Lembranças de Nós Dois
19 Exile
Notas iniciais
🌙 Capítulo 19 — exile
Forks parecia ter se transformado em uma fotografia em tons de sépia, desbotada e sem vida. A passagem do tempo não era mais medida por horas ou dias, mas pelo acúmulo de poeira nas capas dos livros de Bella e pelo crescimento da grama úmida no jardim dos Swan. O mundo continuava a girar lá fora, mas dentro daquela casa, o relógio havia parado no momento exato em que o osso se partira na escada e o coração se estilhaçara no corredor. Dois meses se passaram como um borrão de névoa e silêncio. Para Bella, a depressão não era um grito; era um peso mudo, uma névoa densa que se instalara em seus pulmões, tornando cada respiração um esforço consciente.
Ela passava a maior parte do dia sentada na poltrona perto da janela, com a perna engessada apoiada em um banquinho, os olhos fixos na linha das árvores que delimitavam o horizonte. Ela não queria música, pois cada nota parecia carregar o eco de uma risada de Edward; não queria ler, pois as palavras se transformavam em termos de contratos e apostas; e, acima de tudo, não queria o seu celular. O aparelho jazia descarregado em uma gaveta, escondendo as centenas de mensagens não lidas que ela sabia que estavam lá. O seu quarto tornara-se um mausoléu de uma vida que ela não reconhecia mais. As flores que Edward enviara para o hospital haviam apodrecido no lixo há semanas, mas o cheiro de pinho e chuva ainda parecia impregnado nos lençóis, fazendo-a chorar silenciosamente durante o banho, tentando esfregar a própria pele até que ela ficasse vermelha, na esperança vã de remover o rastro de um homem que a amara por esporte. Ser enganada doía como uma queimadura, mas continuar amando Edward Cullen, mesmo após a humilhação, doía como uma amputação feita sem anestesia.
Charlie Swan observava a filha da fresta da porta, sentindo o próprio peito se comprimir em uma agonia que ele não sabia como nomear. Ele passara meses odiando a influência de Edward sobre Bella, mas ver a filha agora era perceber que ela não havia apenas terminado um namoro adolescente; ela estava em luto por alguém que ainda respirava. A casa, antes preenchida pelo som das conversas de Bella com Alice ou pelas risadas tímidas que ela soltava ao telefone, agora era um túmulo de silêncio. Charlie sentia a culpa corroê-lo por ter desejado o fim daquele relacionamento; ele percebia, com uma clareza tardia e dolorosa, que Edward Cullen fora o único capaz de fazer Bella Swan florescer de verdade. Ver a filha recusar a comida, encarar o vazio por horas e murchar diante de seus olhos era pior do que qualquer crime que ele já tivesse investigado. Ele percebia que Bella não estava apenas triste; ela estava sumindo.
Do outro lado da cidade, na mansão de vidro dos Cullen, Edward era pouco mais que uma sombra. Ele não frequentava mais as aulas, ignorando os apelos silenciosos de Carlisle e a preocupação constante de Esme. Ele passava noites inteiras dentro do Volvo prateado, dirigindo sem destino pelas estradas vicinais de Forks, ou simplesmente estacionado em clareiras desertas, encarando o pingente de coração amassado que agora carregava no bolso. Ele não tentava mais se explicar para ninguém, nem mesmo para si mesmo. A culpa se tornara sua única companheira, uma presença gélida que o lembrava, a cada batida do coração, de que ele havia destruído a única coisa pura que já possuíra. Ele olhava para as fotos antigas em seu celular, para as mensagens onde Bella dizia que ele era seu lugar seguro, e sentia o gosto amargo da ironia. Ele fora o incêndio que queimara o porto seguro dela.
Alice Brandon sentia o colapso de seu círculo social como se fosse físico. Ela perdera a melhor amiga, e o silêncio de Bella era uma ferida aberta em seu dia a dia. Ela chorava no peito de Jasper todas as noites, lamentando a ruína de algo que ela acreditava ser eterno. Jasper, geralmente o pilar de calma, estava no limite de sua paciência. Em uma tarde chuvosa no estacionamento da escola, ele finalmente explodiu com Emmett McCartney, que permanecia encostado em seu Jeep com uma expressão de arrependimento tardio.
— Você chamou isso de brincadeira, Emmett — Jasper sibilou, a voz vibrando de uma fúria contida que fez os alunos ao redor se afastarem. — Você colocou um preço na dignidade de uma garota e no coração do seu melhor amigo. Olha o que sobrou deles agora. Olha para o Edward, ele parece um cadáver ambulante, e a Bella... a Bella nem sai mais da cama. Espero que os dois mil dólares tenham valido a pena, porque você ajudou a destruir duas vidas. — Emmett não respondeu; ele apenas baixou a cabeça, o peso do que fizera finalmente esmagando sua consciência. Ele não pretendia ser vilão, mas percebia que a negligência e a imaturidade podiam ser tão letais quanto a malícia.
A chuva caía em cortinas pesadas quando Edward estacionou o Volvo a uma quadra da casa dos Swan. Ele não tinha o direito de estar ali, ele sabia, mas a necessidade de estar perto de Bella, de respirar o mesmo ar úmido que ela, era uma fome que ele não conseguia saciar. Ele ficou parado dentro do carro, observando a janela do andar superior, onde uma luz pálida denunciava que ela ainda estava acordada, provavelmente encarando o nada, como ele fazia.
A porta da frente da casa se abriu e Charlie Swan saiu, vestindo apenas uma camiseta e jeans, ignorando a chuva que o encharcava em segundos. Ele caminhou até o carro de Edward e bateu no vidro. Edward o baixou, o rosto pálido e os olhos vermelhos sendo iluminados pela luz interna do veículo. Os dois se encararam por um longo tempo, o xerife e o rapaz que ele agora desprezava, mas em quem também via um sofrimento espelhado.
— Você devia ir embora, Edward — Charlie disse, a voz cansada, desprovida de sua agressividade habitual. Havia apenas uma tristeza profunda em seu tom. — Não por mim, nem por você. Por ela. Porque toda vez que ela olha por aquela janela... ela ainda procura você. E cada vez que ela percebe que você está lá, a ferida abre de novo. Se você a ama um décimo do que diz, dê a ela o silêncio que ela precisa para tentar sobreviver ao que você fez.
Edward engoliu em seco, as lágrimas se misturando à água da chuva que entrava pela janela. Ele não tinha argumentos. Ele apenas assentiu, sentindo como se sua alma estivesse sendo arrancada.
— Eu sinto muito, Charlie. Eu daria qualquer coisa para voltar atrás.
— Mas você não pode, garoto— Charlie respondeu, virando as costas e voltando para a casa.
No andar de cima, Bella estava encostada no vidro frio da janela. Ela vira o Volvo prateado chegar. Vira o pai conversar com ele. Ela vira Edward, mesmo na penumbra e através da chuva, e seu coração dera um salto doloroso antes de se afogar em mágoa novamente. Quando o motor do carro roncou e os faróis cortaram a escuridão enquanto ele se afastava, ela não chamou. Ela não correu. Ela apenas observou o rastro vermelho das lanternas traseiras sumir na neblina, sentindo um vazio que parecia maior do que o próprio universo. Ela chorou desesperadamente, apertando as próprias mãos contra o peito, pois o amor ainda estava lá, pulsando sob a traição, transformando aquele exílio na tortura mais refinada que o destino já criara. Eles eram o amor da vida um do outro, e agora eram apenas dois estranhos habitando as ruínas de um paraíso que não suportara o peso de uma mentira.
Edward dirigiu de volta para a mansão de vidro sob o peso das palavras de Charlie, o silêncio do carro sendo apenas interrompido pelo som intermitente dos limpadores de para-brisa. Ao entrar, encontrou Carlisle no escritório, cercado pelo conforto morno de milhares de livros e a luz suave de um abajur de leitura. O patriarca não precisou de palavras para entender o estado do filho; a postura de Edward exalava uma derrota que nenhum curativo poderia sanar.
— Eu a perdi, pai — Edward sussurrou, desabando na poltrona de couro à frente da mesa de Carlisle. — E o pior não é a perda em si, é saber que eu dei a ela todos os motivos para me odiar. Ela me olha e vê um monstro que colocou um preço no amor dela.
Carlisle ouviu em silêncio, a expressão carregada de uma compaixão profunda. Ele se levantou, caminhou até um pequeno cofre embutido na parede e retirou uma pequena caixa de veludo azul-marinho. Ele a colocou sobre a mesa, entre ele e o filho.
— Este anel pertence à nossa família há três gerações, Edward. Sua mãe e eu sempre soubemos que ele seria seu quando encontrasse alguém que desse sentido à sua vida — Carlisle disse, empurrando a caixa suavemente. — Eu vi você mudar. Vi você se tornar um homem que não busca apenas o prazer, mas a redenção. O que você fez foi um erro juvenil, mas o que você sente por ela é a coisa mais real que já vi em você. Não desista da Bella, mas não tente convencê-la com palavras. Mostre a ela o que você está disposto a construir sobre as ruínas do que quebrou. Faça a coisa certa para o seu coração.
Edward abriu a caixa. O diamante lapidado em formato de gota brilhou sob a luz do abajur, uma promessa de eternidade que parecia pesada demais para as suas mãos manchadas. Ele fechou os olhos, respirou fundo e, pela primeira vez em semanas, sentiu uma centelha de determinação em meio às cinzas.
Vinte minutos depois, o Volvo prateado estava novamente parado diante da casa dos Swan. Edward não esperou no carro desta vez. Ele caminhou sob a chuva, os ombros tensos, e bateu na porta. Charlie abriu, a expressão ainda cansada, mas ao ver o rosto de Edward,não o rosto do rapaz insolente, mas o de um homem desesperado por uma chance de conserto, algo no xerife cedeu.
— Eu disse para você ir embora, Cullen — Charlie murmurou, mas abriu a porta para que ele entrasse.
— Eu não posso, Charlie. Eu tentei, mas eu morro um pouco mais a cada quilômetro que me afasto dela — Edward desabafou, a voz embargada enquanto a água escorria de seu cabelo para o chão da sala. — Eu preciso que o senhor saiba a verdade. A aposta existiu, e eu fui um imbecil por ter aceitado. Mas durou três dias. Depois disso, o que eu senti por ela se tornou o ar que eu respiro. Eu não queria os dois mil dólares, eu queria ela. Eu quero casar com a sua filha, Charlie. Eu quero dar a ela uma vida onde ela nunca mais precise duvidar do seu valor. Eu quero viver cada segundo do resto dos meus dias provando que eu sou o homem que ela conheceu, e não o garoto daquele corredor.
Charlie observou o rapaz. Ele viu a sinceridade crua, a dor física que Edward sentia ao falar de Bella. O xerife suspirou, colocando a mão no ombro de Edward com um toque que não era mais de ameaça, mas de um pai que entende a dor de outro coração.
— Ela está lá em cima, garoto. Ela não parou de chorar desde que você saiu — Charlie disse, a voz suave. — Eu vou subir e falar com ela. Vou pedir que ela te ouça. Mas se você a magoar de novo... não haverá lugar no mundo onde você possa se esconder de mim.
Edward assentiu, os olhos marejados.
— Obrigado, Xerife...
Charlie subiu as escadas lentamente. Edward ficou na sala, o coração martelando contra as costelas, segurando a caixinha de veludo no bolso como se fosse um amuleto de sobrevivência. Alguns minutos depois, Charlie apareceu no topo da escada e apenas assentiu, indicando que ele podia subir. O caminho até o quarto de Bella parecia a subida de um calvário, mas ao abrir a porta e vê-la ali, pequena e frágil sob as cobertas, Edward soube que não importava o quanto doesse; ele lutaria por aquele exílio até que ele se transformasse, novamente, em lar.
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