Legado (parada por tempo indeterminado)

6 Capítulo VI - Ataque ao esconderijo.


Daniel sabia que esse dia chegaria. Sabia que uma hora ou outra essa pergunta surgiria. Porém, ele não sabia se estava pronto para responde-la.

— O que é Danphir, Denny? — insistiu Tereza.

No mesmo momento em que ela perguntou, Denny teve um flash de memória. Suas lembranças o levaram há anos atrás. Na ocasião exata em que ele soube o que era um Danphir pela primeira vez.

Manhattan, 25 anos atrás...

A noite estava calma. Uma típica noite de primavera. Não se escutava muita agitação, exceto na casa, onde dois homens discutiam sobre algo relativamente importante. Uma "pequena discussão" sobre o nascimento de um bebê que iria acontecer em poucos meses.

— Não me interessa o que você pensa, pai. Não vou tirar um bebê dos braços da mãe. Isso é desumano! — disse Jonathan.

— Desumano?!... Vocês deviam ter pensado nisso antes!... Aquela coisa que ela carrega é que é desumana!

— Cala a boca! Não fale assim!... Pai, escute bem, eu não vou permitir que você faça qualquer coisa contra eles. Nem que eu tenha que lutar contra o senhor. Eu não vou permitir.

— Que tipo de monstro acha que sou, Jonathan?!

— O do pior tipo. Somos Van Helsing, lembra?... Sei o que homens como nós são capazes de fazer, e é por isso que estou lhe avisando.

— Parem com isso, vocês dois. Jonathan, não fale assim com seu pai.

Ela era uma linda mulher. Não aparentava ter a idade que tinha. Seus cabelos eram castanhos claros, quase ruivos. E exibia orgulhosa uma barriga de seis meses. Da qual ela já sabia que seria uma menina.

— Como vai, Daniel?

— Mina.

— Querida, não devia ter se levantado da cama. Precisa ficar tranquila. — disse Jonathan.

— E por acaso tem como eu ficar tranquila sabendo que vocês dois estão querendo se matar aqui, no meio da sala?

— Mina, o meu pai...

— Acredite, Jonathan, a preocupação do seu pai é a mesma minha. Certo, Daniel?

— Certo.

— Não, Mina. Meu pai acha que existe uma espécie de monstro dentro de você. Ele quer te fazer mal, a você e ao bebê. Mas eu não vou permitir.

— Jonathan, seu pai tem toda a razão em estar preocupado. Afinal, não sabemos o que pode nascer daqui. — disse Mina tocando em sua barriga.

— Como assim? — disse Jonathan.

— Querido, preciso que faça uma coisa pra mim, assim que o bebê nascer. E quero sua palavra que fará. — disse Mina.

Momento atual.

Daniel retorna de seu transe momentâneo com Tereza chamando o seu nome.

— Denny?... Denny? — disse ela estalando os dedos. — Tem alguém aí?

— Hã... O quê?

— Você "sumiu" por uns instantes. O que aconteceu?

— Ah, sim. Temos problemas.

— Problemas?... Acabamos de resolver um problema e já temos outro?

— Lobisomens.

— O quê?!... Isso é impossível, Denny. Espantamos a última matilha há dois anos. Não existem lobisomens em Manhattan.

— Bom... Se o que eu vi acabando com aqueles vampiros que estavam correndo atrás do garoto não forem lobisomens, então eu não sei mais o que são. — disse Daniel.

***

— Sede dos Guardiões de São Cristóvão_

Sam era o membro mais "novo" da sociedade secreta. Tinha um pouco mais de 150 anos. Quando ele foi escolhido para herdar essa honra, Abraham Lincoln ainda era o presidente. Sam não se recordava muito de sua vida antiga, ou se tinha feito algo importante antes de se tornar um guardião. A única coisa que se lembrava era que estava em uma situação de vida ou morte, e aí um homem lhe ofereceu ajuda e uma escolha, e desde então Sam se tornou a "casca" para Silver Fang. O mais poderoso dos Guardiões de São Cristóvão.

Mas o fato de ser o mais poderoso não queria dizer que ele era o líder. Marcos exercia essa função sendo a "casca" de Grave Hart. Julius era o receptáculo de Best Ice, o mais feroz; e Sônia foi escolhida por Blue Moon, a mais inteligente.

Naturalmente, os Guardiões de São Cristóvão eram lobisomens. Mas não lobisomens comuns. Eles aprenderam a controlar seus instintos animais e canalizá-los para a sua principal função. Combater seus principais inimigos, os vampiros. E proteger a humanidade o máximo que podiam. O que não era uma tarefa simples, já que lobisomens e caçadores não se davam bem. Pelo fato de que os caçadores nunca acreditaram nas boas intenções dos lobisomens; e lobisomens tinham certa cisma com caçadores, já que os mesmos costumavam torturar lobisomens para arrancar informações sobre ninhos de vampiros. Por isso o receio de deixarem Sam agir como espião.

— Você está pensativo. — disse Sônia.

— Eu?... Não. — disse Sam.

— Está pensando neles?... Nos Van Helsing.

— Sim. Como será que a Tess está?... Deve ter sido uma luta e tanto com o "chefão".

— Você parece se preocupar muito com ela, não é?

— Eles não são tão ruins, Sônia.

— Eles são caçadores, Sam. Sabe o que pessoas como eles fazem com seres como nós.

Sam ficou pensativo.

Ele se lembrava bem como chegou a capela de São Miguel.

Um ano atrás...

Tereza chegou de manhã depois uma noite de caça bem agitada. Parou sua motocicleta e ficou observando aquela figura na porta da capela. Parecia estar dormindo.

— Ei. — disse ela cutucando o homem. — Aqui não é lugar de dormir, cara.

— Hâ... Olá. Veio rezar a essa hora?

— O que vim fazer não é da sua conta. Quem é você e o que faz aqui? — perguntou Tereza.

— Bom... Eu estava dormindo. Não tenho pra onde ir.

— Sei. Mas aqui não é lugar pra você.

— Não seja malcriada, Tess. Essa não foi a educação que eu te dei. — disse Daniel aparecendo com um café e uma rosquinha. E por incrível que pareça, uma roupa de padre. — Pegue, rapaz. Não é muito, mas acho que dá pra você até a hora do almoço.

— O que ele está fazendo aqui?

— Você ouviu. Ele não tem pra onde ir. É um morador de rua, inofensivo.

— Ah, muito obrigado, padre. Deus lhe abençoe. — disse ele comendo a rosquinha. — A propósito, meu nome é Sam. — disse de boca cheia cumprimentando Tess.

— E aí? — ela estranha um pouco a presença dele por ali. Principalmente o fato de seu avô ter aceitado aquilo numa boa.

Enquanto os dois entravam na capela, Tereza cutuca seu avô.

— Onde arrumou essa roupa de padre?

— Estava no armário.

— Sabe que isso é pecado, né?... Se passar por um padre. Que coisa horrível, Denny.

Sam deu um leve sorriso com suas recordações, porém, seu sorriso se desfez ao perceber que ele havia enganado ao Van Helsing. Ele foi mandado até lá para cumprir uma missão, e cumpriu. Mas percebeu que eles não eram tão ruins quanto os outros pensavam. Nem todos os caçadores eram iguais. E começou a se questionar se o que fez foi realmente certo.

Era final de tarde. Julius estava cuidando das refeições enquanto Marcos estava na biblioteca. Mas Sônia não estava. Onde poderia ter ido?

***

— Capela de São Miguel_

Mike, aos poucos, estava aprendendo alguns procedimentos básicos. Daniel, apesar de seu mal humor típico, estava sendo um bom professor.

— Mike, preste bastante atenção, isso aqui é repelente de góblin. E isso serve para despistar trolls. — disse ele segurando os dois frascos.

— E qual a diferença?

— Dos ingredientes?

— Não. De góblin para trolls?

— É sério isso, garoto?!... Você não assiste filmes medievais?!

De longe, Tereza afiava suas adagas e observava com um leve sorriso. Afinal, já fazia muito tempo que seu avô não tinha quem ensinar.

De repente, eles escutam um barulho vindo do túnel que dava acesso ao esconderijo.

— Alguma coisa está vindo. — disse Tereza.

— Impossível. Os alarmes teriam avisado. — disse Daniel. — Mike verifique as câmeras.

Mais que depressa, Mike vai até o sistema de segurança e toma o maior susto.

— P*** M****! Mas o que é aquilo?!

— "Cachorro" maldito! — disse Tereza se armando com seu sabre.

— Pegue esse, Tess. — disse Daniel jogando outro sabre para ela.

— Qual é a diferença?

— Hoje é dia!... Primeiro o garoto, agora você!... É um sabre marcado com runas para matar lobisomens. — disse Daniel.

— Pensei que lobisomens morriam com prata. — disse Mike.

— Você tem muito o que aprender, garoto. Depressa Tess. Ele está quase na porta.

— Abra a porta, velhote.

Tereza passa pela porta do esconderijo, enquanto Daniel e Mike observavam tudo por algumas câmeras que ainda estavam funcionando.

Ela andava com cuidado, olhando para o final do corredor. No entanto, a criatura a surpreende. Tereza sente uma mão enorme e cheia de garras atravessando a parede de concreto e agarrando seu pescoço. A criatura se manifesta. Era um lobisomem enorme, com dentes que mais pareciam facas afiadas. Tereza estava em desvantagem, o sabre que ela carregava havia caído de sua mão. Aquele parecia o fim.

— Ele vai matá-la, Denny! — exclamou Mike.

Quando tudo parecia perdido, um outro lobisomem aparece salvando Tereza da morte certa. As duas criaturas começam a lutar entre si. Tereza não consegue raciocinar direito. Estava com a visão turva. A última coisa que ela consegue ver é um dos lobisomens indo embora, enquanto o outro se aproxima lentamente dela. No entanto, a transformação foi se desfazendo e a identidade dele foi se revelando.

— Sam? — disse Tereza antes de apagar.