Lembranças - Hayffie
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Haymitch me fita ainda sem dizer nada. O sorriso no meu rosto se alarga e sinto as lágrimas ainda descerem. Mas ele continua ainda calado e, para a minha surpresa, se afasta mais um pouco. Sinto minha alegria se esvair aos poucos e começo a pensar que ele não gostou da notícia.
O silêncio invade o ambiente e começo a ficar um pouco aflita com a situação. Ele me lança um olhar de dúvida e em seguida desvia para o tubinho na minha mão, franzindo o cenho.
– Haymitch, diz alguma coisa! — digo quando percebo que sua expressão continua a mesma. Haymitch me olha novamente, desacreditado.
– Effie– ele diz, decidindo que palavras deve usar. — Você tem certeza disso?
– Claro que tenho! — retruco, nervosa. Levanto a mão, mostrando o tubinho novamente, quase esfregando-o no rosto de Haymitch. — Não está vendo? Deu positivo!
Haymitch continua me encarando confuso. Não sei se estou ficando louca com o nervosismo, mas juro ter visto um flash de sorriso se formando em seus lábios.
– Você tem certeza — ele diz, dando um passo a frente. Ele põe sua mão por cima da minha que está com o tubinho — de que vai saber cuidar de uma criança? — então o sorriso que eu jurava ter visto há instantes atrás se revela, mostrando que não estou louca. — Você não sabe cuidar nem de si mesma!
– Como assim? — pergunto, incrédula.
– Ora, princesa — começa Haymitch, como se fosse óbvio. — Você se perdeu no distrito 12! Como vai conseguir cuidar de uma criança?
Fico boquiaberta com o que acabo de ouvir de Haymitch. Meus olhos umedecem novamente.
– Você é ridículo! — praticamente cuspo as palavras para ele e o empurro, marchando pela rua. As lágrimas insistem em cair e não as impeço. Ainda estou me sentindo fraca e com fome. Preciso pôr algo no estômago antes que eu desmaie.
Não chego a contar quanto tempo, mas em poucos segundos sinto as mãos de Haymitch me abraçando por trás e me tirando do chão, me fazendo rodar. Deixo escapar um breve grito de susto com a surpresa e ouço Haymitch rir.
– Me solta! — protesto, sentindo minha cabeça latejar com a tontura.
Sou colocada de volta no chão e volto-me para Haymitch, que agora traz um sorriso no rosto. Na verdade ainda ri um pouco.
– Ei! — ele diz, ainda contendo o riso. — Calma, princesa! — tento evitar o seu olhar por conta da raiva que sinto agora. Suas mãos contornam a minha cintura e me puxam para mias perto. Haymitch continua rindo. — Olha pra mim.
Levanto a cabeça lentamente e sinto meus olhos inchados. Encontro os olhos de Haymitch e consigo enxergar uma ponta de arrependimento escondida por trás deles. Aos poucos Haymitch consegue finalmente conter o riso.
– Por que você acha que eu não ia gostar da notícia? — ele me pergunta, arqueando as sobrancelhas. Eu fungo antes de responder e desvio o olhar.
– Mas você não gostou — digo e mantenho meu olhar longe, mas Haymitch segura meu rosto e me faz encará-lo novamente.
– Mas é muito bobinha mesmo — ele diz e se adianta para me beijar. Beijo este que não recuso. De alguma forma, sei o que ele está fazendo.
Haymitch começa a andar e eu o acompanho, até me encostar na parede do bar. Sinto o beijo se aprofundar cada vez mais. Passo os meus braços em volta do seu pescoço e sinto suas mãos passando pelas minhas costas.
Nossos lábios se afastam, mas nossas testas permanecem encostadas uma na outra. Posso perceber sua respiração um pouco ofegante, assim como a minha.
Depois de alguns instantes, nos afastamos para finalmente nossos olhares se cruzarem novamente. Haymitch leva suas mãos até o meu rosto e enxuga minhas lágrimas. E é então que eu noto seus olhos úmidos. Ele sorri.
– Isso é sério mesmo? — ele me pergunta, com as mãos ainda no meu rosto.
– Claro que é! — explodo de volta. — Não viu o teste, seu idiota? — aponto para o tubinho que agora encontra-se jogado no chão. — Deu positivo!
Haymitch segura meus braços para contê-los depois que eu apontava sem parar para o tubinho. Ele não consegue mais conter o riso e noto que ele não está rindo de mim, mas sim de felicidade. Ele joga a cabeça para trás, olhando para o céu, e sorri. Ver esta cena acaba me contagiando e deixo escapar um sorriso.
– Eu vou ser pai! — ele grita para o alto e desta vez não consigo conter o riso. Haymitch olha para mim e me puxa para o meio da rua, onde me abraça e me gira novamente. Ele continua repetindo, porém num tom mais baixo na voz, como se falasse para si mesmo.
Haymitch finalmente me coloca no chão e nos fitamos em silêncio por alguns instantes. Tudo que podemos ouvir agora é o som das nossas respirações e das folhas das árvores, sendo tocadas pela brisa noturna, fazendo-as chocarem-se umas contra as outras.
– Parabéns, papai — digo enquanto afasto uma mecha de cabelo para trás da orelha de Haymitch. Ele segura minha mão e a beija. Aproveito o momento e encosto os meus lábios nos seus, dando início a um lento e caloroso beijo. Haymitch me abraça e então percebo que estava com frio, ao sentir seu corpo me esquentar. — Vamos para casa — sussurro para ele.
– Para a nossa casa — ele diz. Sim, Haymitch está certo. É a nossa casa.
{...}
Chegando à Vila dos Vitoriosos, encontramos um Peeta explodindo de felicidade ao lado de uma Katniss confusa. Ela me lança um olhar ansioso e me apresso a ir de encontro a ela.
– Onde você estava? — pergunta Katniss, parecendo um pouco aflita.
– Eu não faço ideia — respondo e olho para Haymitch, que encontra o meu olhar e sorri. — Ainda bem que ele me encontrou.
– Então, Effie– começa Katniss. Olho em seus olhos e percebo sua ansiedade, apesar dela quase ter certeza do resultado. — Deu o quê?
Mordo o lábio e olho de Katniss para Peeta e depois para ela novamente.
– Estou grávida! — respondo e levanto as mãos em comemoração. Katniss abre um sorriso e vem ao meu encontro, dar-me um abraço. Ainda acho estranho receber um abraço dela, mas ao mesmo tempo reconfortante.
– Parabéns, Effie! — ela diz ainda me abraçando.
Agradeço e tomamos certa distância, quando vejo Peeta parabenizando Haymitch. Aquele vem até mim em seguida e me abraça também. Retribuo o abraço lembrando de como ele sempre foi carinhoso e doce.
Sinto minha barriga roncar e ponho a mão nela, fazendo uma careta.
– Effie, você está bem? — Katniss pergunta. Peeta e Haymitch olham para mim.
– Fome — respondo. Peeta se adianta para dentro de casa e eu o ouço dizer algo como "pão". Ele volta instantes depois, com dois pães na mão e me entrega. Minha fome é tanta que mal sinto o gosto da comida de tanta pressa.
Haymitch me observa como quem prende o riso.
– Qual é o problema? — pergunto e levanto a cabeça, olhando-o desafiadoramente. — A culpa é sua, queridinho!
– Minha? — ele pergunta, sem entender.
– Claro! Você me engravidou!
Todos riem da cena e eu acabo deixando escapar um riso curto. Logo termino de comer e, percebendo logo depois, estou lambendo os dedos. E é então que vejo Haymitch me encarando com os braços cruzados.
– Onde estão seus modos agora, princesa? — pergunta. Peeta e Katniss ainda riem um pouco.
– O que? — indago. — Eu estou com fome!
– Quer mais, Effie? — pergunta Peeta, se oferecendo para pegar mais pães.
– Ah, não, não, obrigada — me apresso a responder antes que ele entre em casa. — Estou satisfeita.
Um silêncio toma conta do ambiente por um bom tempo. Sinto uma brisa vir contra o meu corpo e eu me arrepio, cruzando os braços. Haymitch, que estava ao meu lado, se aproxima um pouco mais e me abraça por trás, me esquentando. Sorrio e seguro seus braços em agradecimento.
– Dizem que a gravidez é a fase mais linda na vida de uma mulher — ouço a voz de Katniss dizer e sorrio para ela, que sorri de volta.
– Com certeza será lindo — digo e passo a mão na minha barriga, percebendo Haymitch fazer o mesmo. A fase mais linda.
{3 meses depois...}
– Haymitch!– grito com toda a força que consigo usar. Estou voltando do banheiro após ter colocado meu café da manhã para fora. Ele vem correndo na minha direção e para ao ver o meu estado. Meus olhos ainda lacrimejam e eu ainda sinto fome.
– Vomitou? — pergunta. Assinto com a cabeça e ele se adianta até mim para me abraçar. Encosto minha cabeça no seu peito e me sinto péssima por acreditar que isso não iria acontecer. Tento controlar minha respiração aos poucos.
– Preciso comer alguma coisa — digo. — Qualquer coisa.
– Vamos ali na cozinha — diz Haymitch, segurando minha mão para me conduzir. — Vou preparar alguma coisa para você comer.
Haymitch me conduz até chegarmos a cozinha, onde me sento, apoiando um cotovelo na mesa, deixando minha cabeça apoiada na minha mão. Haymitch começa a abrir cada porta do armário, tentando encontrar algo que o agrade.
– Às vezes eu ainda estranho você... sabe... — começo a dizer e Haymitch se vira para me encarar. — sem beber... pelo menos não como antes — acrescento e vejo um sorriso se formar nos lábios dele.
– Pois é, princesa — então volta a preparar a comida. — Às vezes é preciso fazer um sacrifício.
Pouco tempo depois Haymitch me aparece com um prato com torradas e queijo, que acabam em poucos instantes. Respiro fundo ao terminar de comer e me concentro em não colocar tudo para fora. De certa forma isso dá certo.
Haymitch permanece me fitando quando termino de comer. Encontro seu olhar e coro no mesmo instante, voltando a fitar meu prato. Mas quando levanto meu olhar, Haymitch continua da mesma forma e não consigo segurar um riso de timidez.
– Foi um belo sacrifício — digo. Haymitch sorri em resposta. — A bebida era o seu remédio. Você a usava para tentar esquecer o que passou. Mas você exagerava demais — acrescento e aponto o dedo em sua direção.Haymitch levanta uma sobrancelha e eu me movo até sentar-me em seu colo. Ele solta um gemido baixo e me segura.
– Ta pesada, hein Effie?
– Pior que nem posso discordar — digo e faço beicinho, olhando para a minha barriga que fica mais redonda a cada dia que passa. Pouso uma mão nela e a aliso. Haymitch faz o mesmo. — Eu estou parecendo um balãozinho.
– Pelo menos você não usa mais aquelas roupas da Capital — ele diz. — Aí sim você ia ficar parecendo um balão colorido.
Ele ri junto comigo e me dá um beijo no rosto. Seguramos a mão um do outro e assim permanecemos por um bom tempo.
– Haymitch...
– Hm?
– Você acha que eu vou ser uma boa mãe?
Haymitch para de brincar com a minha mão e levanta a cabeça para me olhar. Ele me estuda por alguns minutos em silêncio.
– Está me perguntando por causa do que eu disse quando me deu a notícia?
Mordo o lábio e assinto com a cabeça. Haymitch solta uma risada breve e balança um pouco a cabeça negativamente.
– Você vai ser a melhor mãe do mundo — ele diz e seus olhos brilham de uma forma que eu me prendo a eles. — Pode ter certeza disso.
E agora eu não tive como duvidar das palavras de Haymitch. De repente ele fez eu me sentir segura.
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