Lembranças de Nós Dois
2 Delicate
A chuva em Forks parecia nunca terminar.
Naquela madrugada, ela caía com mais força do que o normal, batendo contra o para-brisa do Volvo prateado como se estivesse tentando apagar o mundo do lado de fora. A estrada estreita era recortada pelos faróis do carro, revelando por breves segundos as árvores escuras que cercavam a cidade, antes de tudo voltar a ser apenas sombra e água.
Dentro do veículo, o clima era completamente oposto.
Risos altos. Vozes sobrepostas. O som do rádio quase no máximo.
Edward Cullen dirigia com uma facilidade quase irresponsável, os dedos firmes no volante enquanto ignorava completamente o asfalto molhado sob os pneus.
No banco do passageiro, Emmett segurava uma garrafa quase vazia de cerveja, balançando-a no ar enquanto ria sem qualquer preocupação com o horário ou com o fato de que estavam voltando de mais uma confusão.
— Eu ainda não acredito que você fez aquilo.
No banco de trás, Jasper apoiava a cabeça contra o vidro, observando a chuva escorrer em filetes.
— Ele não fez nada — respondeu com calma. — Você que começou aquela briga.
Emmett soltou uma gargalhada.
— O cara estava olhando torto.
— Ele estava olhando para a televisão.
Edward deixou escapar um pequeno sorriso de lado, sem tirar os olhos da estrada.
— Vocês dois são idiotas.
Emmett se inclinou para frente, apoiando o braço no encosto do banco.
— Admito que valeu a pena ver a cara do dono do bar quando a polícia chegou — disse, rindo.
Edward soltou um suspiro curto.
— O Swan não achou tão engraçado.
— Aquele homem tem um problema sério com você — acrescentou Emmett, dando mais um gole na cerveja.
Edward não respondeu.
Mas o jeito como seus dedos apertaram o volante por um instante disse o suficiente.
O xerife Charlie Swan não era exatamente fã dele.
Na verdade, ninguém em Forks parecia ser.
Edward Cullen tinha dezessete anos e uma reputação que chegava antes dele em qualquer lugar. Bebia demais, brigava demais, testava limites como se estivesse esperando que algo finalmente o fizesse parar.
Ainda não tinha acontecido.
E, naquela madrugada, não tinha sido diferente.
Quando as primeiras casas começaram a surgir entre as árvores, Edward reduziu a velocidade e virou na entrada da própria casa. O carro parou diante da grande residência branca, silenciosa demais para aquela hora.
Os três saíram sob a chuva.
A água fria atingiu imediatamente a pele, encharcando roupas e cabelos, mas nenhum deles pareceu se importar.
Edward subiu os degraus da varanda e abriu a porta.
O cheiro de café o atingiu antes mesmo que ele cruzasse completamente a entrada.
Ele já sabia.
Dr. Carlisle Cullen, seu pai, estava acordado.
E, como esperado, ele estava.
Sentado à mesa da cozinha, com uma xícara nas mãos, como se o tempo simplesmente não tivesse passado, e com aquele olhar julgador de sempre.
O silêncio entre os dois foi imediato.
Pesado.
— Delegacia de novo — disse Carlisle, sem alterar o tom.
Edward passou a mão pelos cabelos molhados.
— Não foi nada demais — respondeu, com desdém.
Carlisle o observou com atenção.
— Para você, talvez.
Ele arqueou levemente a sobrancelha antes de se levantar e caminhar até o filho.
— Você foi detido por briga em um bar.
— Não fui preso — Edward respondeu, soltando um riso curto.
— Porque eu fui chamado.
Edward desviou o olhar por um instante.
— Você tem dezessete anos, Edward.
— Eu sei contar.
— Então comece a agir como alguém que entende as consequências das próprias escolhas.
Edward soltou uma risada breve, sem humor.
— Isso é uma palestra?
— É preocupação — disse Carlisle, sustentando o olhar firme.
— Engraçado.
O silêncio que veio depois carregava mais tensão do que qualquer grito.
Antes que a discussão se prolongasse, passos leves surgiram no corredor.
Esme apareceu.
E tudo mudou.
Ela caminhou até Edward com cuidado, como se soubesse exatamente onde não tocar.
— Você está machucado — disse, tocando o rosto dele.
— Só um arranhão.
— Ainda assim.
Ela limpou o corte com delicadeza, os movimentos calmos contrastando com tudo que Edward carregava por dentro.
Ele não resistiu.
Nunca resistia a ela.
— Tente dormir um pouco — disse ela, suavemente.
Edward assentiu, sem olhar novamente para o pai, e subiu as escadas.
A discussão ficou para trás.
Mas não desapareceu.
A manhã chegou rápido demais.
O céu continuava cinzento quando Edward estacionou o carro no estacionamento da escola. Assim que saiu, os olhares vieram como sempre.
Alguns curiosos.
Outros interessados.
Outros cautelosos.
Edward ignorou todos.
Emmett e Jasper já estavam esperando perto da entrada.
— O herói chegou — disse Emmett.
Edward ergueu uma sobrancelha.
— Sobrevivi.
Os três entraram juntos.
E, como sempre, o corredor abriu caminho.
Bella Swan caminhava ao lado de Alice, tentando se concentrar na conversa enquanto saíam da aula de biologia.
O barulho ao redor era constante — portas de armários batendo, vozes, risadas — tudo misturado em um fundo que Bella já tinha aprendido a ignorar.
— Cinco páginas, Bella — reclamou Alice.
Bella fez uma leve careta.
— Você escreve três e aumenta o espaçamento.
Alice riu.
— Você é perigosa.
Bella quase sorriu.
Quase.
Foi então que ela viu o grupo.
Tanya Denali.
Jessica.
Lauren.
E um copo grande de frozen vermelho.
Por um segundo, Bella soube.
Antes mesmo de acontecer.
— Olha quem apareceu — disse Tanya, dando um passo à frente.
Bella tentou continuar andando.
Mas não deu tempo.
O líquido frio atingiu seu peito com força.
O choque foi imediato.
Gelado.
Pegajoso.
O corredor inteiro pareceu parar.
Bella olhou para baixo.
Manchas vermelhas escorriam pelo moletom cinza.
Alice deu um passo à frente, indignada.
— Você fez isso de propósito!
Tanya levantou as mãos, fingindo surpresa.
— Foi um acidente.
As risadas vieram.
Baixas.
Cortantes.
Bella respirou fundo.
— Está tudo bem.
— Bella—
— Eu vou ao banheiro.
E saiu.
Sem olhar para trás.
O espelho do banheiro não foi gentil.
O tecido estava completamente encharcado, a mancha espalhada de forma impossível de ignorar.
Bella soltou um suspiro baixo.
— Ótimo.
Com cuidado, tirou o moletom.
Ficando apenas com a regata branca.
Simples.
Mas que se ajustava ao corpo de um jeito que ela normalmente escondia.
Ela hesitou por um segundo.
Mas não havia escolha.
Guardou o moletom na mochila.
Respirou fundo.
E saiu.
Foi no instante em que voltou ao corredor que tudo mudou.
Edward estava passando.
E parou.
Não foi uma decisão.
Foi automático.
O olhar dele simplesmente encontrou ela.
E não saiu mais.
Sem o moletom, Bella parecia… diferente.
Mais visível.
Mais real.
A regata branca marcava a silhueta de forma natural, sem esforço, sem intenção.
Mas não era só isso.
Era o jeito como ela andava.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se não estivesse sendo observada.
Como se o mundo não tivesse permissão para atingi-la.
Edward franziu levemente o cenho.
Algo ali chamou atenção.
Mais do que qualquer garota que já tinha tentado chamar.
— Quem é aquela? — perguntou Emmett.
Edward demorou um segundo para responder.
Porque ainda estava olhando.
— É a Swan — disse Jasper. — Filha do xerife.
Emmett sorriu devagar.
— Interessante.
Edward desviou o olhar.
Mas não completamente.
— Você devia sair com ela — completou Emmett.
Edward soltou um riso curto.
— Por quê?
— Só pra ver a cara do xerife Swan.
Silêncio.
Curto.
Perigoso.
Edward olhou novamente.
Bella estava abrindo o armário.
Alheia.
Intocável.
Errada.
E, ainda assim…
— Esquece isso — disse.
Mas enquanto se afastava, uma parte dele ficou.
Naquela cena.
Naquela garota.
Bella Swan.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Algo pareceu mais interessante do que qualquer problema em que ele já tivesse se metido.
Algo… impossível de ignorar.
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