Legado de Semideuses!
2 Mundo Surreal.
Os segundos se tornaram turbulentos sobre minha cabeça. O que pensar? Como agir? Como rasgar a cara do homem-cavalo sem que eu morra? Sei lá, quando eu começo a pensar as coisas acontecem e meu instinto assassino me rompe até eu ficar loucamente insano... Mentira, o cavalo era enorme e ele com certeza me daria um soco que eu voaria até a Austrália. Ele nos olhou com uma cara severa, seu rosto era coberta por cicatrizes enormes e que o faziam parecer muitos anos mais velhos que o normal. Mas espera... Como será que são contados os anos de um centauro? Será que a cada um ano nosso, eles ganham seis ou sete? Ou existe uma conta mística que só os fazendeiros sabem? Opa, o perdi o foco, desculpe-me.
– Agora entendi por que esse lugar estava com um cheiro forte. – Ele nem ao menos abriu um sorriso, grosseria da parte dele não acham?
– Olha quem fala né? Esse cheiro de cavalo molhado não é bom. – Alinne rebateu, ela não tem medo de morrer não?
– Cavalo-bêbado, você quis dizer. – Desvencilhei das mãos da loira e fiquei ao seu lado.
– Não sejam ingratos e nem arrogantes, vocês me devem as suas vidas inúteis, pequenos Semideuses.
– SEMIDEUSES? – Dizemos no mesmo instante sem entender.
– Ah não! Sem essa. Eu vou levá-los lá por que estou em dívida com o Olimpo, mas me poupem de explicações. Isso é serviço deles! Vamos logo, subam nas minhas costas, mas não me estuprem.
[...]
Os minutos se passaram como folhas que caíam das árvores no outono. Estávamos tão perdidos com o transe dos lagartos que não vimos que o metrô simplesmente não parou em nenhuma estação, a não ser a: Sé. O que eu achei muito estranho, pois a equipe da CPTM/METRA era completamente rígida com isso e eles simplesmente não deixariam estações passarem sem qualquer tipo aviso prévio. A não ser que tudo já estivesse sido planejado.
– Hey cavalinho, espera! – Eu grunhi.
– O que é pirralho? – Ele esbravejou parando e batendo os cascos.
– Essas pessoas vão ver um cavalo louco galopando com duas crianças, o que e acha que eles vão fazer? Aplaudir-nos? – Eu disse, ríspido.
– Garoto, a névoa existe para isso. Humanos não vêem as coisas do mundo mágico, eles enxergam aquilo que nós manipulamos. Eles nunca verão um centauro, no máximo, uma bicicleta ou um pai levando os filhos nas costas. Agora cale a boca e não segura nos meus pelos tão forte.
– Ou então um unicórnio correndo ao fim do arco-íris? – Caçoou Alinne.
– Eu poderia simplesmente deixar vocês aqui e serem devorados por lagartos, mas não, tive que pedir um dia de folga pra Zeus e deu nisso...
– Você é meio retardado? Zeus é da mitologia Grega. – Ele não respondeu. Empinou os cascos, relinchou e disparou sobre os tuneis pouco explorados e mal habitados do metrô.
O pangaré-aloprado — apelido que eu mesmo dei carinhosamente ao meu mais novo amigo — desceu as escadas com duas figuras jovens pulando atrás de seu corpo feito um rodeio de touro, era difícil se manter nas rédeas. Nós segurávamos em suas barbas e por um segundo o ouvimos reclamando e aumentando a velocidade. Ele desceu a plataforma sem titubear. Havia cerca de cinquenta pessoas nela, porém, nenhuma ligou quando ele desceu aos trilhos e foi rumo ao escuro. Um calafrio me incomodou quando um tremor surgiu dos trilhos, o vagão se aproximava em alta velocidade em nossa direção. Por mais que ele fosse rápido, o metrô era superior e ele não pararia quando nossos corpos fossem massacrados pelas rodas. Foi então que mais lagartos surgiram do teto e meu tremor repentino começou a atacar. Alinne me abraçou por trás e fechei meus olhos para não descobrir o final de tudo aquilo.
– Eu estou vendo a entrada. – Ele gritou em meio aos cabelos e barbas ao vento. O cheiro de cachaça subiu as minhas narinas e eu quase vomitei.
– Você está tendo alucinações por causa da bebida, não tem nada a não ser o escuro, vamos morrer! – Alinne esbravejou.
– Não... Olhe ali, á uma entrada. E tem alguém ali. – Eu estava paranóico, mas consegui enxergar numa distância de trinta metrôs e no escuro.
– Não vamos conseguir. – Ele grunhiu – Droga! Por que fui me meter!
Quando dizem que no final do túnel não tem luz, é mentira, tem sim. A diferença é que ela não vai te matar. Uma luz móvel vinha em uma velocidade que até os Deuses ficariam impressionados. Deuses? Era como se fosse uma bala de arma de fogo. Uma arma na qual rompia o vento em questões de segundos. A distância era de cem metrôs. E a disputa começou.
Vagão — 60 metros.
O gosto metálico de sangue invadiu minha boca de tanto mordiscá-la. Eu estava completamente paralisado pensando no pior.
Pónei — 20 metros.
Nós avançamos para a entrada, víamos duas figuras acenando.
Vagão – 30 metros.
Alinne me apertou com força. O trem iria nos arremessar ao além. Ao tártaro!
Ponéi – Cinco Metrôs.
O clarão invadiu nossos rostos e tudo o que podíamos sentir era o desespero da vida se esvaindo sobre nossos olhos. Não havia qualquer forma de conseguirmos alcançar sem pelo menos o trem nos pegar e nossas tripas jorrarem aos trilhos. Mas tudo o que podíamos fazer era fecharmos os olhos e clamar por um fim rápido e indolor. Mas o que veio a seguir nos surpreendeu.
– Espero que tenha pagado a minha dívida – Ele esbravejou. Num momento rápido o centauro parou de correr e nos lançou sobre seus ombros e fomos diretamente ao trem que estava cinco metros da entrada, flutuando sobre o chão. Nós chegaríamos primeiro na entrada, porém, não haveria como mudarmos nossos corpos num movimento para o lado e cair dentro da passagem estreita, pois estávamos vulneráveis no meio do ar.
Meus olhos verdes ofuscaram a visão do fim e senti minhas vestes serem pegas com força. Acho que a morte já estava se encarregando de me levar, mas ao invés disso, fui arrastado ao ar por mãos e cai no corredor ao lado de dois garotos. Abri meus olhos e um arrepio me cobriu. Alinne? Onde ela estava? Meu coração gelou e levantei rapidamente com um aperto sem fim. Havia dois garotos, e eles também haviam caído no chão, e por sorte, Alinne também estava lá; viva.
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