Lembranças
3 Capítulo 3
Notas iniciais
POV Annabeth
O resto do fim de semana se passou com um borrão. Passei a manhã inteira de domingo dormindo e com uma ressaca horrível. Prometi a mim mesma que passaria um bom tempo sem beber, ou quase.
No restante do dia, joguei videogame com Malcolm. E Atena – para variar – passou o dia inteiro no escritório trabalhando em um projeto novo, mas parecia que sempre havia um novo projeto.
Logo, segunda feira chegou e eu não estava nenhum pouco animada. Iria estudar em uma escola nova e além disso, tinha aquele lance com Luke. Assim, que saí daquela festa me arrependi amargamente de tê-lo beijando, e não ter lhe dado um belo soco no nariz pela maneira como tratou. Vejamos, a minha vida amorosa não era tão extensa, e sem sombra de dúvidas eu nunca havia sido tratada daquela maneira.
Eu havia sido beijada pela a primeira vez aos doze anos, no baile de inverno da minha antiga escola em São Francisco. Namorara um garoto por uma semana no início do ensino médio, e havia beijado alguns caras antes dos meus atuais dezessete anos. No internato em que eu ficara por um tempo, não haviam muito garotos interessantes, e os que eram do meu tipo não tinham um nome muito limpo na praça. E então, eu me limitara a não me envolver com ninguém por lá.
Mas, eu sempre fora seletiva demais. Como dizia Bianca, a minha amiga do internato. E ao me encontrar em uma situação tão ruim como aquela, me deixou muito travada.
Bianca era uma amiga incrível, não sei o que seria de mim no internato sem ela. Eu estava morrendo de saudades. Lá nós podíamos fazer ligações apenas as sextas feiras, e eu teria que esperar a semana inteira para poder falar com ela.
Eu estava tomando café na cozinha. Ovos, bacon e suco de laranja, meu café da manhã favorito. Até que Malcolm chega a cozinha, e se senta ao meu lado na bancada.
— Veio pelo o cheiro do bacon? — perguntei sorrindo.
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Malcolm assentiu enfiando um pedaço enorme de bacon na boca.
Eu havia aprendido a cozinhar lendo livros de receitas e com as aulas de economia doméstica, que tive no internato. A Sra. Davis nossa professora, dizia que uma cabeça ocupada cozinhando afastava as memórias ruins e as chances de cometermos um crime. Bianca e eu sempre reprimíamos o riso quando ela dizia isso.
— Talvez você devesse aprender a cozinhar– disse eu.
Malcolm fez uma careta.
— Não obrigado. Prefiro ocupar o meu tempo treinando basquete – disse ele verificando às horas em seu relógio – Aproposito, são sete e meia precisamos ir.
***
A Gold High School ficava a várias quadras do nosso bairro, no centro de Manhattan. Porém, Malcolm conhecia um atalho e me guiou enquanto eu dirigia naquele trânsito caótico da manhã. Por sorte, quando chegamos ao estacionamento interno da escola o sino ainda não havia tocado. Haviam vários carros e alunos amontados, mas em fim consegui uma vaga para estacionar.
O prédio vermelho da escola era um tanto antigo, haviam três andares e Malcolm me informou que haviam quadras e basquete e uma piscina no prédio. Descemos do carro e algumas pessoas que estavam paradas encostadas nos carros ou conversando em grupo me encaravam.
Eu odiava aquilo. Obviamente não haviam muitos novatos além de mim. Viva!
— Merda! Eu devia estar no treino a meia hora – queixou-se Malcolm – Eu preciso ir. Você vai ficar bem sem mim?
Gemi. Mas, dei o melhor sorriso confiante que pude.
— Claro! Vai lá, tenho certeza que você vai entrar no time! – disse eu.
Malcolm sorriu e saiu correndo em disparada até a escadaria que levava a entrada da escola.
Perfeito – pensei. Não sei me orientar na escola e não conheço basicamente ninguém. Chequei o aplicativo da Gold em meu celular e descobri que a minha primeira aula era biologia, no segundo andar na sala duzentos e oito.
Suspirei.
E antes que eu começasse a caminhar alguém me segurou pelo o braço. Automaticamente lembre-me de Luke, virei-me esperando dar de cara com ele. Mas, graças aos deuses era Piper com um sorriso no rosto. Ela vestia um uniforme azul e branco de líder de torcida, e seus cabelos estavam presos em uma trança com um laço azul na ponta.
— Desculpe – disse ela – Não queria te assustar.
Eu devia estar com uma expressão nada amigável.
— Oi! Achei que fosse outra pessoa.
Até que me dei conta de que Piper era irmã de Drew. Drew era ex namorada de Luke. Eu precisava contar a alguém o que tinha acontecido, ou iria enlouquecer. Talvez ela não achasse legal eu ter beijado o seu ex.... cunhado? Mas, eu não sabia de nada disso!
— Tudo bem com você? — perguntou Piper com as sobrancelhas franzidas.
— Preciso te contar uma coisa, que aconteceu na festa – disse eu – Sei que acabamos de nos conhecer e...
Contei todo o ocorrido a ela, além de como eu conhecera Luke. Piper ouvia atentamente e não expressava nada, o que me deixou apreensiva. Assim que terminei de falar ela cruzou os braços.
— Eu não acredito que ele fez isso com você! – disse ela – Eu nunca confiei nele. Nunca. O relacionamento dele com a Drew foi um caos. Eles brigavam o tempo todo e traiam um ao outro.
Encostei-me no meu carro e suspirei.
— Não é estranho para você, eu ter ficado com ele? — perguntei.
Ela sorriu.
— Claro que não! Mesmo se você soubesse a história toda, eu não me importaria – disse ela – Drew e eu não nos damos bem. Ela mora com o pai dela e eu com a nossa mãe.
Antes que eu pudesse responder, o sino da escola começou a tocar e todos os alunos que
estavam no estacionamento se apressaram para entrar no prédio.
— Qual a sua primeira aula? — perguntei.
Rezei para ser a mesma que a minha.
— Biologia – respondeu ela — Mas, sou do segundo ano.
Gemi.
Caminhamos em meio à multidão, até entrar no prédio. A escola parecia ter sido reformada recentemente, as paredes estavam pintadas de azul bebê e os armários eram cinzas e tomavam todas as paredes.
E depois de subir escadas e esbarrar em algumas pessoas achamos a minha sala.
— A minha sala é aqui ao lado – informou Piper – O primeiro tempo acaba ás dez.
Sorri.
— Obrigada – disse eu.
Ela deu de ombros.
— Sei como é difícil uma escola nova – disse ela – Já me mudei várias vezes... Era para Thalia já ter chegado, ela é do último ano também. Não sei onde ela se meteu, ela não responde as minhas mensagens.
Espiei pelo o vidro da porta, e um professor lá dentro já conversava com a turma.
— Preciso entrar – gemi – Obrigada de novo.
Ela sorriu. Virei-me e bati na porta e ela logo foi aberta. O professor me encarou de cima abaixo. Ele era alto, tinha cabelos brancos e ralos, barba bem aparada, vestia jens surrados e uma camisa polo verde onde havia um adesivo com os dizeres “Sr. Anderson”.
— Não conheço você e não gosto de alunos atrasados – disse ele.
Bem simpático— pensei.
— Desculpe – murmurei – Sou nova aqui. Me perdi.
Ele não pareceu muito convencido, mas me deixou entrar na sala.
Dentro, a sala era na verdade um laboratório, haviam armários grandes ao fundo e grandes janelas de vidro que davam vista para a cidade, prateleiras com vários animais em conserva, cobras etc. Haviam três fileiras com quatro bancadas cada uma, e que comportavam duas pessoas. A única bancada vaga era última, na fileira na qual ficava ao lado da janela.
Todos me encaravam, então me apressei para me sentar na bancada vaga. Sentei-me e observei que todos estavam copiando as anotações da louça do professor. Rapidamente apanhei meu caderno e canetas e comecei a anotar. O professor explicou como seria o ano letivo e tudo mais.
Percebi com pesar que a dupla ao meu lado se tratava de Drew e uma garota loira. Drew fingia copiar as anotações enquanto mexia em seu celular.
Minutos depois enquanto o Sr. Anderson falava alguém bateu na porta. Ele respirou fundo e abriu a porta sem vontade.
— Percy Jackson! Sabe que horas são? — perguntou ele – Eu devia manda-lo ao Sr. D, para você começar o ano letivo com uma detenção.
Percy respondeu alguma coisa que não pude ouvir muito bem pela a distância, e então o professor o deixou passar com relutância. Percy entrou na sala e assim que me viu sorriu e caminhou para se sentar ao meu lado. Pude sentir Drew me fuzilar com o olhar.
Sorri assim que ele se sentou ao meu lado.
— Oi! – disse eu.
— Oi! Cara, achei que ele não fosse me deixar entrar – sussurrou.
Antes que eu pudesse responder o professor berrou:
— Sem conversas durante a explicação!
O professor nos passou um exercício, para resolvermos em dupla sobre biologia básica. Eu particularmente achei bem divertido, mas Percy teve muita dificuldade. Graças a mim fomos a primeira dupla a terminar.
— Estou impressionado Senhorita Chase – disse o professor — Acho que será bom para o Sr. Jackson vocês ficarem juntos esse ano.
Ele recolheu o nosso teste e voltou a sua mesa. Drew não tirava os olhos de mim, ela e a sua parceira pareciam ter dificuldades com o teste.
— Não sei como você entende essas coisas – comentou Percy.
O encarei.
— Estudando é claro – respondi.
Percy fez uma careta.
— Eu odeio estudar – disse ele – Mas, se eu não me esforçar mais esse ano, não vou conseguir entrar em uma faculdade legal. E não vou ser mais capitão do time basquete e nem fazer parte do time de natação.
Mordi o lábio.
— Eu posso te ajudar.... Se você quiser.
Percy sorriu.
— É claro que eu quero – disse Percy – Seu irmão e eu treinamos basquete na sua casa, três vezes por semana. Nós dois podemos estudar antes.
Sorri.
— Combinado!
Percy mordeu o lábio.
— Está tudo bem com você? Sabe... Sobre Luke – perguntou.
Suspirei e comecei a mexer em uma mecha de cabelo, como eu fazia quando ficava nervosa.
— Acho que sim – murmurei – Foi tudo muito estranho....
Olhei sobre o ombro de Percy e Drew me encarava com tanta raiva que achei que ela fosse voar sobre nossa bancada a qualquer momento.
— Acho que a sua namorada não está gostando nada disso – sussurrei.
Percy olhou para trás, mas Drew foi mais rápida e fingiu estar interessada em seu teste.
Percy bufou com desdém.
— Ela não é a minha namorada e nem nunca foi. Eu só fiquei com ela e não sabia como terminar... – disse ele
Cerrei os olhos.
— Sério? Não é só porque ela é bonita e popular?
Percy ficou vermelho.
— Claro que não! Eu estava passando por uma fase difícil e ela também – disse ele – Terminei com ela sábado na festa. Ela ainda é apaixonada por Luke.
Não sei o porquê, mas o fato de saber que eles não estavam mais juntos me deixou um pouco feliz. E então o sino tocou nos avisando o fim do primeiro tempo, e os alunos comemoraram. E enquanto nós arrumávamos nossas coisas o Sr. Anderson disse:
— Irei receber os testes na próxima aula, mas valendo a metade da nota! – anunciou.
Houve vários protestos.
— A tarefa era para ser feita hoje, e só uma dupla entregou! – retrucou ele – E na próxima aula começaremos a estudar um pouco sobre os aracnídeos. Trarei algumas para analisarmos melhor, em laboratório.
Gelei
Houve várias comemorações dos alunos e sem pensar eu disse:
— Aranhas de verdade?
Algumas meninas deram risadinhas e incluído é claro, Drew.
— Tem medo de aranhas? — perguntou Drew sorrindo.
Gelei.
— Claro que não! – disse eu sentindo vários olhares sobre mim e torcendo para não estar tão vermelha quanto parecia.
— Sim, elas são de verdade. Mas, vocês não serão obrigados a toca-las – disse Sr. Anderson – Estão liberados agora!
Enquanto Percy e eu caminhávamos lado a lado pelo o corredor da escola, ele perguntou:
— Você tem mesmo medo de aranhas? — perguntou.
O encarei séria.
— Isso não é da sua... – respirei fundo – Sim. Tenho medo aranhas.
Percebi que Percy se segurava para não rir o que me deixou um tanto brava.
— O professor sempre traz animais para analisarmos em sala – disse ele – Esse é um dos motivos de eu não dormir nas aulas dele.
Tudo bem, vocês devem estar pensando que o meu medo de aranhas é uma coisa boba. O fato é que eu tenho pânico de aranhas desde muito pequena, e isso me fazia lembrar de coisas sobre a minha infância e a péssima relação que eu tinha com a minha madrasta. Mas, não vamos entrar em detalhes agora.
Eu estava distraída andando para próxima aula – que era história e que concidentemente era a mesma aula de Percy — e pensava em como mataria a próxima aula de biologia. Não sou a favor de matar aulas, mas aquele era um caso atípico.
Quando entramos na aula de história, encontramos Thalia tirando uma soneca em uma das carteiras. E Percy a acordou, o que a fez xinga-lo de todos os nomes possíveis. Percy se sentou próximo a alguns garotos com uma camisa azul do time de basquete, e eu me sentei próxima de Thalia.
Ela era bem legal e conversamos sobre diversas coisas, como nossas bandas favoritas. Não tínhamos muitas em comum, mas ela prometeu que iria me enviar a sua playlist completa de rock no Spotify.
A aula se passou rapidamente e logo chegou a hora do almoço. No corredor encontramos Piper que estava a caminho do banheiro e então decidimos acompanha-la. Enquanto Piper arrumava seu cabelo impecável, em frente ao espelho, contei a Thalia o que acontecera comigo e Luke na festa de sábado.
Thalia quase caiu da bancada do banheiro de onde estava sentada.
— Não acredito que Luke fez isso com você – disse ela – Que cara nojento!
Piper me encarou compadecida. Até que alguém abre a porta de um dos reservados. Era a mesma garota loira que se sentou com Drew na aula de biologia. Ela nos encarou de cima abaixo lavou as mãos e saiu.
Xinguei baixinho.
— Eu devia ter checado se havia alguém no banheiro antes de contar – disse eu.
Thalia bufou e saltou da bancada.
— É a Laurie, a amiga da Drew – disse ela.
Piper revirou os olhos.
— Eu aposto que a essa altura ela já contou tudo a ela – disse ela – Eu só queria almoçar em paz!
— Eu não sei como você consegue ser líder de torcida com elas – comentou Thalia – Eu já teria sido expulsa por agressão.
Sorri.
— E o que Drew vai fazer? Me bater? — comentei – Eles nem estão mais juntos!
Piper sorriu.
— Você não conhece a minha irmã. Ela bem possessiva – disse ela – Você podia entrar para as líderes de torcida também. Ela ficaria bem irritada.
Soltei uma risada.
— Eu? Só fui líder de torcida uma vez com treze anos – murmurei – Não, obrigada.
Piper fez um beicinho.
— Por favor, eu sou a capitã – pediu ela – Tomei o posto de Drew ano passado. Até hoje ela me odeia por isso.
Dei de ombros.
— Tudo bem – murmurei – Vou pensar.
Saímos do banheiro e fomos em direção ao refeitório. O lugar era grande com várias mesas redondas espalhadas, janelas de vidro que deixavam o lugar bem iluminado, máquinas de refrigerante e uma lanchonete com uma variedade impressionante de comida. A fila estava enorme, então nós três nos arrastamos até o fim.
— Ai eu vou vomitar – disse Thalia olhando para uma das mesas.
Olhei na mesma direção e entendi. Luke estava sentado em das mesas, rodeado por outros caras vestidos com o uniforme do time e basquete e algumas líderes de torcida. E para minha surpresa Drew estava sentada ao seu lado, e ele estava com o braço em torno de sua cintura. Laurie conversava com Drew que fixou os olhos em mim.
Piper revirou os olhos.
— Eu não acredito que me envolvi nisso – queixe-me.
— O Jason está se aproximando mais e mais de Luke – comentou Piper olhando para mesa – Não gosto disso.
Jason sentava ao lado de Luke e girava uma bola de basquete no dedo indicador. Ele não tinha muita semelhança com Thalia, possuía olhos azuis, cabelos loiros e pele bronzeada.
Thalia bufou.
— Eu já o avisei várias vezes para tomar cuidado, mas ele não me ouve – murmurou ela.
Olhei para Piper.
— Vocês namoram?
Piper mordeu o lábio.
— É complicado — disse ela – Nós namorávamos ano passado, mas ele estava tão distante no verão. O convidei para passar as férias comigo na praia e ele... Desmarcou de última hora...
Thalia cruzou os braços.
— Ele passou o verão inteiro com Luke e sua corja – disse ela – Discutimos várias vezes.
— Nós conversamos na festa.... Na verdade, não conversamos. Só nos beijamos e fingimos que estava tudo bem – murmurou ela infeliz.
Qual o problema dos garotos dessa escola?
Resolvi comprar uma água e uma fatia de pizza. E esperava as garotas comprarem o lanche delas, segurando a minha bandeja em frente a fila quando algo me atingiu nas costas, fazendo com que eu me desequilibrasse e derrubasse o meu lanche intocado. Virei-me e dei de cara com Drew, e percebi que ela havia me empurrado.
— Qual o seu problema? – perguntei.
Drew sorriu com ironia.
— Fique longe de Luke. Ele é meu — rosnou ela.
Agora foi a minha vez de rir.
— Você está rindo? – perguntou ela.
Fiquei alguns segundos rindo, porque realmente eu estava achando graça de tudo aquilo.
— Você me empurra, faz com que eu derrube a minha comida e ainda vem me pedir para ficar longe do lixo do seu namorado? – perguntei – Eu quero que vocês sejam bem felizes! Vocês realmente se merecem!
Drew ficou vermelha como um tomate, pois várias pessoas gritaram quando eu terminei de falar. Eu odiava fazer cena, mas ela pediu por isso.
Ela então partiu para cima de mim, mas Laurie que estava atrás dela a segurou e alguns garotos do time apareceram para arranca-la de lá.
Thalia apareceu ao meu lado, vermelha de tanto rir.
— Eu ia vir para intervir, mas você já tinha tudo sob controle – disse ela sorrindo.
Piper parecia nervosa, mas sorriu para mim e disse:
— Pensou melhor sobre as líderes de torcida? — perguntou.
Sorri.
— Claro que eu aceito – respondi rindo.
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