Legolas e Aragorn / Elrond e Gandalf - PARTE II

21 O fim da picada. – Aragorn, Legolas, Gandalf, Elrond, Tauriel, Arwen.


Não se sabe explicar como aquele mago conseguira chegar até a cidade, seus olhos há tempos não viam. Seus ouvidos? Eram um enfeite em sua cabeça. Seus sentidos? Haviam ficado a alguns quilômetros atrás, então, o que ele era? Uma linda imagem sobrenatural? Um defunto que se esquecera de deitar? Uma brisa enevoada da escura noite ou do supremo entardecer? Não se sabe, não sei, nem ninguém sabia em toda terra-media, mas o que se poderia deduzir é que, os maias, tinham uma fonte inesgotável de vida, só que muitas vezes, ironicamente, esta fonte também secava como era o que acontecia naquele instante.

Um vazio se dissipou em todas as partes e o mago, antes de pé, se desfizera como um conjunto de luzes, era fora sua sensação, após, para muito tempo após, despertar sobre uma cama, a qual conhecia muito bem, era a cama de seu elfo, Elrond. No entanto, aquele homem não estava sozinho, mas acompanhado de um soldado daquela cidade, que logo lhe veio de encontro ao perceber seu despertar.

– Vejo que acordou.

Gandalf piscara os olhos algumas vezes, parecia forçar a vista para enxergá-lo melhor, finalmente sua visão voltara, seus ouvidos despertaram e seu corpo parecia vivo e cheio de energia.

– Bom dia.

Resmungou o velho sentando-se ali, virando-se o suficiente para depositar os pés no chão, ao lado da cama.

– Dormi muito?

Respirou profundamente olhando para os lados, pôde ver o sol aberto, de um azul celeste perfeito, sem manchas, foi então que o mago estranhou, nunca vira um céu tão perfeito e limpo como aquele fazia dias, semanas, meses.

– Cinco dias.

Só agora Gandalf viu que aquele era o mesmo elfo do renascimento dele e do Frodo Bolseiro, então sorriu, falando baixo.

– Oi, meu amigo, quanto tempo.

O elfo sorriu-lhe consentindo positivamente com a cabeça.

– Sim, creio que para humanos, tenha sido muito tempo, mas na verdade, foram seis meses.

Gandalf soltou um longo suspiro, aquele elfo, sinceramente! Pensou agitando-se e se aproximando da varanda daquele quarto, ele ficou olhando para os lados, observando a natureza em seu auge, era primavera, pensara finalmente que toda aquela terra parecia restabelecida, restaurada, livre de ameaças. Os pássaros voavam animados pelo céu, passando alguns mais baixinho, diante de onde se encontrava, cantarolando, emitindo seus sons peculiares. Uma brisa deleitou o ancião, fazendo-o respirar tranquilamente, sentir seu próprio corpo agradecer de estar vivo, saudável e neste momento, sentiu uma vontade enorme de rever seu elfo, virou-se para o jovem ali, este talvez não tão jovem assim e comentou baixo.

– Você disse que passaram quantos dias mesmo?

– Cinco.

Gandalf arregalou os olhos, dando dois passos infelizes e incertos para frente, engolira em seco.

– O quê?!

O elfo levantou-se carregando calmamente a tigela com ervas medicinais que passara todo o tempo na testa do velho, além de claro, pingar-lhe algumas nos lábios para que engolisse ponderadamente e regularmente sem acordá-lo.

– Isso mesmo que ouviu. – Retrucou o elfo numa calma inabalável, continuou com uma voz mais baixa, consideravelmente imparcial. – Avisarei ao meu senhor que acordaste. Com licença.

– Mas!

Gandalf voltou-se para a varanda, apoiando ambas as mãos no peitoril dela, debruçando-se parcialmente ali, olhando ara toda aquela paisagem com suas orbes arregaladas, temeroso, o que havia ocorrido com a guerra? Pensava afobado, sem mais se conter, começou a andar pelo quarto, para um lado, para o outro.

– E a guerra? Minha, nossa, porque raios o clima está tão agradável? E aquela fumaça? As sombras se dissiparam por si só?

Voltou à varanda olhando o céu, procurando qualquer mácula nele, mas o mesmo era perfeito, num azul escarlate, quase incandescente.

– Mas que merda!

E finalmente saiu do quarto, olhou afobado para os lados, procurando alguém, mas não havia mais ninguém ali, apenas um silêncio mórbido e decadente, até que seguiu pelo corredor parando diante de um quarto e se animou ao ver Arwen, sentada numa cadeira, aproximou-se dela afobado, inclinando-se diante dela, cumprimentando-a e só agora percebeu que Aragorn estava deitado numa cama, ao seu lado e parecia dormir pesadamente. O mago arregalou os olhos se levantando, parando ao lado da cama, dava-se a impressão que sua respiração parara, em sua testa já brotavam algumas gotas.

– Gandalf.

Ele olhou ara a rainha, ainda com os olhos arregalados.

– Sente-se, imagino que esteja demasiadamente confuso.

A meiguice da rainha era notória e sua calma contrastava com o momento, já que o seu marido parecia adormecido sobre uma cama, embora não parecesse morto, o mago se certificara disso observando-lhe a respiração e a tonalidade da face, sim, Aragorn estava vivo.

Então, o mago sentou-se depois de puxar uma cadeira para ali, ficando diante da dama e só agora ele pôde ver que Tauriel os observava, de pé, encostada numa das paredes do quarto e sorria-lhe meigamente.

Gandalf levou uma das mãos à própria boca, apertando-a ali, ligeiramente atordoado, olhando ansioso para aquele homem deitado, para a elfa e finalmente voltando a encarar Arwen, retrucou baixo:

– Estamos em Valfenda, certo? – O mago olhava aterrorizado para os lados, engoliu em seco e voltou-se para a meia-elfa, continuando. – Não estamos nas terras imortais, não é? Não nos atacaram e nos mataram, não é?

Arwen sorriu meigamente deixando a cabeça tombar para um dos lados, ela levou uma das mãos a própria barriga, como se ela mesma tentasse confirmar a realidade do momento e ficou afagando aquela criança, em seu útero. Tauriel se postou ao seu lado, tocando um de seus joelhos, olhando com um sorriso ameno para a rainha de Gondor.

Gandalf acabou por sorrir, embora seus pensamentos ainda estivessem confusos.

– Quer que o explique, minha rainha? – Comentou Tauriel, logo tendo a face afagada pela meia-elfa.

Ela sorriu-lhe, consentindo com a cabeça, mas logo o clima amoroso que se formara ali, fora interrompido pela entrada do Senhor de Valfenda, Elrond mantinha um sorriso na face, deu uma longa olhada para sua filha, fato que causou o distanciamento da elfa ruiva que logo o cumprimentou e voltou a se afastar dali, no entanto quando esta fora fazer isso, teve uma de suas mãos tocadas por Arwen, que parecia pedir que continuasse próxima, então Tauriel acolheu o pedido, colocando-se de pé ao lado dela, permitindo-se tocar um de seus ombros.

Gandalf olhava desconfiado para aquelas duas, mantendo as sobrancelhas franzidas, até que finalmente se percebeu observado pelo seu senhor, que estava ali, diante de si, emitindo-lhe um sorriso meigo e acolhedor, mas logo o mago não deixou de notar que um de seus braços estava enfaixado, claro que coberto quase totalmente pela manga comprida da túnica que vestia, mas sua mão encontrava-se enrolada num considerável curativo , que a rodeava, parecendo proteger algum ferimento e este braço encontrava-se parcialmente dobrado, a mão tocava-lhe a altura do estômago.

– Vejo que acordou, meu amigo.

– Senhor Elrond.

E o mago se levantou abraçando-o, mas o elfo se distanciara um pouco, não permitindo que se aproximassem tanto evitando que o contato fosse mais intenso. O mago, ao perceber o recuar do corpo do outro, consentiu com a cabeça e logo voltou a sentar-se.

– Gostaria que alguém me explicasse como me permitiram dormir cinco dias!

– Não tinhas condição de ir para a guerra, Gandalf. – Tauriel buscou-lhe uma cadeira, mas este se recusou e permaneceu ali ao lado de sua filha e do mago.

– O que está me dizendo?! – A voz do mago saíra alta, fato que o fez apertar a mão ali, em sua boca, para não acordar Aragorn que dormia pesadamente.

Elrond sorriu, olhando também para Aragorn.

– Fizemos isso para evitar a morte de vocês dois.

Arwen segurou a mão de seu pai, apertando-a forte, ela o olhou por um tempo e finalmente voltou a encarar o mago, diante de si.

– A guerra já aconteceu. – Comentou baixo a rainha.

O mago arregalara os olhos, permitindo que seu corpo inclinasse para frente, suas mãos apertavam sua vestimenta sobre os joelhos.

– É isso mesmo que acabou de escutar, Gandalf. Nós, os elfos, tivemos uma visão quase que em conjunto... a terra-media nos avisou... acredito que tenha sido as pequenas e pálidas forças do bem que ainda restavam.

O Senhor de Valfenda deu uma pausa olhando na direção de seu próprio braço, franzindo os celhos, sentindo uma dor enorme, mas engoliu em seco e tentou se concentrar no que dizia. Arwen percebera e se levantou tocando-lhe a lateral do braço, falou baixinho.

– Pai, não deveria se esforçar tanto.

– Ficarei bem, minha filha. – E ele tocou-lhe a face, sorrindo amoroso.

– Precisas descansar, pai. – Disse Arwen em tom de súplica, nitidamente preocupada.

Gandalf observava tudo aquilo com tamanha atenção e logo perguntou com uma voz temerosa:

– Há algo que deveria saber?

Elrond fechou os olhos soltando uma considerável bufada, sim, a dor aumentara. Arwen comentou baixo com Tauriel, pedindo que ela explicasse ao mago o que aconteceu e ela e seu pai saíram dali. Gandalf os acompanhou atentamente com uma fisionomia preocupada, agonizante. Tauriel ao perceber a preocupação do mago, sentou-se onde Arwen estava antes e tocou-lhe um dos joelhos, puxando a atenção para si.

Ele a olhou temeroso, retrucando baixo:

– O que aconteceu? Lorde Elrond esta ferido?

– Posso começar do inicio? Contar tudo que aconteceu?

– Ora, Por favor!

Comentou o mago olhando-a nervoso, nitidamente agitado e afobado, ele acabou por se levantar e olhar pela varanda, tomar um ar profundamente, sentia seu coração despedaçado, a guerra já tinha acontecido?

A elfa acompanhou-o com o olhar e começou a contar calmamente a historia:

– Todos estavam se preparando para a guerra, você havia chegado e acabou por desmaiar diante de Radagast, o marrom e do Senhor Elrond, fato que os fizeram usar de ervas medicinais, visando que descansasse e recuperasse as forças para a batalha.

Ela deu uma pausa, encostando-se também num dos portais que dava para a varanda, ficando próxima a Gandalf, também olhando a paisagem.

– Foi então que Galandriel nos visitou, ela mencionara que tivera um sonho, que você e Aragorn morreriam nesta guerra. Então, Senhor Elrond resolvera reunir todos os elfos que conhecia e puderam verificar que não somente ela, mas a maioria deles havia previsto que vocês dois morreriam, isso incluía a visão do próprio Elrond.

Gandalf engolira em seco, as visões estavam certas, ele próprio sabia que se fosse para a guerra, ele não voltaria, sua alma o dissera inúmeras vezes, sua memória, seu corpo, e por incrível que pareça, ele agora se sentia bem, jovem, suas magias haviam voltado para sua própria cabeça, sim, lembrava-se de todas elas, inclusive a que chamava seu corcel branco, no qual tanto gostou de cavalgar.

– Decidiram então que não os levariam para a guerra, afinal de contas, Gondor havia acabado de ter um rei, imagina se a cidade o perdesse novamente, não é mesmo? – Ela permitiu dar soltar uma risadinha seca. – E quanto a você, Gandalf, seria o mesmo que cometer suicídio.

– Então todos foram para a guerra, menos eu e Aragorn. – O mago engoliu em seco, respirou profundamente e soltou o ar devagar. – O rei sabe disso?

– Não, Arwen achou melhor tomar essa decisão em prol de Gondor. – A elfa se aproximara do peitoril dali, tocando as mãos em sua borda. – Ela tomou essa decisão...

– De maneira egoísta, pensando no filho que terá!

– Gandalf, não seja rude! – A elfa voltou-se para ele, gesticulando afobada.

– Rude? Como que acontece uma guerra, se nem eu e o rei vamos?! Hã? Como acha que o povo encarará Aragorn agora, hã? E as demais mortes e as perdas no exército? – O mago se desencostou dali, aproximando-se da elfa, a encarando frente a frente, mantendo as mãos na própria cintura. – Me diga! Como um povo vai confiar num rei que se omite numa guerra?! – O mago tinha os olhos arregalados, o que causou o afastamento da elfa, dando uns passos para trás. – Francamente! Estou começando a pensar que os elfos são um tanto intrometidos, imagino como Aragorn reagirá se souber o que fizeram!

– Acabei de saber. – Retrucou o rei, olhando demoradamente para o mago.

Tauriel arregalou os olhos, sentia-se encabulada, contra a parede, por isso se aproximou mais da beirada, fato que fez Aragorn comentar baixo.

– Cuidado para não cair.

– Meu rei... – Disse o Cinzento.

E ambos se cumprimentaram, Aragorn mantinha ambas as mãos nos ombros do mago, sorrindo-lhe animado.

– Sempre nos encontramos em momentos como esse, não é mesmo, meu amigo? Estava com saudades.

– Como está? – Gandalf deu uma olhada cínica para a elfa, para logo voltar a encarar Aragorn. — Vivo?

– Sim, hahaha...

O rei andou até a beirada da varanda, segurava a própria cintura, olhava para os lados, sentia-se nostálgico pois já vivera muito anos naquela cidade, parecia lembrar-se de quando ainda era apenas um garoto.

– Que desafio, meu rei. Já pensou na desculpa que dará para o vosso reino?

– Não, mas acredito que Legolas ou Arwen me ajudarão.

Tauriel olhou-o raivosa ao ouvir o nome do príncipe Greenleaf, ela então se colocou a olhar o rei de cima abaixo, suas orbes esverdeadas pareciam brincar pelo corpo do moreno, dilacerando cada pedaço dele, tentando entender o que Legolas viu de tão especial naquele homem.

– Eu nem cheguei a sair da cidade na qual estava, quando finalmente acordei aqui... ouvindo-a contar sobre a guerra.

– Pois é, meu caro, que notícia, não?

E ambos estavam ali, na varanda, olhando a paisagem.

– Gandalf, eu até entendo, sabe... eu mesmo senti que morreria.

– Como assim?

– Eu aceitei o convite de Legolas, pois sabia que meu fim estava próximo... – O moreno olhou para o mago pelo canto dos olhos, para logo voltar a olhar adiante. – Eu sabia que ia morrer.

O mago consentiu com a cabeça e comentou baixo:

– Eu também.

Aragorn sorriu-lhe e virou a face na direção da elfa e acabou por virar seu corpo, depositando parte de sua bunda ali, no parapeito da varanda, cruzando os braços e os pés, Gandalf acompanhou com o olhar essa atitude dele, mas logo se voltou para a ruiva também.

– Gostaria de saber dos resultados dessa guerra. Quantas baixas tivemos?

A elfa engoliu em seco, olhando desconfiada para Aragorn, sentia uma inveja enorme em seu peito, imaginava que ela seria pior escolha do que um homem humano como aquele? “Fala serio!”, pensou. Ela então concluiu que Legolas gostava de brincar de ser mocinha, assim como seu pai, agora ela, depois de comparar os dois, pensou que ambos pareciam bem efeminados, delicados demais.

– Consequência da linhagem pura, deve ser...

Aragorn franziu os celhos, logo comentou:

– Como?

– Ah! Nada! Nada!

Gandalf percebera a agonia da elfa, sorriu pelo canto dos lábios, imaginando sua ira, sabia que ela gostada do Legolas, o mago percebia ao longe a intenção no coração das pessoas, por isso, nunca confiara completamente em Saruman, só de lembrar seu nome, um arrepio terrível lhe correu pela espinha e ele logo resolveu se concentrar naquele momento, esquecendo do Branco.

– Eu perguntei: Quantas baixas tivemos?

– Morreram em torno de mil e quinhentos... elfos, humanos, hobbits...

– COMO?!

Aragorn se aproximara da elfa, ficando a um passo dela, Gandalf tocou-lhe um dos ombros.

– Calma, meu rei... me diga, Tauriel é o seu nome, certo? – Falou o mago.

– Sim.

Aragorn olhou surpreso para Gandalf e finalmente a reconhecera, “Tauriel”, o mesmo nome que Legolas o havia dito antes, quando Thranduil os torturava com sua arrogante presença.

– Bem... – A elfa encarava o chão, receosa. – O resultado foi...

Aragorn a olhava mais atentamente, percebera que ela era até bem bonita, fato que o fez sorrir brevemente e tocar-lhe a face, gentilmente.

– Por favor, queremos saber todos os detalhes.

E o moreno parecia admirá-la, perceber que aquela fêmea fora a primeira paixão de seu amado, foi então que sorriu mais escancaradamente, ainda afagando uma das bochechas dela com a ponta dos dedos.

– És muito linda, sabia?

Gandalf franziu os celhos, e tentava entender a intenções do rei, deu-lhe um tapinha na nuca, este logo afastou a mão dali, sorrindo sem jeito para Gandalf.

– Bem... – A elfa agora estava corada. – Bem... – Ela respirou profundamente, sentindo o coração aos pulos, chegou até mesmo a enfrentar os olhos do rei, mas ao sentir-se novamente encabulada, baixou as orbes na direção do chão.

– Por que não pergunta a um amigo?

Legolas seguiu até eles, sorria animado e logo apertou um dos ombros do rei, sorrindo-lhe meigamente, Aragorn sorriu tímido e Gandalf tocou um dos ombros do elfo.

– Que bom que não estava nas 1.500 mortes... – Retrucou o mago rabugento. – Essa narradora está bem comprometida, nos diga as baixas Legolas.

– Perfeitamente, mas antes, não sentem fome? Dormiram durante cinco dias.

Aragorn voltou-se para a beirada da varanda, seguindo até ela, tocando as mãos ali, retrucou rouco:

– Gostaria de saber que homens perdi, que rumo teve todos.

– Acho que todos tiveram um final feliz, meu rei.

– Como assim? – Perguntou o mago ainda próximo de Legolas.

– Bem, Éomer resgatou o reino de Rohan, embora seu pai não tenha resistido à guerra, ele foi novamente aceito e renomeado rei.

– MESMO?!

Aragorn se voltou para o elfo, encarando-o com os olhos arregalados, mas gesticulou para que continuasse.

– Sim. Faramir está cuidando de Gondor, ele que liderou o exército e aguarda ansioso vosso retorno.

Aragorn sorriu gentilmente, olhando para o chão, parecia lembrar-se da face de seu subordinado.

– Faramir é incrível! – Retrucou escancarando mais o sorriso.

– E por incrível que pareça, meu pai participou da guerra, isso quando ele viu Éomer correr perigo. – Legolas sorriu sacana permitindo que uma de suas sobrancelhas levantasse.

Tauriel apenas os observava quieta, encostada numa das paredes, mais ao fundo, ligeiramente recuada, ela pensara em como as fêmeas estavam cercadas de homens que a princípio nem ligavam para elas, pareciam existir em seu próprio mundo, como se as mulheres fossem descartáveis, omissas, inferiores e foi durante esses pensamentos que percebeu que Aragorn a olhava, mantendo uma face amável, um sorriso singelo na boca, que a fez corar e voltar a encarar o chão.

– E então, mais alguma novidade? – Retrucou o rei, voltando a encarar o loiro.

– Frodo, Sam, todos os hobbits estão bem. Gimli voltara para a cidade dos anões, acudiu Thorin já que ele se machucou na guerra, mas nada que o matará.

– Entendo... e quanto a Lindir?

– Ele assumirá a liderança de Valfenda enquanto Senhor Elrond se recupera.

Gandalf arregalou os olhos, se aproximando mais de Legolas dizendo bem lentamente:

– Como assim? Se recupera?

– Sim. O exército do Lorde Elrond fora o primeiro a atacar, os orcs eram de uma raça superior, eu mesmo tive que enfrentar uns cinquenta sozinho, claro, ao menos dois de cada vez...

– Eram muitos?

– Sim, perdia as contas de quantos... mas parei no número cinco mil e quinhentos.

– Minha nossa! – Aragorn permitira que sua voz se ressaltasse, se desencostou dali, engolindo em seco, não parecendo acreditar no que havia acabado de ouvir.

– E por dois dias seguidos choveu lama, devido a queimarmos essa quantidade enorme de orcs... a fumaça formou nuvens carregadas de chuva que duraram dois dias seguidos. – Disse o elfo.

– Isso é plausível, considerando a quantidade de orcs... – Comentou o mago.

– Sim. – Consentiu o elfo.

– Bem... o que exatamente aconteceu ao Senhor Elrond, Legolas? – Perguntou o moreno.

Tauriel não deixou de notar que ambos disfarçavam muito bem seus sentimentos, que se ela não os conhecesse a fundo, nunca desconfiaria da relação homossexual dos dois, ela lembrou-se de Arwen reclamar a ausência do marido, ela pensou que provavelmente aqueles dois estivessem juntos, já que ela mesma dera falta de Legolas, sendo deixada para morrer por Thranduil, ela pensou se Legolas soubesse do que seu pai lhe fez, a deixando lá a céu aberto, num calor de rachar, para ser devorada por corvos. E novamente quando ela olhou para Aragorn, este a encarou, então novamente voltou a encarar o chão, para logo olhar Legolas, de perfil.

– Ele foi mordido por um orc, quinze homens morreram antes do orc atacá-lo.

– Ele foi mordido? – Reafirmou o mago, num tom preocupado.

– Sim, eram orcs mutantes, bem... parece que a saliva que permaneceu em seu braço, está esfarelando seus ossos e além disso, o monstro conseguiu devorar grande parte da musculatura do membro, ou seja, o braço dele provavelmente ficará inutilizado o resto da vida.

Gandalf andou até a beirada da varanda, olhava lá embaixo.

– Deverei apelar para magia negra... sei que ele me odiará por isso, mas... se a saliva do orc está esfarelando seus ossos, imagino que esteja corrompendo seu sangue. – Virou-se para Aragorn o encarando por algum tempo, para logo virar a face e encarar Legolas.

– Sim, ele sente muita febre e indisposição, nem consegue ficar muito tempo de pé.

– Por isso que Tauriel lhe ofertou uma cadeira. – Comentou baixo o mago.

Legolas andou ate Gandalf, ficando a um passo dele.

– A sua situação é severa, precisas convencê-lo a se tratar, és o único que consegue mudar sua opinião, Gandalf.

– Verei o que conseguirei fazer.

Aragorn ficara atrás de Legolas, já que este estava virado para o mago, Tauriel então voltou a encará-lo e o moreno virou a face a encarando também, soltou um sorriso gentil e esta encabulou-se novamente.

– Bem, avisarei que sentem fome, pedirei que sirvam a mesa.

– Obrigado, Legolas. – Agradeceu o rei.

– Com licença.

Gandalf acompanhou o loiro, deixando apenas a elfa ruiva e o moreno ali. Ela se aproximou do espadachim, este continuou com os braços cruzados, olhando para frente, com seu corpo apoiado no peitoril da varanda.

– Há algo que queira me dizer? – O moreno virou parcialmente a face na direção da elfa, encarando seu perfil. – Ou perguntar?

– Sim.

– Hum... – Aragorn respirou profundamente, logo soltando o ar devagar. – Estou ouvindo.

– Tento imaginar no motivo que o faz preferir... – Ela recuou com as palavras, receosa.

– Preferir...

Tauriel engoliu em seco, fazendo uma fisionomia angustiada.

– Lady Arwen é tão bela...

Ele sorriu, virando a face na direção da elfa, para logo se desencostar dali, se aproximando de Tauriel, a elfa nem se movera ficando a encarar um ponto fixo mais adiante, Aragorn comentou baixo, aproximando os lábios de sua cabeça, de seu ouvido.

– Sim, ela é.

Tauriel virou a face na direção do cavaleiro, este continuou encarando-a fixadamente, as faces estavam próximas, as orbes claras de ambos se enfrentavam.

– Penso no que tinha na cabeça ao traí-la com Legolas. – Soltou a elfa num solavanco.

Aragorn respirou profundamente, pois sentiu o ar mais rarefeito, tamanho tinha sido o golpe, no entanto ele continuava encarando-a e esta também não retrocedera.

– Como pretende entender algo que nunca sentiu?

Tauriel arregalou os olhos, voltando a olhar para frente, engoliu em seco.

– Acha mesmo que podes fazer um julgamento justo quando nem se tem ideia do que se está criticando? – Ele aproximou mais os lábios, comentando mais baixo. — Achas mesmo que consegue fazer isso? Quando não se tem ideia do que se sente aqui... – Ele tocou a lateral do braço dela com a ponta do dedo indicador. – Na própria carne?

Ela sentiu o coração apertar, comentou baixinho, com uma voz falhada:

– Realmente não entendo o que dois homens... – Ela baixou a face, mantendo uma fisionomia dolorida. – O que... faz com que prefiram... isso.

– E nunca vai entender. — Aragorn voltou a olhar a paisagem, virando parcialmente a face, deixando um sorriso amável estampar-se em seus lábios. – Pois não és um homem. – Voltou a olhá-la.

Tauriel engoliu em seco, esfregando uma das mãos nos olhos, sentindo-os doloridos e úmidos. Aragorn tocou-lhe um dos ombros, tentava transmitir um carinho, um apoio.

– Busque pessoas que a amem como é... não corra atrás de coisas que não foram nem nunca serão suas.

– É fácil dizer. – Ela sorriu-lhe, cujo ato fora correspondido. – Acho que agora sei...

Aragorn encarava-a atentamente, mantendo uma face concentrada nas expressões da elfa.

– És um belo cavaleiro, meu rei.

Ele sorriu.

– Porém, mais belo ainda é o seu coração... – A elfa voltou a olhar para frente. – Acho que foi justa a troca de mim, por você.

– Haha... Tauriel, não precisa me agradar... – Ele voltou a tocar-lhe um dos ombros. – Eu gostaria de ajudá-la, mas... não posso. Somente você mesma pode. Tente enxergar melhor ao seu redor e isto lhe evitará futuros sofrimentos.

– Tem razão. Legolas é causa perdida.

– Para você. – O moreno soltou um longo suspiro. – Acredite, se pudesse... eu gostaria de... – Ele virou-se na direção da beirada, tocando ambas as mãos ali, olhando para cima, para o céu. – Simplesmente ter ficado com a Arwen... sem essa confusão toda.

– Mesmo?

Aragorn permitiu-se soltar uma longa bufada.

– Sim. – Ele virou a face parcialmente para ela, havia seriedade em sua voz. – Você não sabe o quanto é complexa minha situação. Amar a dois seres ao mesmo tempo... – Ele baixou a face, cerrou os olhos. – É bem complicado.

Tauriel tocou-lhe um dos ombros, sorrindo-lhe gentil.

– Se precisar desabafar, pode pedir minha companhia, Lady Arwen me aceitou como sua amiga e serva.

– Como? – Ele a olhou ligeiramente atordoado.

– Isso mesmo que eu disse.

Ela mantinha um sorriso singelo na boca, o qual misturava um considerável gosto de vitória e vingança.

– Acho que em breve, entenderei como se sente, meu rei.

Aragorn franziu os celhos vendo a elfa sair dali, ela passou pela porta da varanda adentrando no quarto, no entanto ao dar um passo para dentro do cômodo, parou e olhou Legolas observando-a com uma face nem um pouco agradável, ele se aproximou dela segurando-lhe fortemente um dos braços, ela o puxou, embora não conseguisse se soltar.

– Agora entendo porque meu pai nunca confiou em você.

– Ah é?! Agora a culpa é minha?

– Que golpe baixo, Tauriel!

Aragorn ouviu aquelas vozes, sim, acabou reconhecendo-as, fato que o fez se aproximar.

– Legolas? O que está havendo?

Ele olhou a mão do elfo segurando forte o braço da jovem, logo o moreno interveio soltando-a.

– Nada, meu rei. – Respondeu o elfo irritado.

– Como nada?

Tauriel observava os dois com uma face de deleite, para ela, aquele era o tipo apropriado de interação masculina: Brigas... mas se surpreendeu que Arwen estivesse detrás de si, tocando-lhe um dos ombros, olhando-a preocupada.

– Estás bem?

Tauriel engoliu em seco, abraçando a rainha. Legolas nem parecia acreditar naquela elfa, olhou raivoso para Aragorn e saiu dali apressado xingando algo em élfico.

– Como ela está?

Arwen a mantinha sobre o próprio peito, afagava-lhe a nuca.

– Acho que ela ficará bem.

Aragorn respirou aliviado.

– Entendo.

Tauriel se afastou um pouco, encarando a rainha e depois o rei, retrucou baixo:

– Ele inferniza a vida de vocês? Assim, como fez agorinha comigo?

Aragorn engoliu em seco, tocando um dos ombros de Arwen, esta se permitiu acolher-se no peito de seu rei, depositando fragilmente a face ali. Tauriel os olhavam atenciosa, afagando delicadamente a face da rainha.

– Acho que serás uma boa amiga para minha esposa.

Tauriel sorriu meiga.

– Sim, deixe comigo, meu rei. – E se ajoelhou, postando-se diante dos dois, mostrando sinal de devoção e lealdade.

Gandalf apareceu ali.

– Então, vamos comer? Acredito que só assim consiga ver o Senhor Elrond, ele se trancou no quarto quando disse que queria ver sua ferida.

Arwen se desencostou de Aragorn, voltando-se para o mago, mantendo as mãos próximas do coração, respondendo-o gentilmente.

– Meu pai não deseja preocupá-lo.

Tauriel se levantou e pensou consigo se aqueles dois seriam outros “gays”, ela olhou amorosamente para a rainha e se viu nela, uma mulher discretamente enganada pelos homens, no caso dela, pelo marido e pai. Foi então que decidira que se dedicaria àquela amizade, talvez as duas conseguissem o que Aragorn dissera antes, ter algo que poderia lhes pertencer verdadeiramente, uma relação sincera e acolhedora.