Notas iniciais
"Quero novamente felicidade em minha vida, E sobreviver no êxtase da vida, Quero novamente ver um sorriso e Uma gargalhada por um instante, Quero novamente o sabor do amor de alguém (...)" Livro: 3096 Dias - Natasha Kampush

Fazia tempos que Lindir não procurava o anão. Haviam feito três meses que voltaram de Valfenda e que moravam normalmente como um casal qualquer. Os próprios vizinhos acolheram a escolha de ambos e eles ficaram conhecidos como o “Parzinho do amor”. Claro que nenhum dos dois aprovou o apelido, mas o que poderiam fazer? Afinal de contas, essa nomenclatura parecia aliviar a situação de que se tratava de dois machos e de raças, a principio rivais, convivendo juntas.

Não deixava de ser uma forma amenizada para lidar com essa dura realidade, de que aquele “tipo” de coisa, que antes era ocultada e escondida, agora começava a sair “debaixo do tapete”, "de dentro do armário", que consistiam em sinais dos novos tempos que estavam por vir alvoroçadamente, chegando rapidamente, chamando a atenção para as variadas mudanças sociais.

Em todo canto ouviam-se falar dos dois. As pessoas de Gondor comentavam animadamente, como se fosse uma piada, já os elfos comentavam que ao menos um deles deveria arcar com a árdua tarefa de “pegar” um anão em prol da união e os anões diziam que Gimli não passava de um maluco, de um anão com problemas mentais, mas estas falas infelizes e muitas vezes preconceituosas, isso em sua maioria, eram rigidamente ocultadas e as classes mais nobres, como reis e duques, não tinham acesso a elas, já que se Aragorn soubesse, ira agir em favor dos dois, mas eles mesmos nem se arriscavam a tocar no assunto com o rei, pois achavam que ele já era demasiado ocupado. Então, o tempo prosseguia, passando uma falsa aparência de paz, embora, além dos preconceitos, nas ruas de Gondor, casais tipo Lindir e Gimli começavam a brotar nas mais variadas esquinas.

Elfos com humanos, elfos com anões, anões com humanos. Sendo que os hobbits eram praticamente os únicos que continuavam apenas se unindo entre si, rejeitando completamente o envolvimento amoroso ou relacionamento com outras raças. Assim como Bilbo, preferiam ficar enclausurados em suas casas e embora soubessem das intenções de admiradores, eles simplesmente fingiam não perceber-lhes as intenções e continuavam solitários, se contentando em visitar algumas florestas vizinhas.

Entre tanta confusão escondida, o rei, agora, estava com a árdua missão de ajudar Rohan, afinal, nem ele ou Faramir sabiam da ajuda de Thranduil àquela cidade, que já estava sendo reconstruída há dois meses. Toda ela já estava praticamente transformada.

A princípio, Faramir estranhou que Eowyn não respondesse mais suas cartas e encarou isso como um sinal de que a cidade estava tão decadente que nem mesmo eles conseguiam ler os recados anunciados por outras cidades, por isso, ele apressara, de certa forma o rei, afim de que conseguissem unir tudo que conseguissem o quanto antes para apoiar Rohan e finalmente este dia chegara, todos estavam prontos para partir.

De repente, quando Aragorn estava quase saindo do quarto de sua esposa, Gimli chegou ao castelo, o anão carregava consigo uma enorme bolsa, a qual tinham suas próprias roupas, algumas vestimentas, meias, botas, cintos e espadas, além de claro, seu elmo e machado. Ele adentrara ali no castelo e nem fora recepcionado pelos cavaleiros, pelo fato deles já conhecê-lo.

– Vim ver o rei.

Disse rancoroso e arrastando aquela enorme sacola pelo chão, pisando lentamente como se cada passo dado pesasse uma tonelada, e seguiu assim, até chegar a tal sala de reuniões, na qual encontrara Faramir.

– Gimli!

– Oi soldado.

Retrucou o anão bufando, sim, estava cansado de levar tudo aquilo por todas as ruas, alguns anões riram enquanto passava pela sua área, alguns elfos cochicharam algo em seu idioma e os humanos retrucavam alto perguntando-se se finalmente aquele casal “anormal” consertara-se.

Infelizmente Gimli ouvira e percebera tudo durante seu exaustivo trajeto, todas aquelas manifestações e ele estava e muito cansado de conviver com elas, ela reclamaria com o rei, jogaria toda a merda que estava ouvindo “no ventilador”, diria tudo que viveu entre o povo, aparentemente tão amável de Gondor, iria trazer a dura realidade para dentro das paredes daquele intocável castelo.

– O que o traz aqui, Gimli? – Perguntou educadamente Faramir, logo se aproximando de um móvel enchendo uma taça com vinho e entregando ao anão, para logo sentar-se ali.

– Faramir, meu caro, agradeço toda hospitalidade e preocupação, mas tenho assuntos a tratar apenas com o rei. – Retrucou contrariado o anão, porém não fazendo a desfeita do vinho e tomando um grande gole. – Poderia chamá-lo, por delicadeza?

O anão quis parecer gentil, mas as palavras saíram bem forçadas, devido a sua enorme raiva, já que se sentia rejeitado por Lindir fazia três meses. Durante três meses ele não sabia o que era um carinho, um chamego ou palavras amorosas, pois simplesmente o elfo desaparecia todos os dias, saindo praticamente de madrugada e chegando apenas à noite, quando o pequeno já dormia.

– “Ele está me traindo, eu sei! Eu sinto!”

Pensava consigo Gimli, logo vendo Faramir cumprimentá-lo mais uma vez para sair dali e chamar Aragorn, o ruivo não deixara de pensar que aquilo provavelmente atrasaria mais ainda a ida a Rohan e o arqueiro reclamou baixo, consigo, se Éowyn e o irmão ainda estavam vivos e pensou se acaso demorassem mais um dia que fosse, que ele mesmo iria a Rohan ajudá-los, mesmo que fosse sozinho.

Gimli batia nervosamente a ponta dos dedos na mesa, olhava agitado para os lados, virando a cabeça em todas as direções parecendo observar cada trecho daquele enorme salão, bufava ansioso, reclamando e perdendo-se em seus próprios pensamentos.

– Eu ainda me lembro...

Tocou a própria barba a apertando na palma da mão, olhando fixadamente para a mesa.

– Quando ele me prometeu... ficarmos para sempre juntos e simplesmente... naquele dia...

O baixinho lembrara-se de certa noite quando Lindir antes de chegar em casa, encontrava-se voltando animadamente com outros elfos, conversavam numa língua diferente e estranha ao pequeno, então, ao olhar escondido através de uma das janelas, viu que eles pareciam tocar os ombros de seu elfo, outros puxavam-lhe pelos braços, outros levemente pelos cabelos e Lindir não reclamava, apenas sorrindo para todos eles, para finalmente empurrá-los.

Gimli então logo correu para o quarto e deitou-se apressado na cama fingindo já estar dormindo, então Lindir adentrou ali sozinho, trancou a porta e seguiu cambaleante para o banheiro. Tomou um banho demorado, pelos cálculos do anão, para finalmente deitar-se detrás de si e abraçá-lo parcialmente, adormecendo sentindo-lhe o cheiro dos cabelos.

No dia seguinte, Gimli fez de conta que nem percebera a pressa do elfo para sair e chegar cedo ao trabalho, que ele dizia ter. Segundo Lindir, ele agora estava em três empregos diferentes e por isso de suas saídas constantes. Dito isso, logo o elfo se precipitou a sair, deixando o pequeno lá, sozinho a pensar sobre a relação.

Gimli estava muito insatisfeito e não vira a hora de sair daquela casa e partir de Gondor, de ir embora e voltar à sua vida “normal” com sua Matilda, na sua cidade anã.

– Ao menos lá eu sei o que realmente está acontecendo e o que posso esperar.

Logo Aragorn apareceu ali, Arwen lamentou que seu marido fosse tão ocupado e realmente a rainha estava um “tanto” carente, mas não podia evitar que o seu marido fosse um homem cheio de compromissos, ela até pensara que Legolas tivesse mais chances de tê-lo para si devido aos dois estarem sempre juntos, resolvendo assuntos do reino.

– Gimli, meu amigo!

E o moreno sentou-se próximo tocando um dos ombros do anão, este lhe sorria levemente encabulado, dando-lhe logo uma caixinha, um presente para o bebê.

– Obrigado, não precisava, vou entregar à mãe e ela abrirá.

Sorriu Aragorn colocando o singelo presente sobre a mesa, mas logo se voltando ao seu amigo. O rei vestia uma túnica real, parecendo disposto a realizar alguma viagem.

– Vai sair de Gondor, meu rei?

– Sim, pretendo visitar Rohan, dizem que está devastada... mas sempre devemos ter tempo para os amigos, precisas de algo ou me contar alguma coisa? Conversar? – Disse o rei não deixando de notar o enorme saco cheio que se encontrava ao lado do anão.

– Bem, acho que terminarei a relação com Lindir.

– Como? – Aragorn permitiu franzir os celhos e olhar mais atentamente.

– Temo que Lindir esteja me traindo. É isso.

– Mas porque não conversa com ele e verifica isso? — Disse ansioso soltando uma discreta bufada. — Gimli... seja como for, essa atitude que quer tomar é muito grave, é melhor vocês dois conversarem antes disso. – O rei respirou profundamente e soltou o ar devagar. – Que eu me lembre... – Voltou a olhar o pequeno. – Lindir o ama. Achas mesmo que ele está fazendo isso?

– Elfos tem essas sacanagens, meu amigo, por acaso se esqueceu da tal diplomacia élfica? – Gimli inclinou-se para Aragorn, se aproximando mais dele, falando mais baixo. – Quem garante que Legolas não o traia também?

– Gimli! – Aragorn deu um tapa na mesa sem ao menos perceber.

– Ué, porque tanta certeza? Você mesmo falou em delírio... é... eu lembro... – Gimli recostou as costas na cadeira, mexendo em sua farta barba, apertando os dedos ali. – Você mesmo disse que ele o traiu com Haldir e Elrond e que ele o viciou nesse tipo de sexo anormal!

Aragorn olhou na direção da porta, levantou-se e a fechou, respirou profundamente e tocou as costas ali, nela, olhando desaprovador para o pequeno.

– Gimli, o que está dizendo?

E o rei se reaproximou do outro, sentando-se ali, olhando-o atentamente.

– Eu disse isso?

– Sim, no delírio... mas no fundo, você sabe que os elfos não são nem nunca foram de confiança! – Gimli levantou-se dali, gesticulando agressivamente. – Lindir me trai e Legolas o trai também! Quem garante que eles não estejam copulando agora mesmo, hein? Aliás... todos na cidade ficam me ridicularizando! Eu não quero ser mal visto por todos e ainda ser chifrudo!

– Todos...

– Toda a cidade, meu rei! Ninguém fala para ti, pois todos parecem rir em sua presença, mas até onde sei, está ocorrendo realmente coisas terríveis pelas ruas de Gondor! Dizem que um elfo foi estuprado um dia desses!

Aragorn levantou-se num alvoroço só, aproximou-se de Gimli segurando-lhe forte pelos ombros.

– E quando pretendia me contar isso, Gimli? Hein?!

O anão começou a chorar baixinho, fungava se sentindo mal, tonto, acabou por sentar-se sentindo falta de ar.

– Gimli...

Aragorn sentou ali perto, tocando-lhe um dos ombros.

– Está tudo bem? Está se sentindo mal?

– Eu não sei... estou enjoado...

E Aragorn preocupou-se comentando baixo:

– Quer que peça para que Elrond o examine?

– Chega de elfos! Estou farto deles... só me deixa ficar um tempo no castelo, longe de Lindir, por favor.

– Mas creio que o primeiro lugar que ele irá procurar será aqui.

– Ele está saindo cedo e chegando tarde todos os dias e quando chega, algumas vezes, vem acompanhado de elfos que lhes pegam pelos braços, afagam-lhe os cabelos, essas coisas, sabe... isso machuca! Ele fica rindo como uma virgenzinha no cio!

– Mas por que não fala com ele, Gimli? Hein... não seja tão criança! A melhor coisa é dizer a verdade, dizer o que te abate! Francamente, Gimli, solta sua boca, xinga... sei lá, mas fala pra ele, conta o que está sentindo!

E o anão abraçou seu amigo, acolhendo-se em seu peito, Aragorn afagava-lhe as costas.

– Tenho certeza que estás só confuso... Lindir não deve estar fazendo essas coisas.

– Posso ir contigo?

– Hum? – Aragorn se afastou um pouco, olhando-o diretamente.

– Posso? Adoraria ir a Rohan e de repente, passarei em Erebor... por favor, meu amigo, meu rei!

Aragorn respirou profundamente, mas consentiu com a cabeça.

– Está bem, guarde suas coisas num dos quartos e me encontre em uma hora na frente do castelo.

– Sim, meu rei.

E assim que o anão saiu, Aragorn comentou consigo:

– Sei que vou me arrepender disso, mas que seja.

E levantou-se saindo dali, seguindo por um longo corredor.

Não demorou muito e Lindir chegou em casa, girava em torno das três da tarde, ironicamente o elfo decidira não ir ao expediente da tarde, dando a desculpa que precisava afiar sua harpa e até mesmo, comprar-lhe cordas novas. O elfo adentrou animado em casa levando algumas sacas com itens que qualquer anão amaria, além de alguns presentes para o pequeno, o elfo tinha a certeza que Gimli adoraria todos aqueles agrados e ele até pensara que manteria apenas um de seus empregos para poder voltar a se dedicar ao pequeno.

– Hum, ele pelo visto saiu.

Disse colocando as bolsas num dos sofás da sala, seguiu para o quarto, para a cozinha, banheiro e logo se certificou que realmente estava sozinho em casa.

– Trabalhei todo esse tempo e finalmente consegui comprar.

Um outro elfo, chamado Cleo, bateu-lhe à porta.

– Senhor Lindir.

– Cleo! – E abraçou seu amigo.

– Tens certeza de que sairás do teatro?

– Sim, Cleo, só queria mesmo comprar aquele presente, agora que já fiz isso... sinto-me realizado! Gimli vai amar!

– Ele tem realmente sorte de ter um namorado como vós.

– Que gentil, Cleo, mas admito que grande parte da minha saída foi devido ao fato de alguns elfos mostrarem interesse em mim. Já disse que tenho um amor, que estou praticamente casado, que futuramente teremos filhos, mas ninguém escuta! Sorte minha de Gimli não ver como vocês me tratavam, acho que do jeito que é ciumento, até acharia que eu estaria me deitando com todos vocês! Hahaha...

Cleo se aproximou abraçando apertado Lindir, puxando-o para si.

– Eu o amo.

– Cleo!

– Por favor, se um dia estiver sozinho, não se esqueça de mim, está bem? – E tocou a face de Lindir, ficando a encará-lo fixadamente. – Por favor.

E deu-lhe um selinho, mas Lindir logo o segurou firme pelas laterais dos braços se afastando.

– Não faça mais isso, Cleo. Vá embora.

E se despediu do amigo, o qual era apenas mais um de muitos, na verdade Lindir eram bem assediado pela sua beleza e natureza gentil.

– Ai, ainda bem que Gimli não está em casa!

E fechou a porta indo até as sacolas, embrulhando o tal presente, abrindo um papel florido e começando a enrolá-lo de uma forma perfeita.

– Este é para o filho de Aragorn, espero que o rei ainda não tenha comprado um... e este...

Disse terminando de embrulhar um dos presentes para começar a ajeitar o outro, o qual era bem maior e havia sido bem mais caro.

– Para o meu tesouro tamanho pequeno, haha...

E começou a rodear o presente com uma fita élfica brilhante, fazendo um enorme laço.

Passaram algumas horas e já eram oito horas da noite, Lindir estava sentado na sala, dormia encostado no sofá, por estar muito cansado e mantinha o presente no colo, pois assim que Gimli chegasse, ele o entregaria fazendo uma surpresa. O elfo ajeitara toda a casa com fitas, flores, a própria mesa da cozinha era a fartura pura, com vinhos, pedaços prontos de carne, frutas e uma enorme jarra com flores.

Lindir dormia pesadamente mantendo um sorriso bobo na boca, sim, ele sabia que aquela era a data que se conheceram, quando Gimli aparecera em Valfenda e finalmente se encontraram. Há meses que Lindir queria fazer essa surpresa, pagou tudo do mais caro com o dinheiro de Gondor, já que a maioria das lojas não aceitavam moedas élficas, as quais tinha aos montes, depois de trabalhar tantos séculos para Elrond, mas o elfo não se abatera e juntara a duras penas a quantia necessária para a grande festa que planejava dar, para ele e o seu anão somente, porém se Gimli desejasse, poderia trazer seus pais, sim, até isso Lindir previa, por isso fez uma considerável compra nos armazéns da cidade.

Mas ao dar exatamente meia noite, o elfo acordou e estranhou que Gimli ainda não tivesse voltado, um temporal caía do lado de fora.

– Minha nossa, aonde será que ele foi? Já sei, será que ele foi visitar o bebê de Aragorn?

Pensou Lindir logo vestindo uma capa de chuva e seguindo para o castelo, mas ao chegar lá, teve a terrível notícia pelos lábios da rainha:

O rei Aragorn, seguido de Faramir e Gimli, haviam seguido para Rohan.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.