Todos se sentaram à mesa, ali estavam postas as mais variadas opções: Geléia, pão, lascas de carne seca ao sol, pedaços de marmelo, doces, frutas, legumes crus, mais diversificados tipos de folhas, suco, cerveja, vinho.

Aragorn ficou um tempo observando da porta de entrada aquele exagero do anão, parecia olhar cada ítem vendo que na mesa nem havia restado muito espaço livre, os elfos sentaram-se e pareciam pensar a mesma coisa olhando desconfiados para tudo aquilo. Gimli percebeu a admiração dos demais com sua empolgação e retrucou enfesado:

– Ora, o que foi? Anões gostam de fartura... que coisa! Olhar não alimenta, vamos comer!

Lindir sorriu meigo, embora se sentisse levemente incomodado com o fato de Legolas ter se sentado ao seu lado, olhava-o discretamente por cima de um dos ombros, aquele loiro pálido, levemente cinza, quase branco, mas até que bonito e com fios sedosos. Sentia-lhe o cheiro de terra úmida, observava-lhe a pele sutilmente peluda, mas uma pelugem imperceptível a olhos humanos, de tão frágil e discreta, lembrava a casca de um pêssego. Os contornos de seus lábios, pequenos e rosados, na medida certa. Uma de suas mãos estava sobre a mesa, a pele alva, os dedos finos, delicados, as unhas bem cortadas.

Gimli percebeu que Lindir parecia observar o loiro, pegou um pedaço da carne e encheu com cerveja uma caneca, comendo em silêncio.

– "Porque raios Lindir está tão... observador? Se apaixonou pelo orelhudo loiro? Ou será que essa é a tal diplomacia élfica? Consequência da famosa interação entre elfos? A tal interação que lhes rendeu a fama de afrescalhados?"

Pensava o pequeno sendo observado por Aragorn, que se afetou com seu silêncio notório, o moreno estranhou do anão estar tão calado e finalmente se deu conta do motivo. Ele olhou para Legolas, este comia uma maçã e parecia se deliciar com o mastigar da mesma, parecia se deleitar com seu aroma e gosto, cheirando-a algumas vezes e ficando a observar-lhe a pele vermelha e lisinha.

– Perfeita. — Finalmente o príncipe comentou baixo — Obrigado Gimli, está sendo um ótimo banquete.

Lindir nem comera nada, ficando a olhar desconfiado para o outro, Aragorn levantou uma das sobrancelhas e batucava de leve a ponta dos dedos na mesa, estava incomodado com o comportamento de Lindir, por isso, olhou um tempo para Legolas como que se verificasse se ele estava "causando" aquela reação no outro de propósito e não viu nada demais, e foi, neste instante que comentou.

– Lindir, se sente bem?

Legolas olhou para Aragorn estranhando a pergunta, depois de um tempo olhando-o, voltou seu rosto para Lindir, o qual encarava a mesa quieto, calado. Gimli tomou um gole da cerveja, retrucando baixo:

– Será que eu e Aragorn estamos atrapalhando alguma coisa? — Retrucou o anão observando a caneca em sua mão.

Lindir olhou para Gimli receoso, parecendo engolir em seco, como iria dizer que ele tivera uma visão antes do surto de Legolas? Que ele vira que o elfo cometeria suicídio num futuro bem próximo?

– Bem... er... acho que não atrapalha em nada. — Retrucou o elfo de Valfenda baixinho, trêmulo.

Lindir sentia-se abalado dentro de si, a imagem fora chocante, ao ver legolas com uma adaga, enfiando-a no peito, atravessando o próprio coração, fazendo sua ponta aparecer em suas costas, sanguinolenta. E quando pensou ter visto Aragorn encontrar o elfo e correr até ele, a visão cortou-se. Ele olhava para o moreno agora, engoliu em seco novamente.

– "Ele se matará também? Ao ver Legolas morto?" Pensou agoniado, apertando as pontas dos dedos nos olhos, sentindo-os umedecerem, lamentou profundamente que suas visões nunca errassem. — "O que tenho que fazer?" — Pensou agoniado.

Gimli ficou encarando Lindir, sério, quieto. Aragorn percebera que o clima ali não era dos melhores acabando por ver Legolas pegar outra maçã e mordê-la, para logo soltar um sorriso de satisfação.

– Mas que delícia... realmente, apetitosa. — Disse o loiro mordendo-a denovo.

– Bem Gimli, Lindir, agradecemos a hospitalidade, mas... — Comentou Aragorn se levantando.

– Mas nem comeu nada! — Retrucou o anão olhando-o espantado.

– De manhã não sinto fome... está tudo bem. — Aragorn sorriu-lhe e depois comentou para Lindir:- Desejo um bom dia para vocês, obrigado. — E seguiu para a entrada, sendo logo seguido por Legolas que pegou mais uma maçã a colocando numa sacola que sempre tinha anexada ao cinto.

– Obrigado, meninos. Um bom dia. — Disse o loiro se levantando e acenando.

Lindir ainda continuava na mesma posição, finalmente olhou para Gimli e comentou baixo, com uma voz trêmula:

– Legolas não aguentará a pressão...

– Como?

– Ele se matará, eu tive uma visão... o que devo fazer?

O anão tocou uma das mãos do elfo, apertando ali.

– Por isso estava tão calado e o observava?

– Sim. Eu...

Lindir não aguentou, chegou mais perto do anão e começou a chorar em seu ombro, Gimli virou-se para ele e o abraçou apertado.

– Não se preocupe... não irá acontecer nada... bem... — O anão parecia pensar numa forma de evitar aquilo, ainda mantendo o outro próximo a si, abraçado. — Devemos visitá-los quase sempre.

Lindir fungava, mas se distanciou-se um pouco para falar:

– Legolas é um poço de ira e ciúme... não aguentará por muito tempo...

– Tsc...

E ambos se encararam, provavelmente pensariam o tempo que fosse necessário numa forma de ajudar aquele casal um tanto sofrido e maltratado pelas forças do Destino.