Leitmotiv
1 Único
Notas iniciais
Boa leitura, amiguinhos.
Na noite anterior teve festa, mas voltei cedo, por volta da uma hora. Não era porque eu teria aula na manhã seguinte. Afinal por que alguém se importaria com aula no sábado? Mesmo quando cheguei em casa não fui dormir; fiquei assistindo TV por duas horas ainda. Acabei por adormecer no sofá; sonhei com Ela.
Havia meses que a imagem dela atormentava meus sonhos; Ela era meu inferno particular. Não, não eram pesadelos. Na verdade eram os melhores sonhos que eu poderia ter, mas eu não os queria, eu os rejeitava com todas as minhas forças — eu não podia estar gostando de uma garota, podia?
Acordei por volta das 6:30 com meu celular gritando que era hora de encarar o dia. Ótimo. Sábado. Aula. Fui voado tomar um banho e me arrumar, para tentar parecer um ser humano normal. Meu humor naquele dia estava o pior possível e como não existe criatura mais enrolada do que eu, consegui chegar atrasada na escola.
Meu celular tocou, era minha mãe avisando que eu teria que almoçar sozinha. Enquanto eu estava numa luta violenta para amarrar o cadarço do meu tênis, equilibrar meus cadernos e começar uma discussão inútil por celular, uma voz terrivelmente familiar disse: “Precisa de ajuda?” Sendo muito clichê, atrevo-me a dizer que por um segundo tudo parou. Eu ouvi o silêncio gritante do mundo, não existia gravidade e talvez até meu coração tivesse congelado. Foi incrível como três palavras pronunciadas por Ela fez meu universo inteiro balançar num sopro suave de alegria. Eu murmurei um “Tudo bem” no celular e desliguei.
Balancei a cabeça afirmativamente para a garota — que eu chamava mentalmente de minha havia algum tempo. Ela segurou meus cadernos e o celular enquanto eu terminava de amarrar os cadarços com as mãos trêmulas. Eu já estava sorrindo quando peguei de volta o que me pertencia e disse meio gaguejando um “Obrigada” cheio de acentos que não existiam; meu sorriso aumentou tentando me controlar para não rir.
Ela com a expressão séria me perguntou: “Como você consegue? Sorrir assim num sábado de manhã em frente a escola?” Fui tomada por uma vontade incontrolável de dizer que era Ela, que Ela era o motivo dos meus sorrisos. Mas limitei-me a sorrir como a mulher do comercial da Colgate; em resposta, ela me presenteou com um sorriso tímido, que me permitiu imaginar se algum dia eu seria o seu motivo.
— E você foi o motivo, mamãe? — perguntou a garotinha de 5 anos depois de ouvir atentamente a história.
— Pergunte à sua outra mãe — sorri do mesmo jeito que naquele sábado. — Mas naquele dia não almocei sozinha.
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