Legados de Sparda
1 Legados de Sparda
Vergil pensava nisso enquanto caminhava sem rumo por Fortuna. Ele andava pela cidade pensando em como abordar Nero. Ele não sabia muito bem o que fazer com aquela criança; não pensou que o veria de novo depois de recuperar Yamato, tampouco imaginou que acabaria o envolvendo em todo o incidente de Red Grave, mas o que mais o surpreendeu foi que o próprio Nero resolveu se intrometer no confronto entre ele e Dante. Porém, o que o deixava mais apreensivo foi a confissão de Dante no topo da Qliphoth: “Nero é seu filho”.
Vergil tinha um filho. A ideia soa inacreditável em seus próprios ouvidos mesmo que fosse racionalmente plausível. V sabia que se Nero possuía Yamato ele era descendente de Sparda, o que significava que ele tinha que ser de Dante ou de Vergil, de qual dos dois não era importante na época e mesmo se ele tivesse parado para pensar nisso no caminho para a árvore ele teria suposto que era de Dante (Griffon por outro lado apostaria em Vergil para vê-lo perturbado com os fatos, a ave infernal deve estar fazendo uma algazarra em algum dos confins da mente do meio demônio), mas seu irmãozinho não é um bom mentiroso, mesmo ele não diria algo assim se não acreditasse nisso, e então o gêmeo azul foi deixado para lidar sozinho com o fato e com o garoto, quando Dante ignorou seu desafio e deixou Nero lutar em seu lugar.
Vergil não pensou no que faria depois da árvore. Ele não tinha nenhum objetivo ou plano em mente para o futuro, quando se uniu novamente ele só tinha um desejo em mente: lutar com Dante uma última vez. Ele queria enfrentar seu irmão como quando eles eram mais jovens, o resultado da luta não era o mais importante, o orgulho de Vergil não o deixaria perder é claro, mas ele não sabia o significaria vencer, entretanto Nero tirou essa resposta da mão deles e decidiu a resposta por “Dante não vai morrer aqui, e você também não”.
E apesar de todos os problemas que causou, a árvore demoníaca serviu a Vergil muito bem nesse momento, o permitindo uma desculpa para escapar da situação estranha em que ele se encontrava, mas a pausa seria apenas temporária e apesar de Dante dar a impressão de que eles não se veriam novamente, Vergil se viu prometendo que eles voltariam para o garoto.
E agora aqui estava ele vivendo essa promessa um tanto quanto complicada e tentando, (Ênfase em TENTANDO) conhecer Nero. Ele queria saber mais do que o que vagamente ouviu de Dante, e como parecia um pouco estranho perguntar diretamente ao garoto, Vergil decidiu tentar descobrir por conta própria, seja observando o jovem ou a ilha onde ele mora.
O meio demônio tem ciência que de faz anos (*cof* décadas *cof*) que ele está fora da ilha, mas a área destruída que ele acredita que formava o centro da capital lhe chama muito a atenção. O que teria acontecido para deixar a parte mais nobre da cidade tão devastada? Enquanto olha para a área restrita, sua audição apurada pega uma pequena conversa nas proximidades:
– Passam-se os anos e ainda parece que o ataque foi ontem…
– E esse era um dos bairros mais bonitos.
– Ouvi rumores de que ainda estão encontrando corpos daquele dia.
– Besteiras, o cheiro estaria insuportável se fosse o caso, e digo mais! A ordem jamais permitiria que uma situação dessas ocorresse!
– Mas, não foi a própria ordem que deixou os demônios atacarem a cidade?...
Vergil não se deu ao trabalho de escutar mais da conversa, ao invés disso optou por se esconder entre as sombras dos escombros até que as duas senhoras saíssem do local. Quando elas e qualquer outra presença já estavam fora de alcance, ele saiu do esconderijo e foi para um dos pontos mais altos da cidade. Então, no ponto mais alto do edifício que ele supõe ser um teatro ele olha para Fortuna.
Fortuna.
A cidade-castelo situada em uma pequena ilha de mesmo nome, um lugar isolado que abrigou um culto dedicado a adorar um demônio como um deus. Um culto dedicado a adorar O Lendário Cavaleiro das Trevas Sparda como um deus. Esse pequeno pedaço de terra que chama um demônio de Salvador. Que cultua Sparda o pai dele, como um Deus. Essa mesma ilha, sofre constantes ataques demoníacos e foi parcialmente destruída por demônios que muito provavelmente procuravam por Sparda.
Seria irônico se não fosse natural. Eles adoram um indivíduo odiado por todo o inferno. Um indivíduo que traiu sua própria espécie em troca de algo que eles vêem como insignificante. Eles clamam por um traidor, que foi perseguido até seu último suspiro, deixando apenas uma sombra de si mesmo para trás. Eles rezam para um herói lendário que a própria humanidade já começa a esquecer.
Herói Lendário… Um título que atualmente era principalmente associado a Dante por uma quantidade “notória” de feitos a favor da humanidade, e um título que Vergil nunca em sã consciência daria para seu gêmeo mais novo.
A maioria das pessoas que já ouviram falar ou ainda se lembram de Sparda costumam comparar Dante a ele, o que o deixa visivelmente desconfortável. Não que Vergil entenda o sentimento, afinal os que o reconheciam por causa do pai tinham apenas um assunto a tratar com ele, e o que lhe restava para fazer depois disso era tentar alinhar sua memória e os rumores de cada local por onde ele passasse em sua busca passada.
Refletindo sobre isso Vergil percebe algo curioso, Sparda por séculos vagou pelo mundo sem um destino específico, mas com um único desejo que viria a lhe custar vidas. Além disso, boa parte da sua vida foi passada lutando tanto ao lado do Imperador Demoníaco como também se rebelando contra ele e sua tirania.
O pai deles pode ter sido aceito entre os humanos e ter sido visto como um símbolo de justiça, um herói lendário e admirado. Mas, sua terra natal se lembra dele como um traidor maldito, que abandonou seus irmãos por motivos que eles jamais entenderiam. Os humanos já começam a esquecer o heroísmo, mas mesmo dois mil anos não foram suficientes para os demônios esquecerem a traição.
O gêmeo azul ri da ironia. Dizem que Dante herdou o legado de Sparda pelo seu heroísmo, mas em se tratando de semelhanças, foi Vergil quem de fato mais puxou a o pai.
Mas, sua linha sombria de raciocínio logo é interrompida, por duas presenças ao alcance dos sentidos do mais velho. A de alguns demônios inferiores e a de Nero que deve estar caçando eles.
Nero.
O filho que Vergil até então não sabia que tinha e o sobrinho que Dante deseja ter perto tanto quanto evita se aproximar dele (Vergil não entende a lógica por trás do último, o gêmeo mais novo nunca teve problemas pra ir atrás de algo que queira muito, então qual era o sentido no desejo desacompanhado de ação?). E o único aspecto em que nenhum deles se parecia com o pai.
Tendo o cuidado de esconder sua presença e antes que se desse conta ele se viu indo em direção a luta numa das bordas da floresta. Ao chegar lá, se escondeu nas sombras de um prédio próximo e assistiu o desenrolar do confronto.
Nero leva a luta com facilidade, o pequeno grupo de Assaults que o cerca dificilmente representa alguma ameaça. A força bruta dos ataques e a velocidade aplicada eram muito mais do que o pequeno grupo de demônios poderia aguentar. Apesar de a precisão precisar de uma melhoria, o poder atual de Nero era francamente impressionante, com um potencial de crescimento prodigioso.
A percepção disso por algum motivo espalhou uma suave sensação de calor no peito do mais velho, ele ainda não sabia nomear o que era essa sensação agradável, porém isso não lhe causava preocupação ou receio. Ele tinha um objetivo a alcançar e quando Nero ao terminar a luta olha em sua direção, tendo percebido a presença do meio demônio mais velho, Vergil se viu tendo algo mais urgente com o que lidar.
A luz fria do luar iluminava um par de olhos azuis como o oceano, que encaram outro par de olhos azuis como o gelo de um lago no ponto mais frio do inverno, com confusão e curiosidade, sentimentos que descrevem muito bem como o híbrido mais velho se sentia em relação ao jovem caçador infernal.
Em termos técnicos eles eram estranhos, sem nenhum conhecimento substancial sobre o outro, mas ainda sim parecia haver uma conexão mais profunda entre eles. Uma vida inteira de distância e mesmo assim suas almas pareciam estar ligadas antes mesmo de se verem pessoalmente pela primeira vez.
– “Como um demônio por nuvem coberto … / Sigo a noite de perto / E irei com ela adiante…” — os versos de Blake lhe vem suavemente aos lábios sem um convite prévio, e em volume tão baixo que é incerto se Nero sequer o ouviu. Mesmo assim o jovem inclina levemente a cabeça para o lado analisando o mais velho, possivelmente tentando desvendar o mistério da presença dele ali.
Diante do possível impasse de ter que explicar sua presença ali, a mente de Vergil por alguma razão evoca uma memória curiosa do tempo onde ele e Nero foram mais próximos. No período onde ele era V. Mais especificamente sobre algo que Griffon lhe dizia quando parecia querer animá-lo: “...Não é triste se todos nós somos miseráveis, hehe!”
Sendo assim, se eles estiverem confusos juntos está tudo bem? Se a confusão e a curiosidade forem mútuas, eles ficarão bem? Ele não tem certeza sobre o que dizer ao garoto (seja sobre esta noite ou sobre outro momento passado), sem se sentir especialmente exposto e vulnerável. Porém, quando a parte humana de sua alma revelou sua face mais vulnerável para Nero, ele não se aproveitou disso. Ele não utilizou isso contra Vergil quando se enfrentaram no topo da árvore, ou meses depois quando eles retornaram para o mundo dele.
Ele também não confrontou o mais velho sobre o braço arrancado, mas talvez isso se deva ao fato de que ele regenerou sozinho o membro decepado. Então talvez Nero esteja o estudando tanto quanto ele está estudando o garoto?
– Foi a nuvem ou a noite que te trouxe aqui? — pergunta suavemente Nero para o mais velho, confirmando para Vergil que ele o havia escutado.
Após alguns segundos o mais velho responde no mesmo tom: – Foi o vento. — com um pequeno curvar de lábios que, olhares menos atentos teriam perdido.
Mas, antes que o mais novo pudesse questionar o significado da resposta, outro burburinho surge nas proximidades da floresta e eles se veem tendo que ir atrás da causa.
Um diminuto grupo de Scarecrows parece estar perseguindo um homem e um garoto, até que estes sejam cercados de ambos os lados por eles, além de alguns demônios semelhantes a cães com o crânio exposto envolto em chamas. Ao se verem sem escapatória o homem se abaixa e abraça o garoto tentando protegê-lo do ataque iminente de um dos demônios usando o próprio corpo, mas antes que o demônio pudesse alcançá-los um tiro ecoa alto na noite, o projétil disparado atingindo o Scarecrow no ar, interrompendo o ataque e a permanência do demônio neste plano material.
Após esse estopim a dupla pai e filho começa a lutar lado a lado contra o (lentamente crescente) grupo de criaturas do submundo. Dos passos dados aos golpes aplicados, eles se moviam em uma harmonia que se esperaria de uma equipe que já havia atravessado diversas batalhas junta, ao contrário deles que estavam lutando em conjunto pela primeira vez (sem contar com a luta que Nero e V travaram contra os Scudo e Proto Angelo).
Em dado momento um Assault tenta pegá-los desprevenidos, mas ele aparam juntos o ataque e acabam eliminando o demônio juntos. E justamente em um destes momentos em que seus olhares se cruzam durante o combate que eles percebem a sintonia que existe entre eles naquele momento. A surpresa é espelhada nos olhos de ambos em um intervalo nos ataques da horda.
Eles ficam assim por um momento, olhando nos olhos um do outro vendo surpresa, curiosidade e anseio em iguais medidas um no outro. Ambos tinham muito a falar e ambos não faziam ideia de por onde começar, mas de algum modo isso por si já soava como algo semelhante a um primeiro passo para eles. Porém o momento é inoportunamente interrompido por um Scarecrow que decide rodopiar em direção a eles, forçando-os a focar novamente no combate, antes que qualquer coisa pudesse ser dita.
Poucos minutos depois e a horda fora reduzida a meras cinzas sendo levadas pela brisa noturna, o combate como um todo sequer poderia ser contado como um aquecimento. O meio demônio suspira internamente frustrado com a falta de um desafio interessante enquanto embainha a Yamato. Tendo acabado de costas para Nero durante o combate, ao fim do mesmo Vergil finalmente se vira na direção do filho que também o olha atentamente.
Nero parece quer dizer algo chegando a abrir a boca com a intenção de falar algo duas vezes antes de desistir nas duas, mas então algum tipo de resolução se estabelece no olhar do garoto, que inclina a cabeça para um dos telhados antes de subir no telhado indicado enquanto olha para o mais velho, claramente pedindo para ele segui-lo.
Vergil o acompanha a uma curta distância percebendo que eles estão se afastando da cidade e de outras áreas habitadas. Ao fim do percurso eles se encontram em uma espécie de arena dentro da floresta, Nero se posiciona em uma das pontas da arena e Vergil inconscientemente se vê na ponta oposta da arena.
O mais velho lança um olhar de questionamento para o jovem caçador infernal (apesar de a expressão neutra no seu rosto ser ilegível para a maioria das pessoas), que responde com um sorriso desafiador antes de fincar Red Queen no chão e acelerar o motor da espada deixando claro a intenção de trazê-lo aqui.
Vergil percebe no gesto uma intenção semelhante a de uma mão estendida com o objetivo de firmar um acordo, e com um sorriso discreto (e uma apreciação maior do que ele saberia expressar tanto pelo desafio promissor quanto pela oferta subjacente) ele aceita ambos entrando em posição para a luta.
E assim sob a luz da lua crescente, com expressões determinadas (e uma discreta suavidade no olhar) um acordo silencioso é selado e uma nova jornada se inicia para duas gerações dos descendentes de Sparda.
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