Legado de Sangue e Ouro livro 3
31 Rompimento
A manhã nasceu com uma claridade implacável, mas para Siena e Arthur, não havia mais espaço para sombras ou meias palavras. O peso do segredo havia se tornado insuportável, e o amor que os unira na noite anterior lhes deu a coragem final: a coroa era um fardo que eles não aceitariam carregar se o preço fosse a alma um do outro.
O Salão do Trono foi convocado em caráter de emergência. De um lado, o Cardeal Roma e o alto clero, com suas túnicas pesadas; do outro, os membros do Parlamento, homens de leis e tradições. No centro, a família real observava com o coração na mão.
Arthur entrou primeiro, com sua farda de gala, mas sem a espada — um sinal de que não estava ali como soldado. Siena caminhava ao seu lado, a cabeça erguida, os olhos brilhando com uma resolução que fez o salão silenciar.
— Majestades, senhores do Parlamento e membros do Clero — começou Siena, sua voz ecoando com uma clareza cristalina. — Viemos diante deste conselho não para pedir permissão, mas para comunicar uma renúncia. Eu abdico do meu direito ao trono de Astúria. E Arthur abdica de seus títulos e comando. Partiremos para o exílio juntos, hoje.
O reboliço foi instantâneo. Membros do Parlamento se levantaram aos gritos; Caelum empalideceu, segurando o braço da cadeira; Julian e Aria trocaram olhares de horror.
— Isso é loucura! — gritou um dos ministros. — Você é a única herdeira de sangue puro! Astúria entrará em colapso sem uma sucessão clara!
— Princesa — interveio o Cardeal Roma, sua voz gélida e triunfante. — Eu lhe disse que essa união profana destruiria o reino. Se vocês partirem, a maldição cairá sobre esta casa. Pensem no que estão fazendo! Retratem-se, e talvez a Igreja possa perdoar esse desvario juvenil.
Arthur deu um passo à frente, protegendo Siena com sua presença física.
— Não há desvario, Cardeal. Há apenas a verdade. E a verdade é que Astúria merece governantes que não precisem mentir para si mesmos.
— Vocês podem se casar com outros! — gritou Catarina, com lágrimas nos olhos, tentando uma última vez salvar o futuro da filha. — Podemos encontrar uma saída, um acordo com Roma...
Siena olhou para a mãe e depois para o Cardeal Roma, que ostentava um sorriso de quem acreditava ter vencido pela moralidade. Foi então que ela respirou fundo e soltou a bomba que silenciaria o reino para sempre.
— Não há volta, mãe — Siena disse, a voz subindo de tom para que cada pessoa naquele salão ouvisse. — E não há acordo possível. O que Roma tanto teme e o que as leis de vocês tentaram impedir já aconteceu. Ontem à noite, Arthur e eu consumamos o nosso ato. Nós nos entregamos um ao outro na cama, como homem e mulher, sob a luz da lua e a testemunha do nosso amor.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, pesado como chumbo. O Cardeal Roma recuou como se tivesse sido fisicamente agredido, o rosto ficando vermelho de fúria e choque. Os membros do Parlamento começaram a murmurar escandalizados, cobrindo os rostos ou gesticulando para o céu.
— Blasfêmia! — rugiu Roma, apontando o dedo trêmulo para os dois. — Você confessou sua própria ruína! O trono não pode ser ocupado por uma mulher que se entregou à luxúria incestuosa perante a Igreja!
— Exatamente — respondeu Siena, com um sorriso triste, mas libertador. — Por isso, a nossa partida não é mais uma escolha, Cardeal. É um fato. Se o meu sangue é impuro para o seu altar, então ele é livre para o meu coração.
Caelum fechou os olhos, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto. Ele entendeu que, ao tentar salvar o reino, ele havia perdido a filha, mas ganhara uma Rainha que preferia a verdade à coroa.
Arthur estendeu a mão para Siena. Diante de toda a corte, do clero horrorizado e do parlamento em caos, ela a segurou com firmeza. Eles se viraram e caminharam em direção à saída, deixando para trás o ouro, o poder e a história. Eles não eram mais a Loba e o Falcão de Astúria; eram apenas dois amantes que, ao perderem o mundo, finalmente haviam se encontrado.
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