Notas iniciais
"Somos condenados por ser diferente, coitados, são tão iguais!" O autor. Boa Leitura.

Jack despediu-se, disse ter assuntos a tratar na Ordem Oito e que iria informar a minha chegada ao ancião do clã. A Ten. Blair trouxe do armário de cima um conjunto de artigo de higiene: escova de dente, sabonete, toalha, etc. Orientou-me a direção do banheiro no subsolo, agradeci e disse que sabia tomar um banho sozinho, ela nada disse e apenas soltou um risinho.

— Agora sim, sozinho e em paz. — disse após trancar a porta do banheiro logo atrás de mim, encostei e escorreguei até o chão.

Pus a cabeça entre as pernas e cobri o rosto com a palma, reprimindo o choro; alguns flashes de imagens voltavam à mente: não sei bem onde estava, parecia um corredor apertado, acho que tenho claustrofobia, por que a proximidade do teto e das paredes me estingavam o medo, eu parecia esta fugindo de algo por que eu estava correndo.

Alguém estava segurando minha mão, uma mulher na faixa dos trintas, ela parecia comigo, tinha os cabelos castanhos e tom de pele parda, tochas iluminavam o corredor, a mulher olhou para mim, sua expressão continha medo, então disse:

“Vai ficar tudo bem, meu amor!”. Então a memória se apagou e voltei novamente ao mundo real, ou àquele mundo bizarro, Solar dos Abençoados, eu não me sentia nenhum pouco abençoado. Enxuguei as lágrimas e caminhei em direção a um dos Box de chuveiro.

Quando terminei o meu banho, entreabrir a porta somente pondo minha cabeça do lado de fora, olhei para um lado e para outro, pensei em chamar alguém, entretanto deparei com uma trouxa de roupas limpas e dobradas no vão da porta, recolhi e me troquei.

Sai e subi para o piso superior, eu parecia um garoto das ruas de Nova York, tênis Conserve, camisa com estampa de alguma banda de rock e um casaco de frio por cima, aliás, a noite se aproximou e veio fria.

— Você está muito bonito para um garoto de sua idade. — disse a garota chamada Dakota, ela me surpreendeu sentada em uma das camas, lendo um livro que por acaso estava de cabeça para baixo, movendo os pés para frente e para trás. Estava trajando um vestido simples branco com flores prateadas, ela parecia gosta desta cor.

— Obrigado! — disse. — Onde estão os outros?

— Segundo piso! — Dakota respondeu.

Queria aproveitar o momento para lhe fazer mais perguntas, estava meio constrangido, talvez eu nunca conversei com uma garota antes, então estava um pouco envergonhado. Meu rosto estava quente e provavelmente vermelho, o peso de uma perna repousando sobre a outra.

— Pode se sentar! — Dakota disse.

— Eu não queria incomodar!

— Não está incomodando!

Sentei ao seu lado na cama, cruzei as pernas sobre o colchão como se tivesse meditando, não sei onde aprendi aquela posição, mas apenas fiz. Então criei coragem para perguntar.

— O que mais você sabe sobre mim?

— Não muitas coisas!

— O que você sabe?

— Acho melhor não contar, não seu passado, nem o seu futuro.

— Eu não me importaria de saber de antemão. — protestei.

— Mas eu sim! — disse Dakota, por um tempo desviando sua atenção a mim, depois voltando ao livro.

Futuro! Foram tantas coisas que ocorreram que nem notei sobre as palavras das runas, o que parecia ser uma profecia. Como eram mesmo? Algo sobre amigos, espada de anjo e senhor das lorotas.

— Ok! Se não quer conta então vamos logo à cerimônia e...

Alguns jovens, parecendo ser um ano mais velho desciam as escadas, eles cochichavam e arremessavam bolas de luz um sobre os outros através de varinha, cajados ou mesmo direto das mãos.

— Segunda Ordem, eles vivem nos andares acima, o terceiro e o sótão. — contou, sem desviar sua atenção do livro.

— Segunda Ordem?

— É, depois de uma temporada você conclui seu curso e ganha uma nova profecia, mas geralmente é apenas “Prosperidade no ano” e com algumas palavras de ajudas, eu recebi: “Prosperidade no ano, você se tornará de importante ajuda”. — então largou seu livro sobre a cama — e a sua profecia? Não, não me conte, o Sacerdote-mor irá saber nas boas vindas.

— Profecia?

— Deuses e entidade, você é uma máquina de pergunta. São as mensagens que você recebeu no Grande Deserto, cada Infinito lhe revela como será seu ano a cada ano. — Ela apontou ao meu bracelete de contas— Uma conta, então significa que apenas lhe foi dada uma profecia. Que bom, o Gê é tão bobo que pediu para continuar duas vezes e agora perdeu três contas de profecia.

— Ah ok!

Preferi contar que não recebi nada sobre prosperidade, somente uma mensagem meio maluca sobre anjo, espada e lorota. Então me virei a Dakota, seu olhar parecia mais assustador, sua boca estava aberta como se alguma coisa em mim a assustava.

— O que foi? — perguntei tenso.

— Você carregar algo dentro de você, mas... Eu não posso revelar nada mais. — ela disse se levantando e indo em direção à porta.

Estava preste a levantar, segurar pelo seu braço e pedir que ela me explicasse o que disse, mas ambos nossas ações foram interrompidas pela Ordem um; o grupo descia pelas escadas com as duas tenentes os cobrindo, eles pareciam animados, um som de corneta soou, grave e profundo, e todos ficaram mais eufóricos.

— Cerimônia do jantar, Ordem Um. — comandou e executou a Ten. Blair.

Nós fomos organizados em fila indiana por ordem de chegada, o meio-ogro Gê, ele limpava o nariz com uma varinha feita de galho, tinha uma folhinha verde na ponta, mas ninguém reparava. Em seguida por Susi que carregava seu porquinho rosa, Anu e André.

Dakota pegou minha mão, ela se posicionou atrás de André e eu fiquei atrás dela, não pude deixar de notar que ela parecia brilhar mais intensamente à noite, motivo: não sei. Mas meus sentimentos estavam de olho em outra pessoa, a Ten. Clear que se posicionou em frente à fila, logo atrás da Ten. Blair. Prosseguimos a fora do prédio, o sol se fora, mas um crepúsculo permanecia ao Leste. Logo atrás de nós outra fila nos seguia saindo da mesma porta de carvalho.

Seguimos até a grande catedral.

Até então o local era enorme, o pé direito deveria ter uns trinta ou quarenta metros ou mais. Ela tinha o formato de estrela de quatro pontas, e cada ponta era uma entrada com três portas grandes de carvalho, nas pontas Leste-Oeste existiam duas grandes torres de sino na entrada de cada. Não somente os jovens de seus Q.G., mas cidadãos e seres da cidade vinham de cada canto e reuniam-se como se fosse um grande evento.

Uma multidão estava reunida, oito grandes mesas, quatro em frente e quatro atrás estavam abarrotadas. Várias criaturas ou seriam os meios-seres estavam presentes, existiam pessoas de várias idades, diferentes culturas, diferentes etnias, todas juntas e falando a mesma língua. Pensei haver esquecido o idioma que pronunciava, acho que é o inglês britânico.

Sentamos na primeira da segunda fileira, mesa cinco, o grupo mais colorido e exótico de todos, senhores com barbas coloridas, jovens punks, crianças de cabelos metalizados, um grupo bem seleto. Alguns me cumprimentaram e deram boas-vindas ao clã: fadas, espíritos, dríades, etc.

Todas as outras mesas não se pareciam com a nossa, o primeiro e o segundo eram bem calmos e quase normais se não fosse os centauros e alguns outros seres; o quatro tinha um pouco de excentricidades como ninfas, dríades, náiades e pessoas com aparência de fogo, água, pedra ou feita de ventos.

A sexta era repleto de ferreiros, a sétima de guerreiros e algumas donzelas e o oitavo a maioria eram também seres da natureza, mas estes pareciam mais sérios. Entretanto a mesa que chamou minha atenção foi à terceira, apenas duas pessoas se encontravam nela, todas elas estavam abarrotadas de residentes do solar, menos ela.

— Quem é aquela mesa? — perguntei a Susi sentada ao meu lado.

— A mesa de Nekros, do clã Anubisiano. — respondeu Susi — O Infinito da morte.

— Por que há tão poucos?

— É um agouro possuir muitos necromantes. — respondeu.

Não entendi. O que eram necromantes? Estava preste a pergunta a ela quando um senhor de pele negra, calvo e tendo apenas um cavanhaque no queixo subiu ao palanque central. Ele trajava vestes sociais e lembrava um senhor que punha autoridade se não fosse os olhos de duas cores, um dourado e outro prateado, e uma águia em seu ombro.

Ele bateu com seu cajado ao chão e uma onda de energia invisível se espalhou por toda a sala, todos ficaram quietos e voltaram suas atenções ao senhor. Em posição majestosa, ele abriu os braços e começou a prosar:

— É uma bela noite do dia do Sol que estamos aqui dispostos a reunir nossos residentes da Cidade do Sol, o Solar dos Abençoados. E como todos os presentes, no período mais claro em que o astro-rei incide a Terra, os Infinitos nos abençoam com novos integrantes, como Mestre sênior dos clãs, sem mais delongas, eu me apresento. Oris Griffor, senhor dos clãs, patrono da Ordem, domador das Aves de rapina, descendente de Hórus. Eu sou o Sacerdote sênior abençoado pelos Infinitos e me apresento como Óris Huber, o que ver além de sua visão.

Todos aplaudiram, então aplaudi também. Óris sentou a um trono, o símbolo brilhou em cima de sua cabeça, o comum símbolo do infinito, aquele que parece o “oito” deitado. Estava vestido como um daqueles faraós egípcios, faltando apenas à coroa em forma de pino de boliche, em seu lugar residia uma espécie de diadema fino de ouro. Joias cobriam seu peito exposto, e na cabeceira do trono, diversas aves se reuniam e empoleiravam-se ali.

— Seja ordem! E que apresente os anciões e que eles abençoem os seus afilhados, filhos e irmãos.

Oito senhores e senhoras se levantaram de suas mesas, alguns me chamaram a atenção, na mesa um, uma senhora se levantou, de vestido longo e capuz cobrindo seus olhos, parecia ser cega. Da mesa sete, o homem enorme e bárbaro, grandes músculos seria eufemismo.

Em nossa mesa, o senhor com barba púrpura, e olhos de cada cor assim como Óris, entretanto mais vivos, um verde e outro azul, não, um era vermelho e outro amarelo, espera, os olhos mudavam de cor. Vestia um terno feito de vários retalhos ou era um terno dourado, como ele era confuso.

— Rupert Hotherair. Nosso ancião. — disse Anu a minha frente.

As mesas aplaudiram os anciões, cada um comportou-se a cadeiras-tronos mágicas que antes não estavam ali, e assim como os seus usuários, as cadeiras pareciam refletir a seu estado ou a seu clã.

Alguns eram meio normais como a anciã do Clã Um, seu trono era de mármore branco, tinha o desenho de olho na cabeceira e dois braseiros acessos em chamas em seus braços. Outros eram sinistros como o do ancião do Clã Seis, era feito de metal retalho e enferrujado e rangia com o movimento do ancião, seu símbolo na cadeira era um cérebro no interior de uma engrenagem.

Rupert Hotherair foi o mais sensacionalista de todos, o seu trono flutuava apenas alguns milímetros no ar e estava de cabeça para baixo, ele se acomodou no que seria os pés, reconfortado por travesseiros, o símbolo era uma estrela de oito pontas. O fato se ser de ponta a cabeça, o deixava a alguns milímetros mais alto que os outros, como se estivesse presente para quebrar a ordem. Gostei disso.

— Anciões, meus caros, sejam francos perante a Ordem, apresente o novo legionários! — disse Óris com um grande sorriso ao rosto, mesmo tendo o ar de superioridade, sua alma parecia amigável. — Centaurianos, Arturiliano e Taluriano!

Por ordem talvez de clã, o senhor vestido de túnica longa branca igual aos monges se levantou. Entretanto ele era totalmente ao contrário de um monge, era barbudo, a palmas de suas mãos tinha traços tribais negros, e eu diria que era bastante atlético para um eremita; seu porte lembrava um árabe ou os centauros.

— Apresento-lhes Ramad Bastar! — disse o ancião.

Uma garota se levantou da mesa dois, uma menina de trajes indianos, cabelos negros, pele de oliva, tinha pequenas contas no rosto e os traços nos olhos indianos castanhos claros como o âmbar.

Ramad se posicionou em frente ao ancião, ela deveria ter dez anos como eu, estava tremendo, talvez nervosa. O ancião abriu a mãos sobre o rosto de Ramad e proferiu algumas palavras, névoa se formou e dela surgiu então três grandes senhoras sobre os anciãos.

Estava preste a gritar de espanto, quando Dakota pôs a mão em minha boca, e fez sinal de silencio pondo o dedo em frente de seus lábios prateados. Fiz ok com a cabeça. As três senhoras de névoa disseram algo, mas apenas uma palavra pôde compreender: Airmid.

A senhora do meio abriu as mãos a frente de Ramad, atravessando o corpo de seu ancião que ainda proferia palavras, sem machuca-lo, de sua palma surgiu uma mulher-deusa da floresta; ela tinha um presente à mão e entregou a Ramad, parecia um conjunto de vasilha de madeiras e sacos de sementes.

As senhoras assim como surgiram se desfizeram. O ancião proferiu:

— Ramad Bastar, curadora do Clã Centauriano, meio-ser de Airmid, a deusa celta da cura, das ervas, dos chás! Bem vindo a Legião.

A mesa dois novamente aplaudiu, os anciões aplaudiram, o próprio Óris aplaudiu como se estivesse satisfeito com o resultado. O ancião disse algumas palavras a Ramad, beijou a sua testa e ela voltou feliz a sua mesa, sendo recepcionada por seus companheiros de clã.

Rupert Hotherair, nosso ancião, após o seu companheiro voltar a sentar, se levantou. Ajeitou a lapela do terno, retirou um bastão da manga como mágica, rodopiou e de suas pontas soltou confete.

— Senhoras e senhores, respeitável público, apresento-lhes Marcus Miller! — gritou Rupert apontando o cajado em minha direção.

O clã cinco bateu com as mãos nas mesas e gritaram, foi mais ensurdecedor que a mesa dois. Os outros anciões pareciam desaprovados, o terceiro ancião riu e a primeira nada se expressou. Confetes surgiam por cima de minha cabeça, uma chuva de papel laminado colorido. O próprio Óris não se alegrou e estendeu a mão pedindo silêncio, demorou alguns segundos. As etiquetas do lugar haviam sido quebradas e eu estava gostando mais ainda do meu clã.

Levantei-me e caminhei até o ancião, eram muitos olhos voltados a mim, raiva, frustação, avaliação, nenhum apoio caridoso a não serem as vindas de minha mesa. No meio ao caminho tropecei; todas as outras mesas repreenderam o riso, exceção da quatro e a cinco.

Recoloquei a minha postura e fiquei em frente a Rupert. Sem aviso repentino, suas mãos já estavam em frente ao meu rosto, o tempo parou.

— Olá Marcus! — disse Rupert se abaixando a minha altura.

— Oi! — gaguejei.

Não sabia como reagir, um cara nas casas dos cinquenta, deveria ser o mais jovem entre os anciões. Tinha uma monocelha colorida por uma cor e o ar de felicidade e juventude ao rosto, bastante agradável.

Olhei ao redor, tudo estava lento, por cima de Rupert, outro Rupert em pé estava proferindo algo, assim como houve com Ramad e a sua anciã. A névoa das três senhoras se formavam lentamente, o tempo desacelerou.

— Nesse momento, o tempo está fracionado ao nosso favor, magos como eu e você não podemos fazer isso, mas o que é uma regra quebrada no meu livro do Esílio. Marcus, eu reservei esse momento para lhe dar as boas-vindas lhe dar um recado, você pode interpretar como aviso ou não. — disse, então concluiu — independente das encruzilhadas que você encontrará aqui no Solar, aja com o seu coração, ouça a sua consciência, escute o seu sexto sentido, a intuição.

Pensei um tempo sobre suas palavras e concordei com a cabeça.

— Ok. — disse.

— Certo. — disse abrindo um sorriso. — Aliás, meu nome é Rupert, sou descendente dos magos de circo. Vamos ver o que as Três senhoras têm a dizer sobre você.

O tempo voltou ao normal, a névoa se solidificou as senhoras novamente, calafrio na espinha, nada bom. As Senhoras pareciam mais nervosas, digo, a coloração da névoa estava em vermelho-sangue, ela bradou as palavras.

“Filho de Adão, você tem uma longa jornada para frente”.

“Palavras de amigos estejam em mente”.

“A espada do anjo precisa encontrar”.

“O Senhor das lorotas deve enfrentar”.

“Nas mãos do ladrão negociarão”.

“e a Porta do Caos abertos ou trancados, estarão”. Filho de Merlin.

As palavras da profecia, então era isso que elas falavam a mim, os outros em suas mesas não entendiam, mas eles estavam assustador pela coloração das Senhoras; os outros anciões em seus tronos demonstraram pânico, o próprio Óris se levantou e olhou sério às Senhoras.

A mão de uma das senhoras atravessou Rupert, diferente da última vez, este pareceu que o feriu um pouco. A palma se abriu e surgiu um mago de meia idade com uma grande barba prateada, ele trazia também um presente à mão e entregou a mim.

Não olhei para trás, mas senti a tensão no ar, aquele homem era alguém bastante assustado, pois todos estavam de boca aberta, o que não contrastava com seu olhar, bondoso e receptivo por debaixo de uma armação antiquada de arame e vidro. O mago sumiu.

Uma espada.

As senhoras sumiram em seguida e foi silêncio por alguns segundos.

— Ele é um meio-ser de Merlin. — disse a anciã do clã quatro abrindo um sorriso no rosto.

Notas finais
Mais um capítulo. Beleza, só repetindo o que disse em capítulos, anteriores, se quiser sugerir a participação de alguma deidade, etc, qualquer coisa, pode comentar. Nós vemos em breve.