Lembranças De Um Outro Mundo
6 Capítulo 5 - Outro sonho, e Louis
Notas iniciais
Thomas voltou para casa naquela mesma noite. Durante o caminho, lembrou-se da mãe. Com o tempo aprendemos a lidar com a dor, mas o tempo não cura muitas coisas. A lembrança da morte dela era uma ferida que nunca seria curada. Estaria sempre ali, tornando-se parte dele, e do que ele fazia. O tempo não cura muitas coisas, ele somente mata.
Chegou em casa e foi para o seu quarto. Dormiu, como sempre, quase no mesmo instante em que deitou. Nessa noite Thomas sonhou, e nem mesmo os sons reproduzidos por Louis e o barulho do telefone o acordaram. Estava amarrado no que parecia ser uma cruz. Olhou para o lado, e a luz emitida pelo sol quase o cegou, mas conseguiu ver algo.
Havia outra cruz. Nela, havia um cadáver em decomposição, somente suspenso pelos pregos encontrados em seus pés e mãos, que o prendiam na cruz. Sua cabeça estava caída, virada para o chão. Uma coroa feita de espinhos, os quais muitos haviam perfurado seu crânio, enfeitava sua cabeça. Parte da barriga estava aberta, com muitos insetos saindo do seu interior.
Thomas pensou se aquela seria a imagem de Jesus se ele não tivesse ressuscitado – levando em conta que ele realmente existiu. Depois de algum tempo, um corvo apareceu voando em direção ao suposto Jesus. Pousou em sua cabeça e, ao que pareceu, procurando por algo para comer, arrancou os dois olhos do cadáver, e os levou para Thomas. Antes que pudesse tentar evitar que o pássaro jogasse os olhos em seu corpo, viu que eles se transformaram em um óculos.
No mesmo instante sentiu-se livre das cordas, e caiu no chão. Levantou-se e olhou para a cruz, onde o pássaro estava parado, segurando o objeto. O pegou e, automaticamente, o corvo sumiu. Colocou com cuidado os óculos em si, e olhou para a cruz onde se encontrava Jesus. Ali, pregado não somente nas mãos e pés, mas também no pescoço, encontrava-se ele; o seu outro eu; a sua metade negra.
Chegando mais perto, pode ver também que o seu outro corpo estava vivo. Ouvia o batimento do coração, como se fosse o único som daquele mundo. A mão direita do corpo preso a cruz começou a se mexer, e logo estava livre; mas com um prego preso nela. Apontou para frente, e logo depois deu um tapa em Thomas, o fazendo olhar para o outro lado. As imagens eram as de sempre; pessoas que conhecia, todas ali, o olhando, até mesmo as que já morreram.
Seu tio, sua mãe e George, e as outras pessoas que ele não pode – ou não conseguiu – salvar no elevador. Estavam todas ali, na sua frente, reunidas o olhando com uma expressão de horror. Perguntou-se se estariam olhando para ele ou para o seu outro corpo na cruz. Depois de um tempo, todas começaram a ir embora, até mesmo sua mãe, que foi a ultima a se virar e seguir em frente.
Thomas começou a correr atrás dela, mas a cada passo sentia-se mais distante dela, e resolveu parar. Encontrava-se agora sozinho, pois até mesmo as cruzes que antes estavam atrás dele sumiram, e seu “gêmeo” também. Uma estranha sensação de que estava livre de tudo e todos, tomou conta dele. Tirou os óculos e encontrou a porta, que sempre o acompanhava nesse outro mundo, e entrou nela.
Acordou com o barulho do telefone tocando, e foi atender. Uma mulher falou a Thomas que o seu pai finalmente saiu do coma, e estava podendo receber visitas a qualquer hora do dia. Thomas desligou o telefone e foi deitar-se. Talvez a morte de seu pai fosse um caminho em que até mesmo o Deus da Morte preferia evitar por um tempo. Ficou se perguntando se era melhor esperar ou visitar o pai agora. Estava muito ansioso, sim, mas algo dizia que não era a hora certa.
Foi para o carro mesmo assim, e começou a ouvir algumas músicas. Música é uma das melhores coisas da vida. Algumas são eternas, outras são ouvidas somente por um momento e, depois, esquecidas. Servem de trilha sonora para muitos momentos marcantes de nossas vidas, até mesmo de filmes, mas, nós humanos, diferentes delas, somos como essas músicas que são ouvidas por um momento e depois esquecidas, porque morremos.
Enquanto ouvia Attila Csihar cantar I am a mortal, but am I human? How beautiful life is now when my time has come, Thomas ligou o carro e começou a dirigir, rumo ao hospital. Até agora, Thomas não lembrara de Louis, que talvez ainda estivesse em seu porão...
§§§
Antes de tudo isso, Louis havia conseguido escapar. Thomas não tivera cuidado em o prender realmente na cadeira, e quando a dor do chute passou, iniciou sua bem sucedida fuga. Saíra uma hora antes de Thomas acordar, e estava na delegacia, esperando para denunciar seu amigo. Estava com medo da policia já ter encontrado o corpo de seu irmão, mas antes precisava contar sobre Thomas.
Havia outro homem, que parecia ser um morador de rua, sentado ao lado dele, esperando para ser atendido. Depois de alguns minutos, um policial veio pedir para o outro homem sair, mesmo que ele insistisse que tinha algo para falar, e pediu para Louis o seguir. Louis olhou para trás, e o homem parecia estar chorando. Continuou caminho até entrarem em uma sala pequena, onde Louis e o policial sentaram-se.
Contou tudo sobre Thomas, enquanto um mosquito voava pela sala, deixando Louis um pouco assustado. Quando terminou de falar, o mosquito foi chegando perto do policial, e o mesmo o matou e perguntou:
– Onde ele está agora, o seu amigo?
– Não sei, eu não vi se ele ainda estava em casa ou não. Mas agora, provavelmente, está indo para o hospital visitar o seu pai. O horário de visitas começa daqui alguns minutos...
Ouviram um barulho vindo da porta, e o homem que estava no banco apareceu ali. O policial levantou da cadeira, parecendo furioso, e o homem falou:
– Eu sei, não fui chamado, mas não posso esperar mais... acho que sei quem matou o morador de rua que foi encontrado hoje...
– Quem? – indagou o policial, olhando o homem ainda com uma expressão de fúria.
– Não sei o nome, pois não o conheço. Era um garoto que estava andando por lá, procurando por crack, e o único que tinha isso era o Matt... mas posso falar como ele era...
– Aguarde um momento, Louis – disse o policial, pegando uma folha de papel e um lápis – me diga como ele era, senhor.
Somente com as descrições feitas, e pelo resultado final do desenho, Louis soube quem era.
§§§
Thomas estava chegando no hospital para visitar o pai, quando viu que havia uma viatura policial estacionada onde ele sempre deixava o carro. Estacionando ao lado e não ligando para o carro, se surpreendeu quando um policial veio em sua direção, apontando uma arma. Parou no mesmo instante e, assustou-se ao ver Louis na viatura. Ele seria preso, e não iria ver o pai tão cedo... mas iria tentar impedir isso.
Começou a correr para dentro do hospital, mas antes de conseguir entrar no lugar, ouviu um barulho de tiro atrás dele, e logo caiu no chão. Thomas foi atingido.
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