam na existência, ou seriam esmagados pelo destino. Mas isso não fazia a mínima diferença, pois o principal, o seu sol, a sua alma, não estava mais ali – encontrava-se em algum lugar distante dessa realidade.
- Não precisa ir com muita pressa! Olha pra frente! – Ela exclamava a cada vez que ele acelerava o carro e mandava um beijo para ela.
- Não se preocupe, já estamos chegando. – ele a tranquilizava.
Ela dava um sorriso brincalhão toda vez que ele a tratava como uma menininha. Era uma noite de viagem longa de volta à cidade, mas eles não se importavam muito com a distância da viagem. O mais importante era tudo dar certo, porém devido a algum problema mecânico, os freios não foram acionados a tempo, inevitavelmente, vinha uma carreta em alta velocidade...
Um bem-te-vi cantou alto de cima da árvore, quebrando o silêncio. Fazendo o coração dele doer mais ainda. Por que ela demorava tanto para chegar? Ele sempre disse a ela que não precisava de muita coisa para se arrumar, ela já era naturalmente bonita. E ele continuava lá pacientemente, à sombra da estátua que agora era maior. Mais pétalas caíam. E ele começou a se sentir derrotado... Assim como no dia que acordou num pesadelo.
- Flr... Flor... – sua visão turva girava lentamente.
Caiu na inconsciência. Permaneceu assim por um tempo indeterminando. Um dia, ouviu passos se aproximando, mas ainda não dava conta de abrir os olhos, por mais que quisesse. Ouviu vozes, mas seu cérebro não conseguia decodificar o que estava sendo falado... E gradativamente foi melhorando.
Porém, toda a recuperação desfaleceu quando lembrou o que tinha acontecido. Quando lembrou o que poderia ter acontecido a sua Flor...
O céu já estava quase completamente escuro, ele continuava no mesmo lugar, sem forças e coragem para se mover dali. Agora o vento soprava levemente frio, ainda agitando as folhas secas. Uma borboleta branca pousou a frente dele. E sentiu uma onda de alegria, sabia que ela chegando. Já podia sentir o cheiro dela. Já podia ouvir seus passos. Ele se acomodou sobre o tumulo de mármore negra. E esperou.
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