A noite passava calmamente, depois das duas da madrugada, havia sempre um silêncio total em Valfenda.

Legolas e Aragorn seguiram para seu quarto, ironicamente, sempre haviam duas camas em cada quarto, visto que Elrond, não deixou de perceber que haviam muitas duplas confirmadas nos encontros, embora a maioria andasse em grupos. Então, o senhor de Valfenda, decidiu-se por sempre colocar duas camas de solteiro em cada quarto para descanso, já que quando era uma, algum convidado sempre costumava "migrar" para o quarto ao lado.

Aragorn ao adentrar o recinto, foi jogando sua espada numa cadeira próxima da porta de entrada, seguiu até a cama, sentou-se e começou a retirar as botas, já Legolas andou devagar, sem pressa e ao entrar ali, parou ao lado da porta com os braços cruzados ficando apenas a olhar o outro, isto incomodou o espadachin que retrucou baixo:

– Sem sono?

– Quase...

– Hum.

O cavaleiro sorriu e jogou-se na cama, mantinha os braços abertos.

– Voltarás para seu reino amanhã, certo?

– Pretendo. Já que me tornei rei... embora o substituto que deixei seja de grande confiança.

– Gostaria de passar na minha vila.

– O quê?

Aragorn voltou a sentar-se, olhava com os celhos franzidos para o elfo, Legolas interpretou como se o outro não o tivesse ouvido e repetiu calmo:

– Minha vila.

– Para?

– ... por que está me perguntando isso?

O elfo se distaciou da parede, andou até o moreno parando a um passo dele.

– Por acaso, não acha que devo rever meus pais?

– Eu disse isso?

Aragorn coçou a própria nuca ansioso, olhava para um dos lados, parecia perceber que o clima ali não era dos melhores.

– Só queria saber o porquê... sei lá, dizer isso, de repente... havíamos programado chegar ao meu reino à tarde, como sua vila fica na direção oposta... eles podem pensar que me aconteceu alguma coisa, pois iremos demorar dois dias a mais.

Legolas arregalou os olhos colocando as mãos na cintura.

– Eu sei. Bem, tem razão... isso vai atrasar você.

– ...

Aragorn o olhava sem entender o fato do outro mudar de idéia tão rapidamente, em geral as discursões costumavam durar mais, muito mais. Depois de uma pausa, o elfo continuou:

– Eu irei sozinho.

Aragorn levantou-se gerando uma proximidade que forçou Legolas a dar dois passos para trás e olhá-lo surpreso.

– Não irá não.

– Mas...

– Está bem, iremos e...

– E o seu reino? Eu vou sozinho, é melhor...

O loiro tocou na lateral do braço do moreno com uma das mãos, puxando-lhe bem de leve, a manga da malha de algodão que vestia.

– Escute, amanhã iremos avisar ao Gandalf e ao Pinpin. Ponto final.

– Mas... eu não quero causar-lhe problemas...

Legolas se aproximou de uma janela, olhando para o horizonte, o céu revelava uma tonalidade azul marinho, com uma enorme lua cheia ao fundo, Aragorn apenas o acompanhava com o olhar.

– Não causará.

– ... Eu vou hoje.

– Ei!

– Me solta!

O moreno havia-lhe segurado um dos braços fortemente, fato que fez o elfo puxar com mais força e soltar-se.

– Para quê isso, Legolas? Endoidou?

– ... temos que...

O elfo baixou a face, olhava na direção do chão, sentia-se triste, levemente melancólico.

– Entender que...

O loiro olhou para o moreno e continou mais baixo:

– Nossas aventuras juntos, acabaram. Sir Aragorn.

– ...

– Melhor entender logo isso!

E o elfo saiu apressado dali, o cavaleiro o seguiu, mas logo o perdeu de vista, Legolas andava rápido como ninguém, mesmo andando, ele parecia correr e logo costumava sumir de vista.

Aragorn seguiu pelo corredor acabando por parar diante de uma saída daquela moradia, da moradia de Elrond, ele seguiu por uma sutil ponte quando foi parado por um elfo que fazia a ronda noturna.

– Senhor.

– Hum?

O elfo o seguiu a passos rápidos e parou diante dele, olhava-o sério, nem um pouco amigável.

– Não é permitido andar pela cidade à noite. Questão de segurança.

– Mas...

Aragorn olhava para oa lados e não encontrou nenhum sinal de Legolas.

– Por acaso... você viu um elfo loiro... sabe, com arco e flecha.

O elfo responsável pela ronda olhou para as próprias mãos e viu que tinha um arco, flechas e ele mesmo era loiro, logo deduziu que só podia ser uma brincadeira, Aragorn percebeu o mal entendido e complementou:

– O nome dele é Legolas.

– Senhor Legolas, filho de Thranduil.

– Esse mesmo!

– Não senhor, não o vi. Ninguém passou por mim esta noite, somente o senhor. Favor, queira voltar ao vosso recinto para dormir.

– Obrigado e... desculpe.

Aragorn voltou para a morada de Elrond contrariado, entendera que a armadura que ainda vestia, fazia muito barulho, por isto chamara a atenção do segunrança da cidade, mas Legolas, já ele poderia passar facilmente por qualquer um, num silêncio perfeito.

Legolas andava por um dos muitos corredores daquela casa élfica, ele seguia para a cozinha, chegando lá, pegou um copo e tomou um pouco de água, ele observava a lua cheia mais ao fundo através de um basculhante de vidro cristalino, soltou um suspiro magoado e quando ia voltar ao quarto, passou na frente da porta do quarto de Elrond, estranhou escutar uma voz masculina seguida de outra também masculina, mas com uma tonalidade mais envelhecida, pelo fato da porta estar entreaberta, pôde ver que se tratava de Gandalf e Elrond, ambos deitados na mesma cama e quase se engasgou, agitado, levou uma das mãos à boca, mantendo os olhos élficos arregalados, consequentemente, a imagem se tornou mais nítida, sem querer, claro. O elfo acelerou os passos e esbarrou em Aragorn que o conteve segurando-lhe as laterais dos braços.

– Ei!

– Shiu!

Legolas tocou uma das mãos nos lábios do moreno, olhava-o ainda com os olhos arregalados, mesmo assim, o moreno tentava pronunciar e saiu algo parecido com:

– A...on...de...esta..va?

– Calado. Vamos.

E puxou-lhe por um dos pulsos na direção do quarto aonde estavam hospedados, o loiro fechou a porta e soltou um longo suspiro aliviado.

– O que aconteceu? Já foi até sua casa e voltou?

Disse o espadachin jogando-se na cama, entrelaçando os dedos debaixo da cabeça, na nuca.

– Haha... ou será que o elfo noturno te deu um esporro também?

Aragorn deitou-se de lado, observava o loiro ainda de pé, de frente para a porta fechada.

– Tudo bem que ele era um tanto antipático, mas...

– ...

– Legolas?

O loiro finalmente virou-se e seu arco caiu no chão quando ele encostou-se na porta, ainda tinha a respiração acelerada, levou uma das mãos ao próprio peito. Aragorn sentou-se e o olhava preocupado.

– Sente-se mal? Legolas...

– Não é... nada.

– Não me parece nada.

O moreno levantou-se parando diante do elfo, Legolas tinha a cabeça jogada para a frente e os olhos fechados, ele rangia os dentes.

– Legolas?

Aragorn tocou a porta com as palmas das mãos, seus braços passavam por cima dos ombros do elfo, ele levou a mão direita até o queixo do loiro, foi erguendo-lhe a face bem devagar.

– Me fala... estou preocupado.

O elfo virou a face para um dos lados, ainda expressando tamanha aflição.

– Coitado do gandalf!

Levou uma das mãos à boca.

– Achei que esse tipo de assédio fosse apenas com o meu pai.

Aragorn franziu as sobrancelhas, olhava para o elfo realmente preocupado.

– Como? Do que está falando?

– Elrond. Por favor, não... não espalhe... é só que...

– Pe..peraí... o que Elrond fez?

Legolas saiu dali, sentia-se afobado, andou até uma janela, respirou profundamente tentando tranquilizar-se.

– Ele... gosta de elfos. Isso não é de agora... na verdade... é bem comum até.

– Elfos... claro, claro... ele trabalha com eles, são a sua tropa, claro que deve gostar de elfos... que idéia...

Aragorn encostou-se numa das paredes do quarto, cruzou os braços e as pernas parcialmente, cruzando os pés.

– Ele gosta da própria raça, o que há de errado?

– ... você não está entendendo...

– ... me explique então.

– Me refiro a sexo.

Legolas pôde ver um olhar bizarro se formando nos olhos de Aragorn.

– O quê?

– Isso mesmo que ouviu... só não esperava que ele atacasse humanos e... humanos velhos... isso é tão... cruel... rude.

– Pe..pera... você por acaso está falando de Elrond e Gandalf?

– Sim, por isso o retirei de lá, se ele nos visse espionando, mandaria arrancar nossas cabeças.

Legolas olhou pela janela, suspirou.

– Pior que tive a impressão que Gandalf estava realmente gostando.

Aragorn se aproximou de Legolas, olhou pela janela também.

– Sempre desconfiei deles... sempre Elrond o recebe com toda alegria. Para mim... não foi tanta surpresa assim, mas... o fato dele... o seu pai...?

– Sim.

– Você realmente confia em mim para me contar uma coisa dessas...

– Eu sempre soube, papai costumava sair sempre quando sabíamos que Elrond voltava de alguma missão.

– Entendo.

– E... meu pai sempre foi muito severo comigo e com minha mãe... ele nunca demonstrou muito apego... ou carinho por nós... mas sempre que ouvia falar de Elrond, seu olhar adquiria uma felicidade enorme.

– Hum... e por que o fato de Elrond ter um... uma relação com o Cinzento o tocou tanto?

– Papai traía mamãe e era severo comigo por causa dele...

Legolas não deixou de demonstrar que sentia certo rancor pelo fato, afinal, não eram raras as vezes que pegava sua mãe chorando, embora ela sempre se esforçasse a esconder do filho, essa triste realidade.

– Ele se enfiou na nossa família... ele pega esses elfos daqui e...

– Legolas, deixe-me dizer uma coisa. Seu pai é um adulto, sabe o que está fazendo, ele é um elfo forte, ou seja, Elrond nunca conseguiria ter isso dele facilmente, então o que posso deduzir é que seu pai gostava do que estava buscando.

Aragorn encostou-se na janela, cruzando os braços, estava de frente para Legolas, o loiro o olhou com uma feição amargurada, mas não poderia dizer o contrário, no fundo, ele sabia que era verdade.

– Isso é comum entre os elfos.

– Como?

– Por isso... enfim...

Ele ia dizer da fama de afrescalhados que tinha, mas sua vergonha era grande demais para expressar o que sabia, que a tal fama, no caso de alguns elfos, se confirmava realmente.

– Legolas, Gandalf é um adulto... deixe-o, quem somos nós para dizer alguma coisa.

Aragorn olhou pela janela.

– Sinto pela sua mãe.

Ele voltou a olhar para o elfo, seus olhos estavam mais claros devido à luz do luar, ele deu um singelo sorriso consolador.

– Não fique assim, amigo, o mundo não é perfeito, mas devemos conviver com ele dessa forma e tentar realizar nossos ideais mesmo assim.

– Sinto por Arwen. Mesmo.

– Está tudo bem, vamos dormir.

Aragorn tocou-lhe um dos ombros, Legolas sorria-lhe gentil.

– Obrigado por me.. escutar. Eu nunca desabafei algo assim com alguém.

– Amigos são para essas coisas.

Aragorn sorriu-lhe.

– Seja como for, Elrond espalha o amor. Isso eu realmente nunca esperaria.

– Haha...

Legolas deu de ombros comentando brincalhão.

– É e pegue esse amor quem quiser.

– Tem certeza que não queres, Legolas?

– Hahaha... não, muito obrigado.

E ambos sorriram juntos, mas as risadas deram lugar a um encarar novamente. Aragorn queria consolar o amigo, e este, o olhava como se realmente estivesse disposto a aceitar qualquer consolo.

– Sem sono?

– Acho que se dormir agora, sonharei que estão tentando me seduzir, haha...

– Foi tão chocante assim, a cena?

– ôh... e pior que escutei cada coisa e vi acada detalhe... minha visão às vezes faz isso, quando fico muito agitado.

– Entendo. Deve ser algo ruim...

– Às vezes, incomoda muito... como foi ainda pouco.

– Entendo.

Novamente o encarar-se e as palavras suspensas por um tempo incaculável.

A própria noite pareceu fazer-se presente penetrando sem pedir permissão, o vento moveu alguns fios dourados do elfo que acabou por virar a face na direção da lua, ele mantinha um sorriso calmo, tranquilo e foi, neste instante, que Aragorn quebrou o silêncio.

– Me incomodou o que disse antes...

Legolas passou a olhá-lo.

– Como?

– Sobre esquecer e... nossas aventuras...

– Você é rei agora, tem seus compromissos, sei bem como é isso... a liberdade fica comprometida, limitada, meu pai é rei da floresta... sei bem como é isso.

– Hum... fala como se fosse um tédio.

– Simplesmente sua vida não é mais só sua somente. Você deve justificativas para o seu povo, deve cuidar dele e protegê-lo.

– Eu sei.

O moreno soltou um longo suspiro, ele encostou-se no peitoril da janela, tocando ali, parte de sua bunda, voltou a cruzar os braços e ficar pensativo.

– Sinto que.. vou sentir e muito sua falta.

Sua voz tinham tom de pêsames, Legolas apenas o olhava.

– Logo terás uma rainha, filhos, e... tudo que passamos será só lembranças.

– ... Tem que ser assim?

Legolas franziu os celhos, olhava com mais atenção para o amigo, como se quizesse ler-lhe os pensamentos.

– Aragorn...

– Eu já lhe digo, não se livrará de mim tão facilmente... ou será que já arranjou um espadachim substituto?

– Aragorn... não estou dizendo que deixarei de vê-lo, se é isso que o incomoda.

O moreno mantinha uma face abatida, dolorida. Legolas continou:

– Escute, serei para sempre seu amigo e fiel companheiro.

– Não precisa...

Disse virando a face para o lado oposto ao outro.

– Como não precisa?... Claro que precisa!

– Eu sou apenas um humano...

Aragorn soltou um suspiro baixo e mostrava-se apático.

– Sabe, não quero... sabe.. ficar velho... acho que... quero morrer jovem, como a Arwen.

Legolas arregalou os olhos e empurrou-o.

– Pára de falar asneiras!

– Está de noite, acalme-se!

– Acalmar-me? Pare você!

– Ei, daqui a pouco aquele elfo virá e...

– Que ele venha e mate nós dois logo, assim não teria que ouvir tamanha besteira!

O elfo deu uns passos, ora para a direita, ora para a esquerda, coçava o próprio queixo, tocava a prórpia nuca e continuava andando, tenso.

– Ei, pare com isso. — disse Aragorn segurando-lhe um dos braços.

– Não...

Legolas parou, permitindo que o outro segurasse o braço.

– Não diga mais coisas como essa... por favor!

– Desculpe.

A mão aquecia o braço do elfo por cima de sua roupa de seda, o moreno puxou-o devagar e o loiro apenas o olhava deixando que a proximidade fosse cada vez maior, ele pararam frente a frente, encaravam-se fixadamente.

– Não brinque com o que sinto por você... você sabe disso...

A face do elfo era dolorida, machucada, ele acabou por abraçar o outro, bem apertado. Legolas fungava baixinho.

– ... Legolas?

– Por favor...

O loiro comprimiu os lábios, mantendo a respiração agitada, aos poucos ele foi distanciando-se até que Aragorn acabou por tocar-lhe gentilmente a face, novamente o encarar-se, o silêncio.

– Desculp...

Legolas tocou os lábios do outro com o dedo indicador, o elfo sorriu-lhe gentil, mas expressadamente triste. Ele direcionou a mão para a nuca de Aragorn, segurou firme ali, apertando bem de leve. O moreno só queria encarar-lhe, sentia certa atração por aquela raça, aquela pureza, amor incondicional e não conseguiu evitar, lembrou-se de seu antigo amor: Arwen.