Leito

1 Filme e a Luz no fim do túnel


Notas iniciais
Nossa, como custou fazer essa história, meu deeeus Ahsuahsuahsuahs

Mas é isso aí, pessoal.

AVISO: Essa história possuí menção a pensamento suicida, se isso é gatilho pra vc, pfvr não leia.

Midoriya Izuku tinha vinte e sete anos, nascido e criado em Kansai, até se mudar para Tokyo para cursar Medicina Veterinária. Sua mãe se chamava Inko e era uma mulher baixinha de sorriso acolhedor; ela ligava para o filho todos o dias e ao menos uma vez por mês eles se viam. O pai do rapaz era um mistério que ele jamais teve vontade de decifrar, havia desaparecido três semanas depois de seu nascimento e Midoriya preferia que continuasse dessa forma. Em contrapartida, ele possuía um padrasto que admirava e queria como pai, era um homem com ascendência estrangeira que havia dado aulas para ele no cursinho preparatório pelos dois anos que estudou até conseguir entrar na faculdade de seus sonhos.

Izuku tinha uma namorada e era apaixonado por ela desde os quinze anos, estavam juntos há mais de seis anos e tinham planos de se casarem no final do Verão daquele ano. A moça, Uraraka, era uma das mulheres mais incríveis que o rapaz havia conhecido em toda sua vida e ele tinha completa certeza que ficariam juntos para sempre. Juntos tinham um apartamento e três gatos, juntos tinham economias suficientes para mudarem para um lugar um pouco maior. Juntos teriam um filho, pois Ochako estava grávida.

Se não fosse por Bakugou Katsuki, provavelmente teriam todo o mundo para eles.

***

— Poderia ser pior, sabe. — Os olhos verdes brilhavam em um tom esquisito por conta da luz azulada que vinha da janela. A pele do rapaz estava constantemente arrepiada e o fino vapor que escapava de seus lábios a cada palavra denunciava o frio que fazia naquele lugar

Katsuki não entendia ao certo como funcionava aquele espaço. Era parecido com um quarto hospitalar, com uma cama e uma poltrona, janelas grandes que davam para o vazio completo e branco. Não havia portas, provavelmente porque não existia uma forma de sair. Era sempre frio, mesmo que ele não fosse capaz de sentir.

Midoriya parecia bem com o que estava acontecendo, agia como se fosse algo combinado há anos e estivesse apenas esperando o dia chegar. Katsuki não entendi isso também e isso o deixava puto.

— Pior? Nunca ser capaz de conhecer seu filho não é ruim o suficiente? — perguntou encarando as próprias mãos, os dedos tremiam e seu interior queimava.

Raiva. Angústia. Culpa. Medo.

A luz que vinha do branco infinito era azulada, no entanto, tudo o que ele enxergava era vermelho. Forte e quente feito o pecado, pulsante feito um coração ansioso, pegajoso como sangue que escorre pelo asfalto. Era sufocante e tão oposto ao frio acolhedor que vinha da janela.

Talvez por isso Izuku estivesse bem com a notícia que havia dado. Os braços gélidos da morte eram mais reconfortantes que o sadismo da vida. Midoriya morreria no corpo de um desconhecido e ele estava conformado com isso, mas Katsuki teria que viver uma vida que não era dele e, pior, com a culpa por ter sido ele o responsável por tudo isso.

***

Bakugou Katsuki tinha vinte e cinco anos, nascido e criado no coração do Japão. Cresceu como o garoto que conquistaria o mundo com sua inteligência, mesmo que sua personalidade fosse uma bosta. Sua mãe se chamava Matsuki e foi uma boa mulher, mesmo com um temperamento tão desagradável quanto o dele. Ao contrário de Midoriya, cresceu com um pai presente, Masaru, que sempre foi mais calmo e mantinha a paz na casa deles.

Contra todas as expectativas, ao sair do ensino médio, a vida de Katsuki não decolou. Ele não conquistou o mundo e estava incrivelmente longe de sequer chegar perto de conquistar um cargo alto na empresa em que trabalhava. Não soube o que estudar, então resolveu seguir os passos do pai e se tornar um Designer de Indústria, conseguiu um emprego mediano em um lugar mediano que condizia com sua capacidade mediana.

Katsuki não tinha ninguém especial em seu coração. Sozinho tinha um apartamento pequeno, nenhum animal de estimação e economias suficientes para não morrer de fome.

Se sentia uma fraude que viveu dezoito anos como se fosse o rei do mundo, quando não era o rei nem da própria vida. Mas ele ainda tinha o poder da escolha sobre ela.

Só não esperava levar ninguém junto.

***

Yuzuru Hanyu havia conquistado a medalha de ouro para o Japão durante as Olimpíadas de Inverno na categoria de patinação artística individual masculina, essa era a única informação sobre o dia que Katsuki se lembrava antes de tudo mudar. Ele nunca havia sido muito fã do esporte, mas o rapaz ao seu lado no metrô não parava de falar sobre o assunto ao telefone.

Ele estava voltando da casa de seus pais, que ficaram surpresos com a visita, pois Bakugou só os via durante datas comemorativas. No dia anterior foi até a casa de um dos antigos colegas de faculdade, que apenas conversava por mensagem, e ele também teve a mesma reação. Katsuki não saia de casa a não ser para ir ao trabalho e até mesmo isso dependia de um esforço descomunal.

Por isso tinha apenas três pessoas para se despedir.

Talvez o suspiro saiu pesado demais quando se tocou desse fato, ou talvez algumas pessoas apenas eram boas em notar os sentimentos dos outros. Independente do motivo, ao pisar para fora do vagão o rapaz da patinação artística o gritou.

— Ei, moço, está tudo bem? — Katsuki franziu o cenho para o desconhecido e o ignorou. — Olha, eu sei que não nos conhecemos e não é da minha conta, mas você não me parece muito bem.

— Realmente, não é da sua conta — respondeu dando as costas para o rapaz, que o acompanhou da mesma forma.

— Talvez conversar com um estranho ajude. — O desconhecido insistiu. — As coisas podem estar difíceis agora, mas elas vão melhorar.

Katsuki o encarou com incredulidade e sem pensar empurrou o rapaz com as duas mãos, que caiu de lado no chão. A saída da estação estava cheia naquele horário, porém poucas pessoas pararam para ver o que acontecia.

— Você não me conhece e não sabe de porra nenhuma que acontece na minha vida, seja uma pessoa normal e não meta o nariz no problema dos outros — gritou e tornou a dar as costas ao rapaz.

Engraçado como a vida acontece, Katsuki pensaria algumas horas depois, pois é quando as dúvidas começam a pairar sobre sua cabeça que ela toma decisões para você, tirando qualquer possibilidade de escolha.

No caso dele, a decisão foi um sinal vermelho não visto.

***

Algumas culturas dizem que diante da morte, toda sua vida passa diante de seus olhos. Outras acreditam que há uma luz no final de um túnel. Para Katsuki, a morte era como ver as asas de um beija-flor: seus olhos jamais seriam capazes de vê-la bater.

Quando ele acordou, ou o mais próximo que havia desse ato na situação em que se encontrava, estava no quarto de brilho azulado que veria todas as noites a partir daquele dia. Nesse primeiro momento, em que sua pele vibrou com o silêncio do lugar, a única coisa que via era branco até que aos poucos a cama e a janela foram tomando forma.

Seus dedos se fecharam nos lençóis do leito, porém era como se não existiam. Ele se levantou e só então percebeu que estava deitado. Katsuki olhou pela janela e tocou o vidro, o vermelho de seus olhos refletiram contra o branco infinito e pelo que pareceu longos minutos, era somente ele e a solidão.

Um ponto verde começou a surgir no meio do branco, como a copa de uma árvore, que se estendeu em um tom pálido até tomar a forma de um rapaz. Imediatamente Bakugou reconheceu como o moço do metrô e em seguida percebeu que ele não estava do lado de fora, mas sim atrás de si.

Ao se virar para vê-lo, a primeira dúvida surgiu. O que aquele homem fazia ali? Havia entendido que estava morto, ou morrendo no mínimo. Ele não era do tipo que alucinava ou negava para si algumas verdades, apenas aquelas que não queria aceitar; àquele ponto, a morte não era uma delas.

Bakugou se aproximou para falar com ele e ao tocá-lo, como as asas de um beija-flor, tudo mudou novamente.

***

— Os médicos disseram que você já está fora de perigo, ninguém sabe exatamente o que ocasionou a parada, pois seus ferimentos foram leves. — A mulher falava enquanto enrolava a barra do vestido entre os dedos. Ela era baixa e tinha o rosto redondo, os cabelos eram curtos e castanhos.

Katsuki nunca a viu na vida.

— Izu, está tudo bem? — Ela perguntou o encarando com preocupação, uma das mãos pousou sobre o próprio ventre enquanto a outra se atreveu a tocá-lo.

Bakugou abaixou o olhar, confuso com o que estava acontecendo. Uma hora estava preso em um quarto etéreo, provavelmente no limbo ou algo do tipo, e no momento seguinte estava rodeado por médicos e aquela mulher de rosto redondo. Seus olhos seguiram os dedos da moça e ele franziu o cenho ao não reconhecer a própria mão.

Seus dedos eram longos e finos, feitos os de Mitsuko. Ele não tinha calos ou cicatrizes, suas unhas eram arredondadas e curtas. Mas aquelas mãos tinham dedos grossos e curtos, de tamanho quase infantil; havia cicatrizes em ambas e as unhas todas roídas.

Aquelas não eram suas mãos e aquela mulher não parecia estar ciente que estava tocando alguém que jamais viu na vida. Katsuki abriu a boca para respirar, no entanto sentiu como se tivesse aspirado lava ao invés de oxigênio. A ardência em seus pulmões o fizeram se contrair de dor e a voz da moça soou como um eco distante. Ele nunca havia passado por aquilo, a garganta fechada como se quisesse impedir que mais se quente entrasse, ou até mesmo qualquer ar.

Era impossível respirar. Na realidade, tudo parecia impossível e confuso. Bakugou não sabia o que pensar, apenas sentia o coração bater forte no peito, como se quisesse sair de si, fugir daquele calor infernal que estava em seus pulmões.

Não o culpava, pois naquele momento gostaria de fazer o mesmo. Fugir para bem longe e nunca mais voltar.

***

— Meu primeiro ataque de asma aconteceu quando eu tinha seis anos, foi horrível. — O homem, Izuku, disse quando tornaram a se encontrar e após se conhecerem.

Bakugou imaginou que havia desmaiado, pois quando abriu os olhos estava de volta naquele mesmo quarto azulado. O rapaz do metrô olhava pela janela e não pareceu se importar com a repentina companhia.

A primeira coisa que Katsuki quis saber foi quem ele era. Midoriya Izuku, vinte e sete anos, nascido e criado em Kansai… Depois disso, perguntou se tinha ideia do que estava acontecendo.

Midoriya tinha cara de idiota, mas era esperto. Sabia que estava em algum lugar a beira da morte e que pertencia a Katsuki. Também sabia que era alguma consequência maluca de um acidente, pois Izuku o havia seguido após sair da estação e tentou impedi-lo de ser atropelado por um caminhão.

— Não sei há quanto tempo estou aqui, mas consigo ouvir algumas coisas de vez em quando. — Ele disse. — Você está em coma e não sabem ao certo sua situação.

Katsuki balançou a cabeça e riu, realmente achando graça desse humor sádico da vida. Olhou para as próprias mãos, dedos longos e finos, e depois para as de Midoriya, dedos curtos e grossos. Izuku ouvia falarem sobre Bakugou e Katsuki viu a noiva de Midoriya.

Eles estavam no corpo errado, não sabiam o porquê e nem como mudariam isso.

Ou se mudariam a tempo.

***

Os três gatos pareciam saber que ele não era realmente Izuku. Uraraka no fundo também sabia, mas a morena ignorava as mudanças na personalidade do noivo por conta da experiência de quase morte que havia vivido. A desculpa perfeita para o mal humor e grosseria de Katsuki fluir livremente.

Ochako não tinha culpa, mas ele estava em corpo que não era dele há mais de uma semana e sem qualquer ideia de como voltaria. Logo, impropérios e rompantes de raiva se tornavam mais fortes conforme a angústia crescia em seu peito.

Não era fácil para ele ver seu próprio corpo estirado em uma cama, cheio de fios e tubos. Ele queria chorar só de se lembrar como Mitsuko estava ao encontrá-la no corredor do hospital, teve que se controlar para não a abraçar e dizer que ele estava bem; provavelmente o internariam na ala psiquiátrica.

Também não foi nem um pouco fácil entreouvir os médicos discutirem sobre a possibilidade dele acordar algum dia. Eram poucas e não poderiam manter seu corpo lá para sempre, precisariam do leito e das máquinas eventualmente.

Katsuki estava sentenciado e se não fizesse nada, quem pagaria o preço seria Izuku.

Quando alertou o homem sobre isso e ele disse que poderia ser pior, Bakugou quis gritar e socar aquela cara de imbecil. Explodir tudo em mil pedaços, reconstruir e explodir de novo. Gritou com Uraraka ao acordar, gritou com os gatos e gritou ao telefone com Inko.

Elas poderiam ignorar o fato de que ele não era Izuku, mas ele jamais esqueceria. Não viveria aquela vida que não era dele, não tiraria o direito do outro de ser feliz. Era impossível e sufocante, uma responsabilidade que não queria.

Pelo amor de deus, Katsuki foi incapaz de ser responsável pela própria felicidade. Se continuasse no corpo de Midoriya, apenas seria o culpado de arruinar muitas outras vidas.

Mas o que ele poderia fazer?

***

— Eu não acho que tenha algo que possa ser feito. — Midoriya falou quando trouxe a dúvida. — Não sabemos nem o porquê de isso estar acontecendo.

— Então é isso, você vai ficar parado aqui com essa sua cara de nerd idiota e morrer em um corpo que nem é seu?! — perguntou socando o vidro da janela, que nem ao menos vibrou.

— Você se preocupa demais comigo, se fosse o contrário você é quem morreria. — Izuku, que estava sentado no cama, o olhou com o cenho franzido.

— Sim, no meu corpo, pelas minhas escolhas! — rebateu irritado. — Ao contrário de você, que tem uma porra de vida inteira pra viver ainda. Um noiva e um filho a caminho, cacete!

— E quanto a você? Tem vinte e cinco anos, muita coisa pra viver ainda!

— Você tá me ouvindo ou essa porra de lugar tá te deixando surdo? Você tem uma noiva e uma criança te esperando, eu não tenho ninguém!

— E sua mãe, seu pai? Sabe, eu ainda consigo ouvir eles de vez em quando, eles parecem bem tristes com isso.

— Eles vão superar — respondeu depois de pigarrear.

Izuku se levantou da cama e caminhou até ele, colocou uma das mãos sobre seus ombros. Katsuki olhou para o rosto sardento, eles tinham a mesma altura, mas diante do olhar que recebeu se sentiu pequeno e comprimido.

— Ninguém supera a morte de um ente querido, você se acostuma com o vazio e vive com ele, mas jamais supera. — O moreno suspirou e bagunçou os fios loiros como se Bakugou fosse uma criança. — Você tem mais valor do que o crédito que dá para si mesmo.

***

Com um mês e meio vivendo como Izuku, Bakugou aprendeu alguma coisa ou outra sobre si mesmo. A primeira era que ele gostava mais de animais do que imaginava. Nunca teve um bicho de estimação e talvez por isso acreditava que eles eram indiferentes em sua vida, mas entre cuidar dos três gatos do homem e trabalhar como veterinário, Katsuki pensou que seria legal fazer disso uma carreira.

De início foi tudo muito confuso, mas Uraraka o ajudou com algumas coisas acreditando que ele ainda estava desorientado por conta do acidente. Não era capaz de realizar nenhuma operação ou algo mais complexo, mas o básico ele conseguia fazer (como medir a temperatura).

Outra coisa que aprendeu é que não tinha vocação para ser pai, mas escolher coisas para crianças e imaginar como elas seriam até que era divertido. Uraraka já estava no final do segundo trimestre da gestação, a barriga a cada semana maior e um humor que era afetado pela constante vontade de ir ao banheiro.

Certo dia, a mulher trouxe para casa um bebê de cabelo escuro e olhos cinzas. O filho de um casal de amigos que precisava sair e ela se ofereceu pra cuidarem da criança. O menino deveria ter um ano ou pouca coisa mais, era baixinho e cheio de dobras; falava poucas palavras e mais caía no chão do que andava.

Katsuki odiou o menino durante as primeiras duas horas, pois os dois estavam estressados com esse contato novo. No entanto, depois de uma boa comida, brincadeiras, um banho morno e um bom cochilo, eles começaram a se dar bem.

Uraraka riu de sua cara, naquela noite, dizendo que ele ainda era uma criança. Bakugou fechou a cara e a ignorou, mas no fundo de sua mente concordou com ela.

Se ele tivesse uma segunda chance…

***

Bakugou Katsuki, aos vinte e cinco anos, não tinha muitos amigos. Colegas de trabalho sim, mas amigos? Não conseguia considerar Kirishima como um amigo àquela altura, pois pouco conversava com o rapaz que conheceu na faculdade. Entretanto, agora parecia ter conquistado um, pelo menos foi o que Midoriya disse.

— Amigos? — questionou com uma das sobrancelhas erguidas.

— Você está vivendo a minha vida, nos encontramos e conversamos todos os dias. — Izuku respondeu rindo. — Sabe mais coisas sobre mim que minha própria noiva, acho que posso te chamar de amigo, Kacchan. — Katsuki fechou a cara diante do apelido e o moreno gargalhou.

— Eu jamais seria amigo de um nerd de merda que nem você — falou bufando, ignorando o calor que sentia no peito.

— No fundo você é um nerd de merda também, Kacchan. — O mais velho provocou e riu novamente quando Bakugou o empurrou com o braço, o fazendo cair deitado na cama.

Katsuki olhou para o homem e mordeu as bochechas, se segurando para não falar nada estranho. Coisas como apreciar ser considerado um amigo ou que ele gostaria de ter uma chance de conhecer Midoriya na vida real, até mesmo que agora entendia o que ele quis dizer sobre nunca superar a perda de um ente querido e que ele não iria a lugar nenhum, ao contrário de Mikumo (irmão gêmeo de Izuku).

Contudo, ele não tinha o poder de prometer nada. Os dias estavam contados, não manteriam Katsuki preso em máquinas por muito mais tempo. Somente um milagre poderia salvá-los.

— Ei, o que é aquilo? — Midoriya perguntou o puxando pelo braço.

Bakugou olhou para a direção apontada, uma das paredes brancas e viu o que havia chamado atenção do homem. Uma rachadura crescia na parede, reta e retangular.

— Uma porta? — Olhou para Izuku, que deu de ombros igualmente confuso.

Os dois se levantaram e seguiram até a parede, Bakugou ergueu uma das mãos e tocou o centro da rachadura. Antes de tocá-la, no entanto, uma onda de calor passou por seu corpo o fazendo olhar imediatamente para Izuku.

— O quê? O que foi? — Midoriya perguntou confuso diante do olhar.

— É o milagre — respondeu.

Sem dar tempo para mais questionamentos, Katsuki segurou Izuku pelos braços e o jogou contra a parede. Uma luz quente e amarelada ofuscou sua visão antes de ver as costas do homem bater contra a parede.

Quando o brilho se dissipou, olhou em volta e viu que ainda estava no mesmo quarto. As paredes brancas, a cama de hospital e a janela por onde entrava a única iluminação do lugar.

E como da primeira vez em que esteve ali, estava sozinho.

***

Bakugou Katsuki tinha vinte e cinco anos, talvez vinte e seis, pois não tinha certeza quanto tempo havia se passado desde o acidente. Na realidade, ele não tinha certeza de muitas coisas.

Já estava morto?

Haviam desligado as máquinas?

Midoriya estava bem?

Ele e Uraraka já haviam escolhido o nome?

… Será que ainda tinha uma chance?

Tantas perguntas, nenhuma resposta e o tempo não passava naquele quarto. Era sempre claro e frio, em um tom azulado e incômodo. Ao mesmo tempo em que tudo parecia da mesma maneira que esteve ao longo daqueles dias onde Izuku era o residente, tudo era tão diferente.

Ele fingia não ter notado como ao poucos algumas coisas desapareciam, pois não queria lidar com o que aquilo poderia significar. Ignorou até quando a cama deixou de ter lençóis, foi mais difícil quando ela por inteira deixou de existir.

Somente quando era apenas ele e a janela, foi que Katsuki de atreveu a pensar no que estava acontecendo. Sua teoria era simples e, se ainda fosse no começo, antes de ter conhecido Midoriya e vivido como ele, teria sido mais fácil de aceitar.

Tudo estava desaparecendo, porque logo ele desapareceria.

Bem, pelo menos isso respondia algumas de suas dúvidas. Ainda não estava morto, mas estaria em breve.

Gostaria de ter dito a sua mãe que mesmo sendo uma velha chata, ainda a amava. Gostaria de ter dito a seu pai que não havia nascido para seguir a mesma carreira que a dele e que ela era uma grande porcaria. Talvez, se fosse possível ter outra oportunidade, aceitaria alguns dos convites de Kirishima para sairem e se divertirem; ser realmente amigo dele.

Gostaria de ter visto o filho da Izuku e Ochako, a criança seria muito mole com os pais que tinham, ele poderia ensiná-la a ser mais dura. Gostaria de tê-los conhecido em outra situação.

Katsuki fechou os olhos e aceitou seu destino quando tudo começou a ruir. Abraçou a si mesmo e se deixou embalar pelos tremores do quarto.

Quando tornou a abrir os olhos, tudo era branco e frio.

Quando tornou a abrir os olhos, estava em um quarto.

Notas finais
Sim, gente, é isso ahsuahsuahsua

Eu confesso que me inspirei um pouco no filme Kimi no Na wa (Your Name), pq eu vi esse fim de semana e fiquei impactadíssima ❤
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!