Lembranças
2 "Eu preciso de você" parte 2
Seus olhos se abriram lentamente, contemplando a turva visão à sua frente. Ela piscou, focalizando a imagem. Antes que percebesse, seu corpo ia em direção a brita e aos trilhos. Nem se quisesse, teria tempo de reagir e voltar à plataforma e ser abraçada pela segurança trazida pela linha amarela. E mais uma vez ela havia falhado. Se não fosse tão desastrada e idiota, teria conseguido salvar pelo menos a si mesma, e assim, não sucumbiria de forma tão estúpida. Sem dúvidas, este seria o último de seus erros. O décimo-terceiro, o qual ironicamente coincidia com o dia de hoje. “ 13 de março de 2022" Este é o dia em que minha existência será, enfim, drenada para sempre” — pensei, fechando os olhos pela última vez.
Esperei pelo impacto causado pelo aço, que deformaria minha pele, quebraria meus ossos e me arrastaria até o próximo destino. O sangue também jorraria pelo caminho, marcando minha passagem pelos trilhos. E no final, seria jogada numa vala, talvez cremada, enterrada. Na verdade, não importava tanto assim. Desde que minha consciência estivesse longe daqui, deste mundo, estaria tudo bem. Desde que eu encontrasse a mamãe lá.
Porém, nada ocorreu. De repente, algo me agarrou por trás, puxando a gola da blusa e me trazendo para a zona segura da plataforma. Mal tive tempo para processar o que acabara de acontecer, quando encostei minhas costas em uma pilastra próxima. Meu salvador deu a volta em torno de mim e pôs suas mãos, cobertas por finas luvas de veludo, delicadamente sobre meus ombros. Seus olhos banhados a ouro encararam-me preenchidos de preocupação, seus pêlos cor de lavanda roçavam nos meus, ainda eriçados pela adrenalina. Também arfava forte e intensamente, trazendo seu hálito quente, que se dissipou a cada expiração. “Você está bem?” — perguntou a elegante mulher que havia me tocado anteriormente. Acenei com a cabeça em resposta, pois não conseguia olhá-la diretamente. Após alguns minutos, meu trem chegou. Então, me virei em direção da senhora dos olhos áureos, curvei-me em agradecimento e adentrei a locomotiva. Olhando através do vidro da porta, lá estava ela acenando. Gesticulei de volta enquanto sua silhueta se borrava, desfocando-se juntamente com a paisagem ao embalo do trem.
Por fim, cheguei ao meu destino. Subi as escadas incrustadas de poeira e mofo até o segundo andar do prédio mal cuidado, regressando ao apartamento 201. a madeira desgastada da porta, a qual anos atrás talvez fosse considerada bonita ou chique. Porém perdeu sua graça, à medida que as lascas sucumbiram à passagem do tempo, juntamente com grandes pedaços que haviam se soltado e agora descansavam numa pequena pilha ao lado da porta. Ela também se entortou devido a ausência de duas dobradiças, que convidavam roedores e outros animais pequenos a adentrarem meu lar. No centro da estrutura jaziam três avisos colados um por cima do outro. O mais recente lia-se:
NOTIFICAÇÃO DE DESPEJO
Notificado: Cream
Endereço: Residencial M.B – nº 201 – Cidade – Mobius
Notificante: Margaret Blye
Servimo-nos da presente, para registrar que até a presente data não acusamos o recebimento dos seguintes valores (valores sem juros ou correção):
Aluguel Mês de Fevereiro de 2022 – $ 350,00
Aluguel Mês de Março de 2022– $ 350,00
Aluguel Mês de Abril de 2022 – $ 350,00
Ressaltamos que a Notificante não tem mais interesse na permanência do Contrato de Locação, do imóvel situado na Rua Mall Street – nº 12 – Cidade – Mobius — devido a inadimplência.
Neste contexto, para que surtam os efeitos legais, fica V. Sa. Notificado de todos os termos da Lei para que no prazo de 7 (sete) dias, desocupar o imóvel locado e pagar os débitos destacados.
Este é o último aviso.
Um calafrio subiu à minha espinha. Este aviso não estava na porta hoje pela manhã, o que significava que teria sido fixado no início da tarde. “Uma semana! Eu não tenho como…” meus lamentos se perderam quando meu olhos se águaram, cheios de lágrimas. Antes que pudesse tentar segurá-las, deslizaram sobre minhas bochechas, molhando os pelos desgrenhados e pingando nas roupas. Rapidamente abri o zíper e alcancei a chave, abrindo a porta e a fechando com força. Ao entrar, uma das placas do chão amadeirado cedeu, fazendo me tropeçar e ralar o joelho nas lascas de madeira pútrida. A ardência não cessava, mesmo após alguns minutos, não conseguia nem me levantar para desinfetar a ferida, e mais uma vez, me encontrava imponente e fraca. Desprovida de dinheiro e trabalho, prestes a ser despejada e perder tudo. Só o que tinha naquele momento eram suas próprias lástimas e o calor de seu corpo. Contudo, ela se lembrou de algo, ou melhor, alguém. Alguém cujas lembranças foram apagadas pelos anos conseguintes e agora, resurgira, nas memórias de Cream. Ela era uma amiga, que sempre a consolava quando chorava e dizia que tudo ficaria bem novamente, alguém muito especial.
Ela levantou ligeiramente a cabeça, percebendo uma fraca luz malva reluzindo no ambiente. Ao se virar para frente, avistou a fonte do brilho. Porém não se tratava de algo material, mas também não era um fantasma. Parecia que sua mente estava lhe pregando uma peça, porém, deixou estes pensamentos de lado e debruçou-se na figura, que acariciava seus cabelos ruivos e pêlos cor de creme.
* * *
Um par de luvas aveludadas alcançou a maçaneta de prata, cujo brilho enfatizava a brancura reluzente das peças e o clique da chave na porta amadeirada anunciou a chegada de Blaze ao apartamento 202.
O chão de madeira rangeu à medida que seus passos ecoaram pelo aposento. Ao fechar a porta, percebeu um bilhete pregado próximo a maçaneta, que a lembrava de arrumar algumas caixas e se livrar de objetos antigos. Os caixotes, cuidadosamente lacrados e empilhados, estavam esconstados no canto da parede que dividia a sala do dormitório. A caixa de cima, estava já demasiadamente puída e amassada, o papelão mal segurava seu conteúdo, quase rompendo por causa da passagem dos anos. Agumas fitas adesivas transparentes seguravam as laterais, enquanto um grande pedaço de fita crepe, cujos escritos estavam borrados, porém, ainda, parcialmente legíveis. “Mobius” este é o nome da cidade que viveu quando criança e onde, há alguns meses, retornou devido a assuntos de trabalho.
Sem hesitar, Blaze desfez o lacre e a abriu. Seu conteúdo era . . . Confuso. Lá, havia bichos de pelúcia, vestimentas, gravetos e mais. Pôs-se a esvasiá-la, colocando os pertences dispensáveis numa pinha ao seu lado. Logo, chegou no fundo da caixa e viu uma foto coberta de poeira. Pegou-a e se dirigiu à janela, abrindo-a. A leve brisa da noite adentrou o apartamento, trazendo o sereno ar noturno, ventilando o ambiente e também soprando o pó da fotografia. Após alguns segundos, olhou para o retrato, analizando-o. Se tratava de uma cena bonitinha, duas crianças sujas de folhas e cobertas de lama sorrindo para a câmera, ela se reconheceu, mas ao olhar para a outra, se lembrou daquele dia.
Vem, Blaze! — a coelha de pelagem prímula* chamou, correndo em direção a uma grande árvore no horizonte, cujas folhas, ainda esverveadas pela recente chegada da primaveira, balançavam fortemente por causa da intensa tempestadade que ameaçava cair. Porém, ela continuou, e começou a escalar o tronco. Eu, preocupada, tinha tentado avisá-la de que aquilo era perigoso, mas antes que tivesse percebido, ela já estava lá em cima, sentada em um galho. Blaze, então engoliu em seco e, desafiando seu medo de altura, subindo a árvore, enquanto sua amiga torcia por ela. Depois de alguns minutos, finalmente chegou e sentou no galho, juntamente com ela. Mas ele acabou se quebrando, fazendo as duas caírem no chão. Por sorte, ninguém se machucou, apenas de sujaram de lama e folhas. Então a coelha tirou a câmera que guardava no bolso e tirou uma foto.
Tal lembrança, trouxe um sorriso ao rosto de Blaze, que se perguntou onde a amiga poderia estar hoje em dia, já que haviam se passado doze anos desde a última vez. Deduziu, que era provável que estivesse com sua mãe, já que eram estremamente próximas e zelavam uma pela outra. Esta amiga, tão antiga, mas tão querida, quase não acreditou que simplismente havia desaparecido de sua mente por tanto tempo. “Ela sempre torcia por mim, não importava o que fosse, sempre me apoiava e dizia que daria tudo certo” — pensei, folheando alguns papéis, nos quais ela escrevera diversos rascusnhos de possíveis discursos para apresentar no dia das entrevistas dos interessados no cargo de Direção de Finanças.
Blaze gostava de seu trabalho como supervisora do Setor de Contabilidade da Aphelus. Entretanto, gostaria de uma posição maior, na qual seu esforço seria devidamente reconhecido. O pensamento de que seus superiores não acreditavam que ela poderia arcar com as responsabilidades a enrurecia, pois já provou diversas vezes ser uma funcionária competente e responsável, principalmente durante a crise ocorrida em janeiro. Um suspiro desapontado escapou de sua boca e ao se levantar da cadeira, percepeu que algo a vigiava, parecia um…fantasma! Por instinto, pulou para trás e se escondeu atrás do encosto do acento. Porém, a figura não se moveu, apenas a fitava serenamente, emanando um brilho claro, cor de creme.
Parecia que sua mente estava lhe pregando uma peça, mas viu isso como um sinal de que não estava só na sua luta e que onde quer que sua amiga de infância estivesse, estaria torcendo por ela. Blaze, então, estendeu seu braço em direção à figura e sorriu.
Ambas, recordando-se das perdidas, porém nostálgicas lembranças da juventude, que, foram apagadas pelas mágoas e anseios surgidos após a separação, agora retornaram para consolar e motivar o começo de uma nova história. Fixando o olhar nas projeções e, cheias de esperança, proferiram "Eu preciso de você"
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