O murmúrio das ruas de pedra do vilarejo era um ruído constante que Aly Obsidia tentava ignorar. Ajustou com cuidado a borda de suas luvas longas, garantindo que as escamas escuras que cobriam suas mãos e pulsos estivessem completamente ocultas. Em seguida, olhou para baixo, verificando as botas grandes de cano alto que cobriam seus pés pelo mesmo motivo. A pele clara e o corpo magro sob as vestes contrastavam com a natureza draconiana que trazia na carne.

Caminhando a passos lentos e silenciosos, ela inclinava levemente a cabeça para que os fios curtos do cabelo preto-azulado cobrissem o lado esquerdo do seu rosto. Escondida sob a franja estava a transição de escamas e a marcante heterocromia: o olho esquerdo, amarelo de dragão com a esclera negra, e o olho direito, de um azul escuro profundo.

As advertências de seu pai adotivo, Vain, ressoavam em sua mente. Ele a ensinara a viver em segredo e a alertara sobre como os humanos odiavam os dragões — os mesmos seres que Aly secretamente admirava. Por ser dedicada, mas extremamente tímida e reservada com desconhecidos, Aly mantinha o silêncio, motivada pelo constante receio de ser mal interpretada pelas pessoas ao seu redor.

Apesar do estado de alerta, sua mente facilmente distraída logo se desligou da conversa dos camponeses. Um aroma bem familiar capturou sua atenção: o cheiro característico da feira de peixes. Aly adorava passar o tempo perto de rios e lagos, e peixe era sua comida favorita. Guiada pelo olfato, caminhou até a barraca onde o feirante exibia a pesca do dia sobre blocos de gelo.

Enquanto pedia discretamente um pedaço embrulhado, um grupo de crianças do vilarejo passou correndo, empunhando espadas de madeira e brincando de caçar monstros. Aly recuou um passo para a sombra de um toldo, evitando qualquer tentativa de aproximação. Ela sabia que era um ser diferente dos humanos e preferia o isolamento a ter que encarar olhares tortos.

"Não me faça pensar em perder minha família novamente..." — a lembrança do afeto e da proteção de Vain a mantinha firme e cautelosa a cada passo fora de casa.

Ao longe, encostada no pilar de madeira de uma estalagem, Zigg Hannon observava a cena com um sorriso meio bêbado e descontraído, tomando um gole de sua garrafa. Sempre por perto para atender aos desejos de Aly e acompanhá-la, Zigg garantia que ninguém se aproximasse demais com más intenções.

Com o peixe devidamente comprado e protegido em suas mãos glovadas, Aly soltou um suspiro calmo e satisfeito. Ela deu meia-volta, saindo da agitação do vilarejo para retornar ao caminho tranquilo onde o pai a aguardava, feliz por ter passado despercebida por mais um dia.

A caminho da saída do vilarejo, Aly caminhava a passos calmos carregando seu embrulho de peixe fresco com todo o cuidado. De repente, duas mãos fortes cobertas por luvas sem dedos cobriram suavemente seus olhos por trás, e uma voz grave e calorosa sussurrou bem perto de sua orelha:

— Adivinha quem é... ou eu devoro o seu almoço!

Aly deu um pequeno pulo, assustada por um segundo, mas o cheiro inconfundível e o tom descontraído revelaram a autora da brincadeira. Toda a timidez e o estado de alerta que Aly mantinha perto de estranhos desapareceram no mesmo instante.

— Zigg! Você quase me fez derrubar o embrulho! — reclamou Aly, virando-se com um olhar semicerrado, embora não conseguisse conter um leve sorriso no canto dos lábios.

Zigg Hannon deu uma risada alta e gostosa, balançando seus dreadlocks curtos. Seus olhos marcantes, de esclera negra e íris verdes vibrantes, brilhavam com uma malícia afetuosa.

— Calma, escaminha! Jamais deixaria uma iguaria dessas cair no chão — Zigg deu uma piscadela, dando um gole em sua garrafa de bebida. — Especialmente quando você fica tão concentrada e fofa comprando peixe.

Com Zigg ao seu lado, o clima de tensão do vilarejo se dissipou por completo. A altura de 2,12 m e o físico imponente e atlético de Zigg transmitiam uma segurança natural, enquanto sua postura relaxada trazia leveza ao passeio. Como grandes amigas, a dinâmica entre as duas era muito confortável: nada de exageros ou segundas intenções descaradas, apenas uma cumplicidade genuína e divertida.

Conforme caminhavam lado a lado pela trilha de terra cercada por árvores, Zigg colocou as mãos atrás da cabeça e começou:

— Sabe, Aly... você devia pescar mais elogios por aí — disse Zigg, soltando um trocadilho bobo. — Porque você tá nadando na minha atenção faz tempo!

Aly rolou os olhos, soltando uma risadinha abafada enquanto ajeitava a franja sobre a heterocromia.

— Essa foi péssima, Barril. Você tá totalmente fora d'água com essa piada.

— Ah, fala sério! Eu tô fisgada e você nem liga! — rebateu Zigg, dando mais uma gargalhada e fazendo Aly rir ainda mais alto.

Mais à frente, onde a trilha fazia uma curva sob a sombra de um carvalho antigo, uma figura alta as aguardava encostada na madeira. Era Vain Indraht. Com seus cabelos castanhos, barba média e as cicatrizes de batalha espalhadas pelo corpo, ele mantinha a costumeira postura tranquila e atenta.

Ao ver as duas se aproximando entre risos, Vain desencostou da árvore com um sorriso de canto.

— Vejo que a caçada ao peixe rendeu... e que você trouxe uma sombra bem alta e barulhenta junto com você, Aly.

Aly corou no mesmo instante, dando um passo para o lado.

— Pai! A Zigg só... tava me acompanhando.

Vain cruzou os braços, olhando de Zigg para Aly com os olhos castanhos transbordando provocação.

— Acompanhando, é? Curioso como a Zigg sempre parece "estar de passagem" exatamente pela mesma rua que você anda. Às vezes acho que ela gasta mais tempo tentando congelar o mundo pra te ver sorrir do que cuidando dos próprios afazeres.

— Ei! Eu levo meu dever de proteção muito a sério, Velho! — retrucou Zigg, sem se abalar e ostentando um sorriso convencido antes de tomar outro gole da garrafa. — E fala a verdade, a Aly fica muito mais segura quando eu tô por perto.

— Se ficar segura significa ter que aturar piadas de peixe o caminho todo, tenho minhas dúvidas — provocou Vain, fazendo Aly cobrir o rosto com o embrulho de vergonha.

— Pai, por favor! — murmurou Aly, com a pele clara do rosto ficando completamente vermelha.

Vain soltou uma risada fraca, mas logo seu olhar e expressão suavizaram para o tom sereno e protetor de sempre. He deu alguns passos à frente, colocando uma de suas mãos pesadas sobre o ombro de Aly e trocando um olhar de cumplicidade com Zigg.

— Brincadeiras à parte... obrigado por acompanhar ela na feira, Zigg — disse Vain, com uma sinceridade calma. — Fico mais tranquilo sabendo que posso contar com você para manter minha garota a salvo.

Zigg fez uma breve saudação brincalhona, o olhar verde brilhando com determinação:

— Sempre, Vain. Ninguém encosta um dedo na escaminha enquanto eu estiver por perto.

Com a provocação deixada para trás e o sol começando a se pôr no horizonte, os três seguiram juntos o resto do caminho para casa, cercados pelo calor acolhedor daquela pequena e peculiar família.

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