Legado (parada por tempo indeterminado)
3 Capítulo III - Procurando o ninho. Part. II
Mike nunca foi do tipo que ficava obcecado por alguma coisa. Nem mesmo por seus jogos de RPG. No entanto, aquilo era diferente. Depois de quase ter sido morto por um vampiro, vamos dizer que Mike expandiu a sua mente. A verdade é que sua mente fez BUM!... Aquilo não era um jogo, e ele viu com seus próprios olhos que algumas lendas podem ser verdadeiras.
Então, como medida de segurança, digamos assim ele começou a buscar todo o tipo de informação sobre essas criaturas. Hábitos alimentares, onde viviam, como podiam ser mortas — se é que podiam. Tudo na "boa e confiável" internet.
— Eles não vão mais me pegar. Pelo menos não desprevenido. — dizia ele.
Porém, o que mais deixava Mike com a "velha pulga" atrás da orelha, era a identidade da mulher que o salvou. Ela era uma caçadora, isso era óbvio. Mas quem era ela?... Outro mistério que ele estava disposto a descobrir.
***
Dia seguinte...
Campus da Universidade.
Tereza colocava seu plano em prática. Todos os dados fornecidos por seu avô diziam que o ninho dos vampiros ficava no Campus. Onde exatamente, aí seria preciso fazer uma busca minuciosa, e para isso, Tereza estava usando um disfarce. Monitora de alojamentos. Assim, ela teria acesso a todos os locais e poderia observar todos os alunos de perto. Qualquer um com algum comportamento suspeito tornava-se um alvo em potencial. Daniel estava fora do Campus em um furgão monitorando as atividades ao redor do perímetro. Ele era os olhos de Tereza nos lugares onde ela não estava, e os dois se comunicavam através de escutas.
— E aí?... Já descobriu alguma coisa? — pergunta Daniel pelo rádio.
— Ainda não. Tirando o fato de que muitos deles estão consumindo maconha nos alojamentos, nenhum deles parece ser um vampiro.
— Verificou se algum tinha mordida?
— Entrei nos alojamentos enquanto dormiam. Verifiquei a maioria deles. Os que não consegui, termino de ver nas aulas de ginástica. Denny, tem certeza que o ninho fica aqui?... Você pode ter se enganado.
— Tenho certeza, já disse. É o lugar com a maior concentração de sangue jovem em toda a cidade. Tem que ser aí. — disse Daniel.
— Vou dar mais uma checada. Precisamos achar esse ninho rápido. Se o encontrarmos durante o dia teremos uma vantagem. À noite vai ficar muito mais difícil.
— Principalmente se as autoridades do Campus repararem em você.
— Como assim?
— Vamos dizer que eu não tive tempo pra caprichar na sua identidade falsa. Em todo caso, seja cautelosa. Não fale com ninguém, a menos que seja estritamente necessário.
— E você disse que ia ser moleza, não é? — disse Tereza.
***
Enquanto isso, Mike reparou que seu amigo Alex não havia aparecido a aula. O que era muito estranho, pois era o dia de uma prova muito importante, Alex tinha se preparado por semanas, ele não faltaria.
— A prova estava horrível, não é Mike? — disse uma de suas colegas.
— Sim, estava bastante difícil. Mas, falando nisso, você viu o Alex?... Ele estudou tanto pra essa prova e não apareceu.
— Olha, a última vez que eu o vi foi ontem à noite, mas ele estava bem esquisito. — disse a garota.
— Esquisito como? — perguntou Mike.
— Pra começar, ele estava com a Ruby, a garota do clube de leitura. Os dois pareciam ter usado alguma coisa bem pesada pois estavam com os olhos bem estranhos. Fiquei até assustada. Depois, pareceu que ele vinha na minha direção, mas ela o puxou de volta e disse algo como "você ainda não está pronto.", ou coisa do tipo. Bem sinistro, se quer saber. — disse a garota.
Mike sentiu um arrepio. Mas ele precisava ter certeza, então, no final da tarde, ele foi até o alojamento de seu amigo Alex. Se certificou de que ninguém mais estaria lá e entrou, procurando algo suspeito. Olhou de cima abaixo e não encontrou nada. Até que uma voz repentina o assustou.
— Não devia invadir os alojamentos dos outros, Mike.
—Alex?!... Cara, que susto você me deu!... Onde esteve o dia inteiro? Estava procurando por você.
— E aí resolveu vir xeretar no meu alojamento?
Mike começou a ficar desconfiado. Alex estava diferente, tinha uma postura mais agressiva, estava mais incisivo.
— Sabe, Mike, eu estava seriamente pensando em deixar você em paz. Em nome da nossa amizade. — disse Alex. — Mas o problema é que você é muito intrometido. E o meu mestre detesta gente intrometida.
— Seu mestre?... Não me diga que...?! Ah, não!
— Sim. Você tinha razão, Mike. Eu é que fui um descrente. — disse Alex se aproximando perigosamente de Mike. — Mas agora eu poso ver, posso sentir, posso saborear!... Ah, Mike! Você não tem ideia do quanto isso é bom!
— Alex, você se transformou num monstro! — disse Mike tentando ficar o mais longe possível daquele que, um dia, foi seu amigo.
— Não, Mike. É tudo uma questão de perspectiva. Eu posso te mostrar.
— Fica longe de mim! — disse Mike mostrando um crucifixo de madeira para Alex, mas que, aparentemente, não fez nenhum efeito.
— Sério, Mike? — disse Alex sorrindo com suas presas a mostra. — Vamos lá, eu prometo que serei gentil. Você quase não vai sentir. Quase.
Alex tenta morder Mike de todas as formas, ele havia ficado muito forte. Mike parecia que não teria escapatória desta vez. Mas, de repente Tereza arromba a porta do alojamento e joga um punhal de prata que passa de raspão no braço de Alex, que rapidamente se afastou de Mike.
— Você de novo, garoto?! Mas será que vivo pra te tirar de confusão?! — exclamou Tereza.
— É você?! — disse Mike surpreso por finalmente ver o rosto de sua salvadora.
— Fique atrás de mim e tente não morrer, ok? — disse ela puxando-o para perto de si. — E você dentuço, é melhor segurar sua onda. Preciso de você vivo e inteiro. Por enquanto.
— Você é a caçadora que meu mestre me disse. Não parece grande coisa.
— Seu mestre não devia me subestimar. Onde fica o ninho?
— Acha que vou te contar? Não me faça rir, Van Helsing!
— Van Helsing?! — disse Mike. — Então vocês também são reais?!
— Não é hora pra histórias de família, garoto. E você Alex, pode ter uma morte sem sofrimento, ou eu posso te desmembrar enquanto arranco a informação de você, pedaço a pedaço. Você escolhe.
Alex percebe que está em desvantagem e resolve fugir. Tereza vai atrás dele, mas ele é mais rápido e consegue despistá-la.
— Filho da p***! — disse ela.
— É você, não é?... Foi você que me salvou naquela noite, não foi? — disse Mike.
— Vem comigo, garoto. — disse Tereza.
***
Algum tempo depois...
Tereza chega ao esconderijo com Mike, que estava com as mãos amarradas e os olhos vendados.
— Mas o que diabos você está pensando trazendo esse garoto pra cá?! — exclamou Daniel.
— Olha a boca, velhote. Estamos em solo sagrado, esqueceu? — disse ela sendo irônica.
— Não brinque comigo, Tereza!... O que ele faz aqui?
— Ei, gente. Sem querer interromper o "momento de diálogo" entre vocês, mas... Será que alguém pode tirar essa venda?... Tá incomodando o fato de eu não ver onde estou pisando. — disse Mike.
Tereza tira a venda de Mike.
— Uau!... Vocês têm uma batcaverna! — disse ele. — Mas não é muito original, se me permitem dizer.
— Senta aí e cala a boca, moleque! — disse Daniel o sentando bruscamente na cadeira. — Por que o trouxe pra cá? Sabe que é arriscado.
— Temos dois problemas. Primeiro: ele viu o meu rosto. Segundo: ele está com fedor de vampiro até a raiz dos cabelos, precisa de uma limpeza.
— Como assim, limpeza? — perguntou Mike. — Mas eu já tinha sido atacado antes.
— Da primeira vez em que você foi salvo, o vampiro que te atacou era um vampiro experiente, mais velho. Criaturas assim conseguem controlar suas glândulas de odor com mais facilidade. — disse Daniel.
— Já o seu amigo cheio de dentes é um novato. — disse Tereza. — Quanto mais faminto, mais afoito ele fica. O que faz com que ele libere feromônios onde quer que vá. Inclusive em suas presas. Sem ofensas.
— E se não tirarmos esse cheiro de você, vai ter grandes problemas. — disse Daniel preparando algumas misturas em seu laboratório.
— Que tipo de problemas? — pergunta Mike apreensivo.
— Outros caçadores podem confundir você com um vampiro e te matarem sem piscar. Acredite, não são todos que se certificam de quem é vampiro e quem não é. — disse Tereza.
— Outros?... Existem outros como vocês?
— Outros como nós?!... Não me insulte, garoto! — disse Daniel. — Não existe ninguém que seja como nós!... Minha família já faz isso há mais de 400 anos! 400 anos!... Eles nem chegam aos nossos pés, bando de amadores!
— Não liga pra ele. — disse Tereza. — O Denny é meio passional com essa história de legado da família, sabe.
— Então, vocês são mesmo os Van Helsing?
— Em carne e osso. Me chamo Tereza. Aquele é o meu avô, Daniel Van Helsing.
— Eu me chamo Mike. Mike Winston.
— Nada de apresentações. — disse Daniel. — Não queremos saber quem é você e nem queremos que saiba nada sobre nós. Assim que você se desinfetar pode cair fora.
— Acho que não vai poder ser tão simples, Denny. — disse Tereza.
— Por que não?
Tereza contou a Daniel todo o desenrolar dos acontecimentos. E aquilo não deixou seu avô nada satisfeito.
— E agora perdemos o rastro do vampiro, já que boa parte do cheiro dele desceu pelo ralo depois do banho do moleque. — disse Daniel.
— Vocês podem ajudar o Alex? — pergunta Mike.
— A única ajuda que podemos dar ao seu amigo é enfiarmos um punhal de prata no coração dele, ou cortarmos sua cabeça fora. O que vier primeiro. — disse Daniel.
— Denny, relaxa. — disse Tereza. — Pega leve, ok. O Mike passou por muita coisa. O que ele quis dizer é que já se passou tempo demais desde que Alex foi mordido. Não podemos fazer mais nada. Sinto muito. E a sua única chance agora, Mike, é que encontremos o ninho e coloquemos um fim nisso tudo.
— Minha única chance?
— Agora que viram você comigo, você pode acabar se tornando um alvo.
— Ou uma isca. — disse Daniel.
— Quer dizer que...
— Até a segunda ordem você fica aqui, garoto. — disse Daniel.
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