Sentado com as costas encurvadas. Os azulejos negros com padrões distorcidos. Ora ele vê monstros gritando em agonia ora homens lamentando seus atos. As calças arriadas e uma cueca fajuta solta abaixo das panturrilhas. A louça fria em contato com a ponta do pênis causa pequenos arrepios que são pontuados pelas surpresas do livro. Apoiado nas coxas peludas e aberto numa pagina avançada, o livro prende sua atenção e o faz esquecer que já terminou o que veio fazer nesse trono solene. Seus intestinos não funcionaram a contento nos últimos dias e o cheiro que impregna o pequeno cômodo indica que eles resolveram fazer uma pequena vingança pelas refeições desregradas. Alias, uma grande vingança.

Ele não se importa. Ou se importa e seu orgulho não permite que demonstre, nem para si mesmo, que não tem total controle sobre todas as funções de seu corpo. Aponte e atire, dissera o pai, mas ele não disse nada sobre os descarregamentos esporádicos. O papel no chão sem nunca assumir seu lugar de destaque. Se movimenta procurando uma posição mais cômoda e percebe que o assento perdeu a frieza do primeiro contato. Já estão íntimos. Prazer, assento. Prazer, nádega.

Um capitulo termina e outro espera logo na próxima pagina. Sons vindos do mundo exterior chegam abafados pelas paredes. Ali o mundo não o alcança. As preocupações não ousam passam a barreira intransponível da concentração e do cheiro, digamos, peculiar. A hora quando tudo sai dele é quando pode realmente pensar nele e encher-se com o que realmente importa. Com um odorizador isso seria um perfeito nirvana. Afinal quem precisa de um mundo tenro e límpido quando se tem um trono para mandar em seu reino? Mesmo que seu reino não tenha glamour e seus súbitos morram por afogamento.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!