Legados do Fogo
7 VI — Riscos
Notas iniciais
O pesar daquelas palavras tiveram efeito rápido e imediato. A paralização dos músculos deveu-se principalmente ao recordar daquilo que estava procurando na floresta, e da busca do dragão de olhos amarelos. Ele estava procurando Lisara porque achava que ela tinha algo valioso. E agora, este Ragh lhe diz que ela possui a chave para levá-los para... casa? Mas que maldita casa?! Desde que aprendera, dragões eram criaturas que só traziam o caos e a carnificina aos cidadãos de Sactrum. Devastavam tudo o que encontravam e surgiram das trevas, quando um outro Deus quis se sobressair entre Noir e Ymir – o deus do sol e a deusa da lua. Eles não tinham algo para chamar de lar. Não havia família ou algo parecido com tal. Lisara sequer entendia como eles nasciam!
Eles mataram seu pai. Jamais se afeiçoaria à criaturas como aquelas. Seu dever era matá-los, somente. Mas naquela situação, não sabia distinguir quem era a caça e quem era o caçador.
Para ser sincero, Lisara estava tremendo. Estava sozinha em um lugar com três criaturas que com um sopro poderiam extinguir quaisquer resquícios de vitalidade daquele lugar. Então por que eles estavam conversando? Tentando debater de alguma maneira? Sendo... gentis? Não seria melhor tê-la deixado virar comida do dragão que a atacara na colina na floresta? Só de relembrar, Lisara fechava os olhos e sentia suas pernas tremerem. Mas acima de tudo, tinha seu orgulho. E este era um dos fatores que a impediam de olhar diretamente para os olhos de qualquer um ali e ser ignorante tanto quanto podia.
Além do fato de estar com fome. Muita fome. Mal tinha comido antes dos oficiais lhe pegarem de surpresa e a colocarem naquela floresta. E lá, sempre tinha que avaliar se as frutas que pegava para digerir estavam envenenadas ou não. Qualquer descuido seria sinônimo de morte, mas sua má nutrição naqueles dias também poderiam ser um fardo enorme. Seus membros doíam e tentou relaxar seus músculos, mas era praticamente impossível. As mãos suavam e tremiam de medo, mas ela tentava esconder aquilo de qualquer maneira. Não poderia se mostrar vulnerável. Não para eles.
Por um momento, pensou que o dragão branco iria finalmente dar fim à vida dela quando esta ia se levantou, ameaçando ir contra ele. Mas antes de completar o ato, ela pensou melhor no que ele tinha dito. Não se recordava de nenhuma chave. Ninguém possuía chaves ou qualquer objeto similar nos campos de treinamento.
— Vocês estão com todos os meus pertences — disse ela, dando a ideia de que não tinha o que queriam. — Se vocês não acharam chave, é simplesmente porque não tenho nenhuma!
E por mais que ela dissesse, o dragão continuava a encará-la, como se não estivesse acreditando em suas palavras. Mais uma vez, ele disse, petulante e em bom tom:
— Só você ainda não a encontrou, vai encontrar. Só nos resta esperar.
Que ideia absurda! Pensou ela. Como eles podem dizer com tanta certeza que se ela não tem a chave agora, um dia terá?! Lisara não se aguentou. Uma ira passou por seu corpo, subindo à espinha e lhe fazendo dar um longo suspiro, pegando todo fôlego que podia. Sabia que seus ataques de raiva poderiam custar sua vida, mas naquele momento, a ideia foi a última coisa que lhe passou na cabeça.
— Vocês só estão querendo me usar. Acham que sou idiota? — Neste momento Ragh contraiu os lábios, como se concordasse, o que só adicionou em sua fúria. — Não tenho chave nenhuma, e mesmo se tivesse, nunca daria para criaturas como vocês, que merecem apodrecer na desgraça! — Ela realmente falou aquilo com todo rancor que podia ter.
Quando o dragão mostrou-se em silêncio diante das afirmações, Lisara respirou fundo e cuspiu aos pés de Ragh – mesmo que não houvesse saliva o suficiente para fazê-lo, já que sua boca estava tão seca que poderia jurar ter areia em sua língua –, mostrando todo o desprezo que sentia. Infelizmente, ela acabou mirando no lugar errado.
O dragão branco olhou as penas manchas de saliva em sua blusa como se aquela fosse a pior coisa que tivesse visto em toda a sua existência. Ele fechou os olhos com força, aparentemente se controlando. A próxima a prender a respiração foi Aghna, que colocou a mão na frente da boca, aparentemente abismada com a atitude de Lisara, que a olhou com os olhos cerrados.
— Está olhando o quê? Aposto que já fez coisas bem piores! — exclamou enquanto virava o rosto para ela, mas com a voz um pouco mais baixa do que anteriormente.
A mão da morena desceu para seu coração e sua expressão era de pena, ou talvez de culpa. Lisara não conseguiu decifrar muito bem no momento, já que Ragh a interrompeu. Ele aparentemente tinha perdido a paciência com aquilo.
— Chega. — Ragh levantou-se e foi até uma das prateleiras, e quando Lisara tentou virar-se para poder vê-lo, ele tinha pegado seus pulsos e amarrado na cadeira. Ela não tentou resistir e mesmo se o fizesse e não quisesse admitir, a força dele era bem superior. — Você é simplesmente incontrolável.
— O que diabos está fazendo?! Você disse que eu não era uma prisioneira! — Tentou reclamar, pois era a única coisa que poderia fazer naquela situação.
— E não é. — Amarrou firme e deu o último laço, para que ela não conseguisse soltar-se, e encarou-a com ambas mãos na cintura. — É pro seu bem.
— Pois eu imagino que seja pro seu bem — desafiou-o quase em um murmúrio, olhando fixamente para a obra de arte que ela havia feito em sua bochecha: um hematoma vermelho dos feios.
— Isto? Não foi nada. — Suspirou ao dizer, passando a mão sobre o machucado suave que estava em sua face. — A forma humana que é fraca demais. Mas, se você fizer uma dessas coisas de novo, eu posso acabar me descontrolando também.
Assim que Ragh disse as últimas palavras, ouviu um barulho vindo de fora. Ele levantou-se na mesma hora e Lisara parou para prestar atenção no que poderia ser. Depois de alguns segundos de suspeita, ouviram um pedido de socorro. Parecia ser a voz de Oleg. E Ragh se moveu tão rápido que os olhos de Lisara não conseguiram acompanhá-lo. Segundos depois – que pareceram uma fração deles – Ragh havia voltado.
— Como um pégaso conseguiu chegar aqui? — ele questionou olhando para Aghna, que ergueu os ombros, mostrando que também não sabia.
Demorou alguns segundos, mas Lisara se deu conta do que falava e seu corpo mexeu-se sozinho, dando um pulo, mas sendo impedida pelas amarradas, que a machucaram, mas no estado que estava, pouco de importou.
— Baldo! Baldo está aqui?! — ela basicamente gritou, respondendo à pergunta do dragen.
— Se acalme! — Ragh foi ainda mais sério, não queria que ela se descontrolasse de novo. — Você sabe como ele conseguiu chegar aqui? Se alguém o seguiu?
— Ele deve ter ouvido os gritos, não sei. Ele sempre teve um instinto muito forte para me achar... E ele não deixaria ninguém segui-lo, ele é arredio e muitas vezes fugiu da cela sem ninguém perceber, e...
— Que seja. — Bufou, sabendo que ela não estava mentindo.
Naquele momento, ela não raciocinou. Seu pégaso estava ali! Baldo, um dos seus mais preciosos amigos, estava ali! Eles iriam matá-lo! Não prestou atenção no que o dragão estava dizendo, apenas recordando-se dos ensinamentos que lhe passaram: dragões eram carnívoros.
— Não façam nada com ele! Se fizerem... eu! — Ela continuava a se remexer na cadeira, tentando se levantar. — Eu vou matá-los! Não importa como, eu vou...!
— Nos matar? — Ragh ergueu uma sobrancelha, e uma ponta de um sorriso dançou nos lábios dele. — "Matar" ganhou um novo significado e eu estou desatualizado da língua de vocês, humanos? Ou você só está tentando ser engraçada?
A respiração de Lisara estava descompassada pela raiva e o medo que sentia. Estava tão vermelha e queria tanto matá-lo que estava quase deixando lágrimas de rancor caírem por seu rosto – mas não daria o prazer daquela visão para ele. Porém, assim que forçou pará-las e se mexeu para tentar se soltar das amarras, sentiu uma dor incessante em sua coluna, fazendo-a dar um pequeno gemido de dor, mas que foi muito bem ouvido por Ragh.
— É melhor você se tornar mais cuidadosa, antes que acabe quebrando três costelas de novo. — Ela olhou diretamente para ela, não aumentando um decibel sequer do tom da voz, continuando com a expressão serena, mas desafiadora aos olhos de Lisara. Quase podia ver aquele dente mais afiado que se destacava em seu sorriso brincar novamente nos lábios dele.
Seus olhos estavam vermelhos, e ela mostrava os dentes. Não iria implorar para eles de jeito nenhum, mas jamais iria querer ver seu animal morto. Era como sua família, o único que havia restado.
— Não! — gritou. — Eu quero vê-lo. Vocês não podem fazer mal a ele! A ele não! Façam o que quiserem comigo, mas deixem o Baldo em paz!
O dragen a olhou com a sobrancelha franzida. O que ela estava pensando? Era uma das humanas mais estúpidas que já teve o desprazer de conhecer.
— Não faremos mal a ele se ficar quieta e se acalmar — disse, tentando acalmá-la, e foi até lá fora. No mesmo minuto Lisara relaxou os músculos, embora sua aparência ainda estivesse devastadora. Ragh virou-se e olhou para fora. — Oleg, cuide dele.
— O quê?! Você está louco? Ele não vai obedecer ninguém a não ser a humana infratora! — Ouviram a voz lá fora, baixa, embora tivesse ficado claro que ele estava gritando e se sacrificando para acalmar o pégaso.
Mas Ragh tinha uma carta na manga.
— É uma ordem. — E foi o necessário para que Oleg franzisse o cenho e aceitasse, mesmo não querendo. Mas, antes que ele pudesse realmente aceitar, Aghna tocou suas mãos no ombro do Ragh, e ele instintivamente olhou nos seus olhos, e compreendeu, respondendo-a em bom som. — Tudo bem, se é o que você quer, faça.
Sem dizer uma palavra, Aghna foi para frente de Lisara e a olhou com seus olhos verde-água. Reparando de perto, aquela morena tinha as íris mais belas que ela já vira, e a proporcionava calma – mesmo com sua pupila, que tinha a forma da de um lagarto. Pela primeira vez, aquilo não aterrorizou Lisara. Com aquele semelhante pareceu que todas as dores haviam parado, por um minuto. Aghna tinha a pele morena, quase cor de chocolate. Seu cabelo longo e levemente encaracolado ia como uma cachoeira até sua cintura, e tinha um fio que lhe descia na testa, dando um certo charme. A dragen ergueu as sobrancelhas para ela e virou um pouco a cabeça. Após alguns segundos daquele modo, Lisara logo entendeu que aquilo foi como uma permissão para que ela pudesse cuidar de Baldo, e ficou calada. Não sabia como ela iria fazê-lo, mas contanto que não o matasse – e ela era a única que Lisara realmente pensava que não o faria – entendia que estava tudo bem.
Não acreditava que estava interagindo com os seus piores inimigos. Mas o que poderia fazer? Estava em custodia, e tudo o que estava em seu alcance era ouvi-los.
Oleg veio até dentro do recinto quando Aghna saiu, e se encostou na parede. Só então Lisara pode reparar melhor na expressão de seus olhos. Assim como vira anteriormente, seu cabelo era escuro com mechas brancas, mas não havia reparado na pupila, porque ele parecia não ter. Seus olhos eram tão claros que poderiam até mesmo pensar que ele era cego, pois suas íris poderia ser facilmente confundida com sua pupila – de uma cor acinzentada. E abaixo do olho direito ele tinha uma pinta singular.
— O que vamos fazer com ela? — Oleg perguntou, como se ignorasse por completo a presença dela ali. Isso a incomodava profundamente.
— Deixar com que se acalme, antes de tudo — Ragh respondeu.
— Eu não preciso me acalmar! — Lisara retrucou, se intrometendo novamente, mais para que eles se recordassem de que ela ainda estava escutando tudo.
Os dois se entreolharam, como se concordassem. Lisara ainda estava com as sobrancelhas semicerradas. Só ela não percebia sua própria expressão de raiva.
— Ah, precisa sim. Precisa descansar também. Se ficar se mexendo toda hora, nem Aghna poderá resolver esses seus machucados. — Ele tentou evitar mais um suspiro. — Como deixaram alguém tão descuidada como entrar no grandioso exército da aliança da capital? — disse com ironia na voz.
Lisara mordeu o interior de sua bochecha. Ele conseguiu tocar bem na sua ferida. É claro que ele estava falando a verdade, então ela relaxou na cadeira. Ela não tinha que consertar o que ele tinha dito e falar que não estava propriamente no exército, era apenas uma aprendiz tentando ser uma paladina. Com certeza ele não sabia de seu pai, que foi o único motivo de a terem aceitado para treinamento. E ela também não precisava deixar evidente. Desesperada para mudar de assunto, ela pensou nas três figuras que estavam ali. Apenas três.
O que a fez pensar o que apenas três dragões estavam fazendo naquele lugar.
— São só vocês? — perguntou de repente, dando a entender que estava falando dos únicos dragões dali.
Ragh pareceu virar-se para Oleg, que desviou o olhar, aparentemente não gostando do rumo da conversa, mas encolheu os ombros, dando permissão para que o outro falasse.
— Éramos cinco — respondeu.
Lisara paralisou.
Como a capital estava treinando todos aqueles jovens para combater somente cinco dragões?! Quer dizer, três. Já que pelo olhar de Ragh, parecia que os outros não estavam mais naquele mundo. Mas àquela altura, eles já deveriam estar extintos! Ela se irritava cada vez mais, porém tentava se controlar. Deveria manter a calma para resolver aquela situação, até porque, sozinha não teria chance contra nenhum deles.
Não iria dizer que sentia muito por eles. Queria realmente que não existisse mais nenhuma daquelas criaturas, então somente se calou.
— O que vocês querem de mim? — perguntou novamente.
— Já falei o que queremos. Você é surda? — Mas quando Lisara abriu a boca para protestar, ele completou rapidamente: — Você tem a chave que precisamos para irmos embora desse lugar.
Naquele ponto, a ruiva se interessou e novamente relaxou os músculos. Porém, pensar na hipótese de aquilo tudo ser somente conversa fiada e eles a estarem enganando por algum motivo a fez perder a paciência de novo.
— Não tenho chave nenhuma, e mesmo se tivesse, vocês pegaram minha bolsa. Já tem tudo o que precisam. Parece não ter me escutado da primeira vez. — Deu o troco em Ragh, com uma expressão vitoriosa, que logo se desfez. — Agora me soltem! — reclamou.
— Ragh, não vai adiantar — interrompeu Oleg, já revirando os olhos. — Ela não ficou aqui, ela descumpriu a única coisa que deveria fazer; que era ficar quieta. E nem agradeceu! Deixe-a presa hoje a amanhã conversamos.
— O quê?! Nem pensar! Eu tenho meu teste, eu tenho... — Foi então que ela notou. O que deveriam estar pensando? Quanto tempo havia se passado? O que Andrean estaria pensando sobre ela? E mais importante: onde estava o seu cristal? Sem ele, não importava como, ela não seria uma paladina. Pelo que se recordava vagamente, ele havia caído... Sem chances. Quando pensou nisso seu semblante entristeceu.
— Você dormiu apenas algumas horas, graças à Aghna. Ainda tem três dias até que aquela competição acabe — Ragh completou, e então suspirou.
“Isso não importa mais” pensou Lisara.
— Você está me escutando?! Deixe logo ela presa, eu não tenho toda a paciência do mundo! — interrompeu Oleg novamente, já cansado de tanta enrolação.
Lisara sentiu vontade de soltar-se, e a primeira coisa que faria era dar um soco na cara daquela criança, e lhe fazer aprender algumas lições! Será que dragens nem sequer tinham o mínimo de educação?
— Sim, ela ficará presa. — Ragh decidiu.
— Como é?! — interveio Lisara.
— Você desacatou as regras. — Ragh ergueu os ombros, falando de um modo como se ele não pudesse fazer nada quanto àquilo.
— Eu nem sabia que vocês tinham regras! — reivindicou, aparentemente muito zangada com a criança que só seguia ordens. Que felicidade teria aquele menino? Lembrava-se que o que mais fazia quando era criança era fugir – algumas vezes – e desobedecer algumas regrinhas que lhe renderam bons castigos.
— Tudo bem, então. — Seus lábios formaram-se em uma linha maliciosa e ele olhou para ela de um modo desafiador. — Se você nos agradecer, eu deixo você dormir em uma cama quente e confortável.
Oleg foi o primeiro que olhou para Ragh, se remexendo como se tivesse acabado de receber a pior notícia de sua vida. E também, foi o primeiro a abrir a boca para contestá-lo.
— O quê? Nem-
— Nunca — Lisara falou finalmente, olhando firmemente Ragh, enquanto interrompeu o pronunciamento de Oleg e fez ambos virarem o olhar para si. — Eu não pedi para ser salva.
Ragh deu um sorriso zombeteiro, bem quando Aghna voltou e assentiu com a cabeça, como se dissesse que estava tudo bem com Baldo, mas é claro que ela não falou nada. Lisara imaginou se ela tinha algum problema, ou algo do tipo. E como ela tinha selado Baldo, já que ninguém o conseguia fazer a não ser ela. Da última vez que Andrean tinha tentado, ele voou tão longe que quando acordou pensou ter virado um alado. Criaturas que viviam no pé da montanha e que tinham seus próprios deuses. Mas eram apenas histórias de dormir.
— Como... como ela conseguiu? — murmurou baixinho.
— Do mesmo modo que curou você — Ragh disse, sem explicar nada.
Aghna olhou e sorriu. Seus dentes eram afiados assim como os de Ragh, mas era um sorriso extremamente bonito. Enquanto a olhava, Oleg bufou com raiva e saiu do local batendo os pés com força no chão. Lisara jurou que podia ver a respiração dele tomar cor branca no ar, como se se o interior de seu corpo fosse gélido, e não quente, e por isso toda vez que expirava com força podia ver nitidamente o tom esbranquiçado que saia de sua boca, como nos dias de frio.
— Se vai acatar com as atitudes medíocres dela, então tudo bem. — Oleg deu de ombros, saindo do local sem dizer mais nada. Ragh apenas ajeitou o lenço que cobria seu pescoço.
— Quem aquela criança pensa que é? —Lisara disse emburrada.
— Ele tem mais idade que você — Ragh disse, dando um sorriso sem mostrar os dentes com o canto dos lábios. — Mas não sei quem é mais imaturo, sinceramente.
Lisara contou até três.
— Olha aqui, seu... — E quando ia terminar de falar, percebeu que ele se aproximou bruscamente dela com as sobrancelhas franzidas.
Como ela odiava aproximações!
Seus olhos não estavam focados nela, mas ele pareceu prestar atenção nas vestes. Lisara prendeu a respiração e tentou se afastar, mantendo o mínimo de contato com aquela criatura. O quanto fosse possível. Ela odiava contatos físicos, e de dragens então? Sequer queria encostar neles, a não ser pra tirar sangue. Ela mostrou os dentes e iria dizer alguma coisa, mas então ele fungou duas, três vezes, e deixou seus pensamentos evidentes:
— Você cheira à bafo de trasgos — Ragh disse, fazendo a pior cara de nojo que poderia. — Nunca um humano teve um cheiro tão podre. Aghna, por tudo que é mais sagrado, dê um trato nessa humana. Não consigo me concentrar com esse cheiro. — Dizendo isso, se afastou o quanto poderia.
Lisara se sentiu insultada e abriu um pouco a boca ao mesmo tempo que curvou as sobrancelhas, apertando seus punhos.
— Como disse, seu lagartinho albino? — Ela cerrou os dentes e tentou com uma mão se soltar, mas as cordas estavam a segurando bem demais para tentar qualquer coisa.
— Espero que fique bem lá em baixo. — Virou-se e desamarrou as mãos dele da cadeira, mas tomando cuidado e as segurando firme. Não queria sofrer o risco de ser descuidado e atingido novamente.
— Lá em baixo? — perguntou Lisara, tentando recuar e permanecer no lugar, mas já tinha cansado de tentar vencer a força daquele monstro.
— Sim, mas não se preocupe, terá companhia. — Colocou Lisara de costas para si, mas ela conseguiu enxergar, mesmo que não estivesse vendo, um sorriso jocoso surgir nos lábios dele. E não gostou nada daquela sensação.
Lisara não tinha notado até Ragh a levar para uma porta que parecia não existir ali antes. Assim que aberta, pôde observar escadas que a levariam para o subsolo. Ela perguntou-se o porquê deles terem algo do tipo em um lugar como aquele. Seria mesmo que estava no ninho dos dragões? Duvidou que trouxessem um humano assim tão fácil para o lugar que seria seu esconderijo, por mais que ela não soubesse onde estava.
Mas o que não saia da sua cabeça era a “companhia” que teria. Quem seria o seu companheiro de cela? Por que estaria preso?
A delicadeza de Ragh era de se contestar, tendo em vista que ele usava um pouco de força para empurrá-la para baixo, já que Lisara se recusava a dar um passo para frente.
— Não torne as coisas mais difíceis — Ragh sugeriu.
— Então não faça com que eu as torne — rebateu Lisara, mas não foi ouvida.
— Há lugar para você dormir lá em baixo, só é escuro demais. — E aproximou a boca do ouvido dela. — Para um humano, é claro.
Não gostou mais uma vez daquela aproximação. Queria pedir para que ele não o fizesse de novo, mas sabia que não surtiria efeito. Se ele quisesse fazer qualquer coisa com ela, já teria feito, então por que a mantinham presa? Como conseguiria sair dali? Teria que esperar uma oportunidade; uma brecha. Não sabia porquê ela era tão importante assim. Lembrou-se do reflexo branco que viu entre as nuvens dias atrás. Tinha certeza que era aquele dragão; o mesmo que a salvou na colina, e que agora a estava levando para um lugar escuro como castigo. Não fazia sentido algum, mesmo que quisesse cooperar com eles. E por mais que não quisesse facilitar para eles, era um risco que teria que correr.
Não teve escolha a não ser aceitar a sugestão de Ragh e começar a descer as escadas; que não eram muitas. À medida que caminhou, a escuridão tornou-se mais perceptível e a luz de fora mais distante. Fazia silêncio, e nenhum barulho poderia ser ouvido, nem de fora, nem de dentro. Seus passos fizeram eco por conta das paredes de rocha sólida, e quando enfim pisou no último degrau, Ragh a soltou.
— Eu não enxergo nada — disse, colocando as mãos nas paredes e tentando tatear, para ver se chegava a uma cama ou a um lugar confortável onde pudesse descansar.
— Se eu fosse você, não faria muito barulho. — E assim que ouviu a voz dele ecoou pelo cômodo, um barulho de algo se fechando foi ouvido. Lisara não conseguiu sequer ouvir os passos dele voltando, ele já havia ido embora, e agora ela estava sozinha.
Conseguiu encontrar um amontoado de feno, e abaixou-se para deitar-se. Sua coluna ainda doía, mas era suportável. Fechou as pálpebras, não tendo diferença se as mantinha abertas ou vedadas; não conseguia ver nada de qualquer jeito. Após algum tempo naquele estado, conseguiu adormecer – um sono que não durou muito tempo, pois seus sentidos alarmaram-se novamente assim que ouviu um barulho que parecia ter vindo do outro lado da parede. Recordou-se que Ragh sugeriu não fazer barulho para não acordar o seu companheiro de cela. Mas preferiu arriscar.
— Olá? — Tentou chamar, mesmo não conseguindo ver um palmo à sua frente.
Ninguém respondeu.
Suspirou, amparando as costas na parede novamente e pensando. Como estariam as coisas para Andrean? Que chave era aquela que os dragões tanto queriam? Por que a atacaram? Havia algo que os oficiais estavam escondendo. Desde o começo, aquele teste parecia estranho demais. Mas a desanimava saber que nunca seria capaz de tornar-se uma paladina. E se conseguisse voltar, quem acreditaria nela sobre o fato de ter encontrado dragões e sobreviver? É claro, ninguém. Ou somente Andrean.
Seus pensamentos foram interrompidos por um ronronar.
— Está acordado? — Ela tentou chamar a pessoa novamente, mas não esperou e nem obteve respostas.
Passaram-se alguns segundos em um silêncio perturbador.
— Estou. — O timbre rouco e áspero era inconfundível.
Lisara piscou, atônita, quando reconheceu de quem era aquela voz.
Faltam três dias para o fim do teste.
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