Notas iniciais
"Lembrança é quando, mesmo sem autorização, o seu pensamento reapresenta um capítulo." -Adriana Falcão

Dentro de casa, como se o mundo fosse acabar, bati com força a porta da frente e a tranquei para que nada ousasse passar por ela, com exceção, talvez, do leve assobio que a ventania do tempo tão furioso fazia.

Arfando, sem conter as lágrimas e o desespero, fiz a pior e a primeira coisa que me veio à mente naquele momento:

Ligar para Arcam.

Sendo assim, rapidamente, catei meu celular velho e acabado em um dos bolsos de minha calça larga e disquei o número do meu irmão.

–Alô? – ele perguntou em um tom preocupante.

–Arcam? Você está drogado? -deixei escapar a pergunta.

O garoto, então, começou a gritar coisas indistinguíveis para mim que deduzi serem palavrões e xingamentos. Ele, perceptivelmente, estava com raiva por eu ter ligado.

Interrompendo-o, apressei-me em justificar:

–Arcam me escute! Eu não teria motivos para te ligar se não fosse realmente sério! Eu acho que estou com problemas!

–Eu não tenho nada com isso, Sam! Quantas vezes eu já te falei, idiota, que os seus problemas são exclusivamente seus?

–Cala a boca, seu drogado! –eu raramente me alterava com meu irmão pelo fato de compreender que seu vício pelas drogas e bebidas era devido à perda precoce de nossos pais e por, repentinamente, ele se ver com a responsabilidade de me criar em seus ombros, na época, adolescentes. No entanto, seu desinteresse pelo meu estado atual e pelo meu visível desespero me irritou ao ponto de tirar-me do sério.

Logo após gritar com ele, eu senti a tensão diminuir entre nós. Arcam permanecia em silêncio do outro lado do telefone e parecia respirar pesadamente, tentando se acalmar.

Em um tom mais relaxado e, posso até dizer, preocupado comigo, ele voltou a falar:

–O que houve Sam?

–Você pode voltar pra casa agora? Preciso te contar uma coisa. Eu estou assustada...

–Por que não conta pra vovó e pro vovô? Talvez eles possam te ajudar melhor que eu.

– Pare de transferir tudo pra eles! Com oitenta anos de idade, não devemos simplesmente jogar na cara deles o que nos acontece! Já pensou em contar pra eles que você se droga? –respondi, irritada. –E, acredite, Arcam, o que tenho pra te contar é algo bem mais sinistro que seus baseadinhos de merda, heroína, LSD, maconha, crack ou seja lá o que você usa!

– Duvido muito disso, Sam. –por um momento, o celular explorou o silêncio que se emanou entre nós, até Arcam o quebrar: — Falou, eu vou pra aí o mais rápido que puder.

E, assim, a ligação foi encerrada. Os caminhos das lágrimas secas em meu rosto eram prova de meu desespero mal consolado pela voz de meu irmão.

Sentei-me no chão, aguardando nervosamente a chegada de Arcam. Repentinamente, ouvi o som de uma chave destrancar a porta e vi o movimento lento de alguém girando a maçaneta.

Estremeci por alguns segundos até a porta se escancarar por completo, revelando a figura um tanto quanto acabada de um garoto loiro, com o cabelo despenteado e mal cuidado batendo na altura dos ombros, com olhos azuis-esverdeados emanando uma vermelhidão doentia e com uma marca roxa na proximidade de sua orelha esquerda. Ele estava pior do que o de costume.

–Arcam, por que diabos...? Onde arranjou esse hematoma? –perguntei-lhe, me aproximando e examinando cautelosamente a marca roxa em seu rosto.

Ele se afasta de mim alguns passos.

–Queria me dizer algo. –ele lembrou.

–Sim, queria, mas sou sua irmã. É normal irmãos se preocuparem uns com os outros, apesar de você não se importar. –retruquei, agressivamente.

–Se não me importasse não teria vindo, caralho! Deixa de ser enjoada, garota! –ele se altera.

Respirando um pouco e tomando coragem para contá-lo minha terrível experiência daquela manhã, comecei. Sem omitir ou acrescentar nada, conto-lhe tudo, detalhe por detalhe, tintim por tintim, mas tudo que consigo ler em seu rosto é uma expressão descrente.

Com raiva, disparei:

–O que foi? Acha que só você se mete em furada?! Só você é o fodástico que sai por aí fazendo merda e caminhando sozinho por essas bandas?

–Eu não disse nada! –ele retruca, segurando o riso.

–Não sei por que ainda perco meu tempo tentando te tirar das drogas se você não é capaz de acreditar em mim uma vez na vida!

Assim, me dirigi ao meu quarto, fazendo questão de bater a porta para expressar minha frustração. Como poderia, meu próprio irmão, expressar tão descaradamente o desprezo que sentia pelo que eu passava? Como poderia, ele, tonar-se tão frio e abstrato a tudo ao seu redor a ponto de não se importar com a própria irmã?

Ouvi alguém bater de leve, na porta do meu quarto, três vezes. Mesmo sem o meu consentimento, Arcam entrou, descaradamente, em meu quarto e se sentou ao meu lado, na cama.

–Desculpe-me. –ele pediu baixo.

Sem coragem para negar aquele pedido, meu coração mole faz as palavras pularem de minha boca:

–Tudo bem. Eu acho que não esperava, realmente, que você acreditasse em tudo aquilo... É só que...eu estava com tanto medo.

Involuntariamente, as lágrimas retornaram ao meu rosto e eu desmoronei em um choro abafado e profundo. Senti os braços fortes de meu irmão me envolverem, consolando-me como podiam.

–Ah, Sam... Amanhã você me mostra onde foi e vamos acertar as contas com esse babaca da roleta-russa. –ouvi-lo dizer.

Preocupada com a ideia, o contradisse:

–Mas, Arcam...eles possuíam armas de verdade. Não era algo que se pudesse resolver à base de força física. Vamos contatar policiais e deixa-los solucionar isso.

–Sam, eles mexeram com a pessoa errada. Além disso, contatar policiais pode foder pra mim! –ele disse, me soltando. –Ou já se esqueceu de que seu irmão é um viciado?

–Não... -lamentei. –Eu não esqueci.

–Olha, eu posso ser drogado, mas não sou burro. Se eu fosse lá, não iria sozinho e nem desarmado, pode ter certeza.

–Você mexe com armas também?

–Armas é algo comum em um cenário de tráfico, Sam. –ele disse calmo, parecendo não querer me assustar com o que acabara de dizer: não deu certo, eu estava apática.

–V-você já matou? –perguntei, com receio da resposta que pudesse receber. Rapidamente, ele voltou a me abraçar.

–Não, Sam. Eu não... -ele me disse em tom tranquilizador.

Apesar do medo de que ele pudesse estar mentindo, como já fizera tantas outras vezes, o modo como ele garantia que poderíamos ir e voltar em segurança no local do crime amanhã me encorajou. Eu não podia simplesmente chamar a polícia e entregar meu irmão drogado junto. Era covardia.

Pensativa, falei em um tom nervoso:

–Tudo bem, então voltaremos ao local amanhã, mas se alguma coisa der errada eu vou ligar pra polícia imediatamente, está me ouvindo? –ele assentiu. –Ótimo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.