Lembranças
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Haviam voltado de uma caçada extremamente cansativa. Era sobre um djinn, coisa normal, mas a localização era o que realmente havia incomodado. Ficava em Lawrence, bem perto de onde haviam morado por tanto tempo. Na saída da cidade, passaram obrigatoriamente pela rua. Sam encarou a casa, pensativo, mas Dean manteve-se fixo na estrada. Não podia se deixar emocionar por algo tão simples. Já havia passado.
E apesar de não estar olhando, muitas memorias vieram-lhe a tona. A maioria, extremamente dolorosas. Primeiro pensou sobre a mãe, Mary. Pensou em seus cabelos dourados e brilhosos e seu sorriso doce. Até chegou a pensar em quando ela lhe fazia sanduíches e cortava as cascas. Depois, chegou a vez do pai. As memorias já vinham a tona, mas não tinham mais nada a ver com a casa. Já eram ocasiões aleatórias que havia passado em sua adolescente e começo de fase adulta. Bruto e irritadiço, lembrava-se dele gritando consigo. Na maior parte do tempo, por que não havia cuidado de Sam direito. Mas tinha alguns bons momentos que apreciava, quando recebia um sorriso de recompensa. Era o máximo que conseguia do pai naquela época.
E depois, veio Sammy. Lembrou-se de como cuidava dele e de como não cuidava. Sentia como se tivesse deixado ele naquela lanchonete fedida e suja dias antes. E lembrava-se das brigas, que ainda continuam a acontecer com frequência. Mas acima disso tudo, lembrou-se dos momentos bons. De como sentavam na frente da TV assistindo desenhos animados, de como tomaram sua primeira cerveja juntos, de como passavam o natal trocando presentes de posto de gasolina...
— Dean, tudo bem? — Sam perguntou, notando o quanto o irmão parecia avoado. Estavam no impala a praticamente uma hora e meia sem dizer nada e aquilo era algo anormal. Dean ergueu seu olhar por um momento para encarar o irmão por alguns segundos, balançando a cabeça como se não fosse nada com o que se preocupar. — Foi a casa?
— Que? — As vezes não gostava de como o irmão mais novo ia direto ao ponto. Aquilo as vezes o surpreendia, por que esquecia desse jeito. Mas logo tratou de se recompor, montar novamente as vinte paredes que tinha escondendo seus sentimentos. — Nada a ver, Sam.
E ficaram calados. O silêncio no começo foi constrangedor, mas felizmente foi trocado pelo som do impala desligando-se. Haviam chegado no hotel que ficariam pelo resto da noite. Dean se encarregou de ir até a recepcionista enquanto Sam tirava as poucas tralhas que carregavam do carro.
— Boa noite, senhor. — A recepcionista começou, com um típico sorriso grande e mentiroso no rosto. Imaginou por um momento como seria ter que trabalhar em algo do tipo. Mas pelo menos era uma moça bonita. Era alta e usava batom num tom escuro. Não era muito seu estilo, mas não se importaria se ela quisesse ser. — Gostaria de um quarto?
— Sim, por favor. — Virou seu olhar para Sam quando o viu entrando pela porta, mas voltou-se a recepcionista rapidamente. — Duas camas.
— Oh... — A mulher fez uma expressão triste, olhando em seu computador. — Infelizmente o hotel está lotado está noite, temos apenas um quarto com cama de casal sobrando.
Ok, aquela era uma situação que já haviam passado antes. Para resolve-la, um dos dois havia dormido no carro. Isso era Dean, por que segundo as palavras de Sam, se você ama tanta um carro, não teria por que não passar uma noite inteira dentro dele. Mas dessa vez não iria ceder. Não demonstrou surpresa.
— Pode ser. — A moça somente sorriu, e antes que pudesse lhe entregar a chave, Sam se meteu na frente, sorrindo de volta para a moça. Teve uma pequena briga pra ver quem pegava a chave primeiro da mão da mulher, mas Dean foi mais ágil. Segurou a chave fortemente e pegou sua mochila pendurada no ombro de Sam, provocando a moça uma expressão duvidosa. Talvez fosse medo.
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Já no segundo andar, bem distante da recepcionista, Dean deu um tapa na nuca do irmão, que se encolheu um pouco, fazendo uma careta. Sam ainda não conseguia entender como ele conseguia alcançar sua nuca sendo baixinho daquele jeito.
— Oque foi isso? — O loiro perguntou, bufando. Sam revirou os olhos, já sabendo a frase que viria a seguir — Estragou totalmente minhas chances com ela!
Sam só deu um sorriso debochado, apesar de que por dentro estava pensando em como ele poderia arrumar uma chance com a garota, já que ela provavelmente pensava que ele era gay aquela altura.
— E por que você está indo para o quarto? — O irmão mais novo resolveu mudar de assunto, fazendo o loiro erguer as duas sobrancelhas, como se o desafiasse para uma briga ali no corredor mesmo. — Se você ama tanto um carro, você-
— Não se importaria em dormir nele, eu sei.— Cortou o mais novo, revirando os olhos. Ao chegar na frente da porta do quarto, destrancou a porta, jogando a mochila num canto no chão. Tirou os sapatos marrons e se jogou na cama, dando um suspiro. — Daqui ninguém me tira.
O mais novo colocou a mochila sobre a cômoda, tirando a do mais velho do chão, colocando-a ao lado da sua. Fez uma careta ao sentir o cheiro que vinha do sapato do mais velho, então tratou de pega-los e colocados para arejar na varanda.
— Vou tomar banho e ir para o carro. Se vai ficar ai, pelo menos tome um banho primeiro. — Comentou, voltando a própria mochila para tirar algumas roupas. Adentrou o banheiro e tomou um banho de dez minutos, o minimo para que se sentisse completamente limpo. O irmão mais velho já esperava na porta do banheiro e entrou la logo após ele. Sam não sabia como ele conseguia ser tão inocente.
Deixou a toalha que usou dobrada sobre uma mesa e desligou a luz, dirigindo-se para a cama. Depois que estivesse dormindo, era impossível que Dean o arrastasse para o impala. Ou pelo menos era isso que esperava.
Deitou-se na cama com um suspiro sofrego. Suas costas doíam e a caçada tinha sido bem intensa. Sabia que o irmão mais velho não havia demonstrado, mas tinha ficado tão tocado quanto ele ao passar pela antiga casa, já reformada. Não tinha memorias da casa em si, mas lembrava-lhe de coisas que havia passado em outras ocasiões. Era estranho como toda sua vida havia sido "Dean aquilo" e "Dean isso". Sorriu ao se lembrar de quando tinha oito anos. Dean foi matar um veado e caiu, deixando a arma de lado. Lembrava-se de pegar a arma e matar o tal veado, por que havia pensado que ele havia roubado a arma do irmão mais velho. Tinha oito anos naquela época. E muitas outras memorias vieram-lhe a tona depois dessa. Na maioria, sobre o irmão. E ficou pensando nisso até finalmente adormecer, poucos segundos antes da porta do banheiro se abrir.
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Não sabia como conseguia ser tão inocente. Era extremamente óbvio que o irmão mais novo ia tomar posse da cama quando fosse tomar banho, mas só estava cansado de mais para conseguir raciocinar sobre tudo, mas parecia que a mente de Sam funcionava bem. Com um suspiro, aproximou-se da cama. Não queria dormir no impala. Apesar de amar muito aquele carro, não podia fingir que suas costas — e seu corpo — não doíam quando acordava. E já estava com praticamente tudo doendo, se recebesse uma dose extra, provavelmente não iria aguentar sair com o carro no dia seguinte.
E foi essa desculpa que deu a si mesmo quando, quase delicadamente — quase — deitou-se ao lado do irmão, puxando um pouco o edredom, o que só resultou num garoto gigante virando-se para si e o puxando como um travesseiro. Havia se esquecido que ele fazia aquilo. Quando eram mais novos, começou a dormir com Sam por causa dos pesadelos que o irmão mais novo tinha. Ele ficava noites em claro e John achou que seria melhor se tivesse alguém ali para lhe mostrar segurança. E como ele mesmo não podia fazer isso, Dean era o encarregado. Não sabia se era algum tipo de costume ou coisa parecida, mas Sam gostava de abraçar as pessoas como se elas fossem ursos de pelúcia. E podia até não dizer, mas havia pegado aquele costume após passar noites dormindo com o mais novo. Envergonhava-se imensamente, mas sempre ao acordar percebia que estava abraçado a algum travesseiro ou coisa parecida.
Sam não havia perdido o costume também. Como se fosse algo normal e rotineiro, sentiu-o se aproximar e passar seus fortes braços ao redor de sua cintura, tocando-lhe as costas de leve. A testa se encostou no peito do loiro, os cabelos que pareciam pinicar seu pescoço.
Instintivamente, Dean jogou-os de leve para trás. E deixou sua mão ali, acariciando. O mais novo não deu sinal de que iria acordar então nem se preocupou, passando uma das pernas por cima de sua cintura. Fechou os olhos, sentindo-se como se fosse um adolescente novamente. Lembrou-se do irmão reclamando como Dean o sufocava quando abraçava-lhe daquela forma. Soltou um breve sorriso, deixando o rosto relaxar e a expressão dura ir embora. Naquele momento, não precisaria fingir e nem erguer paredes. Tinha dezesseis anos novamente.
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