Lembranças - Hayffie
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Os dias se passam como segundos. Mal notei minha barriga crescer ao longo desses quase nove meses. Eu e Haymitch decidimos deixar o sexo da criança como surpresa e ficamos conversando sempre sobre que nomes colocaríamos, e quase nunca chegávamos a um acordo. Haymitch queria um garoto, já eu queria uma menina.
Estou sentada no sofá. Uma camisola cobre o meu corpo agora totalmente redondo. Minhas pernas estão abertas porque mal consigo fechá-las. Começo a imaginar que esse bebê poderá vir a qualquer momento. Ponho uma mão na barriga e começo a alisá-la, parando de vez em quando para sentir os chutes. Para ser sincera, não vejo a hora de ter essa criança.
– Haymitch– sussurrei para ele no meio da noite. Haymitch dormia de bruços. Comecei a cutucá-lo com um dedo até acordá-lo. Na minha boca eu sentia o sabor de doce de goiaba. Eu precisava de doce de goiaba ou morreria. — Haymitch, acorda!
– O que foi? — resmungou, virando-se para mim. Eu não fazia ideia de que horas eram, mas aquilo não importava quando se tratava do meu desejo.
– Haymitch, eu quero doce de goiaba — disse subitamente. Haymitch franziu o cenho, ainda tentando processar a informação. — Ou qualquer coisa que tenha doce de goiaba no meio, por favor, por favor — continuei repetindo. O sabor ainda tomava conta da minha boca e isso estava começando a me incomodar.
Haymitch me encarou por um ou dois minutos até finalmente perceber que eu não estava brincando.
– Precisa ser agora? — perguntou, sentando-se na cama. Estiquei meu braço até alcançar sua perna e dei dois tapinhas nela, sorrindo docemente para Haymitch, que revirou os olhos, impaciente. — Eu já volto — disse sem vontade. Por um momento me senti culpada por tê-lo acordado no meio da noite, mas eu precisava.
Me virei de um lado para o outro na cama, tentando encontrar alguma posição que me favorecesse, mas nada me veio. Minha barriga mal começara a crescer o suficiente. Bufei ao perceber que ao menos um cochilo eu não iria conseguir tirar e me levantei da cama, rumando até a janela entreaberta. O vento frio me fez sentir meu corpo inteiro se arrepiar e meus cabelos balançaram à medida que eu me aproximava da janela com os braços cruzados. Fechei os olhos e respirei fundo e, por alguns milésimos de segundo, senti falta da agitação que era a Capital. Mas logo voltei a mim e me senti grata por estar ali.
Não faço ideia de quanto tempo se passou, mas finalmente vi um vulto correndo de volta para a Aldeia dos Vitoriosos acompanhado de outro. Haymitch vinha com Peeta no seu encalço, já que ele era padeiro, provavelmente sabia onde encontrar — mesmo aquela hora da madrugada.
Corri até a porta da frente, abrindo-a para deixar entrar um Haymitch demasiado molhado de suor e com uma expressão nem um pouco simpática no rosto. Ele me trouxe um pote que, ao abri-lo, meus olhos brilharam e minha boca encheu-se de água. Levei o pote cheio de doce de goiaba a cozinha e o pousei na mesa, indo à procura de uma colher. Comecei a comê-lo puro e instantes depois peguei um pão entre os que haviam na mesa e o enchi de doce, comendo em seguida. Haymitch, pouco tempo depois, estava em pé me observando, mas agora com um olhar divertido. Encontrei o olhar de Haymitch e sorri enquanto ainda devorava o doce, mas não durou por muito tempo. Estava na metade do segundo pão quando senti uma vontade incontrolável de vomitar e corri em direção ao banheiro, deixando tudo sair, derramando no vaso. Me apoiei na borda e tossi um pouco antes de limpar a boca. Fui até a pia e lavei o rosto.
– Ai que nojo!
– Eu não acredito que corri no meio da madrugada pra te trazer uma coisa pra vomitar! — disse Haymitch, incrédulo. Enxuguei o rosto na toalha e vi seu reflexo bravo olhando para mim. Bravura essa que se esvaiu depois que sorri para ele em agradecimento.
– Desejo de grávida, queridinho — retruquei e aproximei meu rosto do dele, pronta para beijá-lo, porém ele se afastou a tempo.
– Você está com hálito de vômito! — ele disse, levantando as mãos.
– Ah é? Então espera eu comer um pouquinho mais de doce que você não me escapa hoje! — pisquei e ele fez o mesmo, entendendo o meu recado.
Prometi a Haymitch que não iria mexer no meu cabelo enquanto grávida e agora ele está como uma cachoeira nas minhas costas. Ele sequer me deixou cortá-los, como eu sempre gostava de deixar, mesmo quando usava as perucas. Sempre preferi usá-los num corte curto, para evitar o trabalho de mantê-los quietos. Mas agora eu os deixei num coque por causa do calor.
– Haymitch! — o chamo com a voz um pouco fraca devido aos meus devaneios. Ele aparece na porta da cozinha e eu faço um sinal para que venha até mim. Sem se opor, ele caminha em minha direção e se senta ao meu lado.
– O que foi? — pergunta e em seguida lança um olhar em direção ao meu cabelo. — Por que você fez isso? — e então se adianta até mim e solta o meu coque, deixando os meus cabelos caírem sobre os meus ombros. Protesto, mas ele finge que não me ouve e bagunça os meus cabelos com a mão, fazendo-me rir.
– Para, Haymitch! — protesto novamente, mas ele se aproveita da situação e continua bagunçando. — Para! — digo um pouco mais alto e seguro suas mãos. Balanço a cabeça freneticamente, tentando afastar as madeixas que caíram para frente, prejudicando a minha visão. Haymitch ri da cena e de repente me vejo rindo também. Mas ele se adianta e me beija, segurando meu rosto.
Interrompo o beijo e passo a descansar minha cabeça em seu peito, abraçando-o. Haymitch passa a mão no meu cabelo, movimentando-a lentamente de cima para baixo, afagando-os. Fecho os olhos, lembrando-me de como isso sempre me acalmou.
– Você é muito magra, Effie– comentou Haymitch. Estávamos abraçados na cama após mais um dos famosos pesadelos de Haymitch. Depois de um tempo aquilo começou a acontecer com frequência. — Você precisa de carne, aqui e ali. É bom, sabe?
– Eu me sinto bem assim, Haymitch. Obrigada — retruquei. Tentei tomar um pouco de distância, mas Haymitch permaneceu me segurando.
– Mas só tem pele e osso aí, olha só — ele passou a mão pelas minhas costelas e eu fechei a cara para o seu lado.
– Se estiver insatisfeito, é só arrumar outra, Haymitch– dessa vez o empurrei com força e me virei para o outro lado, puxando o cobertor comigo. O que sempre me intrigava era ter que aturá-lo sabendo que ele sempre insistia em ser ridículo.
Ouvi sua risada baixa atrás de mim e fechei ainda mais a cara. Senti, então, suas mãos contornando minha cintura por baixo do cobertor e me arrepiei com o toque.
– E se eu não quiser outra? — sinto Haymitch grudar seu corpo no meu. Ele afasta os meus cabelos para sussurrar no meu ouvido: — E se eu quiser você?
E era sempre assim que ele acabava me derretendo novamente. "Eu adoro quando você se irrita", ele dizia e eu deixava levar. O prazer de Haymitch era me irritar e, mesmo sabendo disso, ainda ficava sem paciência às vezes, mesmo sabendo como tudo terminaria depois.
– Ai! — deixo escapar um grito de dor quando sinto contrações fortes. Ponho a mão na barriga e fecho os olhos, até que sinto um líquido escorrendo pelas minhas pernas e molhando o sofá. Olho para baixo e não tenho mais dúvidas. — Ah não — olho para Haymitch que me fita apreensivo. — A bolsa estourou!
Haymitch arregala os olhos como quem está vendo um fantasma e por alguns instantes parece desconcertado.
– Ah não! O que vamos fazer? — sua voz sai com um pouco de desespero. Olho para ele indignada, esperando ter ouvido errado.
– A parteira! — explodo, e Haymitch dá um salto no sofá. — Vai chamar a parteira, seu imbecil!
– Ta bom, ta bom– ele diz e sai correndo para fora de casa. Afundo no sofá e tento controlar minha respiração. Não sei quanto tempo se passou, mas Katniss logo entra pela porta e vem até mim, chamando pelo meu nome. Sinto-a segurar a minha mão e é então que abro os olhos.
– Haymitch e Peeta foram chamá-la — ela diz antes mesmo que eu pergunte. Assinto com a cabeça e volto a recostá-la no sofá, tentando diminuir a dor que está começando a se formar. — Respira, Effie– ela diz, sem largar a minha mão. — Vai ficar tudo bem.
– Se eles chegarem a tempo, vai — retruco e percebo o quanto quero que tudo isso termine logo. Sabe aquela parte que dizem que a gravidez é linda e mágica? Pode esquecer. Seu corpo incha, você sente dores, você vomita, fica tonta, come de tudo e mais um pouco e parece que vai explodir. Até agora não vi nada de mágico nisso (talvez só a parte de não explodir).
Começo a me sentir um pouco tonta, mas depois de um bom tempo, o que pareceram ser horas de espera, Haymitch e Peeta chegam com a mulher que, ao me ver, se adianta logo e faz sinal para que os dois homens me ajudem a deitar no tapete. Haymitch põe travesseiros embaixo na minha cabeça e eu lhe lanço um olhar de agradecimento. Ao encontrar seus olhos preocupados, deixei de sentir a dor por alguns instantes e me senti segura. Sua mão encontrou a minha e instantes depois vi Haymitch fazer uma careta, foi quando percebi que eu estava apertando forte demais. A dor voltara.
A tal parteira, que atendia pelo nome de Clarisse, forra uma toalha embaixo das minhas pernas e as afasta, segurando os meus joelhos. Tento levantar a cabeça para ver alguma coisa, mas só tenho tempo de ouvi-la dizer para fazer força, até afundar a cabeça nos travesseiros novamente e começar a gritar. Fecho os olhos e coloco toda a força que tenho para fora, até que sinto outra mão me dando força. Abro um pouco os olhos e vejo uma Katniss nervosa do meu lado, olhando para mim e tentando desviar o olhar. Uma vez ouvi dizer que ela não tinha estômago suficiente para ver muito sangue, então achei melhor não tentar ver também.
– O bebê está começando a sair — diz Clarisse e isso me incentiva a pôr mais força.
– Estou vendo a cabeça dele! — diz Peeta, animadamente. Ele se ajoelha no chão, acompanhando.
– O que você está olhando aí? — indaga Haymitch, deixando Peeta um pouco confuso. — Tira o olho!
Não consigo deixar de rir da situação, mas logo a dor volta e sou obrigada a colocar mais força, apertando as mãos de Haymitch e Katniss, que parecem protestar por causa do aperto, mas mesmo depois que folgo, eles não me largam. Clarisse continua me incentivando a fazer força e por mais que eu consiga, sinto que uma hora vai acabar e eu não vou conseguir mais. Estou suando como um porco e ainda não terminamos. "Está quase todo fora" diz Clarisse e eu percebo que estamos quase terminando. "Faça força só mais uma vez, coloque toda a força que tiver, só mais uma vez!" e eu a obedeço. Coloco todas as forças que me restam para fora, gritando, até que o silêncio domina o ambiente por dois segundos, interrompido por um choro de bebê.
Afrouxo o aperto nas mãos e fecho os olhos, me concentrando em apenas respirar, até que volto a mim quando sinto Haymitch depositar um beijo na minha mão. Ele me olha e diz um "eu te amo" em silêncio e eu sorrio em seguida. Aquele choro se transforma em música para os meus ouvidos. É a prova de que meu esforço valeu a pena.
Haymitch se estica até a parteira, que envolvera o bebê numa fralda branca, que logo estava com sangue, e o segurou em seus braços. Eu nunca vira Haymitch tão feliz, nem quando o estoque de bebida era reposto no trem. Ele traz um sorriso estampado no rosto e minha curiosidade começa a gritar. Ele encontra os meus olhos e, antes mesmo que eu pergunte, ele já tem a resposta.
– É uma menina!
~ ♥ ~
Quase um ano se passou desde o nascimento da Dayse e Haymitch brinca com ela no quintal, segurando suas mãozinhas pequenas e ajudando-a a andar. Uma linda garotinha de cabelos louros e olhos azuis. Eu poderia ficar admirando essa imagem o dia todo.
– Dayse, chama a mamãe para brincar — diz Haymitch, ajoelhado ao lado dela, apontando para mim. Ela faz um gesto com a mão me chamando e não resisto em ir até eles, mas Haymitch me pede para parar quando estou a um pouco mais de um metro de distância deles. — Fica aí — ele diz. — Temos uma surpresa para você.
Haymitch segura Deyse pela cintura por alguns segundos e em seguida olha para mim.
– Vai para a mamãe, Dayse — murmura Haymitch, largando-a. Imediatamente, ela põe força nas suas perninhas curtas e abre os braços, andando e quase cambaleando em minha direção. Sinto meu nariz formigar e então minha visão fica um pouco embaçada. É quando percebo meus olhos úmidos quando a seguro em meus braços, boquiaberta.
Começo a brincar com ela em meus braços, girando-a no ar, e Haymitch vem até nós, sorrindo.
– Gostou da surpresa? — ele indaga.
– Você ainda pergunta? É claro que eu gostei!
Ele se adianta até mim e passa uma mão pela minha cintura, beijando-me de leve.
Nos afastamos a tempo de ver Deyse dar um beijo no ar e rimos juntos. Ela fica um pouco tímida e esconde o rosto no meu ombro, mas ainda continuamos rindo.
Minha vida virou de cabeça para baixo desde o momento em que decidi embarcar naquele trem para o Distrito 12. Mas virou da melhor forma possível, deixando-me sem ao menos querer saber como seria se eu não tivesse feito essa escolha. Ninguém pode viver apenas de sonhos ou lembranças.
Haymitch não é mais só uma lembrança.
Ele foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
FIM
Fale com o autor