Legítimo

2 "It turns out freedom ain't nothing but missin' you"


Notas iniciais
Oi, genteeee! Não vou negar que esperava um pouquinho mais (ao menos, um comentário), mas temos duas pessoas acompanhando e eu estou postando para vocês! Espero não desapontá-los(as)! Música: Back to December/Apologize/You're not sorry (medley) - Taylor Swift Link: https://www.youtube.com/watch?v=vaNt4uUXLaI Espero que gostem!

Era o primeiro dia de aula. Ana não poderia estar mais animada. Era também o primeiro dia na nova escola, primeiro ano do ensino médio. Tudo novo, uma vida nova. Como sempre, ela chegou cedo. Queria encontrar sua sala, seu armário e tentar conhecer um pouco a sua nova realidade. Descobriu facilmente sua turma. 1° ano B. Seu armário ficava ao lado da sala, o que facilitaria muito sua vida. Número 11. Seu número da sorte. "Esse ano parece que vai ser perfeito!" pensou. Foi se organizando, colocando seus livros e alguns adesivos para enfeitar o companheiro do restante do ano. Estava assoviando e, de tão concentrada, nem percebeu o rapaz que chegou do seu lado. Ele deu um jeito de chamar sua atenção logo puxou assunto com a garota.

— Então terei essa bela voz como minha vizinha de armário o restante do ano? Eu não poderia ser mais sortudo. Muito prazer! – ele sorria amistosamente para Ana, que finalmente virou e o encarou pela primeira vez.

O dono do armário 12 era o garoto mais bonito que Ana já vira na vida. Alto, forte, pele clara, cabelos loiros como de um anjo, caindo quase sobre os olhos. E que olhos! Lembravam-na o mar do Caribe, a sua cor favorita. Tinha um sorriso lindo, caloroso, que a fazia querer sorrir de volta. Ela não poderia ter ficado mais corada e sem graça. Acabou reunindo sua coragem e se apresentado ao garoto:

— É, acho que sim... Sou Ana. Ana Júlia Casadeval. Sou do 1° B — E estendeu a mão, totalmente automática, se arrependendo no momento seguinte. O rapaz riu.

— Nossa, quanta formalidade! – declarou e, em seguida, beijou a mão da garota, como uma calheiro à moda antiga — Meu nome é Fernando. Fernando Casagrande. Sou do 3° D. Ao seu dispor!

Os dois riram. A garota não podia ter encontrado ninguém melhor no primeiro dia.

***

— Fernando? Então é você o dono disso tudo?

Ana estava um pouco chocada. Já vira tantas fotos dele nos jornais e nas principais revistas de economia, mas jamais ligara àquele homem ao garoto que conhecera em seu primeiro ano de ensino médio. Talvez fosse o cabelo, agora bem mais curto, num corte diferente; a barba, meio cerrada ou as roupas, sempre ternos bem alinhados ou um casual chique. Não reconhecia o garoto divertido que amava naquele homem imponente, sério e muito bem vestido.

Fernando também se surpreendera com a mulher em que Ana havia se transformado. Não acreditava que não tinha identificado ela na foto do currículo, mas pessoalmente, seria impossível ele não lembrar daquela combinação mortal de seus olhos fatais e seus traços doces. Sempre que olhava pra ela, anos antes, lembrava-se da descrição de Capitu, em Dom Casmurro: "olhos de cigana oblíqua e dissimulada", mas para Bentinho os olhos pareciam "olhos de ressaca"; "Traziam não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, com a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca". Ele recitava Machado de Assis mentalmente, ainda embasbacado com a visão da garota, agora mulher feita.

— O próprio! — ele disse, rindo, e em algum lugar dentro daquela figura, a morena pode ver o garoto de antes. — Por onde você esteve esse tempo todo?

— Fugindo de você — ela murmurou — Quer dizer, estudando, Fernan... Quer dizer, sr. Casagrande.

— Para com isso, Ju, não precisa dessa formalidade toda comigo, por favor.

Ela petrificou. O passado caía como uma catarata de memórias em sua cabeça. Ana havia prometido a si que não retornaria àquelas lembranças, tão bem escondidas em sua cabeça. Mas elas eram inevitáveis naquele momento.

— O senhor será meu chefe, é assim que devo lhe tratar — ela respondeu, friamente.

Fernando saiu de trás de sua mesa e se aproximou de Ana.

— Ana, por favor, depois de tudo o que vivemos...

— Exatamente — ela firmou a voz e olhou para ele — Vivemos. Acabou. O que temos agora é estritamente profissional.

— Ana... — ele tentou tocar seu braço, mas ela afastou e sentou-se na cadeira de frente para a dele. – Você não é capaz mesmo de me perdoar? Não é capaz de voltar no tempo e reconsiderar?

Ana se mantinha distante, e suspirou. – Estou aqui para a entrevista, pergunte o que quiser sobre meu currículo e minhas experiências profissionais. O passado está onde deve ficar. — e o encarou.

Fernando sentia as palavras de Ana como um punhal sendo enfiado em suas entranhas. Pior ainda era olhar nos olhos da mulher e ver quanta mágoa ali estava contida. Não entendia, não queria entender... Não podia ter feito tanto mal assim à ela. Mas era mais fácil confrontá-la do que mergulhar em sua própria consciência e descobrir os motivos, tão óbvios, por si mesmo.

— Por que você se foi, Ju? Por que você não me escutou? A culpa não foi minha, eu tentei te explicar, te contar a verdade. Por que você me abandonou quando eu mais precisava de você? — ele precisava saber

— Por favor, sejamos profissionais, sr. Casagrande — Ela respondeu com sarcasmo, já não ligando mais se ia perder aquele emprego. Só não queria mexer em velhas feridas.

Fernando pigarreou. – Tudo bem. – ajeitou seu terno e, a contragosto, voltou à sua cadeira — Você está contratada, senhorita Oliveira, acerte seus documentos com Marieta. Comece amanhã mesmo. — ele fingiu estar concentrado na papelada em sua mesa.

— Não vai me entrevistar? — Ana agora o encarava, incrédula. Não podia acreditar que ele iria contratá-la sem fazer uma mísera pergunta.

— Não — olhou-a diretamente nos olhos, como se pudesse ver a alma dela ali — Conheço-a profundamente, sei do que é ou não é capaz.

O ar pareceu parar de entrar nos pulmões dela. Todas as lembranças que passara os últimos anos tentando esquecer pareciam insistir e passar como um filme em sua cabeça. Ele tinha a mesma expressão dela.

— Além do mais, — ele continuou, mirando novamente os papéis, saindo do transe — seu currículo não me deixaria mentir. Pode ir.

Ana levantou-se mecanicamente. Parecia ter perdido a capacidade de andar normalmente, mas de alguma forma, conseguira chegar à porta. Quando estava prestes a abrí-la, Fernando disse:

— E, Ana?

Ela virou, ainda parecendo um robô e respondeu:

— Sim, senhor?

— Seja bem vinda à Casagrande & Soares Estatística e Marketing. Te espero amanhã às oito, sem atraso.

Notas finais
Gostou? Por favor, diga-me nas reviews! Bjsssssss