Lembranças

1 Capítulo 1


Capítulo 1

POV Annabeth

Após morar por quase um ano em um internato em São Francisco contra a minha vontade, eu iria voltar a morar com meu irmão mais novo Malcolm e minha mãe Atena.

Eu estava apavorada.

Era o último fim de semana das férias de verão, e eu iria concluir o ensino médio naquele ano. A única coisa que me animava de verdade era poder passar mais tempo com o meu irmão. Nós erámos próximos, mesmo morando longe um do outro.

E ali estava eu, ouvindo a aeromoça informar que havíamos acabado de pousar em Nova York. Resolvi ser a última pessoa a sair do avião. Olhei pela a pequena janela da aeronave e pude ver o Empire State Building ao longe.

Sinto então o celular vibrar no bolso de meu casaco, era uma mensagem do meu irmão:

Malcolm: Já estou no estacionamento do aeroporto. Será fácil me achar.

Eu: Como pode ter tanta certeza? Idiota

Malcolm: É único carro branco. Dã.

Respirei fundo, coloquei a mochila nas costas e saí do avião.

Após apanhar minhas malas foi fácil achar o portão de saída do aeroporto. E assim que passei pelas as portas automáticas, logo avistei um lindo volvo branco que se destacava em meio aos carros e taxis. Encostado no carro havia um garoto de quinze anos, com cabelos loiros aparados, pele um pouco bronzeada e um sorriso idiota nos lábios. Malcolm havia mudado desde o Natal, eu me lembrava dele magricela e desengonçado.

Haviam algumas pessoas parando para encarar o carro, o que me fez corar ao caminhar até ele.

— Annabeth! – disse Malcolm me dando um grande abraço.

Gemi.

— Estou feliz em te ver também – disse eu – Cadê a Atena?

O sorriso dele se desfez.

— Está em uma reunião. Ela disse que era urgente – murmurou ele.

— Típico – respondi.

— Annabeth, eu realmente acho que ela quer passar mais tempo com você – disse ele – Você precisa ver o seu quarto novo.

Sorri sem humor.

— Ok. Vou fingir que acredito – disse eu enquanto o ajudava a pôr as malas no carro – Ela te deu um carro?

Ele deu de ombros fechou o porta malas e me encarou com um sorriso malicioso.

— Na verdade ele é seu. Ainda não tenho dezesseis anos – disse ele jogando as chaves do carro para mim.

Agarrei as chaves no ar com mãos um tanto tremulas.

Ergui as sobrancelhas.

— Então você veio dirigindo até aqui sem habilitação? — perguntei.

Ele corou.

— Por favor, não faça perguntas difíceis – pediu – Só faltam dois meses para o meu aniversário. Te ensino o caminho até a casa nova, vamos.

Eu não acreditava que Atena me dera um carro! Era “O CARRO” dos meus sonhos. Eu havia tirado a carteira e aprendera a dirigir no ano anterior, mas não estava esperando ganhar um carro.

O caminho do aeroporto até a casa nova foi longo. Atena havia projetado um condômino de luxo nos arredores de Nova York, que ficara pronto no começo deste ano.

Ao entrar no condomínio notei que muitas das casas já estavam ocupadas e em como eram fantásticas, modernas e um tanto tradicionais ao mesmo tempo. Haviam parques com vários pinheiros, lagos artificiais e crianças brincando com seus pais.

— É aquela ali – disse Malcolm apontando para uma bela e imensa casa branca.

A casa possuía três andares e era branca com e janelas de vidro compridas e detalhes em madeira. Estacionei na vaga de garagem delimitado por pedras de granito em frente à casa.

— A casa é bem discreta – observei com ironia – A cara dela.

Logo tiramos as malas do carro e caminhamos até a imensa porta da frente cinza com detalhes em vidro e maçaneta de metal. A sala de estar era espaçosa, com paredes brancas e pé direito alto, havia um sofá cinza posicionado de frente para uma lareira a gás e uma tv. Uma escada com corrimão de vidro levava ao andar de cima, e ao lado uma porta de correr dava acesso a cozinha. A decoração era simples e aconchegante.

— Nossa – consegui dizer.

Quando Malcolm e eu éramos crianças Atena sempre sonhara em ter uma casa assim. Ela dizia que queria projetar a casa perfeita para nossa família e longe de São Francisco. Eu só não sabia se o conceito de família que ela tinha anos atrás havia mudado, duvidava que sim.

— É. Ela enfim realizou os sonhos dela – disse Malcolm como se lesse os meus pensamentos.

Assenti.

— Vamos. O seu quarto fica lá em cima – disse ele carregando as malas e indo em direção a escada.

Subimos dois lances de escada e em fim chegamos a um corredor. Segui Malcolm até uma porta branca de madeira no fim do corredor, e ele fez um sinal para que eu abrisse a porta.

O quarto era grande, no centro havia uma cama king size com vários travesseiros cor de rosa, as paredes eram brancas, haviam duas portas a direita que deduzi serem o banheiro e closet, e uma escrivaninha pequena ao canto. O mais impressionante era a parede em frente a cama, que era tomada por uma prateleira branca com alguns livros. Havia também, portas de correr ao lado da cama onde dava acesso a uma sacada.

— Esse quarto é mesmo meu? — perguntei perplexa.

— É claro – disse Malcolm rindo de mim – Eu disse que ela iria tentar.

Dei um meio sorriso.

— Não sei se consigo acreditar – disse eu – Eu meio que não consigo acreditar nas intenções dela.

— Eu sei, mas você podia dar uma chance a ela... – disse ele.

Suspirei.

— Você pode me deixar sozinha? – perguntei – Eu queria desfazer as malas e tomar um banho. Estou cansada, a viagem foi longa.

Malcolm assentiu, mas pareceu um pouco desapontado por eu ter dado fim ao assunto. Eu não gostava de falar sobre Atena, e definitivamente não acreditava nem por um minuto que ela havia mudado.

Assim que ele deixou o quarto sentei-me na cama. Meu coração estava acelerado e eu estava com dificuldades para respirar, como se não houvesse oxigênio o suficiente. Isso sempre acontecia quando eu ficava nervosa ou quando algo estava prestes a acontecer, e de fato havia acontecido. Eu iria voltar a morar com Atena e aquilo me apavorava. A psicóloga do internado sempre dizia para eu contar até dez e respirar fundo quando isso acontecesse.

Respirei fundo e comecei a reparar nos pequenos detalhes do quarto, o jeito como a luz do sol entrava pela a janela e o fato de haver poucos livros na prateleira. Haviam livros sobre arquitetura e alguns livros infantis que Atena costumava ler para mim anos atrás, quando eu era pequena. Pensei que se eu os jogasse na lareira iria ser uma atitude ruim, ou talvez ela nem notaria.

Ela achava mesmo que um quarto legal e um carro seriam o pontapé inicial para o recomeço da família grande e feliz. Eu estava grata pelos os presentes, é claro, mas ela nem se deu o trabalho de me buscar no aeroporto depois de meses sem me ver.

Há um ano atrás meu pai Frederik, a namorada dele e eu sofremos um acidente de carro. Eu ainda tinha pesadelos com aquilo. O som do caminhão vindo em nossa direção ainda me deixava acordada a noite. Atena então, resolveu que seria melhor eu continuar o segundo ano do ensino médio em um internato e somente no ano seguinte eu viria para Nova York. Ela dizia que se tratava de um internato para pessoas “especiais” – em outras palavras adolescentes malucos -, e que assim seria melhor para minha recuperação do estresse pós-traumático pela a perda do meu pai.

Deitei-me na cama e tentei respirar fundo mais uma vez. Sentia os meus pulsos pinicarem.

Não. Eu não podia me render ao impulso de me machucar outra vez. Levantei-me rapidamente de decidi tomar um banho.

Depois de um banho longo, encarei minhas malas ainda jogados no meio do quarto e resolvi desfaze-las. Talvez aquilo me distraísse, então vesti um moletom velho e comecei a arrumação. Ao organizar minhas roupas no closet, percebi com surpresa que já haviam várias roupas novas penduradas nos cabides e dobradas nas gavetas. No criado mudo ao lado da cama havia dois cartões de crédito, um envelope com dinheiro e um bilhete com os dizeres:

Annabeth,

Caso precise para comprar roupas ou o que quiser. Use os cartões e o dinheiro com atenção.

Mamãe.

Fiz uma careta.

Eu estava agradecida, mas me sentia estranha. Quando morávamos todos juntos nós não tínhamos muita grana, mas Atena sempre nos dizia que no futuro ela seria realizada profissionalmente e que não nos preocuparíamos com dinheiro.

Após desfazer as malas eu ainda me sentia prestes a ter um colapso nervoso. Eu precisava sair para respirar ar fresco. Arrumei-me rapidamente e saí do quarto.

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Na sala de estar Malcolm estava esparramado no sofá enquanto jogava videogame.

— Aonde vai? — perguntou sem tirar os olhos da tv.

Mordi o lábio.

— Preciso dar uma volta – murmurei.

Malcolm pausou o jogo e me encarou preocupado.

— Está tudo bem?

Assenti. Malcolm me conhecia bem e evitava fazer perguntas que me deixassem desconfortável, mas se preocupava comigo.

— Ok. Estou aqui se precisar conversar sobre...Tudo – disse ele – Temos uma festa para ir esta noite. Vai ser bom para você se enturmar.

Sorri.

— Obrigada – disse eu bagunçando seus cabelos e indo buscar as chaves do carro no gancho ao lado da porta da frente.

Dirigi sem rumo por uns vinte minutos. Eu não conhecia o bairro e não sabia de fato para onde eu queria ir. Estava confusa e assustada e talvez não tenha sido uma boa ideia dirigir, pois todas ás vezes que ouvia o som de algum caminhão eu ficava mais assustada. Concluí que eu precisava de álcool, então estacionei em frente a uma loja de conveniência do posto de gasolina mais próximo.

A loja estava vazia exceto por dois adolescentes conversando. Peguei um engradado de cervejas e um pacote de salgadinhos, caminhei em direção ao caixa e os garotos pararam de conversar. Um dos garotos virou-se para me encarar de cima a baixo, ele tinha cabelos loiros bem aparados, era alto e bronzeado e possuía uma cicatriz no rosto o que o deixava com um charme a mais.

— Olá – disse ele com um meio sorriso.

Corei.

— Olá – disse eu um tanto envergonhada.

O garoto loiro estendeu a mão.

— Meu nome e Luke – disse ele.

— Sou a Annabeth – respondi apertando sua mão.

Ele deu meio sorriso.

— Você é nova aqui? — perguntou.

Assenti.

— Acabei de me mudar – respondi.

Luke sorriu e observou o engradado de cerveja que eu segurava.

— Pretende beber tudo sozinha?

Sorri.

— Até agora sim – murmurei.

Luke virou-se para o garoto do caixa e entregou-lhe uma nota de dez dólares e em seguida virou-se para mim.

— Vou te fazer companhia então – disse ele.

Luke e eu resolvemos beber as cervejas no estacionamento da loja. Sentamos no capô de seu carro – uma camionete prata — e conversamos sobre várias coisas, exceto sobre nossa vida pessoal, o que foi um alívio, pois eu estava ali bebendo com um desconhecido justamente para fugir de minha vida.

Ele me situou sobre onde ficavam as coisas na cidade, shoppings, bares etc. Ele demonstrou um interesse por carros e todos os paravam para abastecer no posto de gasolina ele me informava os prós e contras. Durante a conversa percebi algumas olhadas maliciosas para o meu corpo, o que me deixou um pouco desconfortável.

Depois de algumas cervejas eu já estava mais risonha do que o habitual, e então com espanto me dei conta de que a noite já havia caído. Peguei o celular no bolso do shorts e verifiquei a horas, já se passavam das seis e meia.

Xinguei baixinho.

— Droga. Atena vai me matar – disse eu.

— Quem é Atena? — perguntou Luke.

Suspirei.

— Minha mãe – respondi sem entusiasmo – Preciso ir.

Luke ergueu as sobrancelhas.

— Você chama a sua mãe pelo o nome dela? — perguntou.

Revirei os olhos.

— Sim. E eu preciso mesmo ir – disse eu descendo do capô.

Luke parecia desapontado.

— Você tem compromisso mais tarde? — perguntou ele.

Mordi o lábio.

— Sim – respondi – Vou sair hoje à noite.

Ele me encarou.

— Você é bem misteriosa – observou.

Dei de ombros e me virei para ir até o meu carro.

— Annabeth? — chamou Luke.

Virei-me.

— Sim?

— Não está se esquecendo de nada – disse ele se aproximando mais de mim fazendo com que eu pudesse sentir o calor de seu corpo.

Corei.

— Não – respondi afastando-me.

Luke parecia surpreso, pensei que se alguma garota já havia resistido ao seu papinho furado. Ele parecia ser o tipo de cara que tem todas as garotas aos seus pés.

— Você é má – indagou Luke.

Dei um sorriso e fui até o meu carro deixando o garoto com cara de idiota para trás.

— Você nem me passou o seu telefone! – gritou Luke.

Porém, não respondi.

Quando cheguei em casa ás luzes da sala estavam acesas, mas não havia ninguém. Pude ouvir sons de talheres vindos da cozinha e caminhei sem ânimo até lá. A cozinha possuía armários brancos, bancadas de mármore e uma ilha grande. No lado oposto havia uma mesa de jantar com seis cadeiras. Atena ocupava uma das cadeiras, ela possuía longos cabelos loiros e olhos cinzentos penetrantes assim como os meus.

Durante toda a minha vida eu era comparada a ela, todos nos diziam que éramos iguais e eu sempre discordava. Atena era linda -- não que eu tivesse algum problema com a minha aparência --, mas a forma como ela se comportava e o modo como sorria com o olhar penetrante e confiante, fazia com que nós fossemos diferentes. Eu sempre me achara fraca e sentimental e ouvira piadas com relação a cor dos meus cabelos, a famosa “loira burra”.

Atena sorriu assim que percebeu minha presença – parada sem reação no meio da cozinha – e logo se levantou para me abraçar.

— Senti sua falta Annabeth – disse ela enquanto me abraçava.

Correspondi o abraço, mas permaneci calada. No fundo eu também sentia saudades, mas o ressentimento e a dor eram maiores em relação a isso.

Engoli em seco e me afastei cuidadosamente.

Sorri.

— Faz muito tempo – disse eu.

A expressão de Atena endureceu e ela me examinou de cima abaixo.

— Sinto cheiro de cerveja – indagou – Você estava bebendo?

Sorri de modo sarcástico.

— Bem observado – respondi – Está pensando em me largar em um internato? Ou em uma clínica?

Atena bufou.

— Por que está me tratando desta maneira? — perguntou – Eu fiz o melhor que pude. O que estava ao meu alcance.

Sorri.

— Você só pensa em si mesma – murmurei – Egoísta.

— Não sou egoísta. Por que diz estas coisas horríveis para mim? — perguntou – Eu tentei fazer o melhor para vocês dois. Tentei fazer com que a sua chegada fosse confortável.... Dei um carro a você...

Respirei fundo tentando conter a lágrimas.

— Eu estou realmente muita agradecida, mas não é disso que me refiro, eu...

Pude ouvir passos vindos em direção a cozinha. Virei-me a tempo de ver Malcolm entrando na cozinha de sobrancelhas erguidas.

— Vocês estavam brigando? — perguntou.

Sequei os olhos rapidamente com as mãos.

— Não. Está tudo bem – disse eu forçando um sorriso – Só estávamos conversando.

Malcolm não pareceu convencido, mas suspirou e disse:

— Mãe, nós vamos a uma festa na casa de um amigo – disse ele – Você ainda vem Annabeth?

Antes que eu pudesse responder Atena me cortou.

— Annabeth ainda não comeu nada – disse ela num tom de voz sério.

A encarei.

— Não estou com fome. Obrigada – disse eu – Vou me arrumar.

Saí da cozinha antes que eles tivessem chances de responder alguma coisa. Meus braços pinicavam à medida que eu subia as escadas e lágrimas saiam de meus olhos. Entrei em meu quarto e tranquei a porta rapidamente. Caminhei a cegas até o closet a procura de minha necessaire. Demorei cinco minutos para encontrá-la e abri-la, no fundo havia um estilete pequeno de cabo azul. Fiquei encarando-o sentada no meio do closet por alguns segundos.

Eu sabia que não devia fazer aquilo, que não devia me machucar. Quando aquilo iria acabar? — pensei.

Notas finais
Acompanhe, favorite e comente as suas primeiras impressões. O próximo capítulo saíra em breve na plataforma. Obrigada por ler até o fim!