Lembranças...
1 Único
Notas iniciais
O cansaço me consumia, dentro daquelas quatro paredes tão aconchegantes e cheias de lembranças. Meus olhos percorriam todo o ambiente, em cada canto, em cada parede e chão, havia uma lembrança de ti. Meus olhos avermelhados e com olheiras fundas, resultantes de noites em claro, denunciavam minha falta de você. Na caixa de som, coloquei aquela música, tão calma, tão linda, fazia lembrar-me de ti, meus ouvidos agradeciam aquele som tão bonito e nostálgico. Era cruel ouvi-lo, cruel e ao mesmo tempo tão bom, era bom torturar-me pelas lembranças tão irreversíveis. As lágrimas escorriam de novo, não me preocupei em limpá-las, não havia porque escondê-las, não havia ninguém em minha casa, assim como não havia mais ninguém em minha mente, além de você.
A caneca de chá quente em minhas mãos queimava a palma de minha mão, mas não tive vontade de segurá-la de outra forma. Com a minha outra mão, segurei a alça da caneca e com movimentos leves levei-a até minha boca, saboreando um gole daquele chá tão saboroso, tão cheiroso. Até o chá me lembrava de você, o jeito com que o fazia tão doce e tão cheiroso, nem eu mesmo conseguia fazê-lo tão bem. Respirei fundo o vapor do chá que me consolava com tanta ternura. Movi minhas mãos que seguravam tão firmemente aquela caneca quente, segurando-a pela alça com uma de minhas mãos, levantei daquela cama de casal tão fria, vazia, bagunçada e cheia de lembranças.
Ao levantar-me, senti meu olhar fixo em qualquer lugar, dei mais dois goles grandes naquele chá e o coloquei em cima de minha escrivaninha. Puxei um cigarro da embalagem e o acendi com o isqueiro. Traguei com vontade aquela fumaça que me fazia relaxar, enquanto fumava, saí de nosso quarto e desci as escadas. Na sala, minha cabeça formava um filme, me torturava mostrando as cenas de quando você estava ali, sentado em meu sofá, os meus olhos tão grudados em você, te abraçando com tanta volúpia, seu corpo grudado junto ao meu, que não mais existia ali.
As conclusões de minha mente me faziam querer gritar, traguei novamente de meu cigarro e segui para a cozinha, encostei meu corpo estático na quina da porta e observei o lugar vazio, embora na minha mente as coisas fossem diferentes, você estava ali, fazendo meu jantar, sorridente e contando-me como fora seu dia, eu chegava por trás e o abracei, fazendo seu rosto ruborizar... Ah como eu amava aquele ruborizar de sua face, o fazia tão mais bonito e meigo. Fechei meus olhos com força, não gostaria de projetar tais imagens de novo, estava me deixando louco, estava me torturando. O aperto em meu peito voltara, assim como o arrepio nos olhos, traguei novamente de meu cigarro e abri os olhos, fazendo minhas lágrimas voltarem ao rosto. Meu corpo foi perdendo a força para ficar em pé, fazia quase três dias que eu não dormia, e mais dois que não conseguia comer nada, estava vivendo de café e chá. Meu corpo que agora deslizara pela quina da parede até chegar ao chão, estava tão sem jeito quanto minha mente, tão bagunçado quanto nossa cama e tão ferido quanto meu coração.
Sobre as lágrimas eu não tinha controle, ergui meus joelhos e os abracei, levando o cigarro até a boca novamente, o deixei tão perto de meu rosto que o cheiro do tabaco tão envolvente, era a única coisa que não me lembrava de você, me deixou saudável por um momento, pensando que talvez houvesse tais coisas nas quais não me lembraria de você. Mas o pensamento fora embora quando meu gato andou até mim e arranhou meu braço, pedindo por atenção, fazendo lembrar-me de ti novamente, o jeito tal como o tratava, como se fosse nosso filho, dando-lhe atenção privilegiada. As lágrimas pararam, traguei novamente do cigarro, olhei para cima e fechei os olhos tão serenamente, me levantei e peguei o gato, andei até o sofá e me joguei sobre ele, sorrindo ao lembrar-se de você...
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