Lema de Lorien

2 Parte II - Se pelo menos...


Notas iniciais
Olá, voltei! Esse capítulo ficou bem "grandinho" (parece um monstro, ok). Acho que o maior que já escrevi em minha vida! Para vocês entenderem quais partes eu reescrevi, tudo que estiver em negrito é do livro. Partes reescritas: Página 69, 70. 169,170. 268. 277. Livro 4 , A queda dos cinco, Pittacus Lore Boa leitura! MUITOS SPOILERS! Ops. OBS: Quando tiver os asteriscos *****, é que passou BASTANTE TEMPO, os personagens já podem ter mudado de lugar, de dia.... E quando tiver isso: (...) é que passou um TEMPINHO, ou seja, os personagens estão ou no mesmo dia, no mesmo lugar ou os dois.

"Não perca a esperança, (...). Quando você a perde, já perdeu tudo. E quando você pensa que tudo está perdido, (...) é sinistro e sombrio, sempre há esperança."
Eu sou o número quatro. Pág. 103

–Mas se a gororoba assustadora do cachorro-quente ao estilo de Chicago é o que você quer, que assim seja. Eu nunca lhe agradeci de verdade.

Oito vai em direção ao vendedor, mas eu seguro seu braço e o puxo de volta. Ele sorri para mim.

–Mudou de ideia?

–Como assim nunca me agradeceu de verdade? — pergunto. — Agradeceu pelo quê?

–Por salvar minha vida no Novo México. Você quebrou a profecia, Marina. Setrákus Ra enfiou a espada através de mim, e você... você me trouxe de volta à vida.

Fico ruborizada e olho para baixo.

–Não foi nada.

–Foi literalmente tudo para mim.

Levanto os olhos, dando minha melhor versão do sorriso provocador de Oito.

–Nesse caso, acho que mereço mais do que um cachorro-quente nojento.

Oito cruza os braços com firmeza, como se eu o tivesse ofendido.

–Você está certa! Sou um idiota por achar que minha vida vale um cachorro-quente. — Ele pega minha mão e se ajoelha, a testa encostada nas costas da minha mão. — Minha salvadora, como posso retribuir?

Estou constrangida, mas não consigo conter o riso. Nesse momento lembrei de um filme que vi as meninas do convento assistindo pelo celular uma noite... A dama dizia: Como posso recompensá-lo? E então ela o beijava. Fico sem jeito ao lembrar disso e não consigo responder a sua pergunta.

Puxo-o para cima para que as pessoas ao nosso redor parem de olhar tanto. Isso só me deixa ainda mais envergonhada.

Ele aperta os olhos, tentando ler minha expressão.

Abro a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas ele se inclina sobre mim e me beija de repente.

Esse não é nenhum pouco parecido com nossos outros beijos. Não é rápido, nem desesperado, é lento e calmo. Enrosco as mãos em seu pescoço e sinto suas mãos passarem pelas minhas costas. Parecemos tão encaixados...

Nos separamos por falta de ar, mas continuamos próximos.

–Pode me prometer mais dias como este.– digo a Oito, sorrindo.

Ele me abraça com força e murmura:

–Está prometido.

*****

–As coisas vão começar a se acelerar agora, só isso. Queria que nós tivéssemos mais tempo para fazer outros passeios como aquele.

–Nós? — repondo, sentindo um calor repentino subir para o rosto. — Você ia me teleportar também?

Oito me lança aquele sorriso irresistível.

–Seria só uma folguinha. Está me dizendo que não precisa de uma?

Estou prestes a responder, quando Nove surge na oficina. Já colocou roupas esportivas.

–Estão prontos para treinar, seus manés?

Ele não espera uma resposta e já sai da oficina.

Olho para Oito, como para pedir desculpas, mas mudo de ideia e respondo:

–Depois do treino. Combinado?

–Combinado. — ele sorri para mim e pega minha mão.

*****

–Marina... Pode abrir os olhos. Já chegamos — ouço a voz de Oito bem próximo de mim.

Espero mais um segundo, receosa, e então os abro.

Estamos em uma praia desértica. As ondas do mar quebram tranquilamente na areia branca da praia. No horizonte, o sol mergulhava no mar em tons de laranja. Suspirei. Era um lugar lindo.

–Onde estamos?

–Em uma praia. — ele faz um careta, como se fosse óbvio. — Realmente não sei onde é. Acho que estava pensando em você, no mar e puff viemos parar aqui.

Eu rio.

–Eu gostei. — digo.

Ele corre na direção do mar, vira por sobre o ombro e me questiona:

–Ei! Está esperando o quê?

Corro na direção dele, mas ele desaparece. Mal tive tempo de ter uma reação, ele reaparece em meio segundo depois atrás de mim. Ele toca o meu ombro rapidamente.

–Está com você.

Eu rio, surpresa, com sua brincadeira infantil. Tento encontrá-lo. Para onde estou: Sozinha numa praia deserta, não há ninguém. Então algo pula na água ali perto. Vou até lá e pego um caranguejo pela garra.

Oito se transforma para sua forma original. Está segurando minha mão.

–Peguei você. — digo.

Ele olha em um relógio de pulso imaginário.

–Hm, você tem cinco segundos para fugir.

Não espero um segundo aviso. Saio correndo para o fundo e mergulho quando já não consigo mais ficar de pé. Paro em um lugar, de baixo da água,já que o mar é muito grande e é fácil nos perdermos.

Espero por um tempo que me pareceu longo e já começo a ficar preocupada. Então, de repente vejo um polvo se arrastando na minha direção. Oito. A exclamação que solto não emite som. Começo a nadar para outro lado o mais rápido que posso, entretanto ele é mais rápido. Um dos tentáculos enrosca em minha cintura, e depois outro. Quando chegamos a superfície, ele se transforma. Estamos abraçados.

Estou rindo.

–Ok. Você venceu. — digo.

–Mas demorei para te achar...

–Não seja tão modesto! — exclamei.

–.... Você se escondeu bem. — ele completou, dando de ombros para o comentário que fiz no meio de sua frase.

–Você é muito rápido, isso não é justo. — protesto, na brincadeira.

Ele nos teleporta para a praia repentinamente.

–Empatamos? — ele tenta achar uma solução.

–Revanche? — brinco.

Oito gira os olhos, sorrindo. Ele finge estar pensando sobre a revanche. Ele me olha pelo canto do olho de vez em quando, provocativo.

–Hm, não sei...

–Está com medo de perder. — acuso, rindo.

Ele me puxa para mais perto dele.

–É que eu estou meio cansado... — ele murmura, antes de beijar meus lábios.

–Uhum. — faço, em meio aos seus beijos. — Você deve estar exausto.

Ele sorri e repete várias vezes: Estou exausto, exausto, exausto...

Continuamos nos beijando. Não havia ninguém ali para nos interromper, para nos atrapalhar, só nós dois. Os beijos foram se aprofundando a medida que não conseguíamos descobrir como nos separar.

Nós caímos na areia, ainda enroscados.

(...)

Um calafrio percorre meu corpo. Um vento frio agitava o mar a minha frente. Minhas roupas estavam um pouco distantes de mim.

Noto o céu escuro cheio de estrelas e percebo que passamos muito tempo fora. Mesmo assim fico com preguiça de levantar-me. Enrugo a testa. O que aconteceu comigo? Onde foi parar a antiga e certinha Marina? Aquela que nunca continuaria ali deitada, longe dos outros, por muito mais tempo. O que esse Oito fez com ela?

–O que você fez comigo? — faço a pergunta que estava em minha mente.

–Ahn? — ele resmunga, deitado ao meu lado. — Do que você está falando? Sabe o que...

–Fizemos coisas que eu nunca faria em meio a uma guerra... e fiz.

Viro meu rosto para observá-lo e vejo ele me olhando.

–Se arrepende? — tem um brilho triste em seu olhar.

–De jeito nenhum. — digo, sorrindo. Sinto vontade de grudar meus lábios nos dele de novo e faço isso.

–Onde foi parar a Marina? — ele brinca, rindo, quando nos separamos. — Onde está ela?

–É... — eu percebo. — Você está certo. Nós precisamos ir. Está ficando tarde.

–Marina.

–Eu estou falando sério, Oito. — Eu me sento, puxando ele comigo.

–Marina, — ele repete. Está me olhando, então paro para ouvir o que ele tem a dizer. Ele se aproxima de mim e roça seus lábios nos meus. Eu deixo, não me afasto. Ele diz: — Prometa-me mais dias como esse

Estamos sorrindo.

Eu sussurro:

–Eu prometo.

*****

Tento usar o mesmo recurso para puxar Nove em minha direção, mas ele não se move. O poder telecinético de Cinco é grande demais.

Tudo acontece muito rápido.

Cinco mergulha com a lâmina estendida. Nove, com os dentes cerrados, incapaz de se mover, observa o golpe fatal se aproximar.

De repente, Oito aparece na frente de Nove. Ele se teleportou.

–NÃO! — Nove grita.

A lâmina de Cinco atravessa o coração de Oito.

Cinco dá um passo para trás, em choque, quando percebe o que fez. Os olhos de Oito estão arregalados, e um ponto de sangue se forma em seu peito. Ele cambaleia para longe de Cinco, em direção a mim, com as mãos estendidas. Tenta dizer alguma coisa, mas nenhuma palavra sai. Ele cai.

Grito quando uma nova cicatriz queima meu tornozelo.

(...)

Algo dentro de mim se rompe. Nunca senti tanta raiva antes, e é quase reconfortante. A sensação gelada de meu Legado de cura se espalha por meu corpo, mas de alguma forma é diferente; congelante, amarga e morta. Estou irradiando frio.

*****

TRÊS MESES DEPOIS

Os dois colares lóricos balançam em meu pescoço com o tornado provocado por Seis.

–Afastem-se! — ela grita.

Sam corre na direção dela e explode a cabeça de um mogadoriano que iria atacá-la pelas costas.

Eu estou correndo para o outro lado, quando Nove grita:

–Estão fugindo!

Paro onde estou e observo a cena por um segundo. O tornado de Seis pega os mogadorianos em meio a seus gritos e cospe-os para longe. Nove se dirige para onde um deles foi atirado. Percebo que alguns se levantam.

–Isso é um tornado terráqueo! — Adam grita de algum lugar. Não consigo vê-lo. — Crie um lorieno, Seis!

Essa é realmente uma ideia brilhante.

Por mais que a presença de Adam me incomode, devido ao fato de ele ser um deles, devo admitir que ele está sendo incrivelmente útil... mais do que Cinco foi.

Lembrar dele me enche de ódio.

Ergo as mãos e grandes e pontiagudas estacas de gelo saem do chão em um grande círculo perfeito em torno do tornado, agora mais lorieno, de Seis, prendendo os mogadorianos dentro dele.

–Isso! — Nove grita, satisfeito.

–Meu braço! — John reclama de algum ponto atrás de mim. Viro-me e vejo a manga esquerda de sua blusa rasgada, um grande buraco se formou em seu ombro. Quando ergui as estacas, ele devia estar perto demais.

–Desculpe! — digo.

Vejo-o levando a mão direita a seu ombro machucado e Sarah atirando nos mogadorianos que estão dentro de meu círculo de gelo.

–Marina! — ouço Malcom gritar, num tom de alarme.

Crio uma fina camada de gelo no chão ao meu redor. Viro-me a tempo de ver um mogadoriano que brande uma espada, escorregando e caindo. Levanto a mão e outra estaca surge do chão, dessa vez bem onde ele está.

Não espero para vê-lo dissolvendo-se em fumaça: Saio correndo, passo por entre algumas estacas que criei e ajudo Nove a matar os fugitivos em pouquíssimos segundos.

Nove se aproxima de mim mancando e indicado sua coxa estourada por um bala. Uso meu legado para curá-lo.

–Valeu. — ele diz.

Quando penso que a luta acabou, uma nave para acima de nós e outros mogadorianos começam a descer, já atirando.

Nove solta um palavrão e sai correndo na direção deles.

Vejo o tornado de Seis se desfazer enquanto corro na direção deles. De repente, um raio cruza o céu bem acima de mim e explode a nave mogadoriana, que cai girando.

–Sarah! — John grita.

Não consigo ver o que acontece por de trás das estacas. Então estendo as mãos e derreto-as em segundos.

Noto John agachado ao lado de Sarah, esta está inconsciente.

Um mogadoriano corre em direção a eles, sem perceber que eu sou a loriena mais próxima. Arremesso a espada de um mogadoriano para longe com a telecinesia. Ele parece surpreso, mas vira-se para mim e avança em minha direção mesmo sem nada em mãos..

Sinto então algo enterrar-se na parte de trás do meu braço. Ranjo os dentes. Às minhas costas, um mogadoriano recarrega a arma.

A dor é insuportável, mas procuro ignorá-la, pois há dois mogadorianos.

Crio uma grossa parede de gelo as minhas costas, impedindo que mais tiros me atinjam e formo em minha mão uma lança de gelo extremamente pontuda. O mogadoriano a minha frente se assusta, e antes que possa dar meia volta, arremesso-a em sua direção. A lança crava em seu peito e ele se desfaz em fumaça.

Fico de frente para a parede de gelo que construí. Concentro-me, e ela explode em milhares de fragmentos pontiagudos. Vejo o mogadoriano com a arma ser atingido por vários deles, e também, se desfaz em pedacinhos.

Então ouço um som grave e alto. Nesse mesmo segundo chego a duas conclusões: Algo explodiu e atrás de mim. Meus pés saem do chão contra minha vontade. Sou arremessada há metros de altura, destroços batem em minhas costas enquanto estou no ar. Vejo o chão se aproximar de mim, caio de barriga e rolo várias vezes até parar.

Há uma nuvem de poeira escura alta, maior do que eu. Vários destroços estão caídos no chão ao meu lado.

Tusso. Dobro-me nos joelhos e tomo impulso com as mãos, tentando me levantar.

Meu corpo inteiro dói. Meu braço está latejando por causa do tiro e minha barriga está inchada e dolorida devido a queda. Passo minhas mãos pelo meu corpo, deixando que meu Legado de Cura aja sobre mim. O ferimento da bala demora mais para cicatrizar, mas os outros cortes e arranhados são mais superficiais, e a dor da barriga era apenas muscular, então levo menos tempo.

Respiro fundo e acabo tossindo. Ainda há muita fumaça.

Escorrego as mãos pelo meu corpo mais uma vez, percebo que estou suja com meu próprio sangue, porém estou bem.

É difícil enxergar através da fumaça.

–John! — eu grito. — Seis! Nove!

Minha garganta arde, mas eu continuo:

–Sam! Malcom! Adam!

Algo ecoa na minha cabeça de repente: Sekrátus Ra está indo aí. Fujam! É uma voz fina de menina... é Ella, percebo. Ela não está conosco, foi raptada pelos mogadorianos na batalha que houve no apartamento de Nove em Chigago; então ela deve ter conseguido essas informações com o que viu ou ouviu na Base Mogadoriana em que estava, seja lá onde fosse isso.

Então uma figura surge através da neblina e eu levo um susto. É Seis.

–Marina! — ela fica feliz ao me ver. — Temos que sair daqui!

–O que foi isso? — tusso. — Foi o seu tornado?

–Não fui eu! — ela diz, ofegante. — Foram os mogs! Temos que sair daqui!

–E os outros? — Sou tomada por uma sensação de desespero: Eu não posso perder mais ninguém. — Temos que ajudá-los

–Você não ouviu, Ella? — ela tosse, também incomodada com a fumaça. — Sekrátus Ra está vindo. Temos que sair daqui.

Ela agarra meu braço e me arrasta com ela. Eu não tenho tempo para pensar se devo voltar, se estou fazendo a coisa certo, eu só corro o mais rápido que posso.

–Meninas! — alguém grita atrás de nós. — Seis! Marina!

Nós nos viramos. É Malcom.

–Onde estão indo? — ele tosse.

–Temos que sair daqui! — respondo.

–Mas e Sam? E os outros?

Escutamos outro estrondo de repente. Outra explosão. Malcom e Seis parecem assustados, e provavelmente eu também estou parecendo assim. Por sorte, estávamos longe para sermos afetadas.

–Vamos! — Seis grita.

–Mas... — Malcom insiste.

–Ella nos avisou! Ela disse que Sekratus Ra está vindo! Temos que sair daqui!

Ele fica surpreso. Engasga antes de responder:

–Tudo bem.

Ele olha mais uma vez para trás, provavelmente pensando em Sam e nos outros. Eu também estou assim, mas Seis está certa: Não podemos ficar aqui.

Nós voltamos a correr.

–Espero que eles atendam o aviso de Ella. — eu murmuro. Seis concorda, assustada. Seus olhos possuem um brilho de medo que nunca vi nela antes.

Confiro se eu não estou sentindo dor: Não há uma quinta marca machucando minha perna; mesmo que a última ainda machuque.

*****

Fico escondida com Seis e Malcom num beco da cidade vizinha durante o dia. Ao anoitecer, vamos procurar por eles pela cidade vizinha. O local em que brigamos está destruído, e tudo coberto por fuligem. Há muita gente nesse local, repórteres e jornalistas, tentando noticiar o estranho acontecimento.

Nós passamos despercebidos pela multidão, graças a invisibilidade de Seis.

Porém só há humanos, nenhum lorieno, nenhum deles. Noto que a cidadezinha parece ainda menor sem eles ali. Procuramos no dia seguinte e no outro também. Ficamos ali por cerca de uma semana, não mais do que isso, pois é muito arriscado.

Eu chego sempre minha perna, com medo de que alguma marca apareça ali, mas nada acontece.

Nós vamos embora num ônibus de turismo. Não sei para onde ele está nos levando ou quanto tempo tem a viagem, só tenho certeza de que, quanto mais o cenário muda em minha janela, mais longe deles estamos, mais sozinhos estamos.

Fecho meus olhos: Decido não ver mais nada.

*****

Eu fico perdida e desorientada durante duas semanas, não por não saber onde estamos, mas por não saber o que fazer; e acho que Seis e Malcom se sentem da mesma forma. Com as últimas notas de Malcom, pagamos a nossa hospedagem numa pousada.

Comemos alguns salgadinhos de saquinho que Seis conseguiu arrancar de uma máquina usando a telecinesia.

Roubamos um caixa eletrônico, porque não queríamos usar todo o dinheiro de Malcom, ele já está ajudando-nos o suficiente.

Partimos para outro lugar.

Uma semana depois, eu me sinto frustrada. Eu gasto alguns centavos para ler o jornal e ver se há algum acontecimento estranho que possa estar relacionado com os outros. Malcom e Seis também procuram por eles: Eles investigam na internet de uma lan-house durante grande parte do dia.

–Temos que fazer alguma coisa. — Seis diz, quando entramos em outro ônibus para ir em outro lugar.

Eu concordo com a cabeça.

–Alguma ideia? — pergunto.

Malcom está sentado na poltrona em frente a nossa, ele se vira para conversar também.

–Eles não vão deixar uma pista. — ela raciocina. — Nós concordamos que isso é idiotice. Nada vai acontecer, nós não vamos descobrir onde eles estão a não ser que os mogs voltem a atacá-los...

–E nós não queremos que isso aconteça... — Malcom emenda.

–E então eu não tenho ideia. Devemos esperar que, não sei, eles nos encontrem? — ela pensa.

–Podemos tentar nos encontrar. Até agora estamos indo a lugares que eles possivelmente acabaram de sair. — eu digo. — Talvez, conseguimos adiantar um passo e ficamos na frente deles.

Dessa vez ela está sentada no banco da janela, e observa o que acontece lá fora de minuto em minuto, nervosa.

–Você tem alguma ideia de qual seria o próximo passo? — me questiona.

Ficamos em silêncio durante um longo tempo. Eu fico pensando sobre isso. Seis diz então:

–Podemos ir atrás da nave.

–Hm... Acho que pode dar certo. — concordo. — Só precisamos encontrá-la... Você sabe onde está, Malcom?

Ele franze a testa, pensativo.

–Em meu caderno eu tinha algumas anotações sobre isso, mas não estou com elas aqui. Sei de algumas informações de cabeça. Vou pesquisar sobre isso. — ele diz.

–Então é só esperar que eles também a encontrem. — Seis dá um sorrisinho triste.

Eu suspiro.

–Então procuramos. — Malcom diz.

–E treinamos. — Seis me olha, dessa vez mais determinada. — Estamos sozinhos, precisamos nos defender melhor. E se não treinarmos... vamos ficar molengas.

Eu rio alto.

–Parece o Nove falando.

Ela também ri. Malcom sorri para nós como se fossemos duas adolescntes comuns fazendo imitações e brincadeiras de nossos amigos. Ele se vira novamente para frente.

Então nós duas estamos gargalhando no meio de um ônibus cheio de humanos desconhecidos que nos olham confusos e até mesmo curiosos. Eu nem sei mais do que estou rindo, e aposto que nem ela, mas não paramos. Tenho medo de parar e ouvir somento o silêncio, tenho medo do silêncio.

*****

Malcom passa o dia na lan-house, procurando qualquer coisa útil na internet. Seis saiu há poucos minutos para arrumar algo para comermos. Eu estou enjoada dos salgadinhos, eles estão me fazendo mal.

Vou ao banheiro para lavar meu rosto, mas paro em frente ao espelho, confusa.

Franzo a testa.

O que é isso?

Viro-me de lado para poder ver melhor meu perfil. Eu perco o ar, ofego. Não... Não é possível. Passo a mão pela minha barriga. Ela está inchada, tem uma visível protuberância (Como eu não vi isso?!).

–É impossível. — murmuro para mim mesma.

Eu me aperto. Não está doendo, então o problema não é muscular. Pouso as mãos em minha barriga, tento me curar, porém meu organismo me responde: Não há nada para ser curado, não é doença.

Isso está mesmo acontecendo?

Faço as contas: Quatro meses.

Aperto meus lábios. Não posso fugir da verdade.

Eu estou grávida.

Eu estou grávida de Oito.

Esse tempo todo eu fugi de meus próprios sentimentos, fugi da verdade, fugi de Oito. A minha rota escapatória ao sofrimento era fingir que ele nunca, nem sequer, existiu. Foi como se eu tivesse apagado ele de mim.

Eu sei que é uma ideia maluca e cruel, e que não ia dar certo pelo resto de minha vida. Oito estava marcado em mim desde que eu o conheci, desde que ele me beijou, eu o beijei, nós nos beijamos, que dormimos juntos na praia, desde que gravei-o em meu coração, embrulhado em meus mais profundos sentimentos, e desde que sua morte gravara-se em minha perna.

Choro quando essa verdade que escondi durante todo esse tempo cai sobre mim, tirando-me de minhas próprias mentiras e da negra brancura que deixei no lugar dele.

Não sei quanto tempo choro. Parece muito tempo.

Levanto-me e olho-me no espelho. Seco as lágrimas de meus olhos com as mãos.

Levo minha mão até a barriga e olho para ela. Há alguém ali dentro; alguém metade meu e metade de Oito.

–Oito... — eu murmurei seu nome depois de todo aquele tempo. Sua morte e minha solidão parecem mais reais nesse momento. Estou sozinha. — Queria que você estivesse aqui.

A porta do quarto fez barulho.

–Marina! Sou eu! — Seis grita.

–Estou no banheiro! — respondo.

Ninguém nunca havia conversado comigo uma gravidez. O que conheço de uma gestação humana é basicamente "uma glória de Deus", como aprendi no convento. São nove meses, a barriga cresce, o bebê cresce, a gestante fica enjoada... É só isso, mas incrivelmente é mais do que sei de uma gravidez loriena. Adelina mal falava sobre os mogadorianos, quem dirá de gestações.

Respiro fundo.

Tenho que contar para Seis, ela irá me ajudar, mesmo que ela também não saiba nada sobre isso. E além do mais, Malcom também está ali, ele deve saber algo sobre isso.

Fito minha imagem no espelho por mais alguns segundos: Ainda estou um pouco vermelha por ter chorado. Acabo congelando o espelho sem querer.

Minhas mãos tremem.

Saio do banheiro.

–Seis. — chamo.

–Ei. Já voltei. Consegui algo para comermos. Tcharam! — ela mostra orgulhosamente uma pizza. — Comida de verdade em semanas!

–Seis...

–Está bem. Não é comida de verdade. É só pizza, mas pelo menos já é uma vitória.

–Parece ótimo, Seis. — digo. — Preciso te contar uma coisa.

Minha voz treme. Droga.

Seis se vira para mim, preocupada.

–Marina, o que foi? Você está bem?

–Eu... — disse e travo. Penso em falar que era apenas uma suspeita, o que era mentira. — Eu... — tento de novo. Dizer sobre mim e ele não é uma boa ideia. Pensar nele faz meu coração apertar-se. Então desisto de toda a enrolação. Digo de uma vez: — Eu estou grávida.

Seis demora seus olhos em minha barriga. Ela também percebe o inchaço. Como nós duas não percebemos isso antes? Ela mexe a boca algumas vez, não sabe o que dizer. Está pálida e olha-me assustada.

–É... dele?

Confirmo e já não consigo mais me controlar, estou em prantos novamente. O ar ao meu redor se esfria e algumas estacas de gelo pontiagudas surgem do teto.

–Ah, Marina. — ela me abraça e chora também.

(...)

Eu e Seis já estamos dormindo quando Malcom entra durante a noite, ele dirige-se a sua cama e deita nela. Antes de cair no sono novamente, ouço ele murmurando o nome do filho para ele mesmo, sem saber que eu estou ouvindo. Logo ele adormece.

De repente entendo o sentimento dele.

(...)

Quando eu acordo no dia seguinte, Seis já está escovando seus dentes no banheiro.

–Bom dia. — ela me diz entre as espumas.

–Bom dia. — bocejo. Noto que Malcom não está no quarto. Pergunto por ele.

–Ele foi comprar pão. — ela me responde. — Ah!

Então ela começa a tossir, engasgada com a pasta de dente. Eu rio. Quando ela consegue continuar ela diz:

–Talvez Malcom saiba alguma coisa!

Por um momento não sei do que ela está falando, mas depois entendo: Eu estou grávida. Eu estou grávida de Oito. Não foi um sonho. É real.

A porta do quarto se abre e Malcom entra.

–Bom dia, meninas! Desculpa a demora, parei para comprar o jornal de hoje.

Seis revira os olhos e murmura um:

–É sua cara fazer isso. — depois ela olha para mim e insiste que eu questione ele sobre minha situação.

–Malcom. — eu digo. Minha voz soa fraca. Limpo a garganta. — O que... O que você sabe sobre uma gravidez loriena?

Ele fica sem entender por um segundo e depois sobe as sobrancelhas e arregala os olhos. Ele olha de mim para minha barriga e aponta. Também não sabe o que dizer.

–Marina, você... Você...

–Eu estou grávida dele. — sussurro.

–Você tem certeza? Vocês...?

Eu rio um pouco e coro, mas confirmo.

–Oh, puxa! — ele coça a cabeça. — Que surpresa! Caramba! Hm... Estou perdido. O que devo dizer?

Eu cruzo as pernas na minha frente.

–Não precisa dizer nada. — respondo. — Apenas me ajude com isso. O que você sabe a respeito?

Seis se senta na cama dela, a minha frente e Malcom senta-se ao lado dela.

–Bem. — ele coça a barba por fazer. Ele sente-se numa situação delicada, sem saber o que fazer. Minhas mãos continuam tremendo. Não é o único, eu penso. — Uns três meses?

–Quatro. — corrijo delicadamente.

–Então as coisas vão se acelerar agora.

Seis franze a testa.

–Como assim?

–Hm, bem. — Malcom diz. — Uma gestação loriena é mais curta que uma gestação humana, enquanto esta são nove meses, a gestação loriena são apenas seis. Nos primeiros três meses tudo ocorre normalmente, mas apartir do quarto, você soma dois a cada mês. Veja, você disse que está no quarto mês, ao final deste você estará parecendo uma gestante de cinco meses. No quinto mês, você estará parecendo uma gestante de seis e sete meses... e assim também ocorre no último mês. Está entendo?

–Sim. — eu confirmo com a garganta seca. Só tenho mais dois meses de gestação? Puxa... — Mas o bebê... Hm, se desenvolve normalmente?

–Sim, sim! O desenvolvimento do criança é perfeito, só mais acelerado. O bebê, por ser filho de dois membros da Garde, também carrega nos genes os Legados. Entretando ele não irá desenvolvê-los durante a gestação ou até mesmo quando criança. O que vai acontecer com ele — Malcom aponta para a minha barriga. — vai ocorrer da mesma forma que ocorreu com os seus, Marina; quando já tiver mais idade.

–Malcom. — Seis diz. — Marina não corre o risco de perder o bebê? Porque... Bem, estamos sempre lutando.

Eu não havia pensando nisso. De repente, não ter mais um filho de Oito dentro de mim pareceu absurdamente mais assustador do que ter um. Era a única coisa que tinha de Oito, uma grande coisa. Eu não ia perdê-lo.

–Qualquer membro da Garde corre esse risco, assim como qualquer mulher humana. — Malcom apertou os lábios. — Mas Marina tem um Legado incrível. Você já curou o bebê alguma vez, Marina?

–Hm, talvez. — respondo e penso sobre isso. Talvez eu já tenha curado-o e não tenha percebido. — Mas... Eu posso lutar não posso?

Preciso me defender se for atacada.

Seis sorriu e estralou os dedos das mãos.

–Isso não é problema. Posso ajudá-la.

Eu sorrio.

–E Marina.... — Malcom pousa a mão em meu joelho e me olha nos olhos. — Tenho certeza de que ele ficaria feliz com isso.

Queria tanto que ele estivesse aqui.

Algo craquela-se ao meu lado e percebo que a cabeceira da minha cama está coberta de gelo. Eu coro.

–Desculpa. — digo. — Acho que vocês vão ter que se acostumar com o frio por um tempo.

Eles sorriem, solidários.

–Obrigada. — acrescento. — Vocês estão ajudando bastante.

*****

Nós saímos da cidade uma semana depois, dessa vez num caminhão que chacoalhava bastante. O caminhoneiro não cobrou nada pela carona, e eu achei gentil da parte dele.

Malcom senta-se no banco da frente e eu e Seis ficamos atrás, sentadas em grandes caixas de papelão.

–Malcom acha que a nave está aqui nos Estados Unidos, mais para oeste. — ela me disse.

–Já tem uma localização certa? — eu questiono.

–Ainda não. Ele quer que nós nos aproximemos mais para ele continuar suas pesquisas.

Aperto os lábios.

–Acha que eles vão estar lá?

Ela dá de ombros e muda de assunto:

–Você acha que é um menino ou uma menina? — ela refere-se ao meu filho.

Eu sorrio.

–Não sei. Quero descobrir na hora do parto.

–Já está pensando nos nomes?

Eu nego e comento:

–De quantos meses você acha que está parecendo minha gravidez? Hoje de manhã a moça da cafeteria me perguntou com quantos meses eu estava e eu pedi para ela chutar. Confirmei a primeira coisa que ela disse. — eu ri.

Seis riu também.

–Eu não faço a menor ideia. Não sei muito sobre gravidez... Eu e Katarina nunca conversamos sobre isso. — ela enruga a testa ao pensar na Cepan. — Ele está crescendo muito depressa! Qual foi o chute da mulher?

–Cinco. — sorrio. — Mas ela me disse que o bebê está bem grande. Ela me perguntou se já era quase seis e eu disse de novo que sim. Mas acho que ela está certa, falta pouco para eu entrar no quinto mês de gestação loriena. Nós não podemos ficar mais no mesmo lugar por muito tempo. As pessoas vão estranhar.

–Tem razão. — ela diz. — Depois conversamos com Malcom sobre isso.

Ficamos em silêncio durante um longo tempo, cerca de meia hora. Eu nem sei por quanto mais tempo vamos ficar viajando.

–Outra cidade. — Seis murmura de repente sem olhar para mim.

Eu olho para ela. Tento entender o que ela está sentindo lendo sua expressão, então olho pela parte aberta do caminhao os prédios que desaparecem de vista. Entendo: Ela está com saudade.

Eu suspiro, mas não digo nada.

–Marina... — ela me chama baixinho. — Você... Você se arrepende? Digo... De ter se apaixonado por Oito, mesmo sabendo que todos nós podíamos morrer a qualquer momento, e ele realmente... se foi...?

É uma questão delicada, porém ao observá-la percebo que não estamos falando de mim e de Oito especificamente.

–Estamos falando sobre você e Sam? — pergunto delicadamente.

Ela olha rapidamente para Malcom para conferir se ele está ouvindo, mas ele e o motorista conversando animadamente sobre paisagens urbanas.

–Sim. — ela morde os lábios.

–Você gosta dele?

–Eu queria não gostar... — ela responde. — Estou tentando esquecê-lo e a tudo isso, mas... com o pai dele aqui do meu lado... Eles são muito parecidos!

Percebo que minhas mãos estão apoiadas em minha barriga.

–Você não pode esquecer uma pessoa para sempre, Seis.

–Mas você não me respondeu... Você se arrepende?

Eu a encaro. Suspiro e balanço a cabeça para os lados.

–Não. Se nós temos uma grande chance de morrer, eu acho que temos que aproveitar todos os momentos e não usar os seus possíveis últimos momento de vida sem vivê-la.

Ela concordou com a cabeça e não disse mais nada.

Quando a viagem acaba, nós descemos do caminhão e agradecemos a carona do motorista. Ele me chama:

–Ei, mocinha.

Viro-me para ele.

–Onde está o pai desse bebê?

Balanço a cabeça para os lados.

–Eu sabia. Não sofre não, moça. Esse cara é um idiota por abandonar você e o bebê.

E então ele afasta-se em seu caminhão.

Quando eu fico sozinha, sem ninguém para me ver ou me ouvir, eu choro... e neva.

*****

UM MÊS E MEIO DEPOIS

–É ali! — Malcom aponta para uma base militar há alguns quilômetros de distância. É parecida com a que encontramos no Novo México. — A nave tem que estar ali.

–Não consegue hackear os arquivos deles para descobrir sobre isso? — Seis pergunta.

–Sem ser preso? Aposto que não. — Malcom ri e coça o queixo, nervoso. Ele cortou sua barba e até mesmo seu cabelos no começo da semana. Está mais parecido com Sam, percebo. Imagino que Seis não gostou disso.

–Eu posso tentar olhar lá dentro. — ela diz enquanto olha para qualquer lugar menos para Malcom.

–OK. — eu digo. — Vou também.

–Você não vai. — ela me diz.

–É claro que eu vou. — retruco. — Você não vai sozinha, Seis. É muito arriscado.

Ela aperta os olhos.

–Consegue lutar?

–Você me treinou para quê? — eu sorrio.

Ela balança a cabeça para os lados, sem conseguir acreditar nisso.

Malcom sorri e diz um ditado humano que eu não conhecia:

–E o feitiço virou-se contra o feiticeiro.

(...)

Eu e Seis conseguimos entrar na Base Militar Americana invisíveis. Eu percebo que deixar duas pessoas assim está mais fácil para Seis agora.

O lugar é imenso, não sabemos por onde procurar. Optamos por procurar na parte coberta, mas é um labirinto de corredores.

Algumas pessoas passam correndo e nós temos que nos jogar para o canto para não trombarmos.

–Onde uma enorme nave extraterrestre pode estar? — ela sussurra.

–Eles não têm nenhum hangar? — sussurro de volta. — Onde tanques de guerra, misseis e "naves espaciais" podem ficar guardadas?

Eu nem sei se o que eu disse é verdade. Quem garante que aqui fica guardado todas essas coisas?

Seis sorri com minhas ideias.

–Talvez devêssemos procurar na Nasa. — ela brinca.

Eu sorrio também.

–Mas você pode estar certa sobre um hangar. Vamos procurar no subsolo.

Então nós paramos onde estamos e seguramos a respiração. Um cachorro virou o corredor. Ele pode sentir nosso cheiro e nos descobrir, e então seremos pegas.

Ele se aproxima de nós farejando o chão. Funga meus pés e late.

Eu e Seis nos entreolhamos, assustadas.

Quase saio correndo, mas paro quando percebo que o cachorro está deitado aos nossos pés, o rabo balançando de um lado para o outro.

–Não é um cão de guarda? — Seis sussurra para mim.

O cachorro vira de barriga para cima.

Dois guardas dobram o corredor correndo. Eles param assustados.

–É um cachorro! — um deles grita.

–Eu falei que ouvi um latido!

–O que ele está fazendo aqui?

O cachorro não é deles? Eu não estou entendendo mais nada.

O animal levanta-se num pulo quando os vê, e fica em posição de ataque. Começa a latir, bravo. Então avança sobre eles.

Os guardas gritam e saem correndo.

Eu e Seis continuamos onde estamos, não entendendo muito bem o que aconteceu ali.

Consigo ouvir o som dos passos dos guardas aproximando-se de nós pelo corredor perpendicular. O cachorro olha para nós, late mais uma vez (o que eu acho um tanto bobo) e se transforma, ali, bem diante dos meus olhos, em uma lagartixa. Ela sobe pela parede de nosso lado e continua lá.

Os mesmos guardas e outros três, empunhando uma focinheira, dobram o corredor e vem em nossa direção correndo.

Eu me espremo na parede o máximo que posso enquanto eles passam.

Quando não conseguimos mais ouvir o som de seus passos, eu solto a mão de Seis e fico visível. A lagartixa na parede sobe em minha mão quando eu coloco-a na frente dela. Ela caminha sobre mim e pousa em minha barriga.

Eu e Seis nos entreolhamos novamente: É um chimaera; e se ela está aqui, é por que deve estar protegendo a nave. Sim, a nave também está aqui.

*****

Escolhemos ficar em uma casa pequena de apenas um andar no meio de uma plantação de trigo.

Como ouvimos na cidade, a dona da casa, uma mulher de idade, morreu há dois dias. O filho dela deixou as plantações sob os cuidados de uma outra família, donos da fazenda vizinha, durante um tempo, até que ele se organizasse e decidisse o que faria com o terreno.

Não vimos problema em ficar ali por um tempo.

A casa tinha dois quartos pequenos com móveis antigos e camas baixas. Eles me fizeram ficar no quarto com a pequena cama de casal para, caso ficássemos ali por mais tempo, eu ter mais privacidade com meu filho.

O chimaera que encontramos na Base Militar era fêmea e vem nos visitar todo dia, mas sempre volta para a base. Nós entedemos que ela está protegendo a nave de possíveis ataque mogadorianos.

Malcom, Seis e eu concordamos que nada podemos fazer agora para resgatar a nossa nave. Temos que esperar que Sam, John, Sarah, Nove e Adam tenham a mesma ideia que tivemos e nos encontrar.

É isso que temos que fazer agora: Esperar.

*****

–Argh.

Levo minhas mãos para baixo da barriga. Uso meu Legado para aliviar a dor. Estou tendo contrações há uma hora, mas parecem cada vez piores. Sei que logo o bebê vai nascer, e eu não sei o que estou sentindo ao certo.

Estou deitada de atravessado na cama de casal, minhas costas estão apoiadas na parede. Seis e Malcom estão ao meu lados. Eles estão pálidos, assustados, não sabem o que devem fazer, mas tem alguns materiais essenciais ao lado.

–Argh! — gemo de novo.

–Marina. — Malcom me chama. Ele está sério. — É agora.

Eu sei que é. Mas eu... Mas eu não sei o que devo fazer, como devo agir, o que devo sentir... Não sei.

–Faça força. — ele diz, como se lesse minha mente.

Aperto meus olhos e faço força. Uso meu Legado para me ajudar. Isso requer muita concentração.

–Você consegue, Marina. — Seis sussurra. Ela parece apavorada.

Forço de novo, e de novo.

Estou suando, tremendo... meu Legado de Cura oscila. Tento me organizar: Legado, força, legado, força, força...

–ARGH!

Legado! Legado!

Há lágrimas em meus olhos. É difícil respirar e eu sinto-me exausta, mas não paro. Dobro-me sobre minha barriga, fazendo mais peso e força sobre ela.

Ouço eles me dizendo palavras de incentivo, mas não consigo compreendê-las.

Lembro-me de Oito, de seu sorriso... só dele. É o nosso filho, penso. Então insisto, uso isso como minha motivação, a meu favor.

Forço outra vez uso o meu Legado de Cura me auxiliar com mais vigor. Então me sinto vazia, mais leve.

Ouço um choro.

–Nasceu! — Malcom exclama.

Eu arfo. Estou respirando novamente, mesmo que ofegando.

Arrasto minhas mãos para a parte de baixo da barriga, me curando. Seco o suor da testa em seguida.

–Marina... É um menino. — Seis diz, percebo que ela está chorando.

Mesmo exausta e tonta, sorrio.

–Dê ele para mim. — peço num sussurro e estendendo as mãos como uma criança pedindo por doce.

Malcom passa uma coisinha minúscula, enrolada num toalha estampada, para mim. Imediatamente ele para de chorar e faz apenas um barulhinhos. Está mais calmo, ele me reconhece.

Eu rio de novo, desta vez estou chorando.

–Oi, meu filho... Está tudo bem... — beijo sua testa. Coloco a palma da mão em sua barriga e passo os resquícios de minha cura para ele. — Eu te amo tanto...

Observo-o em meus braços. Ele é lindo. Tem bastante cabelo; escuro e encaracolado... como o de Oito. Eu deixo as lágrimas rolarem pelo meu rosto.

–Seu pai te ama muito, meu filho. Eu tenho certeza disso. — sussurro.

Encosto-me na parede, relaxando as costas. Tento acalmar minha respiração.

Vejo Seis e Malcom sentados no chão, que antes estavam ajoelhados. Eles choram e riem.

Fecho os olhos e suspiro. Nunca me senti tão bem depois que ele se foi. Eu toco os dois colares com símbolos lóricos em meu pescoço. Eu sorrio ao pensar nisso e deixo as palavras escaparem de meus lábios:

–Obrigada, Oito. Você sempre arruma um jeito de me fazer feliz.

*****

No dia seguinte, escolho Oliver para o seu nome, pois faz-me lembrar de Oito. Acho que pode ser uma homenagem bonita a ele.

Estou amamentando Oliver no meu pequeno quarto. Eu fico observando-o por um tempo. Ele tem o mesmo físico que um bebê humano apresenta e, como Malcom disse, ele não apresenta Legados logo no início de sua vida.

Toco a bochecha dele. Oliver é tão parecido com Oito...

O chimaera está em forma de gato, apoiada com a cabeça em meu colo. Apelidamos-a de Doze, porque achamos algo ironico e ao mesmo tempo consolador, pois nos faz sentir que não somos os únicos, que ainda temos esperanças.

Então ouço fortes batidas na porta de entrada da casa.

Paro o que estou fazendo na hora, mesmo que Oliver agora chore baixinho. Arrumo minha blusa e ajeito ele em meus braços, que resmunga contrariado. Ponho-me de pé. Espio pela janela. Não há nada, ninguém.

Mas... se forem os mogadorianos, por que eles bateriam na porta?

Doze pula do meu colo e vai para a salinha de entrada em disparada.

–Seis! — alguém grita. Eu reconheço a voz. É Adam! Mas o que ele faz aqui...?

–Seis! Marina! — dessa vez parece ser John. Eles nos encontraram? Meu coração pula.- Somos nós!

–Será que eles estão aqui? — ouço uma voz baixinha perguntar.

–Sai da frente, mané! Não é assim que se entra em uma casa. — alguém diz. É Nove, tenho certeza.

Eu rio bobamente, feliz por reencontrá-los. Nunca pensei que pudesse sentir tanta saudade.

–Desse jeito vão matá-las do coração! — Sarah chia.

Seis abre uma frestinha da porta e depois a escancara.

–Sam! John!

–Seis! Malcom!

Eles vão entrando e, aposto que se abraçando, contentes. Espero eles se acalmarem. Esse é um momento importante para Seis e Malcom também.

–Onde está Marina? — Alguém pergunta. É Ella, percebo. Ela está ali novamente, conosco! Sinto-me extremamente feliz.

Eu saio do quarto e vou até eles na sala.

Rapidamente vejo todos eles ali: John, Sarah, Nove, Adam e Ella. Eles estão um pouco diferentes — cabelos compridos, barbas por fazer, cortes e arranhões. Também vejo Doze se transformar em um beagle e já começar a interagir com Bernie Kosar.

–Um chimaera! — ouço-os exclamarem, surpresos e contentes.

–Marina! — Ella sorri quando me vê e vem em minha direção para me abraçar, mas para quando vê Oliver em meus braços. — Um bebê! Mas...? — sua voz some.

Estão todos em silêncio agora, olhando para mim.

–Marina, você... — John começa a dizer, mas não sabe terminar a frase.

Eu sorrio. Esperava essa reação deles.

Ergo Oliver um pouco, para que possam vê-lo. Até eu paro uns segundos para admirá-lo, sorrindo.

Levanto meu olhar para eles, novamente.

–Não é a cara de Oito? — comento, adorando ver a reação deles.

Sarah ri, primeiramente nervosa, e depois mais descontraidamente.

–Marina, você recebeu um presente! — ela tenta ser otimista, mas ainda parece nervosa. Vem me cumprimentar e observar meu filho mais de perto. — Como ele é lindo! Como se chama?

Ela não se aguenta e começa a chorar, pedindo desculpas. Não me incomodo. Eu já derramei muitas lágrimas durante a gravidez, até entender que eu realmente recebi um grande presente. Agora eu sorrio para tudo — a mesma forma que Oito lidava com os problemas.

Ella me abraça com força e faz cosquinha na barriga de Oliver; naquele momento ela parece ser a mais madura do grupo.... e também a mais calma em relação a isso. Estou tão feliz em revê-la.

Um a um vem me cumprimentar, acanhados.

Sam deixa escapar uma pergunta, não aguentando manter o silêncio, que eles achavam, respeitável.

–Mas... Como?

Seis apoia o braço em seu ombro, sorrindo.

–Oito ressuscitou, plantou uma sementinha na barriga da Marina e puf! Ela ficou grávida!

Observo, contente, a nova aproximação dos dois. Acho que meus conselhos, extremamente apelados para o lado emocional, funcionaram.

Adam coça o couro cabeludo.

–Isso é impossível. — ele calcula, com o cenho franzido.

Seis dá uma gargalhada.

–Estou brincando! É claro que isso aconteceu antes da revelação de nosso traidor.

Todos se permitem rir, agora mais aliviados pela piadinha de Seis ser falsa. (Será que eles acreditaram mesmo naquilo ou só estavam tensos demais?).

–Mas... São nove meses. — Sarah nota.

–Bem, para os lorienos... — Malcom começa a explicar tudo, animadamente. Acho que ele ficava melhor assim, falando sobre Lorien, era algo que ele é fascinado.

Todos começam a ficar mais calmos e relaxados. Porém percebo que um deles continua petrificado, sem reação. É Nove.

Olho-o interrogativamente.

–Nove...? — chamo.

Espero um segundo, ele não responde. Apenas aproxima-se de mim e fita o bebê em meus braços. Ele sussurra algo tão baixinho que nem eu, que estou ao seu lado, consigo ouvir muito bem. Provavelmente, disse algo como: "Mano, é a cara de Oito".

Então acontece uma coisa estranha: O silêncio.

Pela primeira vez, Nove não diz nada.

Notas finais
Oi de novo. Gostaram "da surpresa"? Alguém chorou aí? Hm, então, teve Seis e Sam nesse capítulo, não é? Bem, eu não sou completamente a favor deles juntos, eu prefiro ela com o John (a Sarah é uma chata); MAS eu estou seguindo a história dos livros, e no livro 4 o Sam tenta se aproximar de Seis e ela nega. Então, deu nisso. Muito obrigada a Number Six que comentou e a todos que estão acompanhando e favoritaram. Comentem, por favor. Beijooos