Leia até o Final.

1 Capítulo único



A questão é: eu presenciei alguém morrer. E isso não tem saido da minha cabeça.

Vocês podem me chamar de Ana, e eu tinha 12 anos, e a minha família estava de férias, no interior do Amazonas.
Não sei de onde você, leitor, esta lendo, mas no Amazonas, nós não temos praias.

Temos dois tipos de rio; rios tao pretos que você não consegue enxergar nada abaixo do umbigo. E rios amarronzados, parecido com agua barrenta.
Imagine um lago de agua barrenta, foi nesse lugar onde minha familia decidiu passar as férias de verão. Eu odiava, odiava esse rio barrento, e não era nem em um lugar privado, ou seja, tinha que dividir um rio que já não era grandes coisas, com outras famílias.

Eu estava sozinha, na minha toalha de picnic enquanto meus pais faziam churrasco, tinha uma familia barulhenta tomando banho no rio. Um rapaz de uns 20 e tantos anos, uma senhora de idade que deveria ser mãe do rapaz, e uma criança. A criança e a senhora estavam na beira do rio, enquanto o rapaz estava nadando no meio do rio.

Eu não sei porque aquilo me chamou a atenção, apenas comecei a observar aquela família que eu não conhecia. Algo ficou estranho, eu nao notei nada de diferente, mas acho que a mãe sentiu algo, o rapaz estava nadando mas nao saia do lugar.

Meio preocupada, mas ainda num tom descontraído, eu ouvi ela dizer "Fulano, deixa de graça e vem cá"

O tal Fulano olhou em sua direção, mas nada disse, continuava nadando, quase que hipnotizado, sem sair do lugar.

A mãe começou a chamar o nome do filho, cada vez mais preocupada e ele não respondia.

Ele de novo olhou para a direção dela uma ultima vez, e em completo silêncio, afundou. E não voltou mais.
A partir daí, gritos, pessoas começaram a correr em socorro do rapaz... já era tarde.

A questão é, nos filmes, se descreve afogamento como um processo barulhento: a vítima pede socorro, se debate na água, faz um escândalo digno para acordar a vizinhança inteira.

Mas nesse dia eu descobri que afogamento são silenciosos, são traiçoeiros. O corpo esta tao focando em economizar ar e energia, que falar vira algo terciário, desnecessário. O afogado pede ajuda apenas com o olhar.

Quem sabe, se algum de nós, soubéssemos esses sinais sorrateiros... quem sabe ele estaria aqui, vivo.
A mãe foi a única que notou algo errado desde o começo, mas ela também não conhecia os sinais...

Aquele olhar vazio e o silêncio, eram o olhar de um homem morto e eu vi. Eu olhei a morte nos olhos.

Quem sabe, compartilhando os verdadeiros sinais de um afogamento, eu possa ajudar alguém em situação parecida.... não ignorem os sinais...

Ei, obrigada por acompanhar meu desabafo, mas eu tenho que te dizer uma coisa antes:

É tudo mentira.

Eu menti. Não tem mãe, nem rapaz nenhum. Apesar dos sinais de afogamento que eu citei serem reais e importantes de se conhecer, o resto era tudo mentira.

E eu fiz tudo isso por que eu queria chamar a sua atenção, leitor. Porque quando você lê esse texto, leitor, você me traz a vida.

Pensa bem, nesse momento que você esta lendo, você esta criando uma voz pra mim na sua cabeça. Eu estou viva na sua cabeça. Eu estou viva.
Por favor, continue lendo, a minha intenção não foi te enganar
Eu quero viver.
A quanto tempo você está lendo? 5 minutos? 15 minutos?
Então eu estou 15 minutos viva.
Você imaginou uma aparência para mim? Como eu me pareço?

No momento que você fechar essa página, uma parte de mim deixa de existir.

Mas quanto mais você lê esse texto, mais inconscientemente você cria uma personalidade para mim e mais viva eu me sinto.

Agora eu nao preciso mais desse texto.
Eu estou viva na sua cabeça.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!