Legado (parada por tempo indeterminado)

10 Capítulo X - Os Cavaleiros de Órion


Mike não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo, mas não, ele não estava enganado. Aquele era seu amigo Alex. Mas como era possível?... Mike o havia matado durante o ataque ao ninho de vampiros. Ele viu Alex virar cinzas em seus braços. Aquela imagem ainda pairava na mente de Mike, e ele dificilmente esqueceria.

No entanto, por alguma razão desconhecida, Alex estava ali. Andando, falando, interagindo com os outros, como se nada tivesse acontecido. O que era ainda mais estranho, já que vampiros não andavam sob a luz do dia. Mas ele também não dava sinais físicos de ser um vampiro.

Mike segue o "sósia" de Alex até os alojamentos do Campus, mas ele consegue despistá-lo. Como por encanto, o sujeito simplesmente sumiu.

— Mas o que está acontecendo aqui? — disse Mike.

***

— Capela de São Miguel_

Tereza treinava, como de costume, mas dessa vez com mais intensidade. Queria estar preparada caso um outro amiguinho de Sam resolvesse fazer outra "visita". Para ela, foi inaceitável ser pega de surpresa com a invasão de Sônia ao esconderijo. E descobrir que Sam era um espião, causou um certo baque. Ela estava disposta a não se deixar pegar desprevenida novamente.

Daniel, por sua vez, estava na biblioteca fazendo algumas pesquisas. Afinal, parte do trabalho de um bom caçador tem tudo a ver com a pesquisa que é feita antes de qualquer ação.

— O que está procurando, velhote?

— Algumas informações a mais sobre os nossos "aliados".

— Deveria inventar alguma coisa pra combatê-los, ou então, fortificar as defesas, isso sim. — disse Tereza.

— Tess, sabe por que tenho vivido tanto... Porque nunca me deixei levar por impulsos e nunca ataquei sem antes conhecer meus inimigos. Uma lição que eu espero que você aprenda.

— Não sou muito de teoria, Denny. Você sabe.

— É mesmo?... Eu nem notei. — ele foi irônico. — E depois, fortificar as defesas não adiantariam muito. Você mesma viu, eles podem atravessar uma parede de concreto.

— É verdade. Eles são muito mais fortes do que os lobisomens com os quais já lutamos.

— Aqui diz que eles pertencem a uma raça especial. Descendentes das primeiras tribos de lobisomens criadas por Gaia. Algo parecido com os anciões. — disse Daniel.

— Só não entendo uma coisa. O que essa ordem tem a ver com um santo cristão? — perguntou Tereza.

— Há alguns escritos perdidos da bíblia que dizem que São Cristóvão era um cinocéfalo. Ou seja, ele possuía uma cabeça de cachorro e o corpo de homem. Seu nome era Réprobos. Mas depois que conheceu Jesus e a fé cristã, mudou seu nome para Cristóvão.

— Posso imaginar porque perderam esses escritos. Seria bastante estranho as pessoas adorarem um santo com cabeça de cachorro. — disse Tereza.

De repente, os sensores de movimento do esconderijo são ativados. Tereza vai até os monitores para ver o que estava acontecendo.

— Denny, temos visita.

— Quem é?

— São os "homens de preto".

Mas quem eram os "homens de preto"?

Ao contrário do que muitos podem estar pensando, eles não tem nada a ver com o governo. Estes homens de preto representavam outro tipo de organização. Uma que era responsável por cuidar de assuntos místicos e sobrenaturais. A Ordem dos Cavaleiros de Órion.

Na mitologia grega, Órion foi um grande caçador amado por Ártemis. Enciumado, Apolo convenceu o escorpião a matar Órion com sua picada venenosa. Zeus, sensibilizado pela dor de sua filha em ter perdido o seu caçador, o transformou em uma constelação, onde o seu cinturão se destaca nas noites estreladas.

Quando as criaturas das trevas passaram a levantar-se contra a humanidade de maneira constante, a igreja percebeu a necessidade de combater essas ameaças. Entretanto, tudo precisava permanecer em segredo do resto dos humanos. Por esse motivo a Ordem dos Cavaleiros de Órion foi criada, uma sociedade secreta de caçadores sobrenaturais, especializada em combater criaturas demoníacas.

— Daniel. Tereza.

— Como vai, Hórus? — disse Daniel.

Hórus era um dos representantes da ordem e seu membro mais fiel.

— A que devemos essa visita tão ilustre? — disse Tereza com uma pontinha de sarcasmo.

— A grande Tereza Van Helsing. Sua reputação a precede.

— Me desculpe se não me impressiono, mas se eu fosse preocupada com reputação, faria parte da ordem. — disse ela.

— Vejo que a fama de língua afiada não é mentira. — disse Hórus.

— Desculpe o temperamento impulsivo de minha neta, Hórus. Ela ainda é jovem. — disse Daniel tentando acalmar os ânimos. — Mas em quê podemos ajudar?

— Ainda bem que perguntou. É um assunto de suma importância. Precisamos conversar.

***

— Campus da Universidade_

Mike estava obcecado com aquela história. Alguma coisa não estava certa. Ele procurou o "sósia" de seu amigo por todo o Campus mas não o encontrou. Mike então notou que, talvez, sua abordagem não tivesse sido suficientemente discreta e assim o rapaz acabou o despistando.

Ele vai mais uma vez ao alojamento que pertencia a Alex, e chega a trombar com um dos zeladores.

— Me desculpe, senhor. — disse Mike.

— Não tem problema. — disse o zelador passando por ele de maneira apressada.

Ao entrar no alojamento, Mike percebe que poucas coisas mudaram – a não ser a janela, que ainda precisava ser concertada depois da briga entre Alex e Tereza.

As coisas de seu amigo pareciam estar no lugar. Melhor dizendo, pareciam ser usadas normalmente, como se o próprio Alex estivesse as usando. Mike resolve verificar as atividades recentes de Alex na internet. Os dois foram amigos por muito tempo, as senhas do computador eram as coisas mais fáceis de se decifrarem.

— Você nunca foi bom em senhas, Alex. — disse Mike com um leve sorriso. — Vamos ver. ... Sua última passagem no jogo de RPG online foi...? Ontem?! Mas você está morto! Como é que pode isso?!

Mike pega seu celular para ligar para Tereza, mas só caía na caixa postal. Ele ia tentar Daniel, quando lembrou-se que ele era tão das antigas que nem, ao menos possuía um celular.

— Mas que droga, Tess! Temos um problemão e você não atende esse telefone!... E agora? Pra quem eu ligo?... Espera, talvez tenha alguém.

***

— Capela de São Miguel _

Daniel não era famoso por ser um tolo. Se Hórus estava ali, significava que o problema era muito mais sério do que a Ordem dos Cavaleiros de Órion poderia dar conta.

— Então essa é a "toca da raposa". — disse Hórus. — Embaixo de uma capela. Muito engenhoso contra vampiros e outras criaturas demoníacas. No entanto, soubemos que um lobisomem andou causando problemas recentemente.

— Como sabe disso? — disse Tereza.

— Eles tem olhos em todos os lugares, Tess. — disse Daniel.

— Com algumas exceções, não é Daniel? — disse Hórus apontando para uma runa de bloqueio que Daniel havia desenhado na parede do esconderijo. Sinal de que eles sabiam sobre o esconderijo, mas não podiam ver o que estava acontecendo dentro de suas paredes. Quando Sônia invadiu o lugar, ela só foi vista porque estava nos corredores, antes da porta.

— Posso ter fama de muitas coisas, Hórus. Mas ser descuidado não está na lista.

— Com certeza. — disse Hórus.

— Por que está aqui? O que a Ordem quer conosco? — pergunta Tereza impaciente.

— Direto ao assunto. Uma característica típica de um Van Helsing. — disse Hórus. — Muito bem, então. Precisamos da ajuda de vocês em um caso bem complicado.

— Onde? — disse Tereza.

— Escócia. Edimburgo, pra ser mais exato. — disse Hórus.

— Pensei que um dos trabalhos da Ordem dos Cavaleiros de Órion era cuidar para que anciões não saíssem andando por aí. — disse Daniel.

— Um ancião? — disse Tereza.

— Sir George Makenzie. — disse Daniel. — Foi responsável pela morte de centenas de pessoas no século XVII. Perseguições religiosas e outras coisas. Alguns dizem que antes dele morrer ele teria vendido sua alma ao diabo.

— E por isso tornou-se um vampiro. — disse Tereza.

— A Ordem conseguiu registros isolados de possíveis ataques de vampiros nas últimas 72 horas. — disse Hórus.

— Se vocês registraram esses ataques, por que não tomaram providências? — disse Tereza.

Hórus não respondeu.

— Simples, Tess. Os novatos da Ordem não possuem experiência com anciões. — disse Daniel. — E vocês se dizem caçadores?

— Não pense que foi fácil vir aqui pedir sua ajuda depois de todas as recusas que recebemos sobre você entrar para Ordem. — disse Hórus.

— Você recebeu convite pra entrar nesse clubinho de nerds, Denny? — disse Tereza com ar de deboche.

— Vai nos ajudar ou não? — disse Hórus impaciente.

— Não fugiremos das nossas responsabilidades deixando um ancião solto por aí, se é isso o que quer saber. — disse Daniel.

— Ótimo. — disse Hórus.

— Vou deixar uma mensagem para o Mike. — disse Tereza. — Alguém precisa vigiar o fort.

***

De volta à Universidade...

Mike andava de um lado para o outro. Será que sua ligação daria resultado?

— E aí, garoto?... Qual o problema?

— Sam!

— Sua ligação parecia urgente, por que não ligou pra Tess ou o Denny?

— Eles foram resolver um problema fora da cidade. Você é minha última esperança. Pelo menos pra que eu possa entender o que está acontecendo. — disse Mike. — Mas espera... Seus amiguinhos não estão aí com você, estão? — disse Mike olhando em volta.

— Relaxa, garoto. Eu vim sozinho. — disse Sam. — Então, qual é a emergência?

— Alex está vivo.

— O quê?! — disse Sam.