Legolas e Aragorn / Elrond e Gandalf - PARTE II
12 O caminhar moribundo – Gandalf.
O mago seguia caminhada em direção à floresta, no entanto, sua caminhada era lenta, cansada. Ele até pensou no porquê de não ter pego um cavalo para cumprir o percurso até a morada de seu amigo mago, um feiticeiro que morava no meio da floresta, assim como ele mesmo, embora a casa de Gandalf tivesse sido “herdada” pelo seu mestre sem restar-lhe a escolha de onde ela seria.
– Que droga, por que raios não peguei um cavalo?
Resmungou segurando o cajado com ambas as mãos, apoiando-se nele. Soltou um longo suspiro, sentia as pernas cansadas, a respiração descompassada, mas resolveu voltar a caminhar. O mago pensava em como Elrond reagiria se soubesse que ele nem se atreveu a voltar para casa e resgatar sua força original, pensava que se o meio-elfo tivesse a oportunidade, verificaria se o mago havia voltado para casa ou para Valfenda.
– Com certeza ele passará nos dois lugares me procurando...
Resmungou o mago olhando para cima e sentando-se num pequeno rochedo, respirou profundamente e soltou o ar lentamente, ficando a observar a linda paisagem diante de si, por estar a uma altura, já que havia começado a escalar uma serra. Dado um momento, ele olhou para cima, vendo que teria que subir mais, resmungou algo consigo e voltou a admirar aquela paisagem. Seus olhos encararam o céu, nuvens negras pareciam brotar detrás das brancas.
– Era o que me faltava...
Ele respirou profundamente e quando ia se levantar, sentiu um respingo cair em sua mão, aproximou a mão do rosto e viu que se tratava de uma gota da chuva. Olhou para os lados, procurando um lugar para se recolher e logo viu uma fenda numa rocha, num percurso mais acima da serra.
– Bem, vamos lá.
Ele seguia para a casa desse mago, pois ele tinha total conhecimento do que acontecia na terra-media, de cada trecho dela, de cada novidade ou transformação, e Gandalf, experiente como era, renomado Guardião da terra-media, sentia que algo estava acontecendo e não deixaria isso parado ou ignorado por muito tempo.
Dito e feito, assim que verificou que estavam todos bem, mesmo sabendo da relação fervorosa e latejante de Legolas e Aragorn, logo depois que percebeu que os dois haviam dado um suplício de paz ao duelo de interesses deles com os tradicionalismos, sentiu-se mais seguro para finalmente dar um passo de vigília na direção daquela ameaça, que todos nem pareciam notar.
Ele entrou na fenda e logo um aguaceiro sem tamanho desmantelou-se do céu, trovoadas e relâmpagos se fizeram presentes.
– É muita sorte ou azar, mas é impressionante como a natureza é sempre meu maior obstáculo.
Retrucou com uma voz ranzinza, adentrando pela fenda, sentado- se ali, próximo da entrada, observando cada pingo enorme e grosso que caía do céu aos montes, pensava se Aragorn já havia voltado, se Elrond o procurava por aí.
– Ele vai me perdoar, mas... cof! cof!
Gandalf levou uma das mãos ao peito, sentindo uma fisgada acompanhada de uma ligeira falta de ar.
– Estou realmente estranho...
Voltou a segurar no cajado com ambas as mãos, voltando suas orbes azuis para o temporal que caía.
– É... estou estranho demais...
Olhou para dentro dali, vendo um breu enorme dentro da caverna, esforçou-se bastante para levantar-se e acendeu uma luz com o cajado, embora esta piscasse algumas vezes como se fosse apagar.
– Realmente...estou estranho...
Juntou alguns galhos ali, gravetos, alguns pedaços de tecido sujo e rasgado, logo deduzindo que aquela caverna já havia funcionado como abrigo para outros seres antes. Juntado tudo no centro dali, ele ateou fogo àqueles itens, vendo que a luz do lado de fora cada vez mais diminuía e já começava a anoitecer. Ele acendeu a fogueira visando espantar animais que poderiam aparecer e até para se aquecer também, já que o clima costumava mudar sua temperatura drasticamente.
– O ar está úmido.
Disse sentando-se próximo à fogueira, vendo que as chamas brigavam para manterem-se acesas, discretos ventos adentravam ali, pela fenda na rocha, Gandalf sentou-se encostado a uma das paredes, mais ao fundo da caverna, mais protegido do frio que invadia pela abertura do local.
– Tsc... se esse temporal esperasse até amanhã ao menos... chegaria ainda hoje.
Resmungou numa rabugice só, respirou profundamente e soltou um longo suspiro.
– Mas eu vou conseguir ou não me chamo Gandalf!
De repente, ele escutou um estalo ali dentro, próximo a si e só agora se deu conta que havia uma discreta falha numa das paredes, os estalos viam dali, de dentro da mesma.
Elrond pretendia naquele mesmo instante montar a cavalaria e verificar os boatos de que havia alguma coisa sinistra se formando aos arredores de Rohan, impaciência aumentada depois de verificar que não sabia do paradeiro exato do mago, pois temia pela sua saúde.
O Senhor de Valfenda encontrava-se já no almoxarifado da cavalaria de sua cidade e parecia preparar sua vestimenta quando ouviu as trovoadas, aproximou-se da porta de entrada e percebeu que a chuva era bem intensa, anormal, nunca havia ocorrido de cair aquela quantidade de água. Ele até se assustou ao ver que as trovoadas tinham uma tonalidade diferente, ligeiramente alaranjada, aquilo com certeza não era tido como normal, de repente, ao olhar o chão, viu que a água da chuva parecia mais escurecida, ele franziu os celhos achando realmente muito estranho, era como se chovesse lama do céu, das nuvens.
– Mas o quê...?
E novos trovões, inclusive um dos raios atingira um ponto alto de Valfenda criando um barulhento estouro. Ele olhou para os lados e pôde ver que toda a cidade estava amedrontada, todos observavam aquele fenômeno de maneira assustada e horrorizada. Todos temiam que a terra-media estivesse próxima do seu fim e que aquela chuva um tanto bizarra fosse um sinal disso.
Gandalf levantou se aproximando do rochedo, acendeu uma luz usando o cajado e se surpreendeu quando viu uma aranha sair dali, a queimou prontamente e voltou a aproximar-se da brecha, iluminou novamente ali, mas não observou nenhuma ameaça mais, voltou-se ao seu lugar improvisado, um pedaço de papelão e sentou ali, encolhendo-se debaixo de sua roupa acinzentada, sentia frio, pensou se nevaria.
– Essa chuva torrencial, não é normal nesta época do ano.
Ele observou a chuva que adentrava ali, criando pequenas ondas no chão, mas ainda não invadindo muito, apenas alguns centímetros próximos da entrada. Ele pôde verificar que era escura, engoliu em seco, aquilo nunca fora e nunca será um bom presságio.
– A terra-media está adoecendo novamente... minha intuição nunca falha... – Soltou uma risadinha seca, irônica- Infelizmente.
Ele resolveu fechar os olhos e acabou por adormecer ali.
O dia logo amanheceu e Gandalf ainda dormia pesadamente ali, chegando a roncar baixinho, ele estava praticamente largado no chão, sua cabeça estava sobre o piso gelado e rochoso dali, seus fios prateados estavam espalhados pelo local, seu cajado estava no chão ao seu lado, a fogueira havia se apagado minutos depois de ter pego no sono.
– Hum...hum...
Roncava baixinho mexendo-se um pouco, deitando-se de lado, mexia os lábios como se fosse falar algo, lambeu-os e aquietou-se. Mais algumas horas passaram e ele finalmente começou a sentir o incômodo de raios de sol adentrando ali, piscou os olhos algumas vezes.
– Onde estou...?
Só agora, ao depositar uma das mãos no chão e levantar o tronco se sentando, lembrou-se de onde estava.
– Poxa, dormi tanto assim?
Sentia um calor escaldante ali dentro, seu corpo estava suado, sua roupa de malha grossa estava colada em sua pele.
– Nossa... que loucura, parece que estou num deserto...
Pensou aproximando-se da entrada dali, usando uma das mãos para proteger os olhos do sol forte que estava do lado de fora.
– Que loucura de tempo, é melhor me apressar...
Voltou a entrar na caverna, pegou o cajado e olhou onde havia dormido, sorriu rápido ao ver quer há tempos não havia tido um sono tão bom e profundo como aquele, mas logo se lembrou do fato de dormir todas as noites anteriores com o “seu” elfo, e isto consequentemente, significava dar-lhe atenção, seja conversando, seja dando-lhe “pequenos agrados”.
– Elrond dorme tão pouco e acorda com as galinhas, é terrível dormir com ele, às três da madrugada ele levanta...
E saiu dali começando a subir a serra sentindo sede e fome.
– Parece que no fundo eu precisava apenas de uma ótima noite de sono... me sinto restaurado... completamente...
E atravessou a serra descendo pela sua parte posterior, seguindo na direção de um pequeno bosque, o qual anunciava que a floresta que morava seu amigo estava próxima, há uns seis quarteirões.
– Que ótimo, vou pedir logo um copo de bebida... to morrendo de sede.
E foi neste instante, que ele teve que se esconder detrás de uma moita, ao ver orcs seguirem às pressas por ali.
– “Orcs? Mas... que estranho...”
Pensou o mago contando-os e vendo que passavam de cinquenta.
– “E olha que Elrond ficou apenas alguns dias sem fazer a ronda... preciso chegar ao meu amigo logo.”
Refletiu consigo e seguiu caminhada, adentrou o bosque, permitindo-se beber um pouco de água, para logo seguir na direção do lar de seu amigo. Assim que visualizou a casa berrou:
– Ôh de casa!
– Gandalf! Ora, o que me traz a amável natureza!
– Meu amigo.
E ambos se abraçaram.
– Gandalf, foi realmente bom que tivesse vindo, me acompanhe, preciso mostrar-lhe uma coisa.
– Claro, mas antes, poderia me dar algo para beber?
– Não veio de Gondor? Eles não lhe deram mantimentos de viagem?
– Eu saí às pressas, senão Senhor Elrond não me deixaria sair.
– Ah... o famoso Senhor de Valfenda. – Disse o mago aproximando-se de um copo e enchendo-o com uma espécie de chá. – Tome, é ótimo para restaurar a magia.
– Obrigado.
– Bem, eu soube, este elfo de Valfenda... ele sempre passa por aqui, costuma matar alguns orcs que vivem enchendo o meu saco.
– Eu sei, vi uns cinquenta seguindo para a direção de Gondor.
– E você não sabe da maior, meu amigo... toda a Rohan está dominada.
– Como?! – Gandalf arregalou os olhos, quase deixando o copo cair no chão, por isso colocou-o sobre um móvel.
– Eles nascem do solo, passei por Rohan estes dias, pois percebi que os esquilos vinham muito feridos de lá e a maioria deles não voltava... – Disse o outro mago coçando a cabeça de um bichano, parecia uma toupeira- E vi que o solo de Rohan está fofo, eles estão nascendo do solo, devem ter se infiltrado na terra.
– Mas como?! Isso é mais grave que pensei. – Disse Gandalf coçando a barba, olhando com os olhos arregalados para o seu amigo.
– Pois é, deves avisar ao Senhor de Valfenda a não fazer a ronda sozinho, pela área que verifiquei o estado fofo do solo, devem contabilizar milhares de orcs, Gandalf. Eles nascem dali, um dos esquilos me mordeu como que se avisasse para eu não andar por ali, eu o levava num dos ombros e enquanto eu estancava a ferida, um alce passou pelo solo afofado e dois orcs o puxaram para dentro do solo. Eu não os vi, mas reconheci pelos braços negros!
Gandalf sentiu as pernas fraquejarem e falharem, fato que o fez cair sentado numa cadeira ali perto.
– Mas que merda!
– Exato, o tal elfo deve juntar-se a outros reinos, os orcs estão de tocaia, aguardando um sinal para saírem dali e atacar. O tal braço que vi, ela maior que costuma ser, ou seja, devem ser uma nova raça de orcs, bem maiores, meu amigo... o alce sumiu em segundos!
Gandalf tapava a boca aberta com uma das mãos, seus olhos ainda mantinham-se arregalados, tomados de pavor.
– Como irei avisá-lo? E bem depressa?
Levantou-se o Cinzento, andando para um lado e para o outro, até que comentou:
– Você disse que devem contabilizar milhares...
– Sim, exato, meu caro, pela dimensão do solo afofado, percebi a distância exata porque a natureza não se encontra ali, o solo está como se fosse uma espécie de areia, a vegetação cerca o local, mas o grande meio dela está tomada por este solo arenoso.
– O tal solo que você disse de onde brotou os orcs.
– Sim, quando o alce tentou atravessar esse solo desértico, ele não chegou a nem dar o segundo salto. – Deu uma pausa e continuou- Eles devem estar famintos... loucos para atacar!
– Deixe-me pensar... as florestas das Trevas é aqui perto, certo?
– Sim, mas pretende avisar àquele elfo louco? Qual o nome dele mesmo?
– Thranduil.
– Isso. Pre...pretende avisá-lo? — Perguntou o mago mostrando um amedrontamento na voz.
– Pretendo avisar a Legolas, ele irá avisar a Aragorn e a Gimli, aí já teremos dois reinos como aliados e de quebra, eu iria para Valfenda, torcendo para que Elrond ainda esteja lá.
– Bem, conheço o percurso que aquele elfo realiza, posso ficar de tocaia para quando ele passar, eu avisá-lo... eu nunca me aproximei dele, mas... acho que ele não me atacaria se dissesse que sou seu amigo, certo? – Perguntou com uma voz medrosa o outro mago.
– Claro, claro... apenas grite: Senhor Elrond, sou amigo de Gandalf, que ele não irá atacá-lo.
Gandalf virou se costas, ia dar uma risada, mas conteve-se ao pensar:
–“Tomara que não acertem uma flechada na testa dele ao confundi-lo com um orc...” – Voltou-se para o outro, com os braços cruzados, ainda escondendo a boca com a palma de uma das mãos, sorria discretamente. – “Ele consegue ser bem mais mal vestido do que eu... a fama de belos e limpos dos magos realmente não se confirma nos nossos casos”.
Gandalf tomou mais um gole da bebida, engoliu umas uvas e voltou a pegar seu cajado.
– Eu já vou-me, vigie se caso Lord Elrond aparecer.
– Deixa, comigo! Boa viagem, Gandalf.
– E boa tocaia para você, até.
E o Cinzento finalmente saiu dali, seguiria para as Florestas das Trevas.
– Tomara que Thranduil não me prenda numa masmorra e que Legolas esteja lá.
Comentou seguindo mais para dentro daquela Floresta, adentrando mais ali.
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