Leis e Magias
1 Capítulo Único
Rose Weasley olhou o loiro dormindo ao seu lado e sentiu-se culpada. Levantou-se sorrateiramente, vestiu-se e saiu do apartamento de Scorpius.
Merlim! Steve. Ela tinha traído seu noivo. Ela tinha traído Steve. Merda. Merda. Merda. Ela traiu Steve com o Malfoy. As coisas não podiam ter ocorrido de forma pior.
Assim que chegou em casa sentiu o olhar cauteloso de Hermione.
Desde do noivado as duas viviam discutindo por conta do planejamento do casamento. Sua mãe queria um casamento grandioso, onde pudesse convidar todos os contatos importantes e os familiares. Steve concordava, para ele uma festa grande ela politicamente adequada, afinal ele sempre visou o cargo de Ministro da Magia. Rose, por outro lado, destetava a ideia de uma grande festa de casamento, queria somente sua família e seus amigos mais íntimos. Mas, ela tinha sido voto vencido.
Antes que o assunto casamento fosse tocado Rose correu para o banheiro. Trocou-se rapidamente e desejou que o estúpido do Malfoy não agisse como um babaca.
Para todos os efeitos aquela noite nunca aconteceu.
....
Scorpius simplesmente não conseguia tirar o sorriso do rosto, muito menos a Weasley de seus pensamentos. Merlim, ele estava ficando louco.
Os dois sempre foram rivais, adversários, competiam academicamente e nos esportes, mas nunca foram inimigos, nunca desejaram que o outro errasse ou se desse mal, no fundo sabiam que precisam um do outro no seu melhor para se estimularem a melhorar. Tampouco eram amigos, apesar de serem parecidos em diversos assuntos e de passarem os últimos 20 anos se vendo diariamente.
Após Hogwarts ambos se formaram com louvor e trabalham no Departamento de Execução de Leis e Magia. Havia, notadamente, uma admiração mútua, no aspecto profissional. No entanto, nunca passou disso.
Era o que Scorpius achava pelo menos. Até que ela ficou noiva. Rose já tinha dito outros namorados ao longo dos anos, mas a vida amorosa da Weasley nunca pareceu relevante, pois assim como ele, ela era casada com seu trabalho. Mas ela estava noiva. Steve Glass era o felizardo. Um dos nomes mais influentes dentro do ministério da magia. E, por algum motivo, que ainda não entendia, o noivado dela o incomodou.
Quando acordou naquela manhã ele tinha uma ideia do que aquele incômodo significava.
...
Rose chegou em seu gabinete ainda tentando esquecer o que tinha acontecido na noite anterior. Em cima de sua mesa de um buquê de flores, o cartão dizia “Tem razão, eu sou um completo idiota. Almoça comigo hoje? -Com amor, Steve”.
Ela estava literalmente sendo consumida pelo sentimento de culpa. A aliança em seu dedo nunca foi tão pesada.
Merlim, como ela podia ser tão estúpida a ponto de dormir com o Malfoy? Maldito Malfoy! Maldito Malfoy e seus beijos deliciosos, e sua pegada firme, e as língua...
Rose balançou a cabeça tentando não pensar sobre aquilo. Maldito Malfoy! Se ele pelo menos fosse ruim de cama. Se ela pelo menos não tivesse gostado. Se seu corpo pelo menos não quisesse repetir a dose. Não! Aquilo era errado. Muito errado. Ela amava Steve. Amava o toque delicado dele.
Ela precisava de ar. Precisava sair de sua sala. Quando se deu conta estava na sala de Hugo. Seu irmão mais novo comandava a Seção de Espionagem do Departamento de Aurores.
—Acho que você precisa de um uísque de fogo.
Disse ele quando viu a irmã.
Rose apenas aceitou a bebida. Sentou-se na frente do irmão. Ela queria contar o que tinha acontecido, mas simplesmente não conseguia. Não sabia como dizer o que queria dizer, o que não era algo comum. Ela sempre sabia como dizer as coisas, por mais desagradável que fosse.
—Não importa o que você tenha feito tenho certeza que não é o fim do mundo.
Eles sempre foram muito próximos sabiam basicamente tudo da vida um do outros, as coisas boas, as coisas ruins e as coisas terríveis.
—Você não estiaria tão certo disso se soubesse.
—Eu sei o que é – Rose o encarou assustada. Será que alguém os tinha visto? – Seu olhar está distante, seu cabelo está penteado para o lado errado, a unha do seu dedão está menor que as demais, o que significa que você a roeu, e você só faz isso quando se sente culpada. Só há duas coisas que te fariam se sentir culpada nesse nível e envolve Steve ou o seu trabalho. Conhecendo você como eu conheço se fosse de fato trabalho você estaria surtando para fora e não internamente. Além disso, mas, não menos importante, eu estou com as sobrancelhas verdes e você está aqui há cinco minutos e não comentou nada sobre.
Ou seja, você traiu o Steve. Se fosse um desconhecido você provavelmente estaria falando com Portia, sua melhor amiga, agora e não comigo. Então é alguém do nosso meio e você gostou. Porque se tivesse arrependida estaria conversando com Steve nesse exato momento. Mas você não está arrependida, embora sinta-se culpada. Tão culpada que não consegue falar o que aconteceu, mas precisa desesperadamente conversar sobre. Por isso veio a mim, porque sabia que não ia precisar me dizer nada para eu saber o que estava acontecendo.
—Odeio quando faz isso.
Rose comentou virando o copo da bebida.
—O que eu faço, Hugo? Eu amo Steve. Quero me casar com ele. Sei que vamos ser felizes.
—O que quer fazer?
—Eu não tenho a menor ideia. Já pensei em contar para Steve, mas ele não vai me perdoar. E eu o amo. Nós vamos no casar. Então... sei lá... acho que vou fingir que isso nunca aconteceu.
—E o que se amante acha disso?
—Ele não é meu amante. Ele é um erro.
—Um erro que você vai continuar vendo por todos os dias da sua vida. Quanto tempo até cometer o mesmo erro de novo?
—Como sabe quem é?
—Eu sou um ótimo observador, é o que me torna bom no meu trabalho. E, você não respondeu minha pergunta.
—Não sei responde-la. Se fosse com você o que queria que eu fizesse?
—Não faça perguntas que não vai querer ouvir a resposta. Você me conhece. Não sou o único observador da família.
Rose sabia o que ele tinha razão. Hugo sempre iria preferir a verdade, não importava o quão cruel ela poderia ser. Ele provavelmente desejaria terminar o relacionamento. Não prenda pessoas que você não tem certeza que as quer ao seu lado – sempre foi o lema do seu irmão.
...
Scorpius não admitiria, mas estava apreensivo em vê Rose, no fundo tinha medo que ela estivesse arrependida, que visse a noite deles como um grandíssimo erro e não notasse o caminho que culminara naquela noite.
Os dois nunca foram amigos, mas não podiam dizer que nos últimos quatro meses os olhos de admiração estavam se tornando aos poucos olhares de desejo. As discussões jurídicas tornaram-se conversas agradáveis, o quadribol deixou de gerar disputas sobre o melhor time e virou análises técnicas sobre os jogos do campeonato, e aquela relação de rivais, de adversários tornou-se harmoniosa, a verdade é que eles tinham coisas demais em comum. Os anos de rivalidade os transformaram em experts no modo de pensar um do outro, eles se conheciam, as qualidades, os defeitos, os pontos fortes, os pontos fracos, os medos, os anseios, a força, a inteligência.
A intimidade surgiu de repente, eles não esperavam aquilo, não desejaram, mas ela aconteceu mesmo assim. Logo, discutiam sobre detalhes das suas vidas pessoais que somente os amigos mais íntimos sabiam e sobre as quais ninguém sabia. Não havia julgamento, de uma forma estranha eles se compreendiam.
Foi para Scorpius que Rose confessou pela primeira vez que embora amasse Steve e desejasse casar com ele no futuro achava que o casamento tinha sido proposto cedo demais e que seus pais estavam excessivamente animados com o casório. Os três – Steve, Ronald e Hermione – basicamente estavam planejando o casamento sozinhos. Ela não concordava com a grande maioria dos detalhes e aparentemente a opinião dela tampouco importava.
Foi para Rose que Scorpius confessou que Draco provavelmente não duraria muito e havia uma grande pressão para que ele se cassasse e tivesse filhos, pois Draco queria vê-lo tão completo na vida pessoal quanto era na profissional.
...
Quando estudavam juntos em Hogwarts a ruiva não era cega, e por mais que fosse rival de Scorpius reconhecia que ele era bonito. Mas, o tempo infelizmente o havia tornado bem melhor. E, sempre usava uns ternos que deixavam sexy. Não que ela fosse admitir isso para alguém, até porque sempre soube disfarçar o quanto o corpo dele era capaz de afetá-la.
Até o dia em que precisou encontra-lo fora do Ministério. Ela precisava da ajuda dele para uma compilação de leis. Os dois iriam se encontrar no apartamento dele.
Discutiram sobre leis durante horas, eles amavam o mundo do direito e descobriram durante aqueles meses que melhoravam seus fundamentos teóricos quando conversavam. Scorpius trouxe uma garrafa de vinho para a mesa e sem se darem conta já conversaram sobre a vida amorosa.
Rose estava brigada com Steve. O noivado mais parecia que um acordo político do que uma relação baseada no amor.
Às vezes, relevou ela, parece que só vamos no casar pela influência que o sobrenome Weasley poderia ter na disputa pela chefia do Ministério. Quase como se meu sobrenome fosse a melhor parte de mim.
—Para mim seu sobrenome é a parte menos atrativa. Confessou Scorpius.
—Cuidado com o álcool, Malfoy. Ou vai me fazer um elogio – Rose comentou com um tom brincalhão, mas ficou mexida.
Eu falo o que precisa ser dito, Rose. Não sou homem de colocar culpa na bebida. Estou sendo sincero. Você é mulher incrível. E, eu sei disso muito antes de selar a paz nas nossas rixas.
Os dois se fitaram por um bom tempo, os dois se cobiçavam. A distância entre eles era curta, mas nenhum teve a coragem de fazer o que queriam.
O que você quer dizendo isso, Scorpius?
Questionou sem tirar os olhos dos dele.
Mas ele não a respondeu. Acariciou o rosto dela. Rose fechou os olhos desfrutando o toque dele. Scorpius tomou coragem e encostou os lábios no dela. Foi um beijo rápido, somente para sentir a boca dela, mas o suficiente para que ela abrisse o olho.
Eles se encaravam com a respiração pesada, ele colocou a mão na nuca dela, a boca dos dois estavam a centímetros uma da outra, não havia escapatória, os dois se beijaram novamente. Um beijo quente, profundo e cheio de tesão.
Qualquer dúvida que eles pudessem ter se desfez naquele beijo. Não havia inibição, julgamento, medo, só havia os dois e o desejo e eles estavam literalmente obedecendo desejo de seus corpos.
...
Eu não posso acabar com meu noivado, Hugo.
Exclamou Rose afastando as lembranças da sua cabeça.
-A questão é você não pode ou você não quer terminar com o noivado? Porque se você não quiser é porque ama Steve e de fato pretende se casar com ele, mas se não pode é porque está se deixando levar pelas consequências do término.
—Está insinuando que no fundo eu quero terminar com Steve para ficar com o Malfoy? E, tentar ter uma relação com ele? E aí nós nos casaríamos e teríamos lindos filhos?
—É o que você quer? -Perguntou Hugo.
—Não tenho futuro com o Malfoy. Se eu terminar esse noivado, logo estarei solteira novamente. Daqui há três meses vai ter a disputa pela presidência do Tribunal. Acha mesmo que um eventual relacionamento com Scorpius sobreviveria a isso? Não tenho futuro com ele.
—Então você só trocaria o seu noivado por algo certo? Isso não existe. Você e Steve estão juntos há menos de um ano. Seu noivado está tão sujeito ao fracasso como uma eventual relação amorosa com Scorpius. Inclusive, em uma perspectiva temporal, a probabilidade é até maior com o Malfoy porque vocês se conhecessem há muito mais tempo. Mas, não há matemática que seja mais forte que o amor. Então no fim das contas as duas relações são um grande risco, e só você pode decidir em qual vai se arriscar. Mas eu estarei aqui ao seu lado, não importando o que você decida.
—O que você faria Hugo? Perguntou abraçando o irmão.
—Você sabe.
E ela sabia.
...
Rose estava nervosa, iria almoçar com Steve, mas não tinha decidido ainda o que fazer. Scorpius não pôde conter o sorriso quando a viu, rapidamente foi ao encontro dela, mas antes de alcança-la Steve chegou e a beijou. Ele estancou no meio do caminho, o olhar dos dois se cruzaram, havia culpa no olhar dela e o coração de Scorpius se apertou – tinha sido só uma noite.
...
Steve animadamente contava para Rose a sua grande solução para as discussões sobre o casamento. A ideia era de que o casamento em si seria intimo como ela queria, mas a festa seria grande. Havia uma pontada de decepção no olhar da ruiva, no fundo esperava que ele dissesse que fariam o casamento como ela sempre sonhou, mas lembrou-se do argumento da briga do dia anterior “Sou uma pessoa pública Rose, preciso de aliados políticos e se firma esses contatos em casamentos como esse”.
—Então o que acha? Glass perguntou ansioso. Tinha passado a noite toda criando aquele plano com Hermione e Ronald.
—Eu me apaixonei por você porque você é atencioso, determinado, divertido, carinhoso..., mas planejando esse casamento eu percebi que sua vida gira e sempre vai girar em torno do cargo de Ministro da Magia. Acredito, do fundo do meu coração, que vai ser um grande ministro. Infelizmente não acho que será um marido tão bom assim, não para mim.
—O que está dizendo, Rose?
—Estou dizendo que deveríamos terminar.
Steve não aceitou muito bem o término. Não estava nos seus planos. Não tinha previsto aquilo acontecendo. Os dois discutiram durante semanas. Ele queria saber o que tinha levado Rose a agir daquela forma. Desconfiou que tinha outra pessoa, mas Rose negou. No fim das contas o término não teve nada a ver com Scorpius. Não foi a traição o fator determinante.
Em menos de dois meses as coisas entre Rose e Steve já estavam mais calmas, embora ele ainda estivesse convencido de que tinha mais alguém.
Scorpius acompanhou todo o desenrolar da separação entre Rose e Steve à distância. Conhecia a ruiva, sabia que precisava dar um tempo e quando ela estivesse pronta iria procura-lo.
Após três meses do término ela o procurou.
Rose apareceu no apartamento de Scorpius com uma garrafa de vinho na mão e um sorriso no rosto. Ele sorriu em resposta. Conversaram um pouco sobre como tinham sido aqueles meses, mas logo se deixaram levar pelo desejo. Passaram a noite inteira revezando entre fazer sexo e conversarem sobre coisas estúpidas e coisas sérias, havia uma intimidade entre os dois, uma cumplicidade, daquelas difíceis de encontrar
Na manhã seguinte Rose não saiu sorrateiramente e nem havia culpa, ela estava leve, animada, quase em paz. Scorpius abriu o sorriso quando a viu.
—Quer sair comigo um dia desses?
Ele queria fazer as coisas certas daquela vez.
—Está falando sério?
—Nunca falei tão sério.
—Ok.
Respondeu ela. Quando imaginou voltar ali achou que os dois ficariam com aquele joguinho sexual por um bom tempo.
—Sábado. Em um restaurante trouxa. As 20h.
—Desde quando conhece restaurantes trouxas?
—Ainda há muitas coisas para conhecer em mim.
Comentou ele lhe dando um selinho.
Rose não sabia como seria o futuro, se passariam ou não o resto da vida juntos, mas ela não se importava, pois ele valia a pena o risco.
Scorpius sentia-se estúpido por demorar tanto para perceber que gostava de Rose, mas agora que sabia não iria deixa-la ir tão fácil.
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