Legolas e Aragorn / Elrond e Gandalf - PARTE II

10 Você rei, eu príncipe... e daí? – Legolas


Notas iniciais
"Esta não é uma canção para quem tem o coração partido Não é uma oração para quem perdeu a fé Eu não serei só um rosto na multidão Você vai ouvir minha voz Quando eu gritar bem alto É a minha vida É agora ou nunca Eu não vou viver para sempre Eu só quero viver enquanto eu estou vivo (É a minha vida) Meu coração é como uma estrada aberta (...)" Música: It’s my life – Bon Jovi

O dia era ensolarado, já passando das onze da manhã. As nuvens pareciam algodão branco, algumas gaivotas, pássaros voavam sobre Gondor, sua quantidade aumentara, era o prenúncio de sua fase de acasalamento. Toda a natureza anunciava a boa vinda da primavera. As florestas estavam mais verdes que o normal, as árvores tinham folhas verdes brilhantes e as flores, todas abertas, inebriavam o aroma do ar tornando-o mais adocicado.

O mundo fedia a amor, diluía seu feromônio por toda parte. Tanto os animais quanto os vegetais estavam unidos nessa conquista, mas os humanos modificaram tanto a natureza e se distanciaram dela a tal ponto que tornaram pervertidos a naturalidade das relações, mas os elfos se esforçavam em mantê-la.

Por isso, eles tinham seus atos diplomáticos. Tentavam manter, de todas as formas, a natureza dos relacionamentos, acreditavam que o lado verdadeiro delas era aquele que predominava o amor, este pensamento ecoava e era mantido até mesmo pelos elfos das florestas, os considerados mais ariscos em relação a isso. Afinal de contas, o trauma de Thranduil não era seu deleite em maltratar, mas sua prepotência exagerada causada pelo esforço enorme que fazia para esconder sua solidão e carência afetiva.

Legolas crescera em meio a um sentimento contido, limitado em relação ao pai, este só se permitia aproximar-se mais de Elrond, embora fosse rudemente negado pelo Senhor de Valfenda. Thranduil não se importava muito com o seu filho, suas necessidades, acabando por enxergá-lo como um soldado “melhorado” em relação aos demais, mas o elfo rei reagia negativamente ao observar Legolas se juntar com qualquer outro que pudesse diluir seu sangue Sindarin e isto nem era por se preocupar com o filho, mas pelo simples fato que queria manter sua linhagem pura e inacessível a outras linhagens.

O fato de perceber que seu filho, agora, estava perdidamente apaixonado por Aragorn, Thranduil deleitou-se, pensava que era melhor do que o seu filho se deitasse com alguém que o faria correr o risco de gerar frutos indesejados, para o rei, as misturas raciais geravam seres horripilantes, decadentes além de extinguir as raças ancestrais.

Para Thranduil, aquela relação era até mesmo, vantajosa, já que consequentemente, Gondor se tornara um aliado forte e qualquer coisa que pedisse, provavelmente Aragorn atenderia.

No entanto, para Legolas, esta relação o perturbava, tinha que manter os tradicionalismos, Gondor deveria ter herdeiros, mas nada disso convencia seu coração enraivecido, para o jovem elfo, a vida era apenas sua, era a sua existência e ninguém deveria se meter nisso. A última vez que estivera nas Florestas das Trevas deixara claro isso para o seu pai, em troca de manter segredo com o que acontecera com Éomer ou até mesmo o que aconteceria depois, se seu pai e aquele “louco” cavaleiro continuassem com aquilo, o rei consentiu, achando apropriado manter segredo, já que nunca conseguiu prever as atitudes humanas.

Por isso, Legolas considerava-se parcialmente livre de pressões, mas e quanto a Aragorn? Pensava o loiro desamparado: Agora que ele teria um filho?

No entanto, o loiro decidiu uma coisa a caminho de Gondor e, neste momento, Éomer o acompanhava, claro, sabendo que deveria manter segredo, já que o caso do espadachim com o elfo rei também seria omitido.

– Éomer, quero que inclua esta parte do mapa no seu passeio de ronda.

– Ora, mas porque Legolas?

– E esta parte apenas se tornará parte de sua ronda quando Aragorn estiver com vocês.

– Como?

– Vocês fazem ronda depois de um tempo, a intervalos regulares, quero que Aragorn faça isso, quando ele for acompanhá-los.

Éomer desceu do cavalo se aproximando de uma cidade devastada, algum antigo reino anterior, destruído, ele andava pelas ruelas, com quase sem piso, pedras arrancadas e jogadas por todos os lados, as casas queimadas.

– Mas por que aqui? Está tudo destruído!

Legolas desceu do cavalo também, este fato ocorreu durante a volta ao Reino de Aragorn.

– Por que sim, vai me ajudar ou não?

– Deverei falar com o rei?

– Não, eu mesmo pedirei que faça isso.

Éomer olhou para os lados, balançando a cabeça negativamente.

– Por que aqui?

– Bem... porque sim, não me faça perguntas idiotas.

– Olha como fala comigo, elfo.

Legolas o olhou de lado, sentiu uma vontade enorme de lançar uma flecha na cabeça do outro, mas infelizmente, ele era um aliado poderoso, afinal de contas, ele daria o apoio quando Aragorn se distanciasse do grupo de ronda e fosse para ali, encontrar-se com o príncipe Sindarin. Sim, essa era a intenção de Legolas, fazer com que se vissem regularmente, sem o bafo opressor tanto de Elrond quanto da filha, afinal de contas, ele e seu cavaleiro tinham todo o direito de viverem bons momentos juntos, de curtirem-se, pensava o elfo.

– Vai aceitar isso ou não?

– Terei acesso livre ao seu reino quando desejar?

– Posso garantir isso.

– Então... – Éomer soltou uma risadinha sacana- Claro que aceito.

– É um masoquista mesmo...

– Haha... a dor é minha companheira de luta, elfo... aliás, seu pai é um tanto desafiador, os olhos dele, a voz ousada... um dia ainda o colocarei de joelhos por mim.

– Não vá magoar Faramir com essa bagunça toda.

– Como? – Éomer voltou-se para Legolas, ainda segurando as rédeas de seu cavalo.

– Esquece, então... está combinado , certo?

– Sim, já disse, dou minha palavra de cavaleiro.

– Quando estiver com seu grupo, liberará Aragorn a vir até aqui.

– E será que ele irá aceitar?

O elfo olhou fixadamente para Éomer, como se aquilo fosse outra pergunta idiota, por isso ignorou-o e se recusou a responder.

– Vamos! – Disse Legolas subindo no cavalo.

E logo estavam ali, em Gondor. Faramir recebeu os dois animadamente já que seu “amigo” estava bem. No entanto, Éomer não conhecia as intenções do amigo, apenas achara que ele poderia ter tido um caso com Boromir e isto fez com que Éomer ignorasse o fato de seu amigo poder ter outro alguém, já que o considerava um incestuoso, mas na verdade, o arqueiro ruivo admirava e muito o cavaleiro loiro e, provavelmente, mais para frente, mostraria isso a ele.

Já Legolas seguiu para mais o interior do castelo, logo se deparando com Aragorn a observar a esposa, feito isso, se escondeu ao lado da porta do quarto, não queria que o espadachim o visse, escutou ele comentar palavras baixas, mas logo sair dali e resolveu segui-lo. Acompanhou-o na taberna, depois o viu com Gimli, tomou todo cuidado para que Lindir não notasse sua presença quando chegou, pois queria ouvir a conversa deles e quando Aragorn disse o que tanto queria ouvir, não viu mais motivos para permanecer escondido e se mostrou completamente, em sua majestade.

Agora, estavam ambos ali, andando na direção do castelo, quando, de repente, ao passarem por uma parte mais deserta, Legolas segurou-lhe firme um dos braços o puxando para um beco. Aragorn se surpreendeu um pouco com esta atitude do amigo, mas não recusou a investida, o acompanhando até o local que tanto desejava.

– O que foi agora, Legolas?

O loiro mantinha um sorriso singelo nos lábios, Aragorn estava encostado numa das paredes dali, enquanto que Legolas encontrava-se diante de si e tocava a parede detrás de si com as palmas das mãos, as mesmas passavam por cima dos ombros do cavaleiro.

– Quero propor uma coisa.

– ... – Aragorn franziu os celhos, mas consentiu com a cabeça. – Diga.

– Passe a fazer rondas.

– Como?

– Éomer vai lhe mostrar uma cidade. – Depois de uma sábia pausa- Achei uma forma de nos encontrarmos sem ninguém nos importunar ou reclamar de seus gemidos.

– Mas como?!

Aragorn engoliu em seco, Legolas correspondeu com um sorriso deleitoso.

– Acredite, não sou eu que estou reclamando disso... enfim...

Ao contrário, o elfo até gostava de ouvir Aragorn implorar por mais, seduzi-lo com sua face excitada, quase orgásmica e logo continuou:

– Éomer lhe mostrará uma cidade, a qual não é visitada durante séculos... eu a conheço porque costumava treinar lá... às vezes, quando ficava muito chateado com o imperialismo de meu pai, eu me enfiava lá, o silêncio, a paz...

Legolas se distanciou do outro, encostando numa parede à frente, cruzando os braços.

– Eu gostava de treinar lá... é uma cidade bem localizada, dá para ver o nascer e o pôr do sol... enfim... – Se desencostou se reaproximando do outro, ficando a um passo dele. — Perfeita para nossos encontros casuais... assim não precisarei ficar como um fantoche masoquista no castelo e você nem precisa abraçar aquela mulher com desgosto por eu estar próximo... – O elfo engoliu em seco e depois continuou- Assim, poderei ficar no meu reino, já que ela se localiza nas proximidades e você poderá me visitar sempre que puder.

– Como saberá quando eu for lá?

– Me dirá seus dias e horários de ronda, mande alguém entregar este documento para um dos elfos de meu reino, endereçado a mim, claro.

– Entendo.

Aragorn respirou profundamente e soltou o ar devagar, colocando ambas as mãos na cintura, andou até o começo do beco, olhava para os lados, realmente aquela parte da cidade era um tanto deserta, pois esta área englobava parte posterior do almoxarifado do castelo, por isso, ninguém ousara construir ou morar ali, já que era vigiada das torres. – Voltou-se para o elfo, deixando um sorriso transparecer- Acho uma boa ideia... assim você sofrerá menos...

– Eu odeio vê-lo com aquela mulher. – Disse encostando numa parede, cruzando os braços, mantendo um olhar magoado. – Isto tirando Elrond, com aquela doçura dele...

– Hahaha... – Aragorn soltou risadinhas baixas, balançando a cabeça negativamente, mas logo voltando a olhar o elfo.

– Além disso, Gimli e Lindir nos ofereceram a casa deles, mas... vi que nossa presença realmente os incomoda... claro que nunca falariam tal coisa, mas cheguei a esta conclusão quando os vi saírem às pressas do castelo. – Legolas deixou um sorriso cínico e levemente arrogante se fazer presente.

– É verdade, eles que reclamaram de meus gemidos?

– Até onde sei, foram os únicos, mas acredito que existam mais pessoas... meu rei.

Legolas disse com tom de deboche, ajoelhando-se diante de Aragorn, olhando para cima com uma expressão sacana, pegando uma das mãos do rei e beijando sobre o anel dele. Aragorn engoliu em seco sentindo um arrepio correr-lhe pela espinha. Aqueles lábios, ah... soltou um suspiro quando viu-os grudados ao anel e um discreto gemido quando sentiu-os descolarem lentamente do metal deixando uma amostra morna de saliva por debaixo dele.

Seus olhos verdes inebriaram-se com a cena, perdendo-se nela, acabando por encostar numa parede ali perto, levando a mão ao próprio peito, ofegando baixinho. Legolas levantou-se e andou até o outro, ficando diante dele, encarando-o com um sorriso malicioso.

– Contenha-se meu rei. – Disse o elfo olhando para os lados, vendo as torres mais a frente, soldados passarem por ali, a alguns quarteirões de distância, até que finalmente voltou a encarar Aragorn, continuou com uma voz baixa, melodiosa, carinhosa. — Viu? É bom termos um lugar apropriado... aqui no reino, todas as luzes apontam para você, lá teremos nossa privacidade. – Disse o loiro andando até um poço antigo, tocava as mãos na própria cintura, ficou um tempo olhando para frente ate que olhou para o outro por cima de um dos ombros. – Esse sentimento não pode ser ignorado. – Voltou a olhar para frente.- Tanto eu quanto você, precisamos dar vazão a ele.

– Tem razão. – Disse o moreno tomando um gole considerável de ar, retomando o controle e andando ate o elfo, parando ao lado dele.

– Dê todo o suporte a Arwen, afinal ela merece... dê atenção e segurança a Elrond, já que ele precisa sentir isso para mexer aquela bunda dele e voltar para Valfenda.

Aragorn não se conteve e deu umas gargalhadas, chegando a se curvar para frente e apoiar ambas as mãos sobre os joelhos.

– HAHAHA... pare, por favor, Legolas... – Tocou-lhe um dos ombros, apertou levemente, este o encarou e ambos ficaram sérios. Legolas engolira em seco, falou baixo:

– Eu preciso de você, você não imagina o quanto.

Aragorn retirou a mão, sentindo o coração dolorido.

– Eu também. – Suspirou. – Vai comigo para o castelo?

– Não.

Aragorn franziu os celhos, olhou para o chão por algum tempo, pressionou os lábios, mas logo disfarçou olhando para o lado oposto a Legolas, não queria que o elfo percebesse que a resposta não o havia agradado.

– Acho melhor não ir... ainda estou... muito abalado com a gravidez da rainha. – Disse o elfo olhando fixadamente para frente. – Temo pela reação que terei ao vê-la...

– Entendo. – Aragorn sentiu um gosto amargo na boca, mesmo assim, engoliu em seco.

– Sei que é inevitável, que tens esse dever com o seu povo, mas...

– Mas o coração não aceita essas desculpas esfarrapadas.

– É. Você sabe bem como é isso, não é?

– Sim. Nem imagino como me sentiria se soubesse que você arranjou alguém.

Ambos se entreolharam, estavam sérios, suas fisionomias eram de pura dor, embora ligeiramente imparciais, espinhos gerados por aquele sentimento rodeavam os dois, mas algumas rosas brotavam em seus galhos, como sutis esperanças que poderiam curtir-se de alguma forma com a idéia inusitada do elfo.

– Pedirei que lhe entreguem o horário amanhã, no seu reino.

– Certo. – Legolas sorriu, deixando um olhar amoroso se mostrar.

– Claro que não participarei de todas as rondas, mas da maioria ao menos.

– Sim. – O sorriso do elfo se alargou mais. – Cuide da Arwen, de certa forma... ela...

– Perguntarei da carta.

– ...

– Afinal, o que escreveu nela? É melhor perguntar porque ela... eu não sei se ela a jogou fora... então...

Legolas voltou a olhar para frente, deixou uma risadinha sair de sua boca.

– Era um teste, sou arisco por natureza, então, testei para verificar se ela estava tão a nosso favor assim.

– Eu já sabia disso sem nem precisar testar... só o chamei porque ela insistiu... achei, que a principio, se tratasse de um fetiche dela, mas... no fundo, ela queria verificar se realmente havia algo entre nós... – Deu uma sutil pausa — ...percebi isso pois ela não estava excitada.

– Como?

Aragorn sorriu para o elfo, mas logo se contentou a encarar a paisagem dali.

– Com o tempo Legolas, com a experiência, você percebe quando uma mulher está excitada, quando está realmente entregue ao ato sexual.

O elfo engoliu em seco, sentindo-se encabulado.

– Elas não são tão óbvias e sinceras quanto a isso, como nós... elas disfarçam muito bem... e eu notei com toda claridade, que ela estava odiando aquele momento.

– ... – Legolas deu de ombros- Que seja. Eu vou voltar para o meu reino, aguardarei contato.

– Certo. Boa viagem.

E ambos ficaram frente a frente, encarando-se, até que o elfo decidiu-se por caminhar e acenar. Aragorn apenas ficou encarando suas costas, enquanto o outro se afastava.

– Eu te amo.

Falou baixo o rei para logo seguir para o seu castelo.