Notas iniciais
Se você chegou até aqui… respira fundo comigo. Porque esse capítulo não é sobre grandes acontecimentos. Não tem explosões, nem declarações, nem reviravoltas óbvias, mas tem algo muito mais perigoso e tem começo. Sabe aquele momento em que tudo ainda parece simples… mas no fundo você sente que não é mais? Que alguma coisa mudou, mesmo que ninguém tenha dito nada em voz alta? É aqui que a história começa a sair do controle ,o Edward ainda acha que está jogando, a Bella ainda acha que está segura e você, meu querido leitor...Bom, você já percebeu, não é? Então me diz, em que momento você acha que isso deixou de ser só uma aposta?

🌧️ Capítulo 5

A chuva voltou durante a madrugada.

Não forte o suficiente para acordar a cidade, mas constante o bastante para transformar tudo em um fundo cinzento silencioso que parecia se infiltrar pelas paredes, pelos pensamentos, pelas pequenas brechas onde a mente insistia em não descansar. Em Forks, a chuva nunca era apenas um detalhe, ela era presença. E, naquela manhã, Bella Swan a sentia de uma forma diferente, como se cada gota que escorria pela janela do quarto estivesse, de alguma forma, acompanhando o ritmo irregular dos próprios pensamentos.

Ela estava acordada há mais tempo do que gostaria de admitir.

Deitada de lado, observando o teto, com o cobertor puxado até o queixo, tentando convencer a si mesma de que não havia nada ali que merecesse tanta atenção. Não era como se algo realmente tivesse acontecido. Não de verdade. Um toque. Um olhar. Um quase.

Nada.

E, ainda assim, ela virou o rosto lentamente, encarando a janela.

Edward Cullen.

O nome apareceu sem esforço.

E isso, por si só, já era um problema.

Bella fechou os olhos com força por um breve segundo, como se pudesse empurrar aquele pensamento para longe apenas com vontade, como sempre fazia com qualquer coisa que ameaçasse sair do controle, mas aquilo não funcionou.

Porque Edward não era algo que pudesse ser simplesmente ignorado e isso a irritava.

— Ótimo — murmurou baixo, passando a mão pelo rosto antes de finalmente se levantar.

A cozinha estava silenciosa quando Bella desceu, exceto pelo som familiar da televisão ligada na sala, onde Charlie já estava acomodado, assistindo a algum programa esportivo matinal com a atenção típica de quem transformava aquilo em um ritual quase sagrado. O cheiro de café recém-passado preenchia o ambiente, quente e reconfortante, contrastando com o frio úmido que vinha de fora.

Bella passou por ele, pegando uma xícara sem dizer nada.

— Dormiu mal? — Charlie perguntou, sem desviar completamente os olhos da televisão.

Ela hesitou por um segundo.

— Mais ou menos.

Charlie assentiu lentamente, como se aquela resposta confirmasse algo que ele já suspeitava.

— Escola?

— Sempre.

Ele soltou um pequeno resmungo.

— Se alguém estiver te incomodando…

— Eu sei, pai — interrompeu ela, com um leve suspiro, mas sem irritação real.

Charlie finalmente olhou para ela.

E, por um instante, ficou em silêncio.

Observando.

— Tem certeza que é só isso?

Bella desviou o olhar.

— Tenho.

Não era mentira.

Mas também não era verdade completa e Charlie percebeu.

Mas, como sempre, escolheu não insistir.

A garagem de Alice estava um caos organizado.

Ferramentas espalhadas, pedaços de madeira encostados nas paredes, fios, cola quente, tinta — tudo misturado em uma bagunça que, de alguma forma, fazia sentido dentro da lógica de Alice. A maquete começava a ganhar forma no centro da mesa improvisada, com trilhos desenhados e pequenas elevações já montadas, enquanto Jasper trabalhava com uma precisão cuidadosa na base estrutural.

Bella estava ajoelhada ao lado da mesa, ajustando a inclinação de uma das rampas, completamente concentrada.

Edward estava parado do outro lado.

Observando, de novo, mas, dessa vez… diferente.

— Se a gente aumentar muito a altura aqui, o carrinho vai ganhar velocidade demais — disse Bella, sem levantar o olhar — E vai sair do trilho.

— Então a gente reforça a curva — respondeu Edward, aproximando-se.

Ela olhou para ele, por um segundo.

— Ou a gente ajusta o ângulo.

Silêncio.

Curto.

— Também funciona — ele respondeu, com um leve sorriso.

Alice apareceu ao lado deles, segurando um pincel.

— Eu voto em algo bonito.

— Não é sobre ser bonito — Bella disse automaticamente.

— Tudo é sobre ser bonito — Alice rebateu.

Jasper riu baixo.

— A gente pode fazer os dois.

Bella suspirou.

— Tudo bem.

Edward observava aquela dinâmica com uma atenção que começava a incomodar ele mesmo.

Ela era diferente ali, mais solta e leve.

E isso, chamava atenção mais do que deveria.

Em algum momento, Alice desapareceu dentro de casa.

Jasper foi atrás de mais ferramentas e, de repente, eles estavam sozinhos.

O silêncio não era desconfortável.

Mas também não era simples.

Edward apoiou as mãos na mesa, observando o pequeno carrinho que Bella ajustava com cuidado.

— Você sempre sabe exatamente o que tá fazendo?

Bella deu um pequeno sorriso de lado.

— Só quando finjo bem.

Ele soltou um riso baixo.

— Não parece fingimento.

Ela deu de ombros.

— Parece pra mim.

O Silêncio era diferente agora, mais calmo, mais próximo.

Edward inclinou levemente a cabeça.

— Por que você se esconde tanto?

Bella parou.

A pergunta ficou no ar, pesada.

Ela não respondeu imediatamente.

Apenas voltou a mexer no carrinho, como se aquilo fosse mais importante.

— Eu não me escondo.

— Se esconde sim.

Ela levantou o olhar.

— E você se importa por quê?

Boa pergunta, ele não tinha resposta.

— Eu não sei — disse, sincero pela primeira vez.

E isso… surpreendeu os dois.

Bella sustentou o olhar por mais tempo do que o normal.

— Talvez eu só não goste de gente demais — respondeu por fim, mais baixa.

— Ou talvez você só não goste de ser vista.

Ela desviou o olhar, ficou em silencio e não negou.

O celular de Edward vibrou no bolso.

Ele ignorou.

Vibrou de novo.

Ele pegou.

Mensagem de Emmett.

“Já comeu?”

O mundo voltou, de forma abrupta, pesada e muito errada.

Edward travou por um segundo, o maxilar tensionando levemente enquanto o olhar caía de volta para Bella, que ainda estava ali, completamente alheia ao que acabara de atravessar a realidade dele.

Aquilo…

Aquilo não encaixava.

— Problema? — Bella perguntou, observando a mudança sutil.

Edward bloqueou o celular.

— Não.

Mas era, e dos grandes.

Mais tarde, quando Bella foi embora e o silêncio voltou a ocupar o espaço que antes era preenchido pela presença dela, Edward permaneceu encostado na mesa, olhando para a maquete como se aquilo fosse, de alguma forma, explicar algo que ele ainda não entendia completamente.

Jasper voltou primeiro.

Parou ao lado dele, observou.

— Você tá ferrado, mano — disse, simples.

— Nem tanto.—Edward soltou um riso curto.

Jasper balançou a cabeça.

— Já começou.

Edward não respondeu!, porque, no fundo ele sabia a verdade.

Naquela noite, Bella estava deitada novamente, olhando para o teto.

E dessa vez era diferente, porque o pensamento não era mais evitado.

Era permitido e isso era perigoso, muito mais do que ela estava disposta a admitir.

E, pela primeira vez desde que aquela aposta começou, Edward Cullen não estava mais jogando sozinho e talvez nem estivesse mais jogando.


A noite já havia caído completamente quando Edward estacionou o carro na frente da casa, o motor sendo desligado com um clique seco que pareceu mais alto do que realmente era no silêncio ao redor. A chuva havia voltado, fina e constante, desenhando linhas irregulares no para-brisa enquanto as luzes da varanda iluminavam a entrada com um tom amarelado e acolhedor que contrastava com o frio úmido do lado de fora. Por alguns segundos, ele não se moveu. Permaneceu ali, com as mãos ainda apoiadas no volante, os olhos perdidos em um ponto qualquer à frente, como se estivesse tentando organizar pensamentos que insistiam em não se alinhar.

Aquilo não era normal, não para ele.

Edward soltou um suspiro baixo, passando a mão pelos cabelos antes de finalmente abrir a porta e sair do carro, sentindo imediatamente o frio atingir a pele. A água da chuva começou a se infiltrar pelas mangas da jaqueta enquanto ele subia os poucos degraus da varanda, mas ele mal percebeu. Sua mente ainda estava presa em outro lugar. Em uma garagem bagunçada. Em uma maquete improvisada. Em uma garota que não deveria estar ocupando aquele espaço.

Quando abriu a porta, o cheiro familiar da casa o envolveu imediatamente, café, madeira, algo doce vindo da cozinha, uma combinação que sempre esteve ali, constante, como se fosse uma tentativa silenciosa de manter tudo no lugar, de manter as coisas funcionando apesar de tudo.

A luz da cozinha estava acesa e , como ele já esperava sua mãe, esme estava lá.

Ela estava encostada na bancada, organizando algumas coisas com movimentos tranquilos, quase automáticos, mas levantou os olhos assim que ouviu a porta, o olhar se suavizando imediatamente ao encontrar o filho.

— Chegou tarde — disse ela, com a voz calma, observando-o enquanto ele caminhava para dentro.

— Tava resolvendo o trabalho da escola — respondeu Edward, tirando a jaqueta e passando a mão pelos cabelos molhados.

Esme inclinou levemente a cabeça.

Observando.

Mais do que escutando.

— Trabalho da escola… — repetiu ela, como se testasse a palavra — isso é novidade para você.

Edward soltou um riso curto, sem muita energia.

— Acontece...

Ela não respondeu de imediato. Apenas continuou olhando para ele por mais alguns segundos, com aquela atenção silenciosa que ele conhecia bem demais, o tipo de olhar que não buscava respostas diretas, mas percebia tudo que estava sendo evitado.

— Tem alguma coisa diferente — disse ela por fim, apoiando as mãos na bancada.

Edward desviou o olhar, abrindo a geladeira sem realmente procurar nada.

— Não tem nada.

Esme não se moveu.

— Tem sim...Eu conheço meu filho...

O silêncio se instalou por alguns segundos, preenchido apenas pelo som leve da chuva batendo contra as janelas.

Edward fechou a geladeira devagar, apoiando as mãos na porta por um instante antes de se virar, como se estivesse decidindo se valia a pena responder ou simplesmente ignorar.

Mas, pela primeira vez ele não ignorou.

—Sabe mãe, eu conheci uma garota — disse, sem olhar diretamente para ela.

A frase ficou no ar, simples, mas carregada e Esme não conteve o pequeno sorriso que surgiu.

— Eu imaginei que poderia ser isso— respondeu, com uma leveza que parecia quase divertida.

Edward passou a mão pela nuca, visivelmente desconfortável.

— Não é nada de mais, não temos nada...

— Claro que não é — disse ela, com uma calma que denunciava exatamente o contrário.

Ele soltou um suspiro.

— É só… uma garota da escola, mãe.

Esme deu alguns passos na direção dele, parando a uma distância confortável, o olhar ainda atento, mas agora mais suave.

— E qual é o nome dessa “garota da escola”? — perguntou, cruzando os braços de maneira leve.

Edward hesitou por um segundo.

— Bella.

O nome saiu mais baixo do que ele pretendia.

— Bella… — repetiu Esme, como se experimentasse o som — Bonito nome.

Edward não respondeu e isso foi resposta suficiente.Ela observou o rosto dele por alguns segundos, analisando cada pequena mudança de expressão, cada micro reação que ele nem percebia que demonstrava e então sorriu, dessa vez, de verdade.

— Eu não preciso nem perguntar — disse ela suavemente.

Edward franziu levemente a testa.

— Perguntar o quê?

— Nada — respondeu ela, dando de ombros de leve — Só de olhar pra você eu já sei que tem alguma coisa diferente.

Ele soltou um riso baixo, meio desacreditado.

— Você tá viajando, Dona Esme.

— Não estou— ela rebateu com tranquilidade — Seus olhos mudaram...

O silêncio voltou, mas dessa vez mais denso e Edward desviou o olhar novamente.

— Não muda nada.

— Muda sim — disse Esme, com uma firmeza gentil — Você só ainda não percebeu.

Ele passou a mão pelo rosto, claramente irritado com o rumo da conversa.

— Não é nada sério,mãe.

— Não precisa ser — respondeu ela — Ainda.

Aquilo o fez olhar para ela de novo, por um segundo e havia algo ali.

Algo que ele não sabia nomear.

— Ela é filha do xerife Swan — disse de repente, como se aquilo explicasse tudo.

Esme ficou em silêncio por um breve instante e então… riu.

Não alto, mas o suficiente.

— É, meu filho… — disse ela, balançando levemente a cabeça —Essa vai ser difícil.

Edward arqueou uma sobrancelha.

— Por quê?

Ela o olhou com um sorriso que misturava diversão e uma verdade quase óbvia.

— Porque o pai dela te odeia.

Edward soltou um pequeno riso.

— Isso não é novidade.

— Não mesmo — continuou Esme, com leve ironia — E, convenhamos, ele tem motivos.

Edward bufou baixo, desviando o olhar.

— Eu nem fiz nada.

— Ainda — ela completou, erguendo levemente as sobrancelhas.

Ele não respondeu.

Porque sabia.

Sabia que ela estava certa.

— Só tenta… não estragar isso — disse Esme, mais suave agora, dando um passo para trás — Seja lá o que for.

Edward ficou em silêncio com os olhos voltando para o chão por um segundo, pensando de verdade.

Algo raro e, pela primeira vez desde que tudo começou…

A aposta não parecia mais tão importante, nem tão simples e isso era o começo do problema.