O castelo de Astúria parecia ter perdido o seu pulso. Sem o som das botas de Siena correndo pelos corredores ou suas risadas desafiadoras, o silêncio tornou-se pesado, quase fúnebre. A princesa, antes uma força da natureza, agora era apenas uma sombra que se recusava a deixar os lençóis de seda de seu quarto. Ela passava os dias olhando para o dossel da cama, recusando as refeições e mantendo as cortinas fechadas, mergulhada em uma tristeza silenciosa que preocupava a todos.

​Aria, a Duquesa de Valória, observava a situação com o coração apertado. Ela conhecia o filho que tinha, mas também amava Siena como se fosse sua própria filha. Sabendo que o "gelo" de Arthur era a causa daquela murchidão, ela decidiu confrontá-lo.

​Ela o encontrou na ala de arquivos, organizando documentos com aquela precisão fria que agora a irritava.

​— Já chega, Arthur — disse Aria, entrando e fechando a porta com um estrondo que ecoou pela sala.

​Arthur não parou de escrever.

— Se for sobre os relatórios de provisões, mãe, estou quase terminando.

​— É sobre a Siena — rebateu ela, aproximando-se e batendo com a mão sobre a mesa. — Ela não sai do quarto há três dias. Ela não come. Ela está definhando naquele quarto, e todos sabem que você é o motivo. O que você fez com ela?

​Arthur finalmente largou a pena. Ele se encostou na cadeira, o rosto endurecido, mas havia um cansaço profundo em seus olhos que ele não mostrava ao resto da família.

​— Eu não fiz nada, mãe. Eu apenas estabeleci limites que deveriam existir há anos.

​— Limites? Arthur, você a apagou da existência! — Aria baixou o tom de voz, aproximando-se mais. — Eu vi o olhar dela no jantar. Você a humilhou. O que aconteceu de tão grave para você tratar sua prima como uma inimiga do Estado?

​Arthur respirou fundo. A tensão que ele vinha segurando desde a noite da invasão ao seu quarto pareceu transbordar. Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando para o pátio vazio.

​— Ela entrou nos meus aposentos no meio da noite — confessou ele, a voz baixa e rouca. — Estava bêbada, mal conseguia parar em pé. Ela... ela se jogou sobre mim enquanto eu dormia. Tentou me beijar, mãe. Me provocou da forma mais baixa possível, usando o fato de sermos primos para testar até onde minha honra aguentaria.

​Aria arregalou os olhos, o choque silenciando-a por um momento. Ela conhecia a impulsividade de Siena, mas aquilo...

​— Eu tive que tirá-la de cima de mim — continuou Arthur, os punhos cerrados ao lado do corpo. — Tive que aguentar o cheiro de vinho e as ofensas dela quando eu a expulsei. No dia seguinte, ela tentou "pedir desculpas" como se tivesse apenas quebrado um vaso, sem entender que ela quase destruiu o respeito que eu levei a vida toda para construir. Eu sinto raiva, mãe. Raiva porque ela não entende o peso da coroa dela e raiva porque...

​Ele parou, a frase morrendo no ar.

​— Porque o quê, meu filho? — perguntou Aria, a voz agora suave, percebendo a dor por trás da rigidez.

​— Porque eu sou homem, e ela sabe disso — Arthur admitiu, a voz falhando minimamente. — Ela brinca com um fogo que ela não entende como apagar. Eu a ignorei para protegê-la. Se eu continuar permitindo que ela se aproxime dessa forma, se eu continuar deixando que ela me provoque... eu vou acabar fazendo algo de que ambos nos arrependeremos. O meu silêncio era a única barreira que me restava.

​Aria suspirou, sentindo o peso do conflito dele. Ela caminhou até o filho e colocou a mão em seu ombro.

​— Você agiu com honra, Arthur. Mas a honra sem misericórdia torna-se crueldade. Siena errou, e errou feio, mas ela está destruída. Ela entendeu o recado, e agora ela acha que perdeu a única pessoa que realmente a via como ela é.

​Arthur não respondeu, mas sua mandíbula tremeu levemente.

​— Vá falar com ela — pediu Aria. — Não como um capitão dando ordens, mas como o primo que ela ama. Antes que essa tristeza se transforme em algo que nenhum de nós consiga curar.

​Arthur olhou para a mãe, o conflito estampado em seu rosto de mármore. O "Falcão" estava exausto de voar sozinho contra a tempestade que a "Loba" havia criado.