Legados do Fogo

8 VII — Cerúleo


Notas iniciais
Oláaaaaar! Nem demorei, né? Podem me abraçar e me beijar! Na verdade, era pra ter saído o capítulo antes, mas eu fui viajar e atrasei mais um pouquinho. O importante é que o texto está bem grandinho (acho que foi o maior que escrevi até agora) e acho que deu pra recompensar por todos os atrasos e demora! Porém, eu não revisei muito bem o capítulo, então deve ter alguns errinhos por ai. Qualquer erro que vocês encontrarem, me avisem, por favor. Agradeço todos os que comentaram e que deram suas opiniões e surtaram pelo capítulo passado! hahaha Acho que nesses vocês vão sentir um suor másculo descer pelos olhos. hahahaha Ah, eu fiz uma página pra LDF no facebook (pra quando virar livro, quem sabe), se vocês puderem curtir: https://www.facebook.com/legadosdofogo Enfim, não vou enrolar! Boa leitura, amores!

— Nada por aqui também. — Pela milésima vez no dia ele teve a infelicidade de concluir, assim que aproximou a tocha que segurava da madeira da árvore e avistou o símbolo feito por si com uma faca, para que ele soubesse que aquele território já foi inteiramente revirado.

E mais uma vez chegou a mesma sentença das outras vezes: nenhum sinal de Lisara.

Quando ela saiu com suas bolsas, cordas e lhe prometera voltar com sua maçã, algo em seu peito doeu. Mas não aquelas dores comuns que você sente quando corre demais ou faz muito exercício físico, não. Seu coração realmente apertou e se espremeu dentro daquele espaço, como se estivesse lhe avisando de algo, como se... Como se aquilo fosse uma despedida. A emoção e o pingo de fé que existiam em Andrean o faziam acreditar que nada teria acontecido e que sua amiga e que ela provavelmente estaria os procurando também – embora sua razão lhe cutucasse cada vez que ele chegava à conclusão de que nunca mais a veria. Mas, felizmente, Andrean era guiado pela emoção, e não pela razão.

Não podia acreditar que sua amiga estava morta, e toda vez que lhe vinha esse pensamento, ele batia em sua própria cabeça. “Que falta de fé é essa, Andrean? Não confia em sua própria amiga?!” brigava internamente consigo mesmo. Evitava pensar naquelas coisas, e prometeu para si mesmo que faria o impossível, o mesmo que Lisara faria por si se estivesse em situação inversa. Sim, pensava ele. Se fosse ao contrário, ela sequer descansaria até achá-lo. O mínimo que poderia fazer era ignorar todas as suas dores – que não deveriam ser nada comparadas ao que Lisara estava sentindo –, a escuridão que fazia – já que tinha escurecido fazia horas – e continuar seguindo, esperando que uma hora sua busca tivesse resultado.

No final, este era o jeito dele: as dores dos seus amigos sempre se sobressairiam à sua.

— Nada? — questionou Alina, quase em um sussurro, assim que se aproximou dele.

Ela também estava exausta e, ao contrário de Andrean, não tinha tantas esperanças. Estava apenas o acompanhando porque, por algum motivo, algo lhe dizia para ficar perto dele.

— Nem um fio de cabelo — respondeu ele, totalmente desanimado, sabendo que se encontrasse um fio ruivo já seria um chamado dos deuses, tendo em vista que somente Lisara possuía aquela coloração especial.

Uma aberração. Andrean pensou na possibilidade dela simplesmente ter fugido porque, verdade seja dita, era realmente difícil aguentar todas aquelas pessoas a difamando e lhe inferiorizando apenas pela cor de seus fios vermelhos. Sim, aquela coloração nunca antes foi vista em Sactrum, e todos achavam que de alguma maneira, aquilo tinha a ver com dragões, uma maldição e castigo que foi dado para Rheyn – ora pois, coincidência demais uma amaldiçoada nascer filha de um herói. Pelo menos, era isso que diziam. Embora Lisara sempre tenha sido forte e destemida quanto a isso, e ao invés de sair pelos cantos chorando e triste, ela enfrentava a todos que lhe acusavam de ser uma aberração, com seus punhos. Por isso, a maioria das pessoas simplesmente se mantinha longe dela, ou a ignorava. Andrean nunca a viu fraquejar, somente uma vez, que foi quando a conheceu.

Ouvir pelos cantos que a maldição da filha com cabelos bizarros matou o próprio pai e o maior guerreiro que aquele mundo já vira era bem comum. Todos sabiam que não deviam se aproximar dela, e muitos diziam que o herói de Sactrum não merecia tê-la como filha. Naquela época, Andrean apenas concordava e roubava suas maçãs em paz. Até um dia em que, morto de fome por ter conseguido escapar do purê de batatas do refeitório, foi até a dispensa tentar pegar algo pra comer. Foi rápido e ele logo pegou algumas maçãs para mordiscar. Mas antes que pudesse sair, encontrou alguém encolhido no canto, se escondendo. Ele se aproximou, um pouco receoso, e encontrou a menina que tanto falavam.

E ao contrário de todos, ele achou seu cabelo muito bonito, parecia a chama que saía quando acendiam uma fogueira.

— Precisamos encontrá-la logo... — Ouviu o desaforo de Alina, interrompendo seus pensamentos e memórias, o fazendo balançar a cabeça para voltar a realidade.

E perceber que ela tinha razão. Mesmo que estivessem vasculhando, ainda tinham que lembrar que estavam em meio a uma competição, e várias pessoas por ai ainda estavam caçando, matando, e tentando se salvar. Alina não acreditou quando Andrean levantou-se e decidiu que iria buscar Lisara. Ele era tão idiota assim? Era óbvio o que ela iria fazer assim que a loira os deixou a sós. Ela viu o brilho de vingança nos olhos da ruiva, e isso era uma coisa que Alina conhecia bem. Ninguém poderia impedi-la ou pará-la, então tratou de fazer o que costumava: não se envolver.

Cabisbaixo, Andrean andou até uma árvore e sentou-se na grama, colocando as mãos na cabeça e olhando fixamente o tronco retorcido e negro à sua frente. Seu corpo estava ali, mas parecia que sua mente estava sobrevoando todo aquele espaço. Ele costumava fazer isso sempre que precisava se concentrar. Alina torceu os lábios, e viu sua tiara escorregar. Conseguiu ampará-la com ambas as mãos, e então a olhou. Estava toda suja e amarrotada, mas não poderia se livrar de algo que, mesmo tendo um valor tão pequeno para os outros, significava mais que qualquer pedra preciosa para ela.

E olhar para sua tiara a fez lembrar do porquê entrou no exército, e que precisava seguir naquela competição, custe o que custar. A competição era assim e todos já tinham deixado bem claro que morrer era uma possibilidade que ocorria frequentemente quando alguém queria tornar-se paladina. Afinal, as chances de enfrentar um dragão e sobreviver era quase como a de encontrar comida boa naquele território: quase nula.

— Andrean, nós não podemos ficar procurando o dia inteiro. — Tentava de alguma forma dizer, mas ela nunca foi boa em enrolar nos eufemismos. — Você sabe... Talvez ela esteja... Bem, eu só estou querendo dizer que–

— Pode me deixar um pouco sozinho? — interrompeu, porém sem olhar para ela.

Alina se surpreendeu. Não era do feito dele agir dessa maneira, embora o tom que usou – um tom cansado e sobrevoado, como se não quisesse se permitir concordar com ela – não deixou dúvidas do que era para ela fazer: sair dali e permitir que reflita. Alina não poderia deixá-lo ali, é claro. Pelas estrelas, eles tinham acabado de serem atacados dois dias atrás! E ela não sabia se aquele homem perverso – ou seja lá o que fosse – voltaria e atacaria novamente. Porém, também não poderia desistir da competição para se lamentar por um amigo perdido.

Por sua vez, depois de um momento quieto, Andrean percebeu que depois de todo aquele tempo em que Lisara enfrentou a todos, mesmo sendo motivo de chacota, não a fariam desistir. Pelo contrário, ela mostraria do que era capaz. Ela viveria para esfregar na cara de todos que duvidaram de sua capacidade. E por isso ela estava viva, tinha certeza disso.

— A vida é feita de perdas, Andrean. Uma hora ou outra, todos nós vamos ver nosso próprio corpo queimar nas águas cristalinas, enquanto nossa alma é julgada pelos deuses. — Sim, era exatamente isso. Todos tinham o mesmo destino, afinal. Não havia como discordar disso.

— Não — Andrean disse —, há uma coisa que eu não perderei.

— E o que seria? — cerrou o cenho, curiosa.

— O meu legado. — Levantou a cabeça, convicto de suas palavras. — Quando eu perder tudo e até a minha vida, ainda existirá um legado a ser contato. E eu não quero que me vejam como alguém que não acreditou em sua coragem e abandonou seus amigos.

Alina abriu um sorriso sincero e tristonho, mas que não foi visto por Andrean, já que ela já tinha virado as costas e começara a andar para frente assim que ouviu ele dizer a última palavra. Ela não queria ter aquele tipo de legado, mas também tinha que lutar para que outras coisas melhores fossem lembradas de si. Poderia ser um pensamento errado, ela tinha consciência disso, mas seu foco era outro no momento.

Era a decisão dele, e agora ambos seguiriam caminhos diferentes.

Ou não.

— E é por isso que eu não vou te abandonar, também! — Correu para alcançar a loira, e quando chegou ao lado dela, a mesma o olhou curvando a sobrancelha. — Só me deixe procurar mais, tenho certeza que vou achar algo! — disse com os olhos suplicantes.

A mão dela foi até a cabeça e ela a coçou, meio desconfortável. Não era acostumada a receber esse tipo de tratamento, e muito menos alguém a chamá-la de amiga. Evitava esses tipos de contatos, mas sabia que com o Andrean seria impossível evitar qualquer afeição. Ela suspirou pesadamente, e isso foi um sinal para que ele soubesse que seu pedido seria atendido.

— Você se anima bem rápido — comentou ela, enquanto seguia em frente. Andrean soube que aquele era o jeito dela acatar com a decisão.

— Eu só tento pensar positivo. — Deu de ombros. — Você deveria fazer isso de vez em quando também, sabia?

Ela deu um riso sublime e bem baixo. A vida a tinha ensinado que não deveria criar expectativas em situações como aquela. Mais cedo ou mais tarde, ele também iria aprender.

— Quem sabe um dia.

Névoa estava se formando, e ela percebia isso mais claramente à medida que caminhava a dentro da floresta. Vez ou outra tinha que afastar de si um galho, ou pular por um tronco que fechava seu caminho. Porém, naquela parte, estava totalmente livre, como se a floresta quisesse que eles seguissem em frente, dando espaço suficiente para que eles passassem sem problemas. Mas o mais estranho e o que deixava interrogações em suas cabeças – na verdade, só na de Alina, pois Andrean era bem desligado e só buscava um sinal da sua amiga ruiva – eram os galhos quebrados. Como se algo relativamente grande tivesse passado por ali.

Andrean, após alguns – vários, na realidade – minutos, também notou que o caminho estava livre demais e não deixou de fazer um de seus comentários super atrasados.

— Que maravilha! Parece até que está querendo mostrar o cam–

Ele foi calado com a palma da mão de Alina, que fechou instantaneamente a boca Andrean, e quando ele estava prestes a reclamar, ela levou o indicador da outra mão até a boca, fazendo sinal de silêncio, e depois o apontou para frente.

O que viram fez a boca de Andrean continuar aberta assim que Alina desfez o toque. Estavam mais ao norte, e o que tinha a frente era um punhado de rochas que não pareciam estar ali anteriormente, pois interferiam no curso de uma cachoeira e ainda havia alguns pedaços que eram afetados pela ação da gravidade, como se algo tivesse as feito cair. Era realmente uma “montanha” de pedras, em questão das tantas que havia ali. E em meio de tantas pedras, havia uma coisa caída no chão, apenas iluminada pela luz do luar: uma espada. E Andrean conhecia bem em especifico aquela lâmina.

Ele não esperou um segundo sequer e Alina sequer pôde alcançá-lo quando ergueu o braço para impedi-lo. Não, seu corpo não poderia esperar para o que sua mente ansiava em descobrir. Não deu importância para a água em seus pés, que invadiam suas botas à medida que tentava caminhar e fazia força contra a correnteza. Estava tão feliz que mal se deu conta de que havia alguém fora ele e Alina naquele ambiente. Porém, antes que conseguisse alcançar a espada ou até mesmo a margem do pequeno rio, acabou escorregando no musgo das pedras e caiu na água, tendo a visão panorâmica e finalmente notando que havia uma companhia inusitada e indesejada quando seu corpo quase foi atingido por uma lâmina, e, se não fosse por ele ter escorregado nas pedras, certamente metade do seu corpo já estaria cortado e sangrando.

Um garoto estava bem próximo de si, e pelo jeito tinha tentado dar uma investida contra seu corpo, já que estava com seu machado fincado no lugar para onde Andrean iria se o musgo não existisse ali. Percebendo a sua atual situação e com o cérebro raciocinando que se não fizesse nada receberia mais um golpe, ele tentou dar um chute nas pernas do garoto, mas é claro que isso de nada adiantou. O garoto – cujo Andrean sequer reparou nas feições antes de erguer-se e buscar por sua adaga ou qualquer arma que lhe ajudasse – tirou seu machado do chão, pronto para usufruir mais uma vez dele, e não errar novamente.

Andrean esperou a dor vir e se culpou por ter sido tão precipitado, mas o machado nunca desceu para matá-lo, e sim encontrou-se com a lâmina da espada de Alina, que veio em proteção do seu amigo. Assim que ambas se chocaram, a mulher não perdeu tempo e colocou força nas suas pernas enquanto seu pé ia de encontro à barriga do garoto, que acabou se desiquilibrando e cambaleando até quase cair. Esse tempo foi o suficiente para que Andrean levantasse e conseguisse achar em suas vestes uma pequena adaga. Mas não precisou usá-la. Quando o garoto, com o rosto tomado por fúria, se levantou e tentou acertar Alina pela lateral, a agilidade dela ainda era algo que podia-se gabar, e o desvio foi preciso e rápido, dando tempo ainda dela dar um giro – enquanto ele estava ocupado demais tentando frustradamente erguer o machado novamente – e deu-lhe um chute bem nos glúteos, fazendo com que o rapaz fosse de boca em direção à uma pedra da represa.

Andrean observava toda a cena com o queixo caído, tão surpreso que até deixou a sua adaga cair e ser levada pela correnteza.

Nunca ficou tão feliz em estar na companhia de alguém como naquele momento.

— É isso o que acontece quando alguém tenta empunhar uma arma mais pesada do que seu próprio peso. — Sua voz saiu ríspida e orgulhosa.

Andrean lembrou-se de quando tentou empunhar um machado como aquele. Realmente, não queria estar no lugar daquele garoto e agradeceu mentalmente por Lisara tê-lo feito desistir da ideia.

Enquanto Andrean fazia o favor de ir até a lâmina com pressa, Alina preferiu dar passos à frente e virar o corpo abatido do garoto, que já começava a reclamar de dor e se mexer atordoado. Ela pegou-o pelo casaco de couro com pelos que ele usava e usou sua força para virar seu corpo inteiro naquela pedra, que era grande o suficiente para caber um ser humano inteiro. O nariz dele estava aparentemente quebrado e o líquido escarlate escorria até sua boca. Assim que viu a claridade de novo, ele cuspiu sangue, mas Alina colocou o pé sobre o peito dele e ergueu seu rosto um pouco com as mãos.

— Quem é você? — A voz era autoritária e dava pra notar que ela não estava brincando.

— Uma mulher? — Parecia caçoar do fato dela não ter o que ele tinha entre as pernas, aparentemente ignorando quaisquer questionamentos vindos dela. — Eu não posso ter perdido para uma mulher!

Ela se surpreendeu com as palavras dele e chegou a corar de raiva.

Ela mordeu o interior de sua bochecha, evitando descontar toda a raiva que sentiu por ele zombar do fato de uma mulher lutar melhor que um homem. Ela pegou sua espada e apontou para a garganta dele, mas desceu e foi até um pouco abaixo de sua barriga, bem no ponto que começou a fazê-lo suar frio e se arrepender de suas palavras.

— Como ousa? Você tem noção do que eu posso fazer aqui? — Sua voz era calma e caprichosa, quase um deleite para seus próprios ouvidos, mas uma assombração que jamais sairia da cabeça dele: doce e mortal. Ela encostou mais ainda a espada naquele ponto enquanto voltou a falar: — Agora, vamos tentar de novo. Quem é você?

— Você não sabe com quem está falando! — gritou ele, enquanto deixava sangue sair de sua boca e mostrava seus dentes escarlates.

Estava tentando não perder a paciência. Para ela, não importava quem ele era. Ele mesmo, não sabia quem ela era. A raiva emergiu dentro de si e apertou mais a espada contra a parte íntima dele, fazendo-o grunhir. Pelo jeito que falou, deveria ser filho de algum dos oficiais daquela sede de treinamento, ou de algum nobre.

— Isso mesmo, seu burro, é o que ela está querendo saber. — Andrean se aproximou, já sem paciência, levando consigo a espada de Lisara, já em suas mãos. — Se não responder, pode se considerar um eunuco.

Assim que o garoto viu o objeto que Andrean segurava, sentiu seu corpo ficar mais gélido do que quando Alina apertava cada vez mais a ponta afiada da lâmina contra suas bolas. Não podia acreditar! Então aqueles eram os amigos daquela garota? Parecia que sua sorte estava aumentando drasticamente, embora ainda estivesse um objeto pontiagudo em partes indesejadas.

— C-como... A espada... — ele gaguejou, e Andrean o olhou com uma sobrancelha erguida.

Andrean e Alina se entreolharam, e uma ponta de esperança surgiu mais uma vez no coração do pseudo-vegetariano. Seria uma pista de Lisara? Aquele garoto parecia assustado – tinha motivos, é claro, Andrean entendia isso – mas queria quantas informações fossem necessárias para encontrar sua amiga. Alina assentiu com a cabeça para ele, afrouxando a mão que segurava a lâmina contra o garoto.

— Você conhece isto? — Andrean ergueu a espada para que ele pudesse observá-la melhor.

O outro engoliu seco, e internamente sorriu. Se aquela espada era mesmo de quem pensava que era, e parecia que eles a estavam buscando, nada como conseguir o que queria por meios melhores, e ser uma pessoa boa com certeza era o modo mais fácil de conseguir o que desejava. Ele assentiu com a cabeça, enquanto colocou as mãos para cima, em forma de rendição. O teatro havia acabado de começar.

E então ele olhou para Alina, abaixando um pouco a cabeça como força de perdão, embora internamente ainda a estivesse chamando de loira vadia e imunda, além de pensar em como convenceria seu pai a tirá-la do exército. Talvez o mesmo que faria com Lisara após fazer com ela o que não conseguiu antes por pura desobediência e petulância daquela ruiva maldita.

— Eu sou Madoc Sieghart. Eu vi a sua amiga e quem fez isso, e vou ajudar a achá-la.

* * *

— Olhe quem veio me fazer companhia... — O sorriso perverso cresceu de canto a canto, enquanto os olhos fixaram na imagem assustada da garota. Podia sentir o cheiro de medo impregnando em suas narinas, e ele adorou aquilo. — Estava com saudades?

A saliva não descia da garganta de Lisara. Ela não queria acreditar. Todos os seus sentimentos mais ruins a fizeram sentir ânsia de estar no mesmo cômodo do que era pra ser seu assassino. Era aquele seu castigo, afinal? A tinham salvado de uma morte que não sentiria tanta dor como agora, em um lugar onde ele poderia torturá-la e fazer o que quisesse com seu corpo? Não queria aquilo. Não poderia! Sabia que aquela espécie maldita poderia ser ruim, mas aquilo infringia tudo que era humanitário. Mas não poderia esperar isso de alguém que não sabia o que era humanidade e que apenas queria destruí-la.

Amaldiçoava Ragh. Se culpou de olhar nos olhos de Aghna e pensar que ela era, de alguma forma, boa. E Oleg, bem, ela não gostava dele desde o começo.

Seu corpo escorreu na parede e ela não conseguiu responder, sentindo gotas gélidas escorregarem de sua testa quente. Mas tinha que falar alguma coisa; qualquer coisa. Mesmo na hora do seu fim, jamais se manteria calada. Os olhos amarelos ainda podiam ser vistos, por mais que a escuridão fosse a única coisa que existia naquele cubículo, Lisara sabia que ele estava lá, a espreitando, e que ele sabia que ela estava com medo. Eles sentiam isso, é claro. Mas ela estranhou o fato dele não ter se aproximado, nem se mexido. E talvez isso despertou um pouco de fogo dentro da ruiva.

Lisara tomou coragem para pelo menos dizer e mostrar que ainda havia coragem em si, além de dignidade.

— N-não... Você não pode... — De sua boca só saia meias palavras, mas quando Lisara notou que gaguejava, tratou de levar a mão até a boca, evitando que qualquer outro miúdo escapasse.

— Tirarem a minha caça e ainda a colocarem no mesmo cômodo, onde eu não posso matá-la, a centímetros de mim... — começou o dragão em um tom pastoso, mas ao mesmo tempo maquiavélico. E depois concluindo em uma voz cômica, como se tirasse sarro de sua própria desgraça. — Estão mesmo querendo me provocar.

Sua sobrancelha se curvou e ela picou uma, duas, três vezes. Seu corpo relaxou no mesmo segundo em que ela ouviu seus dizeres: não poderia matá-la. Mas ela ficou em dúvida: por que não? Ragh esperava que ela ficasse ali morrendo de medo de ser morta? Mas então, ela pensou em outra hipótese: Se ele não podia matá-la, ela o faria. E faria isso com todo o prazer que poderia. Ela encostou as mãos na parede e apoiou-se nela para levantar-se, mas não conseguiu. Seu corpo doía muito, e cada parte dele implorou para que ela ficasse no lugar. Teria que esperar uma próxima oportunidade.

Eram várias dúvidas na cabeça da garota. Por que estavam a perseguindo? Ela não conseguia entender. Raciocinava e tirava todas as possibilidades, mas não sabia de nenhuma chave e nenhum motivo aparente para dragões a perseguirem. Ela não tinha uma habilidade anormal, sequer era boa na espada. A única coisa que possuía e que eles poderiam querer estava em seu laço de sangue com seu pai. Mas mesmo assim, por que iriam querer tirar sua vida? Vingança? Eles já haviam matado Rheyn, e Lisara não parecia nenhuma ameaça como seu pai foi.

— Por quê? — questionou automaticamente Lisara em uma voz baixa, como se sentisse vergonha e raiva de dirigir a palavra para alguém como ele. Na verdade, no mesmo segundo que falou, se arrependeu de ter começado.

— Está querendo dialogar com alguém que está tremendo por sede do seu sangue? — Ele riu. Quase uma gargalhada rouca e sem humor nenhum. Ele estava claramente achando graça da estupidez dela. Mas depois, ele cessou, voltando ao seu tom frio. — Não sei pensei que falharia em matar alguém como você. E agora, isso vai custar minha existência.

Antes que Lisara pudesse contradizê-lo e perguntar o porquê – embora duvidasse que faria isso, já que seu orgulho era um grande pesar em sua personalidade –, ela ouviu uma terceira voz soar naquele cômodo, e todos os seus pelos arrepiaram-se.

— Eu posso te escutar a quilômetros de distância, Thar-kiel. — Ragh estava do outro lado da parede, e alguns barulhos estranhos foram ouvidos depois da frase, mas sua voz estava mais assustadora do que antes. — E se me lembro bem, e tenho a memória muito boa pra esse tipo de assunto, eu disse pra você ficar quieto.

— Eu só devo obediência a um ser. — Mesmo não podendo ver claramente, Lisara conseguiu perceber o tom de escárnio e desafio na voz do dragen.

— Ficar quieto e obedecer não é bem uma opção pra você, mas já que prefere escolher o caminho mais difícil, que seja.

O cômodo ficou mais quente, e algo azulado clareou, por milésimos de segundos, todo o cômodo. Raios pareciam sair da mão de Ragh, que segurava Thar-kiel pelo pescoço. Alguns lampejos deram a visão necessária para que Lisara observasse tudo e mantivesse-se calada. Logo tudo ficou negro novamente e a garota ouviu um corpo ser deixado no chão e os passos lentos de alguém vindo em sua direção.

— Vamos, precisamos conversar. — Ragh foi até ela sem nenhuma dificuldade aparente pelo escuro e lhe estendeu a mão. Mas logo lembrou-se que ela não podia ver um palmo à sua frente e tratou de segurá-la pelo braço.

— Me largue! Eu prefiro ficar aqui! — Ela tentou permanecer parada no lugar, mas era incrivelmente difícil e impossível relutar contra a força dele. Era absurdamente maior.

— Você não tem o direito de preferência — disse ele, e tentou ser o mais delicado possível ao trazê-la para a porta. — Mas faça silêncio, sim? Sei que Oleg irá me importunar amanhã, mas ele terá que entender. E você também.

Não estava entendendo nada, mas simplesmente ficou quieta ao subir as escadas de momentos atrás. Ao sair pela porta, seus olhos não precisaram se acostumar com a típica escuridão. As chamas das velas já tinham sido apagadas, e o lugar só era iluminado pela luz da lua, que parecia mais próxima. Eles caminharam e saíram daquela pequena construção improvisada.

— Seu Pégaso está a um quilômetro daqui, perto daquelas árvores. — Ele apontou em direção ao norte e a soltou.

Quando ela se sentiu livres daquelas mãos e daquele olhar, pareceu que parte de si se desfez, e ela ficou confusa demais para dar sequer um passo. Sua expressão era atônita, olhando o dragen como quem queria alguma explicação. É claro que queria ir embora, sair logo dali. Mas havia tantas respostas que gostaria de ter, tantas perguntas em sua mente, que uma parte de si a fez repensar antes de começar a correr na direção que Ragh havia apontado.

Mas e se aquilo fosse somente um truque? A esperança é um desejo atávico que acompanha os homens, ele poderia simplesmente estar criando alguma esperança nela, para depois destroçá-la. Ela se afastou, correndo um pouco, tentando ver se aquilo era algum tipo de teste e ele a mataria se ela realmente tentasse fugir, mas ele apenas continuou parado, colocando as mãos nas costas e olhando para ela.

Não compreendia. Por que ele estava fazendo aquilo?

— Vai me deixar ir? Assim mesmo? — ela perguntou. — A chave que está comigo não é assim tão importante mais pra vocês? — Sua voz estava calma, e cheia de dúvidas. Ela mexia os braços, tentando mostrar a confusão em sua mente.

Ragh deu um longo suspiro, pensando em como aquela humana era difícil, e ao mesmo tempo tão previsível.

— Você é uma humana orgulhosa, teimosa, insistente, birrenta, e estúpida. Não vai dizer nada e nem nos entregar nada se não for por vontade própria. Então, por que prendê-la aqui? Disse que não tiraríamos nada de você à força, e não o faremos. — A cada frase, ele dava um passo em direção à ela, pausando um pouco as palavras para que ela entendesse bem. — Você é livre para ir, mas se for, se arrependerá. Se nos ajudar, estará se ajudando. Além de todos nós ganharmos com isso, você também terá respostas para todas as suas perguntas, e poderá salvar esse mundo e o nosso. Por isso você é a chave. Há seres que não querem se salvar, desejam apenas a destruição. E você também abrange poder para esse fim. E por isso que, se você decidir sair daqui, certamente morrerá.

Quando ele acabou de falar, estavam novamente a uma curta distância. Muito curta e muito próxima, na opinião de Lisara. Mas ela não se importou. Pela primeira vez, encarou aquela íris de um cerúleo tão cristalino que chegava a ter uma coloração um pouco lilás – diferente e tão bonita que poderia ficar ali a noite inteira apreciando o universo daqueles olhos –, e viu sinceridade. Mas como conseguiria ver isso em olhos de... monstros? Não sabia, não queria entender, mas aquele olhar transparecia isso. Ela entendeu naquele momento que, por mais que eles fossem dragões, até mesmo animais podiam transmitir esse tipo de sensação, e talvez ela julgou-os por uma minoria avassaladora. Lisara não sabia o que pensar ou o que fazer. Não sabia no que acreditar: nos seus instintos, ou no que ele dizia. Como confiar em algo que a vida inteira foi treinada para desacreditar e matar? Será que tudo não passava de uma ilusão? Que ele apenas a estava manipulando?

— Eu quero um dia para pensar — disse, aproveitando que o teste terminaria só depois de amanhã – já que passara da meia-noite – quando o sol nascesse. Mesmo que ela já não tivesse chances de vencer, já que seu cristal foi perdido e quebrado.

Ragh ergueu uma sobrancelha, mas concordou com a cabeça.

— Eu concordo, contanto que você se banhe antes, porque...

— Eu já sei, já sei. Meu cheiro está horrível, você já disse isso. — Ela disse, enquanto virava as costas e já voltava para a porta. Queria dormir, descansar, e principalmente, pensar.

— Sim, como o de um trasgo. — Ele completou, e deu um sorriso debochado.

Ela fechou o punho, contando até três para não se irritar mais ainda. Por que ele fazia tanta questão assim de irritá-la? Deveria achar engraçado, e certamente não era. Com fúria nos músculos e pronta para dar mais um soco e dessa vez deformar a cara daquele maldito e gritar com ele, ela se virou bruscamente.

— Se você repetir isso de novo, eu juro... — Mas antes que conseguisse completar, ela percebeu que Ragh havia sumido.

E em seu lugar, no chão, estavam apenas seu colar – aquele que seu pai lhe dera e ela sempre usava – e uma simples e singela maçã de um cerúleo claro; a mesma cor dos olhos de Ragh.

Faltam dois dias para o fim do teste.

Notas finais
E aaaaai? 8D Gente, eu não revisei muuuito o capítulo como costumo fazer, então se tiver alguma coisinha errada, me deem um toque nos comentários. E me falem também o que acharam da atitude do Ragh e do novo personagem (que na verdade não é novo, só ganhou um nome). DIA 9 DE JULHO É MEU ANIVERSÁRIO, PODEM ME DAR COMENTÁRIOS COMO PRESENTE.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.