Lembranças

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Oiiii

POV Annabeth

Em meus sonhos eu estava com sete anos. Faziam alguns meses que o meu pai e Atena haviam se separado, e meu pai já estava morando com outra mulher.

Eu odiava a nova namorada do meu pai, ela era boazinha quando ele estava por perto, mas quando estávamos só nós duas ela se transformava. Ela não tratava Malcolm da mesma forma, talvez por ele ser mais novo ou por não se parecer tanto com Atena como eu.

— Você é a cara da sua mãe Annabeth. E isso faz com que o seu pai lembre da vida que ele tinha com ela – dizia ela para mim.

Em uma noite eu estava em meu quarto na nova casa do meu pai, Malcolm e eu costumávamos passar alguns fins de semana com ele. Eu estava deitada quase adormecendo quando ouvi a porta se abrir. Virei-me a tempo de vê-la entrar no cômodo com uma pequena gaiola na mão. O que me intrigou, pois não tínhamos hamster e nem nada do tipo.

Ela colocou gaiola no chão e a abriu, libertando uma sombra que não consegui identificar de imediato. O quarto estava escuro, com apenas a luz do luar que emanava das janelas.

— O que isso? — perguntei.

Ela apenas deu risada e fechou a porta, trancando-a.

Liguei o abajur a tempo de ver uma tarântula se rastejar para debaixo da minha cama. Levantei-me em um salto e corri para porta.

— Me tira daqui! – dizia eu chorando – Por que está fazendo isso comigo?

Meu pai Frederik não ouviria, ele estava ocupado demais no sótão trabalhando em seu estúdio a prova de som. Malcolm dificilmente ouviria, pois, seu quarto ficava distante do meu. Lembro-me de gritar, espernear, chorar até morrer de exaustão. Acabei dormindo encolhida encostada na porta, morrendo de medo.

Acordei com alguém me sacodindo. Atena me encarava com uma expressão severa, de pé ao lado da minha cama.

Sentei-me e passei as mãos na testa que estava empapada de suor.

— O que aconteceu? — perguntei encarando-a.

Atena cruzou os braços.

— Você estava gritando. Acho que estava tendo um pesadelo – disse ela – Com o que sonhava?

Suspirei.

— Nada demais – respondi friamente.

Atena me analisou por alguns segundos.

— Sabe se você achar que precisa voltar para o internato... Vou entender, sei que a morte do seu pai foi difícil para você – disse ela.

Revirei os olhos.

— Eu só tive um pesadelo. Não tem nada a ver com o papai – respondi – Eu estou bem.

Atena se sentou ao meu lado na cama, e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ela já estava vestida para o trabalho, blazer branco e calça skinny e scarpin preto.

— Annabeth, você passou por um momento muito conturbado – disse ela – Eu me preocupo e o seu irmão também. Depressão e transtorno de stress pós-traumático são coisas...

Mas, eu a interrompi.

— Não por favor, chega de discurso – disse eu – Eu estou bem.

Atena revirou os olhos.

— Eu tento me aproximar de você, mas porque você sempre se afasta mais e mais de mim? – perguntou.

É sério isso? — pensei.

Levantei-me da cama e caminhei em direção ao banheiro.

— Por que não faz essa pergunta a si mesma? — perguntei enquanto entrava no banheiro e fechava a porta com força.

Encostei-me na porta e deslizei até ficar agachada com a cabeça sobre os joelhos. Eu odiava aquilo, odiava o fato de Atena ser tão fria e dura, como se tudo fosse normal. Eu me sentia uma estranha, vendo ela apontar tantos problemas em mim.

Noite passada, eu havia ido dormir aflita e ansiosa, com o fato de que nessa manhã de sexta iria acorrer a aula em que o professor levaria as aranhas para a classe. Atena não sabia sobre as coisas que aconteceram comigo na casa do meu pai, ninguém sabia. Eu vinha remoendo aquilo em minha mente, dia após dia desde de criança.

Respirei fundo.

Eu precisava me aprontar para a escola, decidira noite de passada que tentaria enfrentar o meu medo e não mataria aula. Não havia chegado a essa conclusão sozinha, Percy e eu havíamos conversado horas e horas por telefone sobre aquilo. Eu não havia contado o real motivo da fonte do meu medo, ao invés disso, disse que aos sete anos eu vira um filme sobre aranhas gigantes e ficara com medo a partir dali.

Percy e eu tínhamos praticamente todas as aulas juntos. Ele até havia aparecido uma vez em minha casa, para fazermos lições de álgebra juntos. Percy era muito disperso e qualquer barulho o tirava o foco. Eu nunca havia me aproximado e me aberto com alguém em tão pouco tempo, havia me aproximado muito de Thalia e Piper, mas com Percy era diferente. Ele era diferente.

Percy me convenceu de que ocorreria tudo bem durante a aula, e me prometeu um tuor em Nova York, já que eu não conhecia quase nada na cidade.

Eu conseguira entrar para as líderes de torcida, e percebi que talvez aquilo fosse bom para mim. A treinadora a Sra. Jones, aparentemente havia gostado de mim. E eu não era ruim com a dança e tudo mais. Drew e sua corja – metade das líderes de torcida – sempre faziam cara feia para mim durante os treinos, treinávamos durante três horas após as aulas. Aquilo me distraia e fazia com que eu esquecesse os problemas.

A noite seria o primeiro jogo da temporada, então teria que fazer o meu papel como uma líder de torcida.

Para o meu azar, a aula de biologia era no primeiro horário. Caminhava com pesar pelo corredor até a sala e Percy tentava me tranquilizar.

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— Annabeth vai dar tudo certo – dizia – Você não vai ser obrigada a toca-las.

Entrei na sala e as mesas estavam em uma configuração diferente. Três mesas estavam unidas no centro da sala, formando uma espécie de balcão. E haviam três pequenas gaiolas sobre as mesas, as gaiolas estavam tampadas por tecidos petos. Os alunos estavam amontoados em volta do balcão afim de ver o que estava dentro da gaiola.

Assim que Percy e eu entramos na sala o professor fechou a porta.

Não dá mais para fugir – pensei.

Só de imaginar o que tinha dentro daquelas gaiolas me dava arrepios.

Drew estava do outro lado da sala e sorria com ironia para mim, por alguma razão. Obviamente ela lembrava sobre o meu medo de aranhas, mas eu não iria deixar que ela me atingisse.

Bufei.

A essa altura o professor explicava mais sobre os aracnídeos, o que seria interessante para mim, se eu não estivesse morrendo de medo. Enquanto ele explicava eu verificava a hora no visor de meu celular a cada cinco segundos. Tentava focar em outra coisa, por exemplo, o fato de Percy segurar a minha mão mesmo ela estando fria como o gelo. Ele estava sendo tão legal comigo.

— As aranhas que trouxe para analisarmos hoje vieram do zoológico de Nova York – dizia o Sr.

— Vamos poder toca-las? — perguntou Travis ao meu lado.

Travis era um garoto baixinho com aparência de encrenqueiro que sempre fazia piadas ou comentários idiotas nas aulas.

Até que sinto algo no meu pé direito e logo fico alarmada. O professor não deixaria alguma aranha fora da gaiola ou deixaria? Devia ser só a minha imaginação, então para provar que eu estava errada, decidi olhar e me certificar de que não havia nada ali.

Assim que olhei para baixo, pude ver algo sobre os meus pés. Havia uma criatura preta e peluda com oito patas. Soltei um grito de pavor e apaguei.

Quando recuperei a consciência eu estava deitada em uma maca, em uma sala com paredes brancas. Parecia uma espécie de enfermaria.

Sentei-me com certa dificuldade, minha cabeça latejava de dor. Uma senhora com cabelos grisalhos vestida de jaleco e roupas brancas estava de costas para mim, e anotava algo em uma caderneta.

— Onde eu estou? — perguntei um pouco zonza.

A senhora virou-se e sorriu para mim.

— Graças aos Deuses você acordou – disse ela – Eu disse ao seu namorado para não se preocupar.

Corei.

— Namorado?

Até que a porta da enfermaria se abre com violência, e Malcolm e Percy entraram com tudo na sala.

— Annabeth! Você quase me matou de susto – disse Malcolm.

Malcolm vestia o uniforme de educação física da Goold, short tactel azul, camiseta branca e tênis.

— Você desmaiou na aula de biologia – explicou Percy sentando-se ao meu lado na maca – Alguém jogou uma aranha de pelúcia no seu pé.

Bufei.

— Foi a Drew. Tenho certeza de que foi ela – murmurei.

Percy me olhou confuso.

— Ela estava do outro lado da sala – disse ele

O encarei.

— Está defendendo ela agora?

— Ei ei – disse a enfermeira – Você bateu a cabeça com força mocinha. Vamos ter de entrar em contato com a sua mãe para vir busca-la.

O que era aquilo? Dia de humilhar a Annabeth?

Levantei-me da maca.

— Eu estou bem – murmurei mesmo sentindo dores de cabeça – Eu só não comi direito essa manhã e me assustei. Não precisa ligar para a minha mãe.

— Tem certeza querida? — perguntou ela.

Assenti dando o melhor sorriso que pude.

— Vou ficar bem — disse eu.

Avistei minha mochila em cima da mesa da enfermeira e peguei-a. Eu já havia sido humilhada demais em um só dia. Tudo que eu mais queria era encontrar Drew, e arrebentar o seu lindo rostinho.

Virei-me para o meu irmão que ainda estava com uma expressão preocupada no rosto.

— Desculpe por te preocupar – falei – Pode voltar para a aula.

Assim que terminei de falar o sino da escola começou a soar, avisando o fim do segundo tempo.

Depois de convencer a enfermeira e ao Sr. Anderson – que entrou na enfermaria depois de finalizar a aula -, que não seria necessário avisarem a minha mãe sobre o meu desmaio, Percy e Malcolm e eu fomos para a próxima aula.

A minha próxima aula seria educação física, uma das únicas aulas em que Percy e eu não tínhamos em comum. Ele fez questão de me acompanhar até a porta do ginásio, mesmo Malcolm estando comigo – Malcolm iria trocar de roupa no vestiário para ir para a próxima aula -.

— Tem certeza que está tudo bem? – perguntou Percy pela a milésima vez antes de ir.

Sorri.

— Estou bem – murmurei – Aquele tuor por Nova York ainda está de pé?

Ele sorriu.

— Claro que sim – disse ele.

Antes de se afastar ele sorriu para mim o que me fez corar. Fiquei observando enquanto ele se afastava pelo o corredor.

Malcolm me analisava com um sorriso no rosto.

— Vocês vão ter um encontro? – perguntou.

Corei.

— Claro que não – disse eu – Ele só vai me mostrar a cidade.

Malcolm tentava reprimir o riso.

— Tudo bem então – murmurou.

Entramos no ginásio e nos despedimos na porta dos vestiários feminino e masculino. E Thalia me aguardava na porta do vestiário feminino com impaciência.

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— Quanta demora – queixou-se.

— Sinto muito – disse eu – Tive problemas na aula de biologia.

Enquanto Thalia abria a porta do vestiário, pude ouvir várias garotas rindo e falando alto. Logo ouvi a voz irritante de Drew.

— Vocês precisavam ver a cara dela – dizia Drew – Eu sabia que ela iria se assustar, mas não sabia que ia desmaiar.

Várias garotas riram.

— Pedi ao Travis que ficasse ao lado dela e jogasse a aranha de pelúcia – continuou – A idiota nem reparou.

Impedi Thalia de entrar no vestiário.

— Elas estão falando de mim – sussurrei para ela.

— O que?

Contei rapidamente a ela o que havia acontecido na aula.

Thalia ficou vermelha de tanta raiva.

— E o que você vai fazer?

— Ainda estou trabalhando nisso – disse eu – Mas por enquanto...

Abri a porta do vestiário com violência. Quando entrei no vestiário, todas as meninas pararam de falar. O vestiário era grande e haviam vários armários nas paredes, e dois bancos de madeira no meio. Haviam oito garotas, algumas amarrando o tênis e outras em pé encostadas nos armários. Drew estava sentada em um dos bancos penteando os cabelos, que estava preso em um rabo de cavalo.

Assim que me viu sorriu e disse:

— Pensei que ainda estava na enfermaria Annabeth – disse ela com uma fingida preocupação – Você bateu a cabeça com força quando caiu. Espero que não tenha afetado mais o seu cérebro.

As garotas reprimiram o riso.

Me aproximei de Drew lentamente.

— Você vai se arrepender de ter feito isso – disse eu.

Drew sorriu.

— Eu não fiz nada – disse ela cinicamente – Você é quem desmaiou com de medo de uma aranha de pelúcia.

Eu estava prestes a dar um belo soco em seu nariz, quando a professora de educação física entrou no vestiário.

— Vamos garotas – disse ela – Parem de conversa! Quero todas vocês na quadra em cinco minutos ou vão perder meio ponto! Hoje nós vamos jogar queimado.

Assim que a treinadora se foi, Drew se levantou do banco sorriu para mim e saiu do vestiário acompanhada de suas amigas.

Já na quadra, a professora nos informou que iriam ser dois jogos. O primeiro dos meninos e o segundo das meninas. Para o meu azar, Luke também estava na aula e não parava de me olhar. Enquanto os meninos jogavam Thalia e eu estávamos sentadas na arquibancada, assim como as outras garotas.

Drew estava sentada a algumas fileiras abaixo de mim, junto com suas amigas.

— Eu vou mata-la – murmurei.

Thalia me encarou.

— Nunca te vi com tanta raiva – observou – E Luke não para de te olhar.

— Ele é um nojo – disse eu.

Suspirei.

— Detesto ser feita de idiota – murmurei – E sabe... Briguei com a minha mãe essa manhã.

Thalia me olhou compadecida.

— Vocês não se dão bem?

— É complicado – disse eu – Conviver com ela é complicado.

Thalia suspirou.

— Entendo – disse ela – Sabe, a minha relação com a minha mãe também não era muito boa. Sei que não é da minha conta, mas Malcolm me contou sobre o seu pai... Sinto muito... Eu sei bem como é.

Ela não precisou entrar em detalhes, pois só de olha-la eu sabia que tínhamos algo em comum, e não tinha nada a ver com nossas músicas preferidas. Nós duas tínhamos perdido alguém importante.

— A minha mãe morreu quando Jason e eu éramos crianças... História complicada – disse ela – Moramos com o nosso pai.

— Sinto muito – disse eu.

— Tudo bem. Eu convivo bem com isso, hoje em dia – disse ela – E sabe, se você quiser conversar sobre isso pode contar comigo.

Sorri.

— Obrigada – murmurei.

Até que a treinadora apitou anunciando o fim do jogo. Descemos da arquibancada e fomos para o meio da quadra. A treinadora disse para nós nos dividirmos em dois times. Logo, me ofereci para ser capitã de um time e sugeri que Drew fosse a capitã do outro e a treinadora aceitou.

Drew bufou.

Eu sabia que ela havia odiado. Em geral, Drew e algumas de suas amigas não gostavam de educação física, ficavam reclamando que iriam bagunçar o cabelo ou quebrar as unhas. O que não fazia sentindo, pois ela era líder de torcida.

Assim, que formamos os times e nos dividimos na quadra a treinadora soou o apto. O time de Drew iria começar o jogo, e então ela jogou a bola em minha direção que caiu inutilmente ao meu lado sem me atingir.

Sorri, apanhei a bola no chão e joguei em sua direção, a bola acertou em cheio sua barriga com tanta força que ela foi cambaleando para trás como uma boneca de trapos. Pude ouvir os garotos gargalhando da arquibancada.

— Vai Annabeth! – gritou alguém da arquibancada. E eu não tive de conferir para saber que se tratava de Luke.

Drew ficou vermelha de tanta raiva.

— Cuidado garotas! – disse a treinadora.

O jogo seguiu rapidamente e é claro que o meu time venceu. No último arremesso Thalia “acidentalmente” acertou a mão de Drew com a bola.

Drew soltou um terrível berro que quase me fez ficar surda.

— Você quebrou a minha unha Grace! – indagou.

Thalia deu de ombros.

— Desculpe – disse Thalia com ironia – Não foi a minha intenção.

A treinadora se aproximou de Drew para verificar se estava tudo bem.

— Drew a sua unha nem chegou a sair – disse a treinadora – Se recomponha.

Drew bufou de raiva e saiu cambaleando para o vestiário.

Thalia sorriu para mim.

— Aliviou a sua raiva? – perguntou.

— Quase – murmurei – Vamos logo nos trocar, estou morrendo de fome.

Como terminei de me trocar primeiro que Thalia, e não queria ficar mais nenhum segundo no mesmo ambiente que Drew, disse a Thalia que a esperaria na quadra. Sentei-me em umas das primeiras cadeiras da arquibancada e fiquei mexendo no celular para passar o tempo, quando alguém se sentou ao meu lado.

Olhei para o lado e me deparei com Luke.

Gemi.

— O que você quer? – perguntei.

Luke vestia jens, camiseta branca e o casaco do time de basquete. Seu cabelo loiro estava bem aparado e ele tinha um sorriso confiante nos lábios.

— Não se pode mais falar com amiga? – perguntou.

Revirei os olhos.

— Nós não somos amigos Luke – respondi.

Luke deu de ombros.

— Qual é Annabeth?! Ainda chateada com o lance da festa? – perguntou – Eu estava apenas brincando com você. Não iria te beijar a força nem nada parecido.

Cruzei os braços.

— Não parecia que estava brincando – murmurei – Você me assuntou.

Luke fez beicinho.

— Me desculpe – disse ele – Eu não queria te assustar.

— A sua namorada não vai gostar de te ver falando comigo – murmurei.

— Terminei com ela essa manhã – disse Luke.

Dá pra acreditar nesse cara?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.