Legado dos Deuses
3 O Conselho
— A quem devo a honra de ter me convocado ao conselho? — pergunto ficando frente a frente com os quatro deuses.
— Poupe-nos do seu sarcasmo Loki — Zeus reclama impaciente.
— O meu sarcasmo não impede que falem — replico sorrindo.
— Não há tempo para isso! — Osíris reclama olhando para meu pai — Diga a ele Odin.
O deus me olha de cima a baixo, o usual olhar de decepção presente em seu rosto imortal, mas já havia deixado de me importar com que o Grande Odin pensa de mim.
— Um Makteho nasceu — ele faz uma pausa esperando o efeito dessas palavras se dissipar pelo ambiente.
— E? — retruco disfarçando a surpresa em meu olhar — Maktehos têm surgido aos montes. Nenhum deles foi digno de tornar-se um Universal.
— Essa é diferente — Júpiter se pronuncia pela primeira vez.
— Então é uma garota... — digo por fim sem entender o que eu estava fazendo ali.
Júpiter se remexe na cadeira desconfortável. O deus romano estava definhando aos poucos, não haviam mais homines divinitatem romanos há décadas. Os romanos estavam desaparecendo e, a única esperança de evitar sua extinção, o deixava irritado por alguma razão, provavelmente o motivo de meu envolvimento.
— A garota, — Odin prossegue — é uma Arv — assinto ainda sem entender o motivo da convocação, a garota é viking e daí?
— E nasceu com a sua marca, — Osiris complementa — com cabelos vermelhos como o fogo que lhe é submisso.
— E o que os faz achar que ela seja digna? — replico mascarando o meu interesse no assunto.
— Porque a garota não quer o poder que tem, ela aceita suas origens e aceita sua história, ou pelo menos a fantasia que os humanos lhe contaram, ela só não aceita o poder.
— E qual é meu papel nisso?
— A profecia finalmente tem as variáveis que precisa para realizar-se — Zeus responde.
— E o seu papel, Loki, será reclamar a garota, marcá-la com sua serpente e como Makteha — meu pai revela me analisando.
— Se eu a marcar como um Universal ela terá um alvo nas costas.
— E desde quando vidas mortais importam a você, trickster? — Osiris retruca.
— A mim pouco importa, — digo trazendo um sorriso de volta ao rosto — mas se a garota é a primeira que recebe o poder de quatro facções de primordiais sendo digna de utilizá-lo a vida dela importa ao conselho.
— Devíamos ter deixado que Hefesto a marcasse — Zeus murmura irritado.
— Ela precisa ter a marca de um dos Grandes — Odin responde paciente — e, além do mais, ela acredita ser uma viking. Se Hefesto aparecesse não tenho certeza se ela estaria inclinada a nos ajudar e...
Pigarreio chamando a atenção dos quatro anciões a minha frente. Todos olham para mim com o usual olhar de desprezo e eu me limito a manter o sorriso e a expressão jocosa.
— Pelo que entendi, — inicio observando os deuses — além de marca-la com o meu fogo devo marca-la como Universal e ainda fazer o que? Explicar a nossa situação — rio com desprezo — a uma mera mortal?
— É a nossa última esperança — Osíris diz sério.
— As Nornas realmente trabalham de uma forma engraçada — comento deixando os conselheiros mais irritados — o Conselho deveria ter considerado mandar Hefesto, ou qualquer outro deus.
— O elemento principal da garota é o fogo — Júpiter retruca com as poucas forças que lhe restam — Você e apenas você pode clamar a garota. Não tente fugir garoto, nós já analisamos todas as variáveis, você é nossa única e última opção.
— Como negar um pedido dessa forma... — afirmo ainda sarcástico — o que desejam que eu faça?
Os deuses se entreolham desconfiados antes de começar a falar, mas — por mais que eu quisesse negar — precisava da garota tanto quanto eles. Já começava a sentir o fogo se rebelar sob meu controle e sabia que isso era só o início.
— Precisa guiá-la — Odin diz enquanto observa cada movimento meu — treiná-la e fazer com que ela acredite em nossa verdadeira história. Precisa fazer com que ela não seja corrompida pelos humanos — conclui e eu rio abertamente
— Está dizendo, pai — faço uma pausa para me recompor — que devo ser o guia da garota? EU Loki? O deus que você mais desconfia?
— Como bem disse, as Nornas trabalham de uma forma peculiar — responde
— Acredito que eu tenha usado a palavra engraçada, — ele me olha sério — mas peculiar também parece aplicar-se.
— Aceitará a missão ou não, trickster? — Zeus questiona impaciente.
— O Conselho não me dá outra escolha... irei aceitar a missão, — começo a me retirar — contudo não farei nada além disso. Irei guiar a garota...
— Érika — meu pai interrompe.
— Que seja, — continuo — irei guiar a águia-rainha até seu ninho, — digo sorrindo ao traduzir o nome da garota — mas será tudo. Depois de lhe dizer tudo que precisa saber irei deixá-la seguir seu caminho. Afinal todos sabemos como os deuses do destino ficam quando interferimos — respondo vendo Júpiter e Zeus fecharem ainda mais as feições.
— Muito bem, — Osiris diz levantando-se — contando que o faça direito não lhe pediremos mis nada. Está dispensado.
Sorrio e começo a me retirar quando Odin grita:
— Ela irá para o Último Arquipélago amanhã!
Dou meia volta, pronto para discutir a questão, mas os quatro deuses já haviam saído dali. Irritado, rumo aos meus aposentos já maldizendo os quatro conselheiros.
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