Legião [Gênesis - Livro I] - A Espada do Arcanjo
8 Jogos Delficos
Notas iniciais
Segundo explicado pela Tenente Clair e Crato, no início do mês Três, o mês da Vida, o equivalente ao Maio/Junho, teríamos início aos Jogos Deíficos. Um conjunto de desafios entre Clãs que visam entreter os legionários enquanto não partiam em missão.
Ordem um e dois de cada clã apenas combatia com a ordem um e dois de outro clã. Os primeiros jogos são batalhas de um clã por um clã, o local de batalha e a missão eram escolhidos pelos anciões sorteados pelo Sacerdote-mor. O vencedor levava três estrelas de campeões pelo seu clã como laureis.
Por isso treinamos todo o mês de Destino, para evoluímos nossas habilidades, e socializar com a ordem dois; eles possuíam oito integrantes, dentre eles era um garoto conhecido como Nick Wood, era o líder da Ordem e tinha perícia em magia com arco e flecha, conseguia encantar suas flechas para diversos feitiços.
Tinha também Johanna, conhecida por sua magia com palavras; Núbia, uma descendente cigana das planícies americanas que se tornou muito amiga íntima de Dakota; Lucas, afrodescedente que descendia de um xamã africano; Tiberius, magia alquimista; Hikari, descendente de uma feiticeira japonesa e os gêmeos Sumar e Atum, magia oposta.
Ninguém sabia sobre a missão ou o local onde se realizaria o primeiro campeonato até o dia, poderia ser de captura de estandarte, ou de combate e redenção ou combate e invasão a um forte.
Então treinamos os diversos e possíveis confrontos. Se o local de combate fosse a espaço aberto, envolveria uma tática ponta de flecha, desenvolvida por Nick; os mais fortes, grupo de investida, compunham a frente, os mais resistentes, ficavam com a defesa no meio e os mais rápidos, os corredores vinham atrás, caso encontrasse uma brecha, eram suas função perfurar o campo e cercar o time vizinho.
Desenvolvemos magia de busca e abertura de portal, para caso o desafio seja busca ou captura de estandarte. Luta com feitiços e alguma poção básica que poderiam ser essenciais, felizmente cada um tinha base para cada tipo de magia, enquanto uns conseguiam ter habilidades para algumas magias, outros tinham para outras, não existia dois magos no clã Arturiliano que possuísse as mesmas habilidades.
Os dias correram exaustivos, as tardes mais ainda, e quando a noite caía, eu possuía pesadelos, mas não os de sempre. Sonhava com uma família de Ogros famintos que me cozinhavam em um caldeirão, ou um ser obscuro que me pendurava de ponta a cabeça sobre uma fogueira e me cutucava com um arpão de duas pontas. Contudo a mesma criatura me assombrava antes de acorda, a grande serpente com olhos em brasas purpúreas.
E no primeiro Dia de Saturno do Mês de Vida, os Jogos Deíficos se iniciaram, e o local não era o tanto inusitado para Ordem Dois, que pareciam não está surpreso como a Ordem Um; o local do desafio era na parte Noroeste da Cidade do Sol, um grande jardim labirinto cercado por prédios residenciais.
Uma passarela de correntes e postes rodeou toda a rua, mantendo os espectadores a distância do local, e continham muitos cidadãos presentes, as residências em torno estavam lotados de mais curiosos e observadores; Um palanque mágico flutuava sobre o jardim labirinto, composto por anciões de cada clã, os comandantes, alguns professores, gente da alta classe, e sentado sobre um trono de ouro, o Sacerdote-mor.
— Saudações desbravadores guerreiros da Ordem, O Labirinto de Tetralius é o desafio de hoje, aos navegantes, o labirinto não é nenhum novidade aos legionários, criado por Tetralius, legionário do clã Taluriano e sua esposa Hebia, do clã Maaturiano há três séculos e meio... — continuou Oris gratificando um casal ao seu lado.
Ambos pareciam ter uns quarenta anos, ela tinha os cabelos dourados com trançados em heras, ele possuía uns trajes um tanto vitoriano de ferreiro como a maioria do clã seis. Estavam de mãos dadas e se beijaram, admiravam seu jardim.
— Tão brincando! —sussurrei — Eles não parecem ter três séculos de vida.
— O tempo passa de um modo um tanto diferente aqui, alguns estão vivos há séculos, depois dos dezoitos tudo pode acontecer — sussurrou Anu de volta.
— As pessoas não morrem, então? — perguntei.
— Morrem, revivem, reencarnam, nada é impossível, alguns realmente morrem, simplesmente decidem repousar até o Caoslipse! —respondeu Anu.
— O que é Caoslipse?
— Melhor explicar outra hora...
Queria exigir que explicasse logo, mas então o Sacerdote-Mor bradou ao fim do seu prolongado discurso.
—Heróis, senhores e senhoras presentes, Como Terceiro desafio do dia, e relembrando que a Ordem Um e Dois do Clã Delfiliano e do Clã Anubisiano... — relutou em dizer a última palavra — Venceram respectivamente os dois primeiros jogos! Presentes, de um lado nós temos os inovadores Arturiliano!
A Ordem Dois avançou a frente em formação seguida pela Ordem Um logo atrás, nos posicionamos na Entrada Norte do labirinto. Fiquei pensando sobre o Clã Anubisiano, e como o único residente era tão poderoso a ponto de vencer a legião dos Algonianos, que eram dubiamente maiores e mais numerosos.
O nosso clã tinha um arsenal um tanto exótico, cajados e varinhas misturados com espadas e bastões. Eu por exemplo trazia o cajado a esquerda e a espada bainhada à direita, com o cordão de golen no pescoço.
— E dou outro lado, os sábios Talurianos! — bradou apontando ao outro lado o Sacerdote.
Não pude ver agora com o labirinto à frente, mas conhecia o nosso vizinho de rua, eram sempre grandalhões e às vezes feiosos, gostavam de forjar, tanto intelectualmente como manualmente. A maioria tinha mãos grandes e pesadas, a maioria era inteligente, mas grande parte tinha truques na manga.
— O desafio é um típico captura a estandarte e confronto de território, no centro do labirinto existe o estandarte de sua equipe, a cor roxa e laranja, respectivamente do Clã Cinco e Seis, depois que encontra-las, pelo menos um representante da equipe deve atravessar ao lado oposto, a caminho do território inimigo, com a bandeira em mãos; onde hasteara no pedestal posicionado ao lado de cada entrada. — e realmente havia um pedestal para bandeiras, uma base para fincar a bandeira dos Talurianos, o Sacerdote continuou — Regras. Um: qualquer item e equipamento de combate serão válidos, lesionados serão retirados do campo de batalha por nossos seres voadores da Enfermaria: harpias, valquírias, fadas, grifos e meio-seres aéreos. Dois: Táticas de defesas e ataques serão aceitas, após o começo do jogo, todos deverão adentrar o labirinto e só poderão sair ao outro lado, a menos que uma equipe vença primeira. Três: penalizações serão atribuídas a quem carregar o estandarte inimigo. Para os soldados recém-ingressos, mortes não ocorrem a não ser que desejem... Os Clãs estão de acordos.
— Sim, senhor! — responderam ambos os clãs, levantando cajados, machados, etc.
— Ao sinal do bumbo, os jogos délficos iniciarão. — disse Sacerdote-mor, levantou o braço com polegar abaixado, tensão no ar, todo o público em silêncio a ponto de ouvir a batida do coração, délficos: em nível dos deuses. — A Ordem!
O polegar virou para cima e o bumbo revigorou pela quadra, a Ordem Um e Dois do clã adentraram o labirinto. No primeiro corredor, com paredes cobertas por musgos e trepadeiras, o clã cinco se reuniu para tática de combate com o líder Nick Woods.
— Ok, clã, tática de combate Roma Seis! — disse o arqueiro.
— Está falando de mandar um primeiro grupo para frente como distração, depois outro por outro caminho por trás? — perguntou Johanna — Isso funcionaria melhor em campo aberto, como saberemos se nós o encurralaremos? Ou se nossos dois grupos irão se encontrar?
— Alterações — respondeu Nick. — Quatro equipes, uma de Buscadores, dois Ofensivos e uma Defensiva. André, Dakota, Sumar e Atum, são os mais rápidos, são a Patrulha, caso encurralados, se dividam, missão: achar a bandeira a todo custo.
— Por que eu? — perguntei.
— Você corre rápido em situação de perigo, vimos isso em seus treinos. — respondeu.
Não sei se isso era um elogio ou uma crítica.
— Tiberius, Gê, André e Anu, suas magias são excelentes em defesa, principalmente o Grandão. — disse referindo a Gê. — Vocês cobriram esse corredor em defesa a saída.
— Certo, concordaram em uníssono.
— O restante se dividam em dois grupos, Ofensivos, avancem contra os inimigos, e se acharem a saída, liberem caminho para os Buscadores, enquanto eu sou um trunfo...
— O que fará dessa vez Wood? — perguntou Johanna, e começava a acreditar que ambos eram talvez mais que companheiros de ordens.
— Uma surpresa. — sussurrou. — Agora vamos!
O fim do corredor abria em dois corredores laterais; o primeiro grupo ofensivo com Johanna separou para a direita, enquanto seguimos a esquerda, dobramos a direita, uma saída no meio do corredor, o segundo grupo ofensivo com Nick se separou. Os buscadores seguiram em frente.
Três minutos e cinco corredores, foram o suficiente para os primeiros ataques, uma explosão, o meu grupo parou e viu a grande nuvem de fumaça de cor dourada espiralando no ar, vindo ao Leste, outra explosão, mas dessa vez fogo azulado, isso não parecia magia, mas contra-ataque. Continuamos e encontramos o primeiro problema, dois Talurianos, um portando um colete de bombas, retirou uma e atirou em nós.
— Cuidado! — gritaram Sumar e Atum em uníssono.
Joguei-me sobre Dakota, a empurrando ao solo, enquanto uma coluna de fogo explodia sobre nossa cabeça. Então revirei para entender o porquê de não sermos queimados vivos, o poder dos gêmeos opostos; Sumar redirecionou a explosão sobre nossa cabeça, quanto Atum desenvolveu magia oposta e atirou uma nevasca mágica de neve sobre os inimigos.
— Vão! — ordenou os irmãos.
Dakota tirou o meu corpo de cima dela e me puxou por entre uma passagem que se fez na parede durante o ataque da coluna de fogo. Arrastado pela gola da camisa por corredores intermináveis de paredes de pedra e musgo, até que luzes se encontravam em uma saída a esquerda, antes que dobrasse eu a parei.
— Espere! — ordenei — Como sabe que é por aí?
— Visão Lunar, o Sol já se pôs e a Lua está no céu, ela me orienta quando estou perdida. — respondeu. — Os estandartes estão logo à frente!
Não entendi o que ela falava, o céu parecia o mesmo, olhei para cima e continuava com a coloração alaranjada do crepúsculo, então senti que o tempo movia estranhamente parado por dentro do labirinto, algo em minha mente disse que não passava de uma ilusão. Resolvi a seguir então.
Entretanto ou a bússola lunar de Dakota quebrou ou caímos em outra dimensão, por que o que havia a nossa frente não eram estandartes, mas um espaço aberto com uma imensa escadaria em espiral que elevava aos céus. Tinha um ângulo inclinado como a Torre de Piza, olhando de baixo, não sabia até onde iria, é como se tivesse sendo engolido pelo céu.
— Então vamos subir! — disse, dei um passo à frente, mas a própria Dakota me segurou pelo braço.
— Isso não faz parte do labirinto, perdi o contato com o raio lunar, não estamos mais no Solar!
Viramo-nos por aonde vimos, mas já não existia saída, à frente surgiu uma sólida parede do labirinto, então uma voz nos fez olhar a torre novamente, vinha do terceiro andar, um garoto de nossa idade com aparência hispânica e trajando roupas meio vitorianas, meio punks.
— Você é...
— August. — ele saltou de onde estava com um tridente feito de ferro em punhos — August Furgesson. E para subir a torre vocês deverão passar por mim, não conseguirão pegar o estandarte.
— Você sabe onde está o estandarte? — perguntei.
O peso de seu corpo se deslocou de um pé a outro.
— Não, por azar me separei da ofensiva do meu clã, e acabei aqui, não encontrei saída, estava subindo a torre atrás de visão, mas o jogo de vocês acaba aqui. — respondeu, espetando o ar com o tridente.
— Está perdido. — conclui Dakota.
— Não estou perdido. — retrucou.
— E por aonde você veio? — perguntei irônico.
—Eu vim por... — ele apontou a nossa esquerda, para um muro. — Não é possível.
Dakota e eu trocamos olhares, então dissemos.
— Estamos perdidos!
Concordamos em algo, subirmos a torre, algo nos trouxe aqui, provavelmente queria que nos arriscássemos a atingir o topo da construção, uma trégua temporária entre clãs e se as bandeiras estivessem realmente lá em cima, August pegaria a sua e partiria primeiro, se existisse alguma saída.
Mesmo com a inclinação, a escadaria era paralela ao solo e ondulavam em torno da parede central, as paredes opostas eram entreabertas por colunas, então resolvemos não caminhar muito perto da borda com risco de acidente; lembrava uma torre de castelo medieval sem as paredes externas.
August ia à frente tamborilando seus dedos nas coxas, Dakota atrás, constantemente pondo a mexas de seus longos cabelos atrás da orelha e eu atrás; de vez em quando eu olhava para trás e tinha a sensação de estamos sendo seguidos, uma vez jurei ter visto um tentáculo. Seguimos em silêncio por minutos, até que August quebrou o silêncio.
— Então... — disse — Vocês são magos mesmos?
Dakota e eu fizemos uma pequena demonstração, Dakota fez seus cabelos brilharem em prateado lunar e seus olhos ficaram brancos luminosos, enquanto eu soltei faíscas brancas das mãos, até eu mesmo me surpreendi quando minhas mãos entrarem em combustão, chamas brancas que não me queimava.
— Incrível! — disse August admirado.
— E você?
— O que eu?
— Já que estamos seguindo por essa torre há tanto minutos...
Andamos mais alguns andares até que se pronunciou.
— Acho que gosto do que faço no clã Taluriano, ser descendente de Palemon, o argonauta ferreiro...
— Parece decepcionado. — disse.
— Essa conversa pode não sair daqui? — ele perguntou.
Balançamos as cabeças em confirmação. Era estranho ele está despejando confiança em nós, Jack disse uma vez que somos muitos explosivos, e segredos em nossos clãs não são fáceis de ser guardados, pena que eu não caio em estereótipos.
— Como vocês sabem perfeitamente, somente Maaturianos e Tzulirianos saem em combate externo em serviços dos legionários, se Talurianos são convocados, não são para travar batalhas, mas geralmente para fazer discursos de paz, forjar armas e artefatos, etc... — ele disse. — geralmente não podemos testar nossas armas, somente outros clãs, talvez algumas de suas armas seja produto de um Taluriano.
— Mas você está aqui... Usando armas suas! — disse.
— Aqui é diferente, a verdadeira ação está lá fora, no mundo real, é lá que está o perigo, e assim poderei descansar até o Caoslipse.
Dakota trocou um olhar para mim, e soube que nos entendíamos a sua situação. Então senti a sensação de toque em mim e virei para trás, olhando em minha panturrilha havia uma espécie de tentáculo translúcido envolto, mas então desapareceu.
— Tem algo aqui! — disse desembainhando a espada.
Dakota e August pararam, olhando na mesma direção, eu desci alguns degraus, mas não havia nada.
— Talvez você imaginou algo. — disse Dakota. — Aliás, quanto tempo nós estamos aqui?
Nenhum de nós soube responder, então continuamos a subir. Entretanto a situação piorou, subindo por um tempo, Dakota se assustou com algo, disse ter visto uma sombra surgindo do andar de baixo e depois sumiu, mas a frente, August jurou ter visto um ser coberto de tentáculos, corremos para cima, o seguindo, mas ele tinha desaparecido, o som de algo subindo com a gente tornou tão nítido, a espada em minha mão pesava.
Então pela primeira vez vimos o que nos seguia, a criatura era difícil de identificar, ela era meio humanoide, meio besta. Não possuía olhos além de um local que parecia ser a sua cabeça envolta por tentáculos, tinha a cor da pele de um tom azulado, meio translucido. Dois pares de tentáculos eram mais desenvolvidos, como se fosse braços e pernas terminadas em duas garras.
A criatura nada dizia, ele apenas nos seguia, e mesmo com a aparência assustadora, apenas nos seguia, ganhava um tom mais vivo, cada vez mais que subíamos a torre, então um de nós parou de subir, Dakota.
— Não posso continuar! — ela disse.
E não a impedimos, não sei por que, mas estávamos hipnotizados em subir sem parar, deixei Dakota passar por mim sem pestanear, não sei o que deu em mim, mas quando a vi passando ao meu lado, algo estava preso a seu calcanhar, o tentáculo da criatura, que se soltou quando ela desceu.
A criatura grunhiu e chorou vendo Dakota descer, como se lamentasse, eu senti pena, mas não conseguir expressar. Estava hipnotizado em subir e continuei, embainhei a espada, August continuou subindo e parou de tamborilar os dedos na coxa. Tentáculos estavam presos aos nossos calcanhares, sem nos incomodar, o toque parecia ser a penugem das folhas do pessegueiro.
“Marcus!” disse uma voz feminina em minha mente.
“Dakota?”
“Marcus, você deve continuar frente...”.
“O que está acontecendo, eu não tenho controle do meu corpo.” — disse mentalmente. — “E que criatura é esta?”.
“Á Bao A Qu!”. — Dakota respondeu. — “Agora entendi tudo, estamos na Torre da Vitória, um local místico habitado por uma criatura lendária pacífica, o objetivo é que o mais puro e inocente suba até o último piso...”.
“Mas para quê?”.
No exato momento, August, parou no degrau, deu meia-volta e começou a descer, os tentáculos se soltaram, a criatura grunhiu e choramingou. A criatura tinha a aparência mais sólida, seu toque mais tateável, sons e cores mais vivos e nítidos.
“A uma lenda que existe uma recompensa para o mais puro, o que atingir alto grau de pureza, seria o ‘Nirvana’ na religião budista, mas geralmente o homem volta no meio do caminho, e o Á Bao A Qu não pode impedi-lo de prosseguir, quando desiste, a criatura caí do último degrau até o último.” — contou. — “Ninguém tem mais informação sobre o Á Bao A Qu, o que ele torna ao atinge o último piso, mas talvez, eu sei o que tem lá em cima, e não é um estandarte...”.
“Entendi.”
Nós não teríamos saído do labirinto se não por esse motivo, continuei em frente, era claro que uma das espadas se encontrava lá em cima. O corredor se alongava, os degraus estavam cobertos de poeira, como se não fosse pisados há anos, mas então parei no meio de um andar.
“Não!”
“O que houve?” perguntou Helena.
“Me corpo está voltando!”
“Precisa fazer algo.”
“Você disse que nenhum homem conseguiu subir? Certo.”
“Sim, geralmente...”
“Então tenho um plano, mas...”.
“O que você vai fazer?”
“Magia”
Concentrei a mente, pensei em uma força de energia explodindo de mim, um contorno de luz se formou em torno de mim. Á Bao A Qu estava preste a solta os meus calcanhares enquanto choramingava, concentrei todo o mana ao amuleto do Golen, “Matias”, ele reluziu, levitou livremente e cresceu, Matias bateu com a cabeça no teto e teve que se agachar.
— Pai?! — disse Matias inocente.
“Siga em frente e recupere o que foi guardado.” Ordenei.
Não sei se Matias podia me ouvir mentalmente, mas eu já estava descendo e não senti nada me seguindo, Á Bao A Qu continuava subindo, o que significava que ele se prendeu ao golen Matias, no meio do caminho, já tinha domínio ao meu corpo, mas continuei descendo, sabia que não poderia alcançar o topo, muito menos arriscar a subir aqueles degraus de novo. Dakota e August me encontraram na porta.
— O que aconteceu? — perguntou August primeiro — Cadê o estandarte?
— Eu não alcancei o topo.
— E cadê o Á Bao A Qu? — perguntou Helena.
— Seguindo Matias. — respondi. — Não existe ser mais inocente que um homem, do que um recém-nascido.
Então fomos surpreendidos por um brilho azul do topo da edificação, uma explosão de cores mergulhava o céu, como óleo em água, A luz tornou-se mais intensa, cobrimos os olhos com as mãos. Um ser desceu voando dos céus, Á Bao A Qu.
A criatura deveria ter três a quatro metros, tinha uma cabeça rombuda sem olhos, com narinas e boca com presa, em volta da cabeça havia fileiras de tentáculos, dois pares de membros eram braços e pernas com duas garras pontudas que seguravam Matias. O golen descia com um embrulho em mãos e tinha um brilho mágico dourado em torno de si.
— Obrigado, nobre cavaleiro por ter me libertado! — disse Á Bao A Qu a Matias.
Entretanto Matias só teve uma reação, virou-se a mim e correu em minha direção com os braços de pedra abertos e gritando: Papai. Recebi seu abraço apertado, me suspendendo ao alto, foi preciso Dakota o convence-lo a me soltar, antes que quebrasse minha costela, teve dois pontos nisto: 1. Ele me soltou e pude respirar. 2. Matias a chamou de mamãe. Tanto eu como ela ficamos vermelhos de constrangidos.
— Então você deve ser o mestre do golen, a quem serve! — disse Á Bao A Qu — Também lhe devo minha gratidão, quando cheguei ao mundo humano, cai inconsciente e um terrível bruxo me aprisionou a torre, como gratidão, um mago nipônico pode me libertar, mas somente se um coração puro subisse a Torre da Vitória. Agora poderei encontrar meu caminho de volta a casa.
— Não foi nada. — disse. — Seria bom que você pudesse nós ajudar a sair daqui.
— É claro! Agora que tenho meus poderes novamente eu posso...
Silêncio mortal.
Uma ponta resplandecente prateada cruzou o corpo de Á Bao A Qu, seu corpo falhou, a ponta retesou para trás. Dakota gritou de pavor, atrás de Á Bao A Qu havia uma criatura demoníaca, tinha duas bocas num rosto sem olhos, pele escamosa, pernas com casco e peluda e no lugar de braços, havia duas lâminas de metais.
— Vão! — disse Á Bao A Qu machucado ao chão, jorrando ícor azulado.
Como seu último gesto de sacrifício, Á Bao A Qu brilhou em azul intenso, o ar tinha cheiro de ozônio e o ouvido som de estática, espaço e tempo se dobrou, explosão, grito do demônio, fomos lançados para fora do labirinto com extrema força, Matias nos segurou ao ar junto com a espada e amorteceu nossa queda.
— E a equipe Taluriana é a vencedora! — bradou Oris, o Clã Seis saía do labirinto com o estandarte em mão no momento exato que caímos em sua frente.
A comemoração cessou, o Clã Cinco se reagrupou logo atrás, em torno de nós. O Sacerdote percebeu a falta de nós no labirinto e desceu do palanque mágico ao nosso encontro. Levantei-me e ajudei Dakota a ficar de pé, August trazia o embrulho em mão, ele desenrolou e todos em torno arquearam em surpresa.
Nas mãos de August estava a Kusanagi.
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