Os vizinhos sempre disseram que a minha casa tinha energias más durante a noite, e alguns, até já delataram a polícia local que monstros misteriosos com chifres – metade humanoide e metade touro – rondavam a casa que dava acesso á um cemitério vizinho. Muitos, porém, conheciam-nos e até se simpatizavam conosco, embora naquela idade eu não fizesse ideia das circunstâncias e consequências que minhas ações poderiam causar. Mesmo assim, eu nunca deixei de ouvir os fofoqueiros se perguntando por que eu nunca podia sair na rua para acompanhar os outros garotos nas brincadeiras costumeiras. Minha mãe sempre olhava entre as tábuas da janela a noite com um instinto vigilante na sua expressão cansada, e logo depois de dizer que só estava tentando encontrar a lua no breu sinistro que saía do cemitério, ela amenizava suas expressões com um sorriso doce. As tábuas sempre rangiam do lado de fora, e no telhado parecia que alguém tentava sem sucesso entrar pelos mínimos tijolos que ainda tinham algum espaço. O vento era um instrumento importante e indispensável que sempre se refugiava em nossa pequena moradia no alto da colina, e ele, por sua vez tinha força suficiente para abrir a porta do meu quarto com um mero assovio. Quando isso acontecia, eu sentia meu queixo sendo acariciado por dedos leves que sempre sumiam quando eu abria os olhos; e então não havia ninguém, o vento cessava. Minha mãe sempre me disse que existiam espíritos da natureza e do vento que gostavam de garotos obedientes, e que se eu não a desobedecesse eles sempre estariam comigo.

Ela só me deixava ir para a escola quando o sol estava imponente no alto do céu, e mesmo sem saber o motivo de tal imposição, eu aceitava. Houve um tempo que fiquei sem poder colocar os pés na rua por duas semanas seguidas, pois os dias eram tão cinzentos que o frio tinha caído tão abruptamente que o sol ficou bloqueado por todo aquele tempo – o solstício de inverno, como ela chamava.

O tempo foi passando e eu crescendo. Aos treze anos eu já tinha uma necessidade maior de querer sair, e por mais que minha mãe ainda manterá tais regras, era impossível me controlar. Ela tinha cerca de cinquenta anos agora, mas suas rugas já eram bem visíveis e toda vez que eu saia parecia que mais umas cinco apareciam. Outra vez ela quase morreu de susto quando eu disse que suspeitava que alguém havia me seguido desde a saída da escola, e novamente, mais uma semana sem poder sair para rua.

Certo dia, um vizinho bateu na nossa porta e quase nos fez sair de lá a força, pois para ele, uma enorme cobra estava rondando a casa. Fizeram várias buscas, inúmeras na verdade, e nada foi encontrado. Mas em uma tarde, enquanto eu estava voltando da escola ela simplesmente pulou do mato e me enrolou com suas curvas sufocantes. Se não fosse por Alinne, certamente eu teria morrido. A partir disso a loira e eu passamos a ser muito mais que melhores amigos, e eu jurei que a protegeria com todas as forças. Minha mãe tinha mais segurança quando eu estava com ela, e por isso, eu tinha mais liberdade para sair, se, ela estivesse comigo é claro. Logo, a mãe de Alinne se mudou para mais perto de nós, e naquela colina agora havia duas casas.

E hoje eu estava ali, adiante da colina sozinho do lado de fora com uma incrível neblina sublinhando a paisagem. Ao lado, uma enorme placa digital que mostrava a data e o horário indicava o seguinte “Quinta-Feira, 23 de Maio, 23:15 da noite.” Eu não sabia como, mas por algum motivo eu deveria estar ali. O barranco escorregadio ainda se mantinha difícil para subida, e como eu sempre fui preguiçoso para dar a volta, então resolvi usar os troncos para me locomover entre a subida. A minha concentração estava sendo tão testada, que por um minuto não notei uma enorme sombra ficar ereta sobre a porta de madeira. A sombra, um monstrengo enorme com um corpanzil gigante e imundo não tardava em fazer barulho com seus longos pés. Tampouco, parar de girar o bastão notavelmente cheio de pregos.

Eu sabia que algo bom não era, e quando cheguei a lateral da casa, senti um forte tremor de explosão quando o bastão acertou a porta tão furiosamente que a destruiu em milhares de pedaços. Inclinei minha cabeça e quando pude ver nitidamente sem a fumaça ocasionada pelo entulho, o corpo do gigantesco e caolho humanoide havia sumido entre as sombras do teto que um dia foi a minha casa. Ouvi um breve suspiro e ronco, e dessa vez meu coração acelerou por saber que minha mãe ainda estaria dormindo aquela hora, eu tinha que ajuda-la a tempo! Assim que subi as escadas, agora deformadas pela voracidade dos pés tortos daquele ser oriundo, eu o observei gingando desajeitadamente entre o corredor minúsculo que abria caminho ao enorme porte do monstrengo. Ele ia destruindo tudo o que tinha pela frente, e não demorou em chegar a uma porta sanfonada que se mantinha em completa serenidade, intocada pela sua brutal e desprezível sede por destruição. Entretanto, seu bastão gingou rápido e vorazmente em busca de um estardalhaço para o seu tamanho, e a porta voou e ele entrou. Tateei minha cintura em busca de algo para que eu pudesse usar, mas não tinha nada se não o meu cinto. Xinguei-me completamente por não ter uma adaga sequer, e fui atrás daquele humanoide com receio de que ele me encontrasse. Um urro gutural ecoou pelo corredor, e eu soube que minha mãe tinha conseguido fugir, por isso, parei bruscamente entre o banheiro e a porta sanfonada – que agora não existia mais – e fiquei a fitar de vez em quando o que ele fazia lá dentro. Eu não poderia ser visto antes de eliminá-lo, não poderia deixar que ele encontrasse minha mãe antes de mim.

– Me ajude... Por favor, me ajude... – Os ruídos vinham atrás do box escuro.

Quando eu virei para trás, notei a tênue sombra de minha mãe ajoelhada em um cantinho minúsculo que até mesmo eu tive dificuldades de enxerga-la. Fui até ele, e com muito silêncio tentei abrir o box, mas em vão. Ele não abria.

– Mãe, eu to aqui. – Cochichei. – Eu vou te tirar daqui, vem comigo... Rápido.

Os barulhos aumentavam de forma expressiva e eu tive certeza que o ciclope estava ficando impaciente, não ia demorar muito para que ele fosse até o banheiro e me achasse. Minha mãe continuava a rezar, e por alguma razão ela não me escutava. Por quê? Eu tentei mais uma vez, duas, três... Sete... Mas o único resultado era a minha voz que sumia com a ideia de perdê-la.

O extinto eco monstruoso sessou com a irritação do ciclope ao fim, e ele foi novamente até o corredor que agora estava sobre pilhas de entulhos – mas ele conseguia arrastar seu corpo por aquele pedaço, e o bastão ia atrás. Ele virou, meu coração pulou e os seus olhos foram de encontro ao meu, o meu fim estava próximo. Fiquei paraliso com a aproximação dele, e por mais que o banheiro fosse grande, ele raspou a cabeça no teto e tomou com os ombros nas paredes que rachavam com os seus membros enormes. Ele me fitou, eu agora estava na frente de onde minha mãe abaixava para encobri-la. Ele me mataria, e eu tinha certeza que não notaria minha mãe lá, ele não notaria... Seu bastão levantou em direção a mim, e eu fechei os olhos com um pesar. Novamente voltei a enxergar, e o bastão veio tão forte que eu nem senti a pancada no meu corpo... Na verdade, eu não senti nada...

Os gritos se multiplicaram quando ele passou direto pelo meu corpo que mais parecia um holograma, e quando ele se chocou com o box que voou em mil pedaços – a parede abriu-se em destroços e caiu na rua com um baque gigantescamente mortífera. Minha mãe fora arremessada com tamanha força, e seu corpo havia caído em cima da placa de alumínio negro que ela estava escondida, e quando o gigante atravessou meu corpo e pulou até o chão – fagulhas surgiram dos andares de baixo e a casa começou a pegar fogo. Uma redoma de chamas rapidamente ergueu-se entre as casas e fez uma enorme roda de fogo entre ela, alguém havia colocado fogo propositalmente na casa, mas quem? Outra sombra se fez soberana por cima da minha mãe, e no alto, eu observei incrédulo o corpo da minha tia – mãe da Alinne – ser arremessada ao lado dela, as duas estavam inconscientes.

– MÃE! PAREM!, PAREM SEUS DESGRAÇADOS! – As lágrimas caíam do meu rosto ao observar os bastões sendo erguidos com leveza pelos ciclopes.. – MÃEEEEEE! MÃEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!

Quando o bastão caiu até o solo, a imagem de dois corpos sem vida no chão me fez tombar do segundo andar onde outrora fora o banheiro. E a novecentos metros dali, eu acordei sobressaltado com o horrível pesadelo.

...

As grades eram revestidas com um ferro bastante antigo e com uma cor gasta de ferrugem. Os fiapos saíam lentamente das barras incrustradas de sujeira, e era visível o estado tão precário na qual elas se encontravam. Todavia, para minha surpresa elas continuavam extremamente resistentes. A cela não era grande, e na maior parte do tempo eu tinha que ficar deitado pra não ficar encurvado. Eles eram anões, e faziam prisões para o tamanho deles, é claro. Quando me esgueirei até o limite do ferro, notei que estava simplesmente dentro de uma torre com inúmeras celas esculpidas dentro de cada buraco possível nas paredes rochosas. O único meio para subir e descer aquelas tortuosas masmorras eram as escadas rotatórias que não possuía qualquer proteção em torno dos degraus.

As paredes eram feitas totalmente de um material encascados e um marrom com enormes depressões que deixavam o lugar horripilante. A pouca claridade do sol vinha pela única vidraça no topo da torre, que ao invés de ter algum tipo de vigia, tinha janelas e um vitral aberto como se fosse uma estufa – era lá que entrava o vento fresco. Se isso não fosse o lar de inúmeros detentos, quem sabe, eu poderia admirá-la com outros olhos. Falando em olhos, a imagem daquele gigantesco e caolho ciclope ainda perturbava-me de uma maneira expressiva. Só de lembrar aquele humanoide careca, sem dente, corpanzil, me dava arrepios. Pior... O bastão, aquele bastão que ele havia usado para assassinar...

NÃO!

Foi apenas um pesadelo, um pesadelo que nunca vai existir... Afinal, como eu poderia estar lá e testemunhar tudo? Isso era impossível! “Como sempre né? Pior que esses sonhos de vocês sempre têm alguma mensagem que fode todo mundo no acampamento.” Lembrei-me de Well, o antigo conselheiro de Hypnus esbravejar essas palavras quando visitei a cabana de do deus do sono uma vez antes de sua morte, poderia ele estar certo? Acredito que não... Eu já tive três sonhos esquisitos desde o dia que Apolo me reclamou; o primeiro aconteceu até pouco tempo, e nele eu sonhava que estava em ruínas de gelo olhando pra um trono dourado que estava sobre inúmeros andares superiores. Mas depois, havia um gigante me encarando com fúria. O segundo, já fazia tanto tempo que nem me lembrava dele mais, até hoje. Recordo-me que havia garotas lindas que começaram a arrancar pedaço da minha pele com mordidas durante uma travessia minha numa festa, e depois, com um beijo doce uma única garota morena desconhecida me fazia totalmente novo em folha. Dois sonhos descartáveis que não significaram em nada, mas já por outro lado... O terceiro; que simplesmente me mostrou que alguém morreria durante a busca da Arix na Galeria do Rock, um mês atrás. Definitivamente eu tive azar com esse pressentimento, Thalles não voltará ao acampamento naquele dia. Mesmo assim, aquilo poderia ser uma coincidência, ou não...?

– A cidade inteira é feita de papel, menos a porcaria da prisão. – Eu não sabia em qual cela Lorenna estava, mas ainda sim os ecos de suas reclamações chegavam até o meu ouvido.

– Aril, seu desgarrado e mal amado, solta agente! – A voz conhecida invadiu meus ouvidos.

– Camila Frascolli? – Bradei com os olhos para baixo, parecia que eu era o preso mais alto de todos.

– Quase todos estão aqui, Lyu. – Bieringuer respondeu, desanimado.

– Quantos tempos estão aqui? Quanto tempo eu fiquei desacordado? Que dia é hoje? – Coloquei a mão nas pupilas dos meus olhos ardentes que não paravam de arder com a luz vinda diretamente no meu rosto. Um pote de água estava perto da minha cela, e tombei-o um pouco para meus lábios que se lambuzaram com o líquido. Fazia tempos que eu não bebia uma água tão boa assim, e ela definitivamente descera minha garganta com um refrescante sabor.

– Há dois dias, o mesmo tempo que você está inconsciente, Aril deve ter te dado um golpe e tanto. – Eu consegui localizar a cela do filho de Hermes como a segunda cela abaixo da que estava na minha frente. – Dia 24 de Maio.

– 24...? – Minha espinha se arrepiou, ele não poderia falar sério... – Tem certeza?

– Absoluta. – Houve uma pausa. – Mas não se preocupe. Ninguém vai tocar na sua mãe, Lyu.

– Como sabe...?

– É, você passou a madrugada gritando coisas como ciclopes, bastão de pregos, mãe, Alinne e algumas coisas a mais. – Lorenna interviu.

– Me desculpem... Eu realmente não tive a intenção de perturbá-los com isso.

– Tudo bem, sempre temos sonhos iguais á esses. Por mais que somos semideuses, nossas fraquezas são mortais. – Thay falou.

Verdade seja dita com tanta exatidão. Eu nunca parei pra pensar qual seria a minha maior fraqueza, mas acredito que a perda de minha mãe seria algo inimaginável para mim... E isso não poderia acontecer, mas e se o pesadelo fosse uma visão do que aconteceu? Uma visão de como eu seria tão fútil a ponto de deixar minha mãe sozinha, abandonada... Eu deveria ter estado lá, como sempre. Principalmente agora, que eu não era mais um garotinho invulnerável. Mesmo com as palavras confortáveis dos meus companheiros, mesmo Martinato fazendo piadinhas toscas mesmo sob debaixo de uma prisão de anões, eu deveria levar em consideração os sinais que isso trouxe. E, deveria voltar o mais depressa possível.

O barulho de trincos sendo retirados de uma porta corria até o final da vidraça lá em cima. E, inúmeras vozes preencheram o salão comunal – a ridícula prisão caída aos pedaços – com a pronunciação de Aril.

– A rainha quer vê-los! – O eco surgiu. – Acordem suas amebas!

O tapete continuava branco, muito embora estivesse encardido. As escadas ainda eram grandes, e rainha ainda estava lá no topo, sentada com as pernas esticadas em um banco. Assim que ficamos de fronte á ela, inúmeras vozes preencheram o recinto.

– Calem as bocas, que caralho. – Ela falou tão alto que os todos se calaram, embora ainda um som perplexo de “ÓH” em uníssono após o termino da última palavra restasse. – Opa, desculpa. – Ela colocou a mão na boca. – Ah desculpa nada, eu que mando aqui foda-se.

– Mas minha rainha.

– Eu disse pra calar a boca.

– Mas...

– Droga, se tá ficando surdo né? Vou ter que jogar você lá no calabouço ou dar comida pros nossos bichinhos de estimações?

– Desculpe-me minha senhora.

– Senhora sua mãe. Ah, tirem esse idiota da minha frente. – Ele foi arrastado por uma dupla de anões parrudos e fortes. – Mais alguém quer me interromper?

– ... –

– Ótimo! Bem, escutem semideuses. Meu pai, digníssimo pai... – Ironia detectada quando ela revirou os olhos. – Mandou uma carta dizendo que estava furioso e insatisfeito com a distribuição das correspondências, e o culpado seríamos nós, os Liranianos. – Fiquei imaginando o que isso tinha haver conosco. Já que passamos dois dias trancados, problema é dela, se vira menina. – Sabemos que isso foi uma sabotagem daqueles imundos dos Laurianos, e, ele nem sequer quis ouvir as minhas palavras e acusações! Isso por que eu me dispus a conviver com anões no confim do mundo, e simplesmente nem cinco minutos do tempo dele eu mereço, idiota. – Todos a olharam. – Ele falou que só vai haver um reino pra distribuir as cartas.

– E qual é minha... Rainha? – Aril gritou ao meu lado.

– Ele está indeciso, mas quer que haja uma disputa entre os dois reinos, o vencedor fica com tudo... Ele vai mandar um tal de Eggyash pra fiscalizar tudo.

– Eggyash?

– É, eu sei. – Lira gargalhou baixo. – Parece o nome de alguém que tem uma síndrome.

– Tá, e o que temos haver com isso? – Martinato interviu o momento risonho da rainha-guerreira.

– Vocês querem a liberdade? Então! Para que isso aconteça, terão que me ajudar a ganhar o jogo.

– Mas qual?

– Aril. Explique tudo á eles, e, aliás, acomode-os de forma confortável. – A rainha disse, despreocupadamente. – Vazem da minha presença agora que vou pintar minhas unhas.

Ele resolveu nos despachar cada um para uma cabana improvisada que cabia ao menos, todas as nossas partes do corpo. Não era uma coisa tão confortável, mas dava pra nos arranjar naquele lugar que parecia um salão de festas. Cinco anões foram até os meus companheiros para explicar as regras loucas daquele esporte, cujo nome era “Dragon Bullet ball”. E eu, como tive tanta sorte, o mais folgado anão veio em minha direção. Aril estava com uma caneta e um papel, e logo começou a rabiscar.

– É bem simples esse jogo, preste atenção seu idiota! – Ele me encarou com seus órbes escuros. Inúmeras dúvidas começaram a surgir conforme ele rabiscava uma coisa que eu achei que fosse uma chaminé. – Existem quatro torres de papel; duas principais (primárias) e duas secundárias. Cada time possui uma de cada, e todas elas têm uma longa e grande bandeira no topo. A distância entre as primárias são de cinquenta metros, e elas ficam em linha reta uma da outra. As secundárias, também ficam a cinquenta metros uma da outra, e tem um pouco menos de vinte e cinco metros das primárias. Tá me entendendo cara de musgo? – Eu fiquei um tanto confuso.

– Sim, é claro.

– Os times devem escolher dois “torreiros”, que são anões que devem ficar nas janelas das torres com um enorme bastão pra defesa das bolas flamejantes lançadas, o objetivo é não deixar que as bolas entrem e destruam a torre; se alguma delas conseguir passar por esse torreiro, a equipe adversária ganha cinquenta pontos e um cascudo na cabeça se o idiota for do meu time. – Franzi as sobrancelhas. – Nas extremidades do campo existem quatro coisas enormes e legais que eu os batizei de “Lancer Balls”, e eles servem para abastecer o campo com as bolas (explosivas e normais) que têm um mecanismo anti-gravitacional. Elas ficam flutuando como se fossem asteroides na lua, isso não é demais!? – O anão mais cuspia do que falava. Ao menos, eu já conseguia distinguir o desenho dele e tomar alguma ideia de como aquele esporte era.

– E como faremos isso? Usaremos vassouras?

– Não, sua anta! Vocês necessitam de um transporte mais eficaz e muito mais perigoso. – Ele notou que a ficha ainda não tinha caído para mim. – É claro que são Dragões! – Meus olhos brilharam. – Os dragões adoram as bolas do tipo explosiva e podem prendê-las nas bocas pra depois jorrá-las com camadas de fogo no inimigo. – Ele gargalhou. – Da última vez aqueles maricas dos Laurianos morreram de raiva por uma bola que eu atingi com a minha bazuca bem no meio da cara de Arual!

– Bazucas?

– Sim! Há muitas bolas normais que você pode encaixar na sua bazuca e tentar derrubar os jogadores dos outros times. – Ele deu de ombros. – Ou faça do jeito que eu gosto; pule nas costas do dragão deles e derrube-os com a própria espada ou os punhos. Eles só tomaram uma queda de trinta metros. Isso sempre funciona!

– E como o jogo termina?

– Termina se vocês estiverem estirados no chão, ou, roubarem as duas bandeiras do inimigo que equivale á 500 pontos cada uma. – Os desenhos de Aril não ficaram tão ruins. – Ele me olhou risonho. – O último jogo durou exatamente três semanas. – Ele jogou o papel no chão. – Se ganharmos, o restante da asa alada será nossa e os liranianos reinarão sobre aqueles podres laurianos!

– Asa Alada?

– Espere, eu não disse isso. – De repente, ele começou a vociferar palavrões para desviar a atenção do que acabara de falar. – Já te expliquei tudo, os jogos começaram amanhã, durma!

E ele finalizou batendo a porta daquele salão, nem ao menos comida ele havia me dado. Embora eu não estivesse com fome naquele momento, meu corpo estava ficando um pouco fraco. Mas, eu tive certeza que eu não estava ficando louco antes de ser deixado inconsciente. A portarius, ou a metade dela, estava dentro daquele castelo de papel da rainha Lira. Agora só precisávamos saber onde estava a outra. E eu já tinha ideia de onde poderia estar. Mas como cruzar a cidade?

Assim que tentei me enrolar em um micro cobertor remendado duas vezes para ficar um pouco maior, meu braço direito se deparou com o papel que o anão havia passado as instruções do jogo. Eu o fitei, e por incrível que pareça estava razoavelmente entendível.

Sorri, por aquilo ser tão radical e perigoso ao mesmo tempo. Será que o risco de perder a vida era um preço na qual minha liberdade valia a pena?

Assustei-me por não haver mais dores no local em que antes havia um terrível ferimento, e quando meu tato apalpou o lugar, notei que não havia mais nenhuma sequela. Como? Uma pergunta que nem mesmo Apolo poderia responder, ou poderia? Pois apenas cicatrizes rondavam o local. Eu o articulava normalmente, era como se nada tivesse acontecido.

Apesar dos outros agora estarem falando sobre os outros membros perdidos; Rodrigo, Mama e Malu, eu estava preocupado com os sinais que tive poucas horas atrás em relação a minha mãe. E quando todos caíram no sono, aproveitei esse momento para me recompor e ficar de pé. E com um envelope jogado na mesa, uma folha de papel amassada e uma caneta esferográfica azul, rabisquei algumas palavras e segurei na minha mão o envelope. Logo, fui até lá fora para observar a imensidão que a noite trazia consigo. E, além disso, uma missão na qual não poderia esperar até amanhã.

As ruas – ou seja lá o nome que eles chamam isso, –estavam iluminadas perfeitamente com vagalumes e lamparinas no meio do gramado que reluzia em uma singela noite fresca. Eu via alguns vultos a metros de distância, mas não conseguia saber o formato das criaturas que logo desapareciam no breu silencioso da noite. Aproveitei a calmaria e me dirigi até uma colina que tinha uma visão periférica de toda a vila de papel. Ao longe, a entrada para o lugar onde as cartas perdidas flutuavam esperando ser recolhidas era protegida por enormes muros. A entrada era coberta e parecia uma casa, pois era estreita e os guardas Ogal e Orgen ficavam vinte e quatro horas ali com os olhos abertos. Além delas, eu observei um enorme sugador redondo que era ligado com a madeira da árvore e ia além dela. Acredito que aquele era o famoso zapzum que Aril e toda a trupe cantarolava antes de chegarmos ao centro da fortaleza dos liranianos, e de fato, muitas cartas entravam naquele buraco e desapareciam.

– Eu não mandei dormir, ameba? – O anão apareceu em uma varanda, bocejando. Eu estava tão distraído que quase não havia percebido que estava sobre uma casinha pequena com dois andares. – Saia já desse teto, eu reguei a grama hoje seu imundo! – E ele usou a força dos braços musculosos para subir e ficar ao meu lado. Seu pijama era de uma fada com cabelos verdes, aquele tal de Cosmo dos padrinhos mágicos.

– Ah, foi mal. Nem percebi.

– É, mas eu sim. Você andava e parecia que meu cérebro era massacrado. – Ele também tinha uma toca de dormir do Asterix cobrindo os negros e trançados cabelos escuros. Por fim ele me olhou curioso. – O que é isso na sua mão?

– Uma carta, oras. Trabalhou tanto tempo com elas que não sabe mais reconhecê-las? – Eu sorri.

– O que eu to querendo dizer é que; por que você tem uma, seu energúmeno.

– O que se faz com uma carta seu idiota? Pelo que sei, envia para alguém.

– Aé? Jura? E pensa enviar pra quem? – Ele coçou a toca.

– Bem, eu tive um sonho esquisito com a minha mãe... – Respirei fundo. – Eu sonhei que na data de ontem, ela teria sido assassinada por um Ciclope careca, e me pareceu tão real... E também, minha irmã, ela está presa no submundo desde... Pouco mais de três dias...

– Cuidado garoto. – Ele me alertou. – Acredito que têm coisas que é melhor ficar sabendo na hora certa.

– Não, eu preciso saber mesmo...

– Hm... É, é uma causa nobre, eu acho. – Ele começou a marchar rumo aos muros. – Não se acostume com a minha bondade e exuberância de um anão simplório. – Quase que vomito com as palavras mentirosas dele. – E só pra te avisar, não me responsabilizo pelos resultados desastrosos.

– Como se eu fosse querer culpar um anão que vive no meio da terra.

Ogal e Orgen estavam com os pomposos chapéus de lado, enquanto suas caras flutuavam em meio ao sono que os carregava. Um segurava o outro pelas costas, e eles iam caindo lentamente conforme passava o tempo. As pupilas caíam brevemente e subiam quase que dois segundos depois, embora elas me parecessem estar entreabertas, eles não enxergavam nada além de um extremo cansaço que os olhos sustentavam. Até que dormindo os anões não eram tão feios quanto pareciam – pois eles tinham forma de motoqueiros fortões e parrudos, mas na metade do tamanho –, por isso eu sempre tive a sensação de que eles pegariam motos e sairiam fazendo manobras por todos os lugares.

– Recomponham-se! Não quero ninguém dormindo enquanto estão de guarda no turno da noite! – Os dois soldados deram um pulo de susto.

– DESCULPA CHEFE! – Ogal gritou em desespero.

– Mas chefe, cadê os outros dois que assumiram nossos postos? – Orgen bradou assustado.

– Eles estão cuidando do serviço que vocês rejeitaram, esqueceram? Agora abrem logo essa porcaria.

A brisa novamente tocou nos meus cabelos loiros que dessa vez eu tive quase certeza que eles haviam se mexido. Assim que entramos no que parecia ser o enorme quintal do castelo de papel da Rainha Lira, inúmeros aviõezinhos continuavam a voar sem qualquer direção.

– Tome isso. – Ele me deu um punhado de selos com formato do planeta terra. – Sem um desses, você não conseguia fazer nada.

– Ah, valeu... Então, eu dobro e faço o papel no formato de aviãozinho? – Nesse momento meu coração batia tão intensamente que eu não sabia para quem endereçar a carta. Se fosse para minha mãe eu estava abrindo expectativas que ela esteja morta á essa altura, algo inimaginável por mim. E se fosse para Alinne, eu ficaria tranquilo em saber que ela ainda permanecia viva...

– Exato. Só colocar um desses selos que ela vai até o zaaapzum. – Ele gemeu. – Mas lembre-se, só pode mandar para uma pessoa.

– Hm, ok...

Enfim a carta-aviãozinho estava na minha mão pronto para abrir voou. As dobraduras muito bem feitas, por sinal, estavam quase sendo levadas pelo vento que batia com mais rapidez. Assim que a soltei, notei o papel fazendo curvas tão rapidamente que quase a perco de vista. Mas nesse momento todas as outras desceram e criaram mínimas altitudes do chão, enquanto apenas uma subia o quanto podia. E essa uma era a minha. Assim que ela ficou em baixo do tubo gigante, uma luz verde fosforescente abriu o show de luzes e ela foi abruptamente sugada. Os segundos nunca se tornaram tão aflitos em minha vida, e quando passaram cinco, os meus pelos se eriçaram. Meus olhos não paravam de encarar o instrumento que parecia estar se engasgando, e quando bateu quinze segundos – eu sentia meu coração quase pulando. Por um pequeno instante, as outras cartas subiram tão rapidamente que rodearam a máquina, agora eu não sabia se minha carta tinha sido entregue, ou recusada.

Pensei no quão importante seria para mim descobrir o que havia acontecido com uma delas. E eu tinha que ter esperanças que isso daria certo.

Mas... Vinte e cinco segundos depois a carta voltou, rastejando e fraquejando ao trocar um contato visual com os meus olhos. E ela caiu no chão. Lágrimas começaram a cair dos meus olhos e minhas pernas bambeavam com a breve notícia daquilo... Não podia ser, não... Por quê? Por que ela e não eu? Chutei-a, nervoso e o papel se desembrulhou.

A última coisa que pude ver foi uma lágrima manchado a caligrafia que eu tinha feito para a minha mãe. Agora, morta.