Vergil às vezes se pergunta porque a vida não o permitiu ser filho único por mais do que 5 minutos. E não o bastante, ainda lhe deu Dante como gêmeo mais novo dentre todas as possibilidades. E apesar de não exatamente odiar o outro na maior parte do tempo, era um pouco difícil amar a pessoa cujo passatempo favorito parecia ser testar os limites da sua paciência toda vez que estivesse entediado.

E apesar de estar acostumado a lidar (lê-se: competir) com o irmão e em vários casos vencê-lo, hoje não havia sido o caso. A disputa daquele dia (talvez boba aos olhos de alguns *como a mãe deles*) não estava a favor do gêmeo mais velho, e como resultado ele foi forçado a realizar uma tarefa para Dante. Que havia decidido que Vergil iria buscar um quadrinho que o mais novo estava desejando há um bom tempo, cuja a loja mais próxima que vendia ele ficava a 2 horas dali caso não houvesse trânsito, com trânsito a viagem levaria em torno de 3 horas e meia.

Claro que o infeliz resolveu decidir isso perto do horário de fechamento da loja, que coincidia com o horário de pico da única linha de ônibus que passava pela região. Vergil internamente amaldiçoava até a sétima encarnação de Dante, enquanto se via espremido entre dois estudantes que resolveram discutir suas questões econômicas por cima dos ombros dele, e nenhum deles parecia ter sido apresentado a uma escova de dentes na vida.

Mas, uma pequena luz surge no fim do túnel quando a mulher na frente dele se levanta para descer no ponto dela e ele se vê tendo pelo menos a possibilidade de não estar esmagado entre dois tagarelas. Ou pelo menos é o que ele espera até ver a garota ao lado dele conversar com a mulher no banco da frente.

Entretanto, a possibilidade de fazer a viagem toda (ele só descia na literal última parada) sentado caiu bem, ainda mais quando um energúmeno que não deveria conduzir um veículo automobilístico, decidiu que era uma boa ideia tentar ultrapassar um ônibus em uma curva fechada com um pequeno Fox. Foi quase um milagre o fato de que não houve (por muito pouco) uma batida, mas agora eles teriam que remanejar uma fila imensa de carros para conseguirem prosseguir com a viagem. O que naturalmente significa que ele vai levar 4 horas ou mais para chegar em casa.

Suspirando resignado Vergil tenta fechar os olhos esperando que talvez se conseguisse cochilar seria mais fácil lidar com longa viagem, mas uma coisa era aguentar os roncos de Dante na cama (ou travesseiro em algumas ocasiões) ao lado, outra era tentar dormir com três trogloditas discutindo bem ao lado dele, a todo o volume, a física básica de quantos carros conseguem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. (Algo que ele não tinha herdado do pai, que era o único que conseguiria de fato dormir numa situação como essa.)

Tendo sua única rota de escape dessa situação eliminada, ele se vê olhando para o quadrinho que tem em mãos. Era alguma história de faroeste com a qual Vergil não poderia se importar menos, e com uma quantidade surpreendentemente extensa de páginas em comparação com o que seu irmãozinho geralmente lê, mas já que ele estava preso naquela provação por causa do bendito quadrinho, por quê não? Descobrir o que Dante achou de tão interessante neste gibi em específico?

Sendo assim ele abre a primeira página e começa a folhear sem muito interesse o gibi. Era a típica história de faroeste que seu irmão geralmente lia e que ele não daria uma grama de atenção para, mas naquela situação insalubre a qual ele se encontrava, aquilo era um escape tão bom quanto qualquer outro.

Ele estava no meio de uma discussão sem sentido entre os protagonistas, quando notou que a garota ao lado dele estava lendo com ele. Ou mais precisamente foi neste momento quando ele estava prestes a virar a página, em que ela simplesmente agarrou a metade do quadrinho que estava mais próxima dela e aproximou tanto o rosto da página que não só o peito dela estava firmemente pressionado contra o braço dele, como os cachos rebeldes e pretos do cabelo dela roçavam de leve a bochecha dele. E então ela disse: — Calma aí! Tô nessa parte!

Leva alguns segundos para ele finalmente reagir a intrusão abrupta, e puxar levemente o gibi. Ela percebe o movimento e levanta o rosto da página para encará-lo. Eles se encararam por alguns segundos, até que ela aparentemente parece ter um momento de iluminação, onde percebe que está sendo inconveniente e afasta o rosto do quadrinho, além de também segurá-lo com mais delicadeza.

Mas, ao invés de se retirar do espaço pessoal de Vergil, ela se pressiona mais contra o braço dele e apoia a cabeça no ombro dele, para continuar lendo mais confortavelmente. Ele não acreditaria na cena absurda em que está inserido se não estivesse vivendo ela nesse momento, onde uma pessoa que ele nunca viu na vida o trata com a proximidade de amigos de longa data, sem qualquer pudor ou preocupação aparente. Enquanto ele pensa nisso ela parece terminar de ler a página e então sem tirar os olhos da página ela pergunta para ele animada: – E o que acontece depois?

Em qualquer outro dia, hora ou lugar ele tentaria educadamente se afastar de um indivíduo com tão pouca noção e bom senso, mas naquele dia, hora e lugar abafado e desagradável, ele não poderia lidar com a situação como normalmente faria, então ele desiste da razão e apenas vira a página para continuarem lendo.

A leitura segue tranquilamente (ao contrário da viagem, que segue a passos de tartaruga), o encanto nos olhinhos castanhos atrás do óculos redondo é quase infantil. Encanto esse que não passou nem perto de Vergil, que continua lendo a história quase mecanicamente, porém sempre respeitando o tempo que ela precisasse para ler. A proximidade continua estranha, mas o desconforto diminuiu consideravelmente desde o início da viagem.

Ela também comenta trivialidades ao longo do caminho, sobre o quadrinho, sobre o universo deste, sobre o autor da história e coisas similares. O interesse dele pela obra em questão continua tão neutro quanto antes, mas a distração do desvio de rota que o ônibus fez devido a um acidente na via principal (que acrescenta mais uma meia hora na viagem) foi um tanto quanto bem vinda para a sanidade dele.

As páginas da história vão passando junto com o tempo e quando o gibi acaba Vergil olha pela janela e percebe que o próximo ponto é o destino dele. Fechando então o gibi ele dá sinal e começa a se preparar para descer, enquanto a garota que ele ainda não sabe o nome continua divagando sobre a história.

Quando ele começa a se levantar e se encaminha para mais perto da porta ele ouve a garota em questão praguejar (de modo inapropriado para o ambiente atual e o horário comercial), enquanto cutuca o ombro da senhora no banco da frente com quem ela estava conversando antes de eles começarem a ler o gibi:

– Vó acorda! A gente passou pra caralho do ponto! Tamo do outro lado do bairro!

A senhora acorda resmungando algo que ele não conseguiu ouvir enquanto se dirige para a porta também. Quando o ônibus para eles descem (depois de se espremer entre indivíduos pelos quais a ideia de dar espaço para os passageiros que estão descendo não passa nem perto das cabeças deles), e simultaneamente outro ônibus para no ponto do outro lado da avenida.

Ao chegarem na calçada a senhora olha para o ônibus do outro lado e pergunta para a garota que aparentemente era sua neta (de aparência é difícil dizer) qual é o nome no letreiro dele, ele não ouve a resposta da garota, mas pelo olhar agitado da mulher mais velha aquele claramente era o ônibus delas e se não conseguissem atravessar a avenida movimentada iriam perdê-lo.

Com a fila de entrada no outro ônibus diminuindo mais rápido do que o tráfego da via elas decidem atravessar em meio aos carros mesmo, mas antes de darem o primeiro passo a garota vira o rosto em sua direção e com um sorriso amplo agradece a Vergil por poder ler o gibi enquanto acena em despedida e corre para o outro lado junto a avó em meio aos carros (não sendo atropeladas por um milagre).

Vergil ainda um pouco atordoado direciona um pequeno aceno para ela, enquanto o par embarca no outro ônibus, e quando este finalmente parte ele balança levemente a cabeça para sair do torpor e começa a ir para casa um tanto quanto cansado enquanto suspira internamente e pensa: “Que viagem peculiar.”

Notas finais
Espero que tenham gostado, a história foi inspirada por uma experiência real minha, (com certas modificações para se encaixar melhor nos personagens e no tom da história) que foi tão aleatória que resolvi transformar em história.😅 (Caso tenha ficado dúvidas, a menina que está lendo com o Vergil é a Nico (que por algum motivo não tem tem uma tag própria entre o personagens disponíveis???). O Vergil dessa fic é um pouco mais novo que o do DMC5, mas a Nico tem praticamente a mesma idade do jogo.) Curiosidade: O quadrinho que eu estava lendo quando a menina do meu lado começou a ler comigo se chama: Como Fazer Amigos e Enfrentar Fantasmas. Enfim, Obrigado por ler e até a próxima🤗. Comentários e Curtidas são apreciados e deixam essa autora feliz😉.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!