Sonolência causou o adormecer do mago, até por não estar ainda totalmente recuperado e, ainda por cima, ter feito uma “atividade” e tanto, ele acabara por adormecer novamente. Antes de tal fato, sentira seus olhos pesados, inchados, até que resolveu entregar-se àquela sensação de entorpecimento corporal.

Passado algum tempo depois, piscou os olhos, mas as piscadas eram lentas, distantes uma da outra e quando se conscientizou novamente de onde estava, sentou-se prontamente ali, na cama.

Ele mantinha as mãos apoiadas detrás de si, enquanto que sua face virou-se ora para um lado, ora para o outro parecendo procurar alguém, mas não havia mais ninguém além de si. Levantou-se, ainda nu, depois de remover o lençol que o cobria, aproximou-se de um cabideiro onde sua roupa estava perfeitamente arrumada, pensou que aquilo deveria ser obra de Elrond, de sua organização extrema.

Assim que jogou a roupa sobre o corpo, sentiu uma sutil fisgada no peito, levando uma das mãos ali, respirou profundamente, soltando o ar devagar, sim, sentia ainda que sua saúde era um tanto debilitada, mas ele decidiu que sairia de Valfenda naquele dia, de qualquer maneira.

Amarrou o cinto, calçou as velhas botas, pegou seu chapéu e seu cajado, tudo havia sido devidamente colocado próximo de sua vestimenta, pegou uma bolsa de pano e aproximou-se finalmente da porta, o abrindo bem lentamente e somente um pouco, para poder espiar o que ocorria fora dali.

No longo corredor, havia um silêncio total, então foi aí que decidiu sair do quarto, seguiu pelo extenso corredor torcendo que não fosse encontrado por alguém, ele queria literalmente “fugir” dali, daquela forte influência que o Senhor de Valfenda tinha sobre si.

A princípio, Gandalf não tinha um aspecto voltado ao homossexualismo, ele costumava até pensar que se tratava de ser bissexual apenas quando se referia a Elrond, tantos outros elfos, homens, anões ou hobbit, nenhum o mais lhe despertara algo assim, machos em geral não lhe era nem um pouco atraentes, mas o elfo o fez abrir uma dura exceção.

Passou pelo quarto de Frodo, ele estava sentado numa cadeira, observava a paisagem lá fora, e foi neste instante que Gandalf deu mais uma olhada no corredor, como que para se certificar que não havia mais ninguém ali e adentrou no quarto aproximando o dedo indicador dos lábios, pedindo silêncio assim que o hobbit o viu.

– Shiu... vamos Frodo, sair daqui.

O hobbit desceu da alta cadeira, andou até Gandalf tocando-lhe um dos braços.

– Aconteceu alguma coisa, Gandalf? – Perguntou o hobbit bem baixinho.

– Vamos embora, depois o explico.

Gandalf voltou a abrir a porta, dando uma espiada por ela, sinalizou para que Frodo o seguisse, mas o hobbit, esperto, segurou-lhe firme a roupa puxando-a levemente para trás.

– Gandalf, por que estamos saindo como se fôssemos ladrões? E se quiser que o Senhor Elrond ou os elfos não nos vejam, não deveria estar tão...

– Silêncio, pequeno.

– Me escute.

O Hobbit se precipitou parando diante do mago, tocava-lhe as laterais dos braços.

– Eles estão todos numa reunião, a elfa que estava comigo me avisou, pediu que esperasse seu retorno.

– Reunião?

– É parece que depois de um tempo, eles se reúnem para dar baixar em materiais, controlar a quantidade de alimentos, consertos da cidade, estas coisas. Estão todos lá... apenas os elfos... como posso dizer... de menor hierarquia continuam trabalhando.

– Entendi. – Comentou o mago levantando-se e afagando a própria barba. – E quanto tempo se passou desde que ela saiu?

– Faz um tempo, mas ela disse que deveria demorar um bom tempo sim. Devem fazer umas... duas horas já, mas segundo ela mencionou, essas reuniões são bastante longas e que estaria de volta no máximo até as sete horas da noite.

Gandalf franziu os celhos vendo o sol já se pondo por uma abertura dali.

– Devem ser umas seis horas...

– Me diz, por que devemos sair assim, sem nos despedir? Não seria rude?

Gandalf respirou profundamente, soltou o ar num solavanco só.

– Tento imaginar que Senhor Elrond queira que fiquemos aqui por mais um tempo.

– E isso é ruim? Ainda me sinto levemente cansado, Gandalf.

– Eu sei, meu jovem , mas... digamos que estou ligeiramente envergonhado com algo que fiz ao lorde e... que prefiro sair deixando talvez uma singela carta, indicando que...

O hobbit o escutava atentamente, franziu as sobrancelhas e finalmente continuou ao perceber que o mago realmente parecia alvoroçado por sair dali, deveria ser algo realmente grave, pensou o pequeno.

– Escute, Gandalf, acho que encontrei um bom motivo.

– Hum? – Retrucou o velho voltando-se ao outro.

– Legolas esteve aqui, como a conversa ocorreu ao lado do quarto em que estava, mesmo sonolento pude ouvi-los...

– Legolas?

– Sim e o Senhor Elrond. Legolas disse que Aragorn queria e precisava falar com você... parecia ser algo sério, poderia mencionar que o avisei disso, escrever uma carta e aí sairíamos daqui sem que o lorde ficasse chateado, afinal... ele sabe que você cuida de mim, do Aragorn e do Legolas como se fossem seus filhos.

Gandalf sorriu largamente e tocou a cabeça de Frodo afagando-lhe os cabelos.

– Mas é verdade... gosto muito de todos vocês... são minhas crianças.

Frodo sorriu amorosamente abraçando o mago.

– Bem, imagino onde encontraremos um papel... – Disse o mago afagando de leve um dos ombros do pequeno.

O hobbit distanciou-se e parecia bater com as mãos na cintura e depois nos bolsos das calças.

– Aqui. – Disse o pequeno entregando um pedaço de papel ao mago.

Gandalf o pegou prontamente, não deixando de ver o que parecia ser uma receita, a enumeração de alguns itens. Frodo comentou ao ver que o mago parecia ler o que estava escrito.

– É só uma receita de panquecas, o Sam que escreveu para mim... até parece... – Resmungou o hobbit coçando a própria nuca, completamente sem jeito. – Ele que sabe cozinhar... hehe...

O mago soltou um sorriso gentil, comentando baixo:

– Entendo.

E logo ele se aproximou de um móvel, pegando uma pena ali perto e começando a escrever, mas parou, de repente, ao ouvir passos.

– Volta para o quarto, volta.

E ambos adentraram o quarto denovo, dois elfos passaram por ali, pareciam conversar coisas do cotidiano até que um deles comentou mais alto:

– Não, acho que não teria chance de entrar para o exército.

– Por que não?

– Senhor Elrond é um tanto exigente, acredite, é perda de tempo...

E finalmente a voz de ambos pareceu diminuir, Gandalf novamente bisbilhotou fora do quarto e saíram novamente, o velho batia a ponta da pena no papel, ansioso.

– O que eu escrevo? O que eu escrevo?

– Gandalf. — O Hobbit tinha uma fisionomia preocupada.

O mago mantinha a mão debruçada sobre o móvel, batia a ponta da pena ali, enquanto que sua face estava sobre a outra mão, ele olhava fixadamente para o papel.

– Senhor...

– Gandalf. – Falou novamente o hobbit.

– Espera... já tive uma ideia... deixe-me escrever, Frodo! Senhor Elrond...

– Sim?

O mago arregalou os olhos na direção do hobbit, seu corpo paralisou por completo, Frodo tinha uma das mãos sobre a própria boca. O lorde encontrava-se detrás do mago, de braços cruzados e o olhava desconfiado, com uma das sobrancelhas levantada.

– Há algo que queira me dizer, Gandalf?

O mago engoliu em seco, fechando os olhos fazendo uma perfeita fisionomia de: “Putz, fui pego!”. O mago respirou profundamente, tomando ar até que finalmente voltou-se para o outro, sorrindo-lhe docemente.

– Bom dia, Senhor Elrond.

Sua voz mostrava um nervosismo que também se mostrava notadamente pela sua postura. O elfo deu uma longa olhada para o pôr do sol através de uma janela para logo depois voltar a encarar o velho. Frodo aproximou-se do mago, segurando-lhe as laterais das pernas, escondendo parcialmente detrás dele, inseguro.

O elfo continuou encarando-o, sério e em silêncio, parecia esperar uma excelente justificativa para a aparente saída dos dois de Valfenda e, neste instante, Frodo tomou coragem colocando-se ao lado do mago, encarando o elfo.

– Senhor Elrond.

– Frodo.

O elfo agora o olhava, ainda com os braços cruzados, sua fisionomia demonstrava estar realmente zangado, fato que fez o pequeno pensar no que, afinal de contas, o mago havia feito e que tal coisa parecia ser realmente grave.

– Bem, Gandalf mencionou que desejava partir e eu complementei que seria bom já que Aragorn deseja falar com ele.

– Aragorn...

– Eu não deixei de ouvir, a conversa do Senhor com o Legolas.

Gandalf olhava para o pequeno com um sorriso gentil nos lábios, parecia admirar-lhe a coragem. O mago tocou-lhe um dos ombros e voltando a encarar diretamente o elfo, continuou como se ambos cantassem uma música em perfeita harmonia.

– Então, decidimos partir, iria deixar-lhe um bilhete e...

– Partir.

– Sim.

O elfo deu mais uns passos ficando bem próximo do mago, fato que fez o hobbit dar um passo para um dos lados e se afastar, o pequeno engoliu em seco.

– E me diga, Gandalf, se vocês tem realmente condições... – Neste o momento, o elfo olhou para o pequeno- ...de partir.

O elfo ainda olhava para o pequeno hobbit, parecia examinar-lhe o corpo, ou seu estado de saúde.

O mago apertou os lábios soltando uma discreta bufada, mas o que poderia fazer, retroceder e ficar ali? Mesmo sabendo que machucara o outro? Gandalf tentou visualizar o estrago que causara através dos gestos de Elrond e pôde, através deles, ver que o negócio era sério. Ele decidira que não iria retroceder, mas realmente ver Aragorn, abraçar-lhe, dizer que estava tudo bem consigo e com Frodo.

Depois de pensar em melhores palavras, já que Elrond as merecia, continuou calmamente:

– Sim, estamos em condições.

– Gandalf, não concordarei com a saída de ambos.

Elrond olhava para o mago, depois para o pequeno, parecendo estar realmente preocupado, seus olhos se arregalaram parcialmente, Frodo pôde perceber que sua respiração acelerara, o pequeno até estranhou, nunca havia visto Elrond perder sua calma, não antes.

– Mas...

Retrocedeu o elfo virando-se de modo a apoiar uma das mãos sobre um móvel ali, tinha uma fisionomia triste, apática, vencida.

– Não posso prendê-los aqui. Então...

Finalmente voltou a olhar para o mago, falando mais baixo, mesmo que profundamente contrariado.

– Lhes desejo uma boa viagem.

Uma tentativa de sorriso se formou ali, em seus lábios delicados e frágeis. Frodo observava-o atenciosamente, cada sinal emitido pelo lorde e pôde ver, mais uma vez, depois do resgate deles nas Florestas Negras, que Elrond amava a Gandalf com toda sua alma e isto o fadigava, o feria mais do que se fosse atravessado por uma lâmina.

O mago e o elfo ficaram se encarando por um tempo interminável, as respirações, embora distantes uma da outra, pareciam tocar-se e dialogar através do silêncio. Gandalf queria lhe dar um belo pedido de desculpas, Elrond queria prendê-lo sobre seus domínios, em seus braços, mas ali tinha uma pequena e singela testemunha.

O hobbit.