Lembrancinha
1 Capítulo 1
Nossos heróis estão acampando no meio da floresta. Já é madrugada, e todos dormem profundamente (ou melhor, quase todos...).
- ...vai dormir, Ash.
- Hã?! C-como sabia que eu ainda estava acordado?!
- Pela sua respiração ofegante. E você sabe que não tenho sono pesado como a Dawn...
- Ah, sim... Eu só... Tô um pouco nervoso...
- Por causa de amanhã?
- Sim...
- Mas a idéia foi sua, ué! – Brock imita a voz empolgada de Ash, em tom de deboche – “Agora que a Dawn finalmente conheceu a May, tá na hora de conhecer a Misty, que a May já conhece! Que tal a gente fazer uma surpresa aparecendo no ginásio de Cerulean? Hein? Hein? HEEEIN?” – Brock volta ao normal – Palavras suas.
- Eu sei... É que não vejo ela há tanto tempo... Sei lá, é estranho...
- É... Desde aquela vez no laboratório do Professor Carvalho, né?
- Aham.
- Faz tempo mesmo...
- Brock?
- Hum?
- Posso te contar uma coisa?
- Claro. Manda a bomba.
- Eu não sei por que, mas... Toda vez que penso na Misty... Sinto alguma coisa crescer dentro de mim, um rebuliço no estômago...
- Olha, aqui não tem banheiro, mas ’cê pode ir ali atrás do arbusto, é tiro e queda!
- Não é disso que tô falando, pô!!!
- Hehe... Foi mal, não deu pra resistir!
- Hunf!
- Então, você sente “algo” quando pensa na Misty?
- É! E eu não sei explicar o que é! Você tem alguma idéia do que seja?
- Uhum.
- Me diz!
- Vai ser mais interessante você descobrir por si mesmo... Huhuhu...
- Aaah, me fala logo!
- Tô morreeendo de sono. Boa noite.
- Ei!!! Não me ignore!!!
Vácuo.
- ...ele me ignorou.
Revoltado, Ash resolveu ir dormir.
No dia seguinte, Ash, Pikachu, Brock e Dawn partiram para Cerulean.
Era noite quando chegaram ao ginásio. Viram uma silhueta feminina fechando a porta de vidro e correram até lá.
Ash gritou:
- Não feeechaaa! Espeeeraaa!
- Hã? E-essa voz... – ela murmurou para si mesma, erguendo a cabeça para olhar quem gritava – Ash???
- Arf... Arf... Oi, Misty... Arf... – ele disse, ofegante por causa da correria, mas logo se recompôs – Esta é a Dawn. Ela passou a viajar comigo, Pikachu e Brock depois que May e Max foram para Johto.
- Ah... – foi a única coisa que conseguiu pronunciar, ainda surpresa por vê-los tão repentinamente.
- Oiê! – cumprimentou Dawn – Muito prazer!
- Hehe, o prazer é todo meu...
- O Ash andou falando de você...
- Ah, é? – ela lança um olhar reprovador para o mencionado – Espero que tenham sido coisas boas...
- Tenho amor à vida. – respondeu o rapaz.
Pikachu pulou no colo da ruiva.
- Nhaaa, que saudade de você! – ela disse, apertando o pokémon elétrico num abraço – E claro, é bom rever vocês, rapazes! – falou, sorrindo para eles.
Brock perguntou:
- Ei, Misty, as Irmãs Sensacionais estão por aí? – ele sorriu com malícia – “Sensacionais” em todos os sentidos, diferente da irmã mais nova... Huhuhu...
O rapaz mais velho mal terminou de falar e levou uma joelhada da ruiva no meio das pernas. O impacto foi tão forte que ele gemeu de dor e logo já estava no chão, com as mãos sobre o local golpeado.
Misty voltou-se para os demais e, como se nada tivesse acontecido, sorriu e convidou-os para entrar. Rindo nervosamente, morrendo de medo, eles assentiram.
Como Brock não conseguiria se locomover por algum tempo, Misty o arrastou para dentro e deixou o rapaz largado num canto qualquer do ginásio.
- Por aqui, por favor. – disse a ruiva, conduzindo Ash, Dawn e Pikachu para uma mesa, onde poderiam sentar e conversar. Os três deram uma rápida olhada em Brock, engolindo em seco.
Eles se sentaram e Misty começou a falar.
- E então? Estão só de passagem ou vão passar a noite aqui?
- Bom... Isso é com você... – Ash respondeu.
- Por mim, não tem problema. Você e o Brock podem ficar no quarto de hóspedes, e a Dawn, se não se importar, pode dormir no meu quarto.
- Se você também não se importar, tudo bem... – a outra menina disse.
- Hehe, claro que não! – ela faz uma pausa para mudar de assunto – Quer conhecer meu ginásio?
- Querer eu quero, mas... Acho que você e o Ash têm muito o que conversar.
O olhar maroto de Dawn disse tudo. Misty entendeu o recado, e corou levemente.
- Pikachu, que tal você me mostrar o ginásio?
- Pikatchú!
Então, os dois se levantaram e saíram dali.
Ash e Misty estavam de frente um para o outro.
- Hum... Eu esperava poder ficar sozinho com você, mas não esperava que fosse ser tão rápido...
- Hã?! – a ruiva se espantou ao ouvir tais palavras, ainda mais saindo da boca de Ash – P-por quê? – indagou, ficando mais corada do que já estava.
- Porque eu tenho uma coisa pra você. – ele disse, sorrindo com ar de mistério.
“Um anel de noivado!”, Misty pensou, no auge do desespero. “Não, não... Aí, já seria demais... COM CERTEZA não seria o Ash...”
- Tcharaaam! – disse o rapaz, tirando algo do bolso e mostrando a ela.
“Ai, meu Deus! Jesus, Maria, José! UMA CAIXINHA DE JÓIAS!”, ela pensou, aflita. “N-não pode ser! Isso não pode estar acontecendo! Ou pode???”
- Misty, você está bem? – Ash perguntou, vendo o quanto ela estava perturbada.
- Ah, desculpa... É a... É a emoção de te ver depois de séculos! Hohoho! – ela respondeu, tentando disfarçar o nervosismo.
- Ué, mas você estava tão bem agora há pouco...
Misty xingou Ash mentalmente.
- É efeito retardado. Nunca ouviu falar? A pessoa só sente a emoção do que aconteceu... Bom... Um tempo depois do que aconteceu. – ela respondeu, explicando como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Ah, sim!
- V-você entendeu??? – ela indagou, incrédula.
- Absolutamente nada!
A ruiva quis socá-lo, mas se conteve.
- Tá, vamos ao que interessa: toma, abre!
Cuidadosamente, Misty abriu a caixinha e finalmente descobriu o que havia ali dentro: um colar com um pequeno pingente de um boneco em formato de Ash. Ela arregalou os olhos esmeralda, fitando o objeto, e depois olhou para o aspirante a Mestre Pokémon.
- E aí, gostou? Você tinha me dado uma isca de anzol com seu formato... Então, eu quis retribuir com algo parecido... Mas sem meus amigos descobrirem...
- Uau... – ela disse, ainda admirada, retirando o colar da caixa – Obrigada, Ash...
- Posso colocar em você?
- Hein?!
- T-tá bom, desculpa... – ele disse, espantado com a cara que ela fez.
- N-não! Tudo bem!
- Ah... – ele sorriu e andou até ela, ficando em suas costas, Misty lhe deu o colar e ele pôs o objeto em torno de seu pescoço com muito cuidado.
Misty não acreditava que ele estivesse sendo tão cavalheiro.
Quando terminou, ele voltou ao seu lugar. Misty segurou o pingente com força e, fitando o rapaz, disse:
- Ash?
- Hum?
- Por acaso você... – ela hesitou em continuar, e seu olhar caiu sobre o pingente que segurava.
- Eu o quê?
- Você... – ela voltou a falar, ainda cabisbaixa – Tem pensado em mim?
- Sim.
- Com que freqüência?
- Todo dia.
Surpreendida com a rapidez das respostas e com a sinceridade emanada delas, Misty o encarou.
- E... O que... O que você sente quando lembra de mim?
- Algo que sempre senti por você, mas não sei dizer o que é. Mesmo quando a gente se separou, continuo sentindo a mesma coisa, não mudou nadinha com a distância. – Misty arregalou os olhos, perplexa, e ele prosseguiu – Brock não quis me dizer o que ele achava que poderia ser... Disse que seria mais interessante se eu descobrisse sozinho... Que raiva! Hunf...
A ruiva sentiu a face ferver por causa da conclusão a que havia chegado.
Então, ainda vermelha, ela disse, sorrindo:
- Sabe, Ash... Também tenho uma lembrancinha pra você... Mas eu esperava o momento certo pra te dar...
- Jura??? Legal! E o que é? – ele perguntou, entusiasmado.
- Há três anos eu tenho vontade de te dar isso...
Ela se levantou e sentou-se ao lado dele.
- Uau! Três anos???
- É... – seu sorriso se alargou – Fecha os olhos.
Ash obedeceu. De repente, tomou um susto ao sentir os lábios de Misty sendo pressionados contra os seus, e arregalou os olhos. Misty não se separou dele. Então, por impulso, Ash voltou a fechar os olhos e pôs a mão sobre o rosto corado de Misty. Ele próprio estava corado também.
Aquela, com certeza, seria a melhor lembrancinha que um poderia dar para o outro.
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