Lembranças de Você
10 A Revelação
― Você é uma covarde, Isabella! ― Eu me encarei no espelho do banheiro e instantes depois soltei o papel do diagnóstico na bancada. ― Mais uma semana sem contar nada para as pessoas que mais importam.
Mas também, com a correria no trabalho, de que maneira faria isso? O senhor Carlisle pediu uma ajuda com as modificações no contrato dos novos clientes da casa de shows, e eu fui obrigada a me reunir com o pessoal do jurídico várias vezes. Ou seja, mal vi o Edward e as meninas. Joguei a cabeça para trás, sem desculpas, Bela! Covarde, isso sim. Escutei o som da campainha e enruguei a testa, quem seria? Não combinei nada com ninguém.
― Aquela mulher é do capeta! ― Rosalie comentou ao passar por mim, assim que abri a porta. ― Tem alguma bebida aqui? ― Ela foi em direção a cozinha.
Eu olhei sem entender bulhufas para a Lice que balançou a cabeça e levantou os ombros, na mesma situação que a minha.
― Acreditam que ela me mandou fazer vários croquis , a semana inteira e... ― Ela parou para beber no gargalo da garrafa de vinho que encontrou na geladeira. ― Vocês vão querer? ― Antes de meter a sua boca no vidro, ela perguntou para mim e a Lice. Nós acenamos que não. ― Onde eu estava? Ah, sim... E agora, a capeta disse que de jeito nenhum irá usar os meus esboços. ― Em seguida, a Rose bebeu o resto do líquido de uma só vez. ― Nadinha! Eu me matei esses dias todos para criar algo decente para aquela marca dela. Que, convenhamos, está necessitando de um up!
Eu e a Lice nos encaramos com os olhos arregalados, do que essa garota falava, senhor? Ela pareceu respirar fundo, recuperando o ar.
― Nossa, Isabella, isso aqui tá guardado há quanto tempo? Um mês? ― Ela limpou a boca ao produzir uma careta. ― Ai, tenho que ir no banheiro ― declarou quando deixou a garrafa na pia.
Enquanto acompanhei sua cabeleira loira cruzando o corredor, encaminhando-se para o lavabo, permaneci por alguns segundos fitando o lugar vazio.
― De quem ela está falando? E o que é croquis? ― questionei a Lice.
― Acho que é da chefe dela e não sei ao certo... Aqueles desenhos que eles fazem das roupas? ― minha prima respondeu atordoada. ― Ela veio o caminho inteiro tagarelando essas coisas. ― A Lice passou as mãos pelo rosto.
E após se recuperar do furacão Rosalie Hale, ela estreitou os olhos para mim.
― E a senhorita, por acaso não possui algo para me contar, não?
― Eu? ― Ela afirmou e de repente senti minhas bochechas esquentarem.
― E aquela promessa de tirar umas folgas? Olha para você, toda pálida. Precisa se cuidar. ― Alice suspirou. ― Nós resolvemos passar aqui hoje porque estamos preocupadas, Bella. ― Ela se aproximou de mim. ― Até a mamãe ficou, já que no domingo você não apareceu para o almoço.
Nós sempre nos reuníamos aos domingos na casa dos meus tios, mas infelizmente nesse necessitei faltar. Eu acordei tão... Enjoada! Só desejava continuar deitada na minha cama.
― Depois de amanhã, certo? ― pronunciei, pensando se aproveitava para esclarecer o que realmente estava acontecendo.
― Isabella! Sua cachorra ― Rose gritou do outro cômodo e eu me assustei. O que deu nessa doida agora? ― Descobri porque ela anda agindo diferente nessas últimas semanas, Alice. ― A loira surgiu com um papel em suas mãos e eu fechei os olhos. Droga!
― E o que é? ― minha prima perguntou interessada.
― Um exame de gravidez. ― Entregou o documento para a Lice e logo cruzou os braços. ― Eu não acredito que você escondeu isso da gente esse tempo todo.
A Lice entreabriu a boca.
― Grávida!? Como? ― ela disse desnorteada.
― Ah, Alice... ― a Rose mencionou em um tom irônico. ― Você melhor do que ninguém sabe como isso ocorreu. Ou por ventura, faltou a aula de reprodução na faculdade?
― Palhaça ― minha prima respondeu revirando os olhos. ― Eu me referia aos exames que a Bella fez. Então, por isso que as suas plaquetas estavam baixas?
― Sim, o médico notou uma alteração e achou que deveria solicitar o Beta HCG. ― Suspirei, soltando o ar, como se tirasse um peso das costas. ― Me desculpem, eu ainda não assimilei a notícia. ― Balancei a cabeça. ― Um bebê? Ser mãe... ― Senti as lágrimas embaçaram meus olhos.
E, quando as palavras se sufocaram em minha garganta, as meninas vieram me abraçar. Chorei por alguns segundos, liberando todas as aflições que me consumiram por semanas.
― Não tinha a mínima ideia de que eu queria um filho até descobrir essa gravidez ― falei ao limpar o rosto com as mãos logo que nos separamos. ― Toda hora imagino se a minha mãe vivenciou os enjoos, o cansaço e essa vontade louca de chorar por qualquer coisa. Parece que estamos conectadas ainda mais uma na outra agora. É loucura, isso? ― Uma gota solitária escorreu pela minha bochecha.
― É claro que não ― a loira declarou depressa e abriu os braços, envolvendo-me em mais um abraço. ― A minha afilhada vai ser a garotinha mais estilosa do pedaço ― ela comentou sorridente.
― E a senhorita necessita se cuidar por dois. ― Alice voltou ao seu modo mãezilla. ―Vou agendar as consultas e, principalmente, melhorar a sua alimentação, já que o meu afilhado ― ela deu ênfase nessa última parte, desviando sua atenção para a Rose. ― Precisa crescer forte e saudável.
No mesmo momento, Rosalie lhe lançou um gesto debochado, mostrando a língua, mas logo em seguida a loira esbugalhou os olhos.
― Você é um gênio! ― ela pronunciou na direção da minha barriga. ― Acabei de pensar em uma coleção para crianças. ― A Rose ficou da altura do meu ventre e sussurrou: ― Aquela capetinhanão irá negar isso, não é? Mas se por acaso sim, eu mesma produzo! ― Ela sorriu contente.
― Não assusta o meu afilhado. ― Minha prima também chegou perto de mim e "pronunciou" para o bebê: ― A tia hoje não tomou o remedinho dela. Não escuta essa palavra feia.
― Acho que já é tarde demais ― eu disse zombando delas.
No mesmo instante, as duas me fitaram lentamente ao se erguerem. E agora, o que houve?
― E o Edward? Você contou para ele? ― a Rose foi a primeira a falar. Neguei com a cabeça. ― Bella! Ele merece saber. Daqui a pouco sua barriga cresce e aí? Pensa em esconder como?
― Se ela não contar, eu dou um jeito de esbarrar com ele sem querer no estacionamento ― Alice comentou decidida.
― Meninas, eu tinha que colocar as minhas ideias no lugar primeiro. Além do mais, nós estávamos nos conhecendo ainda, foram muitos anos separados e, também, eu não gostaria que ele ficasse comigo por obrigação.
― Bem, você só vai descobrir a intenção dele se revelar a notícia ― Minha prima tocou em meu ombro.
Após meia hora da saída delas, encarei reflexiva o vazio à minha frente. Novamente, Alice possuía toda a razão. Assim que deitei na cama, decidi que amanhã contaria para o Ed, esse assunto já se prolongou mais do que devia. Com isso em mente, adormeci tranquila pela primeira vez na semana.
No outro dia, tomei um café reforçado – recomendação da minha prima – e sem demorar muito me encaminhei para o trabalho. Havia uma certa ansiedade que corria o meu corpo, um frio na boca do estômago, como Edward reagiria com a notícia? Mordi o lábio inferior receosa. Eu mal tinha colocado os pés no meu escritório quando resolvi não esperar nem mais um minuto para a nossa conversa. Peguei um documento que necessitava entregar para ele e que servia como uma desculpa. As minhas mãos suavam em volta do papel assim que bati na porta. No terceiro toque, uma vez que ninguém atendeu, abri a porta. Ótimo! Logo que encontro a coragem o Ed não está. E agora? Devo retornar mais tarde?
― Melhor não! Capaz de perder essa coragem ― mencionei ao sentar em uma cadeira para aguardá-lo.
― Bella? O que você está fazendo aqui? ― Alguns segundos depois, a voz do senhor Carlisle repercutiu no ambiente e eu levantei prontamente da cadeira.
― Vim trazer uns papéis para o Ed. ― Sorri hesitante.
― Ah, então pode deixar comigo. ― Ele parecia diferente hoje, com uma alegria no seu jeito de falar.
― Certo. ― Entreguei o documento para o homem e percebi que seus olhos brilhavam. ― Aconteceu alguma coisa? Essa carinha de felicidade é por quê?
― Estou muito agraciado, menina! Radiante! ― Um sorriso se alargou em seu rosto. ― Eu irei ganhar um netinho ou netinha, mas isso não importa ― ele disse a última parte mais para si.
― Como assim? ― Enruguei a testa. ― Seu outro filho vai ser pai?
― Não. ― O senhor Carlisle achou graça do meu comentário. ― O Edward.
Meus olhos se arregalaram, espantada. Quem havia contado para ele? Eu me questionei.
― A Tanya acabou de anunciar a novidade. ― Eu pisquei várias vezes. A Tanya? ― Eu até deixei ele tirar o dia de folga.
Por um instante, permaneci sem reação enquanto ele explicava o quanto estava contente. Uma enxurrada de pensamentos cruzou a minha mente e para a minha sorte o homem não notou a minha distração. Eu parti pelo corredor atordoada, após pronunciar qualquer coisa sem sentido para ele.
No restante das horas, eu não consegui trabalhar direito, ainda meio dispersa pela revelação do senhor Carlisle. Eu só me animei um pouco por causa de uma coisa: meu descanso. Lembrei que possuía alguns dias das minhas últimas férias em haver. Acho que seria bom me afastar da empresa por agora, pois não queria encontrar o Edward com a Tanya, bancando o casalzinho do ano.
Cheguei mais cedo do que o costume em casa, já que me concentrar no serviço estava complicado. Ao pegar o meu jantar na geladeira, eu me perguntei se deveria ou não revelar para ele sobre a minha gravidez. Será que dessa vez os planos de casamento que o senhor Carlisle fez para os dois se concretizariam? Enfiei o garfo na boca e mastiguei a comida, nesse momento tinha que pensar em mim e principalmente no bebê. Por isso, para me blindar de futuras frustrações, decidi que ligaria no dia seguinte para o meu sócio e avisaria que tiraria as minhas folgas. Também mandaria uma mensagem para a Márcia, minha secretária, comunicando que ficaria fora do escritório e que qualquer coisa ela poderia me ligar.
***
As mini "férias" passaram tão rápido que senti que não havia me afastado do trabalho, talvez porque não me desliguei por completo dos problemas, tanto os profissionais quanto os pessoais. Na volta ao serviço, com um pouco das ideias no lugar, optei que por enquanto não contaria para ninguém. Até porque a gravidez estava no começo, melhor deixar passar o primeiro trimestre. Evitei o Ed pelos corredores, às vezes pedia para a minha secretária entregar alguns documentos por mim, não desejava topar com ele e muito menos com a Tanya a tiracolo.
Em um sábado, logo depois do almoço, eu assistia a um filme na televisão, na verdade, quase cochilava, quando a campainha tocou. Abri a porta presumindo ser as meninas, elas vinham com frequência checar como eu estava.
― Espero que não tenham esquecido do meu doce. Há dias eu morro de vontade... Edward? ― Minha voz se perdeu pela minha garganta.
― Oi ― ele disse sem graça. ― Posso entrar?
― Sim, claro. ― Permiti a passagem dele.
Encarei o Ed, surpresa pela sua visita, assim que ele se encaminhou para o meio da sala
― Você sumiu, não nos falamos mais. ― Edward coçou a nuca. ― Acho que faz mais de um mês. ― Realmente, eu inclusive parei de responder suas mensagens.
― Precisei tirar alguns dias de folga. Mas eu soube da novidade, Tanya está grávida, parabéns? ― Ele suspirou, cansado.
― Eu nem sei se quero esse filho. ― Eu apertei os lábios, reprimindo um murmúrio. ― Eu pensei que retomaria as rédeas da minha vida agora. Estava disposto a... ― Edward se aproximou de mim, a centímetros de distância. ― Enfrentar o meu pai, lutar pela gente. ― Suas mãos seguraram o meu rosto.
― E por que desistiu?
― Com essa notícia, é complicado. ― Ele fechou os olhos e em seguida encostou sua testa na minha.
― Então simplifica.
― Não posso. ― Senti que ele puxou o ar dos pulmões, lentamente.
Afastei-me de seus braços, sou eu que não consigo me envolver mais nisso. Balancei a cabeça, chega! Impossível tentar ajudar alguém que não deseja colaborar.
― O seu pai não tem cara de quem é tão antiquado desse jeito ― pronunciei ao caminhar até a cozinha. ― Quer um chá? ― perguntei de costas ao pegar a chaleira, necessitava de algo para me acalmar já que meus hormônios se alteraram com essa conversa toda.
― Quero, obrigado. E não, ele não é mesmo. ― Enruguei a testa enquanto colocava a água para ferver. ― Apenas é teimoso, quando cisma com uma coisa, difícil voltar atrás. Eu sou o filho mais velho, suas expectativas sobre mim sempre foram gigantes.
― O que há de errado com o Henrique? ― Sentei na banqueta para esperar pela água.
― Não dá para contar com ele. De maneira nenhuma. ― Edward chegou perto dos meus porta-retratos.
Olhou para as prateleiras que eu montei na parede, cheia de fotos minhas, das meninas, dos meus tios e dos meus pais. Ele parecia desnorteado, com uma expressão desolada. E, logo depois que a chaleira apitou, eu me levantei para preparar o chá. Assim que retornei para o meu lugar, ele se acomodou do outro lado da bancada de mármore.
― Estou apavorado. Meu pai começou a planejar o casamento. ― Entreguei uma caneca para o Ed. ― Eu tenho vontade de largar tudo e sumir. ― Deixou escapar um riso nervoso.
― Mas você sabe que isso não irá resolver o problema, certo? ― Bebi um pouco do meu chá de camomila e ele acenou concordando.
Permanecemos em silêncio à medida que ingeríamos o líquido quente.
― Bella ― o Edward me chamou quando estávamos terminando o chá. ― Nós poderíamos sair qualquer dia? Voltar a se encontrar? ― ele disse ao mexer em sua caneca, consumido pelos seus pensamentos.
― Acho que não é uma boa ideia. ― Eu seria a sua amante!? ― E pelo jeito você já fez a sua escolha.
Quando nos despedimos, o adeus que saiu por sua boca me causou um abatimento. Meus olhos se marejaram e logo tratei de fechar a porta. Aquela noite, eu me permiti chorar tudo o que precisava e prometi que não derramaria mais nenhuma lágrima por Edward. Se eu não fui uma prioridade para ele, imagina esse bebê? Eu havia o perdido e dessa vez não teria volta.
Nos dias seguintes, continuei evitando o Ed, para o meu próprio bem. Entretanto, não fui capaz de me livrar de algumas reuniões que nos convocaram essa semana e em uma dessas ocasiões, eu esbarrei nele, literalmente, no corredor. Enquanto as folhas voavam para todos os lados, repensei sobre a sua proposta. Estava pensando nela desde que o avistei na sala, analisando a nossa situação. Talvez fossem os hormônios falando por mim, mas não gostaria de me afastar dele, pelo menos poderíamos manter uma amizade, certo?
― Eu aceito ― respondi assim que ele me entregou os documentos após a nossa colisão.
― Aceita? O quê? ― Edward me olhou confuso.
― Sair com você qualquer dia. ― Eu me surpreendi com as minhas palavras, elas simplesmente escaparam. ― Mas sem segundas intenções, como amigos. ― Que mal teria isso, certo?
― Ah, que bom, Bella! ― Ele me abraçou empolgado. ― Estava com saudades de você. ― Sussurrou baixinho perto do meu ouvido.
― Estou atrapalhando alguma coisa? ― Escutei a voz da Tanya interromper o momento e eu me separei do Edward rapidamente.
― Claro que não ― eu disse no mesmo instante, impactada com a velocidade do meu raciocínio.
― Ótimo! Então pelo visto o Ed contou a novidade para você. ― Eu ameacei confessar que sabia sobre a gravidez, porém o que ela revelou me deixou ainda mais abalada. ― Em um mês nós vamos nos casar! ― A garota se apoiou no ombro dele, muito contente.
― Para, Tanya! Não começa ― o Ed falou logo depois. ― Nós já conversamos sobre a nossa situação, eu já te expliquei muitas coisas.
― Eu não me importo com o motivo, apenas que você irá se casar comigo. ― Ela olhou para mim e sorriu triunfante. ― Aliás, temos que discutir algumas coisas. Andei vendo a decoração e quero saber a sua opinião. ― Ela passou a mão em volta do braço dele, carregando-o para longe.
Eu fiquei parada igual a uma estátua, a boca entreaberta, zonza pela notícia. Consegui retornar para a minha sala a passos lentos, refletindo se eu deveria ter aceitado essa proposta. Pois, no final quem sairia machucada dessa história, seria eu. A Lice possuía toda a razão.
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